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A gestão participativa na rede mundial de educação de Ivaiporã-PR na pespectiva do cidadão.

TaTiana Oliveira Couto Silva

       Resumo


    O presente trabalho tem como objetivo mostrar a importância da gestão participativa na escola pública, tendo como principal fonte de análise, a perspectiva do cidadão-membro da comunidade onde se localiza a escola. Foi analisada a Escola Municipal Bento Viana no município de Ivaiporã/PR, que tem implantado a gestão participativa, no período integral para alunos do Pré ao 4º ano do ensino fundamental. A pesquisa realizada foi de natureza qualitativa, através de um estudo de caso, baseada em qualitativos e quantitativos além da pesquisa documental que envolveu tanto o referencial teórico e os aspectos regulatórios, através de uma análise de documentos internos e externos da Escola Municipal Bento Viana. Também foi realizada com diversos atores do contexto escolar, uma entrevista semi-estruturada, com questões abertas e fechadas. Por fim, este trabalho enfatiza que a descentralização da gestão escolar e o criação de mecanismos de incentivo à participação efetiva da comunidade é fundamental para que um ambiente democrático possa ser estabelecido na integração escola-comunidade.
Palavras–chaves: Participação, democracia, gestão, escola, políticas públicas.

  Abstract This paper aims to show the importance of participatory management in public school, with the primary source of analysis, the perspective of the citizen member of the community where the school is located. We analyzed the local school in the municipality of Bento Viana Ivaiporã / PR, which has adopted participatory management, in full-time students for the kindergarten to the 4th grade of elementary school. The research was qualitative in nature, through a case study based on qualitative and quantitative addition to desk research involving both the theoretical and regulatory issues through an analysis of internal and external documents of the Municipal School Bento Viana. It was also held with various actors in the school context, a semi-structured interview with open and closed questions. Finally, this paper emphasizes that the decentralization of school management and the creation of mechanisms to encourage effective community participation is essential for a democratic environment can be established in the school-community integration. WORDS-KEY: Participation, democracy, management, school policy.

    Introdução


   A escola necessária para fazer frente a essas realidades é a que provê formação cultural e científica, que possibilita o contato dos alunos com a cultura, aquela cultura provida pela ciência, pela técnica, pela linguagem, pela estética, pela ética. Especialmente, uma escola de qualidade é aquela que inclui, uma escola contra a exclusão econômica, política, cultural, pedagógica (Libâneo, 2004). Muito se fala sobre a gestão participativa no ensino público. A LDB 9394/96 legitimou esta forma de administração na educação quando estabeleceu no artigo 3ºVII, a “gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino”. Cabe a administração do ensino, seja ela municipal, estadual ou federal, incentivar a participação dos docentes e demais profissionais da educação nos projetos, debates e organização do planejamento escolar, bem como trabalhar para envolver nestes temas os pais alunos e a comunidade local, pois a participação é a referência central da política social. Se por um lado essa abertura é positiva, pode-se apontar que, por outro lado, ocorre a defesa de que quando os agentes da administração pública tendem a trabalhar de forma centralizada, não democrática, o lado mais prejudicado é sempre aquele que recebe a prestação do serviço público. Implantar na rede pública de educação uma forma de gestão participativa, teoricamente ocorrem grandes avanços, tanto para o quadro funcional quanto para a comunidade e a sociedade como um todo. Diante disso, este trabalho pretende analisar, principalmente pela perspectiva do cidadão, direta e indiretamente ligado à prestação de serviços educacionais do município, como está se desenvolvendo no cotidiano da relação escola-comunidade da Escola Municipal Bento Viana em Ivaiporã/PR a gestão democrática do ensino determinada pela atual LDB. Este trabalho se propõe a analisar a gestão pública utilizada na rede de educação do município de Ivaiporã, através dos discursos do governo, do plano de ação e sua implementação cotidiana, principalmente pela perspectiva do cidadão envolvido diretamente com a educação pública municipal da Escola Municipal Bento Viana, localizada no bairro Vila Nova Porã, no município de Ivaiporã, Paraná, visando analisar a forma de gestão utilizada pelo atual governo municipal; levantar informações com os atores sociais ligados à educação, tanto com os representantes da gestão pública (diretores, professores, coordenadores, etc) como com os cidadãos (alunos, pais de alunos, etc) e tentar propor iniciativas para melhorar a gestão pública na educação municipal de Ivaiporã/PR.

