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A espera de um “super homem negro”: oportunidades para uma classe, para vencer o racismo.

Marlus Silva dos Santos
Introdução

  O ensino da historia da cultura afro brasileira nas escolas do Brasil, sempre foi tratado de uma forma que deixasse transparecer uma grade com bases eurocêntricas, quando os livros didáticos da disciplina, alem de trazerem uma tendência positivista, valorizando a historia dos “heróis”, sempre deixaram de lado o estudo mais à fundo da historia do negro, onde esse, sempre era demonstrado, através das imagens nestes livros didáticos, com posições secundarias e subalternas ou em situações de sofrimento e vergonha, deixando o aluno negro que ingressa na escola, e toma conhecimento desse material, a indagar onde esta sua historia, ou onde ele enquanto negro, se enxergam na historia de seu pais.

  Porem, tendo por base a lei 10.639/2003, que determina a obrigatoriedade do ensino de Historia e Cultura Afro-brasileira e africana nos currículos escolares, pode dizer que em longo prazo essa situação existente no país possa ser atenuada, mas, para que essa lei tenha seus efeitos realmente sentidos no cotidiano escolar dos alunos negros, nas escolas do Brasil, não e apenas a lei que se faz necessária. Cabe também aos professores que vão transmitir esse conhecimento, desde o planejamento das matrizes curriculares, estejam realmente preparados para que essa lei realmente possa se fazer valer, fazendo do ambiente escolar, realmente, um estabelecimento que possibilite tantos os alunos negros ou não a tomar conhecimento dessas culturas afro-brasileiras e toda a riqueza cultural desse povo.

Vindo com essas atitudes, tentar atenuar a situação de abismo que se estende na sociedade brasileira, no que e referente a diversidade cultural, pois, já que no Brasil a situação dos negros e bastante especifica, haja vista que historicamente as condições da maioria desses afro brasileiros, são de social e culturalmente desfavorável, que faz que os governantes tenham que tomar providências, tais como, cotas raciais para alunos negros, para diminuir essa situação intrínseca no Brasil.

Desenvolvimento

O negro no Brasil que conforme Albuquerque (1984, p. 39): “Pode se assim afirmar que o trabalhador escravo de origem africana foi a força de trabalho fundamental até a segunda metade do século XIX, quando se iniciou a transição do escravismo para o capitalismo” (ALBUQUERQUE, 1984, p. 39). Foi trazido para o Brasil para ser utilizado como força de trabalho para substituir o indígena, e com o desenrolar dos fatos que viriam na colônia de Portugal, após a independência e abolição, fim da escravatura e da instalação da Republica no Brasil, “esse negro foi jogado” a sua própria sorte, e assim essa situação reflete nos dias atuais.

De acordo com Pereira (2008), Um exemplo dessa situação, e o fato de, no caso da educação, que e o nosso principal foco, e o fato que no ambiente escolar, depois de diversos embates ocorridos na mídia, que fazem que o tema preconceito e igualdade social sejam mais evidentes e discutidos como mais ênfase, fazendo que seja trazida essa discussão, onde certos estereótipos que são trazidos nos antigos moldes da educação do Brasil, que fazem que os não negros tenham em sua concepção que os afro-decendentes, através de uma cultura eurocêntrica, sempre sejam considerados cidadãos de uma classe inferior, alem da desvalorização de sua cultura. E essas manifestações ocorrem também no espaço escolar sendo praticadas tanto por crianças, como por profissionais da educação, como nos afirma Cavalleiro:

Localiza-se nos programas escolares, pelas falas dos profissionais da

educação, a necessidade de fortalecimento da identidade racial. Isso

pode se depreender no que se refere à diversidade. Há um esforço para melhorar atitudes, valores, comportamento e aceitação do “outro” que é discriminado. Entretanto, o dia-a-dia das escolas não indica a elaboração/realização de novas práticas educativas. Observa-se que ocorrem, no cotidiano escolar, a disseminação de ideologias racistas, bem como a de práticas discriminatórias dirigidas às crianças negras, tanto por profissionais da educação quanto pelos colegas (CAVALLEIRO, 2005: 98).

E essa pratica, faz com que a escola ainda esteja longe de ser um ambiente de respeito às culturas raciais e desigualdades sociais, fazendo-se necessário que uma nova classe de profissionais, que venham com esse intuito de realmente modificar o quadro atual, haja vista que os profissionais que se encontram na educação atualmente, não querem ou não estão preparados para abordar esse assunto, e fazem vistas grossas apenas ministrando os conteúdos pragmatizados e voltados ao não cumprimento da Lei, tornando o abismo ainda mais eloqüente. Mesmo que apenas não e esse só o fato a educação brasileira esta, com essas atitudes não só desvalorizando as culturas afro-brasileiras como também, criando visões preconceituosas também no que tange as imigrantes e indígenas que, por sua vez também sofre esse efeito da expurga preconceituosa.

Mas ainda falando do caso do negro e sobre a lei 10.639/03, o fato de uma valorização da historia deste individuo e fundamental para que a população negra realmente se sinta valorizada e possa buscar freqüentar os bancos escolares e possam alem de se enxergar como tais ver sua historia reconhecida e contada, para que o dado do censo do IBGE de 2010 citado abaixo realmente possa ser modificado e o negro, tantas vezes deixado de lado e mal tratado pela sociedade, quanto a questão da igualdade de oportunidades possa alterar esse quadro, já que segundo ainda o mesmo IBGE em seu Censo 2010 mostra que Pela primeira vez na história do Brasil, o censo indicou que a população negra e parda é a maioria no país: 50,7% de um total de 190.732.694 pessoas. O Censo 2010 revelou que a maior parte da população negra concentra-se no Norte e Nordeste do país e sofre a maior taxa de analfabetismo na faixa etária acima dos 15 anos (entre 24,7% e 27,1%).