     Revisão de literatura: descentralização e participação democrática


   O processo democrático não garante a durabilidade da implantação de uma política pública, pois na democracia o poder pode mudar de mãos e de ideologia a qualquer momento, por isso a sociedade deve estar ativa na participação política, para garantir que os próximos eleitos como representantes do governo, tenham como objetivo continuar os projetos importantes para o desenvolvimento local e não simplesmente assumir o poder com interesse político motivado pelo auto - interesse. (Peres, 2007) A descentralização e a autonomia das escolas devem abrir espaço para a participação no sistema de ensino público. Conforme Gadotti (1995, p. 202): [...] descentralização e autonomia caminham juntos. A luta pela autonomia da escola insere-se numa luta maior pela autonomia no seio da própria sociedade. Portanto, é uma luta dentro do instituído, contra o instituído, para instituir outra coisa. A eficácia dessa luta depende muito da ousadia de cada escola em experimentar o novo caminho de construção da confiança na escola e na capacidade dela resolver seus problemas por ela mesma, confiança na capacidade de autogoverna-se. É necessário que a gestão pública supere a falsa separação entre política e administração, a percepção mecanicista da administração e o mito da neutralidade da burocracia, reconhecendo-se que na gestão estão presentes interesses e lutas políticas. As reformas administrativas na América Latina devem contribuir para a construção de um Estado capaz não só de enfrentar as contradições, as incertezas, a velocidade das mudanças e o aumento da complexidade do cenário mundial neste final de século, mas, também, os desafios típicos dos países periféricos, ou seja, os ligados ao desenvolvimento, à continuidade do processo de democratização e à busca da justiça social (Neves, 1995, p.7). Assim, as mudanças administrativas e implementação de novas políticas públicas poderão ser tratadas como autênticos processos políticos e incorporar uma visão realmente estratégica, questionando o propósito do que se deseja mudar, melhorar, terminar ou iniciar, visando a melhoria do bem estar social (NEVES, 1995). 

    Por que gestão participativa na educação?