A pesquisa mostrou que a desigualdade de renda continua bastante acentuada em todo o país, com ricos ganhando 42 vezes mais que pobres. Metade da população brasileira vive com até R$ 375 por mês, valor inferior ao salário mínimo (na época R$ 510). Das 16,2 milhões de pessoas vivendo na pobreza extrema (cerca de 8,5% da população), com renda igual ou menor a R$ 70 por mês, 70,8% são negras.

Mas apesar de todas essas afirmações e comprovações o que se nota no Brasil e um preconceito que ainda e fundamentado pela negação, onde diz se que o país e um lugar de igualdades e todos têm os mesmos direitos, só que não se vê essa igualdade quando se olha para o universo escolar o que segundo Cashmore, “ao negar o acesso de certos grupos a recursos básicos, criam-se condições sob as quais esses grupos não podem fazer mais do que confirmar os próprios estereótipos que inspiraram a crença racista original” (2000, p. 172), o que ainda no que tange a questão do racismo no ambiente escolar Giroux diz:

A marca da sociedade e da cultura dominante é impressa em uma variedade de práticas escolares, isto é, uma linguagem oficial, nas regras da escola, nas relações sociais na sala de aula, na seleção e apresentação do conhecimento escolar, na exclusão de capital específico, etc. É desnecessário dizer que ela não é simplesmente impressa ou imposta sobre a consciência ou sobre as ideologias dos oprimidos. É sempre mediada, algumas vezes rejeitada, algumas vezes confirmada. (...). É crucial reconhecer que as escolas representam terrenos contestados na formação das subjetividades, mas que esse terreno é tendencioso a favor da cultura dominante (1986, p. 94-95).

O que faz com que segundo (Giroux, 1986) esse preconceito vem desde o período da colonização demonstrado através da imposição da cultura européia sobre os outros povos quanto a todos os aspectos, inclusive racial e cultural, que nos mostra realmente o verdadeiro fator que, se o Brasil não existisse racismo veríamos mais negros ocupando cargos de primeiro escalão em órgãos importantes na administração publica ou em seus respectivos estados, além de, voltando novamente ao ambiente escolar, veríamos mais negros ocupando os assentos nas escolas, o que ao contrario somente vemos a evasão desses negros com o passar das series, nos ensino fundamental e médio, e muito mais ainda no ensino superior. O que é reforçado ainda pelo fato desses estereótipos romperem os muros da escola e esse negro e perseguido e hostilizado também no seu cotidiano.

Conclusão

O que se concluir com tudo isso e que não podemos transformar uma cultura que dos privilégios aos brancos e passar a seguir uma cultura afrocêntrica, que não mudaria o quadro apenas mudaria o alvo.

Sendo assim:

O problema não é afirmar um pólo e negar outro, mas sim termos uma visão dialética da relação entre igualdade e diferença. Hoje em dia não se pode falar em igualdade sem incluir a questão da diversidade, nem se pode abordar a questão da diferença dissociada da questão da igualdade. [...] não se deve opor igualdade à diferença. De fato, a igualdade não está oposta à diferença e sim à desigualdade. Diferença não se opõe à igualdade e sim à padronização, à produção em série, a tudo ‘o mesmo’, à ‘mesmice’ (CANDAU Apud OLIVEIRA, 2007: 11).

Temos que através de métodos adequados, e um corpo docente preparado para colocar em pratica o que realmente prevê a Lei 10.639/03, aliado a uma grade de matrizes curriculares que realmente inclua a história e cultura africana e afro-brasileira, para atenuar o complexo cenário que se apresenta nos dias atuais, e com essas atitudes, com um projeto de longo prazo aliado a políticas serias de emparelhamento e equiparação social como as que são feitas hoje, caso do sistema de cotas nas universidades publicas, o que pode amenizar o quadro de racismo e segregação presente no país. Não deixando a população negra que e “refém” de uma situação que se arrasta no país desde os tempos da proclamação da republica em 1889, e a espera de um “super homem negro” que viria para os tirar dessa situação a qual se encontram.

Referências bibliográficas

ALBUQUERQUE, Manuel Maurício Pequena historia da formação social brasileira. Rio de Janeiro: Grall, 1984.

Brasil. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 10 jan. 2003.

CASHMORE, E. Dicionário de relações étnicas e raciais. São Paulo: Editora Selo Negro, 2000.

CAVALLEIRO, Eliane dos Santos. Discriminação racial e pluralismo em escolas

Públicas da cidade de São Paulo. IN: SECAD (2005: 65-104).

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, dados censitários retirados do censo 2010.

GIROUX, Henry. Teoria Crítica e política cultural: para além das teorias de reprodução. Petrópolis: Vozes, 1986.

OLIVEIRA, Luiz Fernandes de. Concepções docentes sobre as relações étnico raciais em educação e a Lei 10.639. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. 2007.

PEREIRA, Júnia Sales. Reconhecendo ou desconstruindo uma polaridade Étnico-identitária? Desafios do ensino de história no imediato pós-Lei nº 10.639. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 21, 2008, pp.21-43.

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