   No Brasil da década de 70, já surgiam movimentos de associações de professores em defesa de uma gestão democrática no ensino, pois naquela época a direção escolar funcionava em um modelo estático, hegemônico, onde o diretor não tinha voz ativa e era apenas um gerenciador das operações estabelecidas pelos órgãos superiores do governo. O bom diretor era aquele que repassava corretamente para a escola as informações que recebia e controlava o trabalho dos profissionais da educação para ter certeza de que nada fugiria das diretrizes estabelecidas no âmbito central. Segundo Lück (2000), Segundo essa concepção, adotou-se uma fundamentação teórica de caráter mais normativo, determinada pelo princípio de certo-errado, completo-incompleto, perfeito-imperfeito. Adotou-se o método de administração científica, orientado pelos princípios da racionalidade limitada, da linearidade, da influência estabelecida de fora para dentro, do emprego mecanicista de pessoas e recursos para realizar os objetivos organizacionais, da fragmentação e redução dos processos educacionais a tarefas exercidas sem vida e sem espírito. Nem mesmo, muitas vezes, o pedagógico, como é o caso de .corrigir provas., .dar nota., dentre outros. Também associada a esta concepção é o entendimento de que o importante é fazer o máximo (preocupação com a dimensão quantitativa) e não o de fazer o melhor e o diferente (preocupação qualitativa). Com esse enfoque, administrar corresponderia a comandar e controlar, mediante uma visão objetiva de quem atua sobre a unidade e nela intervém de maneira distanciada, até mesmo para manter essa objetividade e a própria autoridade, centrada na figura do diretor (LÜCK, 2000, p.13). Com o passar do tempo, diante da influência causada pelos avanços científicos e tecnológicos, bem como as mudanças na organização do trabalho que começou a exigir um novo perfil do trabalhador e o surgimento de novas profissões, as instituições escolares começaram a ser pressionadas para tomar outra direção, mais dinâmica, inovadora, construída socialmente por pessoas que agem, pensam e interagem. A atualidade passou a exigir de escola a formação de um aluno que se transforme em um sujeito pensante, autônomo, que saiba lidar com os problemas, utilizar suas habilidades, atitudes e valores na construção e reconstrução de novos conceitos. Na esfera política, o enfoque no termo “administrador” começou a ser substituído pelo termo “gestor”, significando uma mudança de paradigma, pois a gestão age de forma mais flexível, compreendendo a dinâmica contraditória e conflitiva das relações interpessoais dentro de uma organização, que exige do gestor uma atuação de liderança e articulação, “a compreensão de que a mudança de processos educacionais envolve mudanças nas relações sociais praticadas na escola e nos sistemas de ensino” (Lúck, 2000, p.16). A escola é entendida como viva e dinâmica. É constituída de sujeitos pensantes e subjetivos, com suas diferentes visões de mundo, crenças e valores, mas que concordam em diversos aspectos, sendo um deles o de que a educação deve se aperfeiçoar a cada dia, caminhando para um processo de inclusão e não de exclusão. Com todas as mudanças do mundo globalizado, a informação e as novas descobertas são divulgadas rapidamente, fazendo com que seja necessária uma atualização constante do conhecimento do que está acontecendo no mundo. As realidades locais e regionais se tornam cada vez mais diferentes, exigindo que as decisões e direcionamentos sejam tomados exatamente no endereço onde a coisa acontece. Eis aí a necessidade da escola ser autônoma, da gestão escolar ser descentralizada, local, com manifestações de participação da comunidade, sendo orientada por princípios e diretrizes, e não mais por regras e regulamentos uniformizados. 
   Trabalhar com a gestão participativa na escola significa envolver todos os agentes da educação – gestores, docentes, profissionais, pais, alunos e comunidade – na elaboração e execução do planejamento da escola, levando a educação para fora dos muros da escola e ao mesmo tempo trazendo a comunidade para dentro da vivência escolar. A gestão democrática do ensino público, além de estar entre os princípios estabelecidos pelo artigo 206 da Constituição Federal e ser um dos onze princípios do artigo 3º da LDB nº 9394/96 , é o caminho que pode garantir a qualidade social da educação, na medida em que aproxima e concilia a dimensão ética com a dimensão dos conhecimentos racional e emocional e com a própria vida. A escola precisa abrir-se para debater questões importantes da comunidade, levando as pessoas a sentirem-se parte da escola e da comunidade em si. Na democracia não há espaço para o individualismo, mas cada um deve comprometer-se em lutar pelas necessidades do outro, sem exclusão. O próprio nome “participativa” já deixa claro que depende tanto de uma iniciativa dos gestores da escola como de seus agentes e também da comunidade, pois não há forma de “participar” sem estar “presente”, seja em ideias ou pessoalmente nas decisões. A participação de todos na gestão escolar ocorre para buscar melhor qualidade no ensino, para garantir que o currículo escolar tenha maior sentido de realidade e atualidade, desenvolvendo o profissionalismo dos professores, combatendo o isolamento físico, administrativo e profissional dos diretores e professores, motivando o apoio comunitário às escolas, para desenvolver objetivos comuns na comunidade escolar. A educação acontece dentro e fora da escola, por isso a necessidade da família compreender como seus hábitos, costumes e visão de mundo influenciam na aprendizagem do aluno e em sua forma de ver a realidade ao seu redor. Segundo Weffort (1995 apud Beraldo & Pelozo, 2007, p. 99) : [...] a escola que se abre à participação dos cidadãos não educa apenas às crianças que estão na escola. A escola cria comunidade e ajuda a educar o cidadão que participa da escola, a escola passa a ser um agente institucional fundamental do processo da organização da sociedade civil. Os avanços acontecem na escola com o trabalho em equipe, onde todos se tornam atores reais e se comprometem com a qualidade de ensino, fortalecendo cada vez mais o trabalho educativo efetivo, enriquecendo-o na transformação individual como ser humano e cidadão. O progresso do aluno é desenvolver sua autonomia intelectual, social, moral e artístico, fortalecendo com execução de projetos, pesquisas, experiências, debates, os quais deverão ser propostos pela comunidade escolar como meio de proporcionar momentos de aprendizagem, motivação e alegria. Entre outros desafios a serem, cotidianamente, vencidos por todos os que elegem a qualidade social da educação como elemento vital dos compromissos assumidos, estão: primeiro, oferecer educação para todos, em todas as idades; segundo, eliminar as barreiras, tangíveis e intangíveis, que promovem a exclusão escolar, as quais vão desde a humilhação psicológica a que potenciais educandos e familiares são submetidos quando buscam a escola, até as discriminações raciais, sexuais, a fome, a falta do transporte escolar, as estradas inadequadas e as exigências exacerbadas de aquisição dos materiais escolares e fardamentos. 2.2

     A questão dos conselhos escolares


   Para que haja uma gestão participativa na escola é fundamental a existência de espaços propícios para que o relacionamento entre a comunidade e os diversos segmentos escolares possa acontecer. Sendo assim, a formação dos Conselhos Escolares está prevista no artigo 14 da LDB nº 9394/96 com o objetivo de proporcionar este espaço de interação e análise crítica da realidade nacional e local. O Conselho Escolar é um órgão colegiado, deliberativo, fiscalizador e de mobilização. É formado por gestores, professores, funcionários da escola, pais, alunos e outros representantes comunitários que são eleitos democraticamente por seus pares e assumem o compromisso de participar ativamente do conselho, para representar sua classe nas discussões e definições do projeto político-pedagógico da escola, questões administrativas e financeiras, no tipo de educação a ser desenvolvido, sempre se comprometendo em unir as diferentes visões em favor de uma educação de qualidade, comprometida com o desenvolvimento social e local. Assim como a forma de escolha dos diretores por votação da comunidade, a formação de Conselhos Escolares constitui um desses espaços, ao lado do Conselho de classe, o Grêmio Estudantil, a Associação de Pais e Mestres, entre outras possíveis associações comunitárias que visam contribuir para uma gestão democrática da escola. Para que um Conselho Escolar participe efetivamente das decisões da escola, é necessário que possua um regimento interno e normas referentes à realizações de reuniões periódicas com seus membros para a elaboração das ações da escola, bem como o acompanhamento e avaliação do desenvolvimento das mesmas no dia-a-dia escolar. 

     Procedimentos metodológicos


   A pesquisa realizada foi de natureza qualitativa, através de um estudo de caso. A pesquisa é baseada em qualitativos e quantitativos além da pesquisa documental que envolve tanto o referencial teórico e os aspectos regulatórios, assim como o levantamento de documentos internos e externos da Escola Municipal Bento Viana. Também foi realizada entrevista semi-estruturada, com questões abertas e fechadas. Entende-se que os questionários são contribuições com respostas a fim de analisar o desempenho escolar, tendo como objetivo avaliar como ocorre a gestão nas escolas, de que maneira o gestor atua com os professores e como se propõe a ser um agente dinâmico de mudança, destacando os pontos de avanços que ocorrem no trabalho desenvolvido. A entrevista semi-estruturada foi escolhida para a realização da coleta de dados, pois conforme Zanella (2009), este modelo de entrevista tem as vantagens de poder ser realizada com qualquer segmento da sociedade (inclusive analfabetos - que não conseguem responder sozinhos a um questionário) e dá mais flexibilidade ao entrevistador, que durante a entrevista pode diferenciar qual pergunta deve ou não ser feita e como fazê-la, sem perder o objetivo da investigação. As entrevistas foram realizadas com a diretora, docentes e funcionários da escola, pais ou responsáveis de alunos, alunos da Educação de Jovens e Adultos e moradores do bairro, que de alguma forma já tiveram ligação com a Escola Bento Viana, como ex-aluno ou pais de ex-alunos. Foi realizado um total de 49 entrevistas: 17 pessoas que trabalham na escola (1 diretora, 11 professores e 5 funcionários) e 32 pessoas da comunidade (20 alunos do EJA, 7 pais ou responsáveis de alunos e 5 moradores do bairro). 

     Caracterização da escola municipal bento viana


   A Escola Bento Viana foi fundada em 1960 e está situada no bairro de Vila Nova Porã no município de Ivaiporã/PR. É a escola mais antiga da região e teve como primeira professora, Odete dos Santos Brasil, que iniciou seu trabalho com 56 alunos em uma casa de madeira. Atualmente a escola atende 236 crianças do ensino fundamental em tempo integral; no Ensino Fundamental de Nove Anos dois primeiros anos, três segundos anos, dois terceiros anos e três terceiras séries e duas quartas séries, uma sala de recurso , uma sala especial e no período da noite uma sala do Paraná alfabetizado, duas salas da EJA (Projeto para a Educação de Jovens e Adultos) totalizando 335 alunos e 30 funcionários: 1 Diretora , 1Supervisora 1 secretária, 18 professores, 1 auxiliar de supervisão , 6 serventes e 1 guarda noturno. Também possui parceria com o CEEBJA (Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos), com as APEDES (Ação Pedagógica Descentralizada) que utiliza três salas de aula no período da noite e oferece duas turmas de 5ª a 8ª séries e uma de Ensino Médio. A Escola Municipal Bento Viana já desenvolveu e está desenvolvendo vários projetos visando uma melhoria na educação e na valorização dos alunos e de suas famílias para que possam exercer o seu papel de cidadão, oferecendo oportunidades de se tornarem ativos no meio social como pessoas cooperativas e empreendedoras. Trabalha com o Projeto de Leitura, o qual visa desenvolver o gosto pela leitura e a criatividade do aluno enriquecendo seus conhecimentos e fazendo com que sejam cidadãos leitores e conscientes, garantindo assim, a qualidade de ensino. Possui também o Projeto Clube de Mães, o qual tem como finalidade contribuir para um melhor entrosamento entre mães e a escola, onde com auxílio de uma instrutora, aprendem bordado, pintura, crochê, e também conseguem uma participação financeira na renda obtida com a venda dos materiais produzidos por elas, conseguindo assim ajudar na renda familiar. A CMV (Associação Clube de Mães e Voluntárias), tem como presidente a Srª. Eva Maria da Silva dos Reis, e tesoureiro a Srª. Cleuzeli Pereira Araújo. A Escola Municipal Bento Viana tem em sua direção a professora pedagoga, Maria de Fátima Silva Costa, que está na direção há onze anos, sendo seis anos por indicação e dois mandatos por eleição dos pais e professores. Permanecendo até dois mil e dez, na supervisão a professora Neuza Aparecida Alves e Mara Patrícia Borges, e como secretário Fernando Fernandes. Na APMF a Srª. Tercilia Aparecida dos Santos é a presidente e tesoureiro Ademir dos Santos e possui um Conselho Escolar participativo. A Escola Municipal Bento Viana foi escolhida por uma série de situações: • Localiza-se em um bairro de baixa renda, carente e de casas populares; • É um bairro considerado “perigoso”, devido ao grande número de crimes, pontos de tráfico e consumo de drogas, conhecido na região como “bairro do Maneco”; • Apesar de estar localizada em um bairro com características conflituosas, a Escola obteve um ótimo desempenho na avaliação do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação) Básica no ano 2007/2008, ficando no Município e na região central em primeiro lugar e em quarto lugar no Estado em matemática, resultado que reflete um trabalho responsável e comprometido com a educação; • A escola iniciou, no ano de 2011, o ensino integral para todas as séries, do Pré ao 4º ano; • Os objetivos da implantação do período integral visam proporcionar melhor aproveitamento do tempo ocioso dos alunos, além de melhorar o rendimento do aluno, afastar o risco social, garantir segurança de que os alunos estão na escola enquanto os pais trabalham, desenvolver hábitos de prática de esportes, música e cultura, bem como proporcionar o acesso à tecnologia e aulas de reforço para os alunos com dificuldades de aprendizagem; • Conforme notícia do site Educação Integral, essa é a segunda escola de Ivaiporã a adotar o sistema. Em maio, a Escola Municipal Leila Diniz, no Jardim Belo Horizonte, já havia implantado o sistema para cerca de 150 alunos. Os alunos terão aulas normais e complementares das 8 às 17 horas. Nas aulas complementares eles aprenderão informática e inglês, dança, coral, violão, recreação, jogos pedagógicos e teatro. O secretário de educação, Geraldino Rodrigues Proença, parabenizou a escola e comentou sobre os projetos futuros. “O espaço está sendo adaptado para o início deste projeto. Mas, para o ano que vem, teremos mais seis salas de aula e queremos construir também mais uma quadra esportiva”, assinala. O prefeito Cyro Fernandes (PT) falou sobre a importância da escola integral e do poderque a educação tem em transformar a sociedade. “Em Ivaiporã, nós temos muitas coisas a conquistar, mas, o mais importante é a gente fazer crescer o nível educacional e cultural da nossa gente”, destaca Cyro. Ele também falou sobre o avanço de 135% no número de vagas na Educação Infantil no município, que passou de 316 vagas em 2009, para 741 neste ano. Até o final de 2011, uma nova super-creche será concluída e mais 120 vagas serão criadas no setor.     

     Resultados da coleta de dados


   A entrevista realizada com a diretora Maria de Fátima Silva Costa, teve por objetivo conhecer um pouco mais do projeto político-pedagógico da escola, a relação com o poder público e com a comunidade bem como observar se está se construindo um trabalho coletivo na escola, quais as formas de motivações criadas por eles, a fim de fortalecer o grupo de profissionais, e como valorizam os profissionais do seu grupo celebrando os sucessos e experiências obtidas na escola. Maria de Fátima Costa é pedagoga, pós-graduada em psicopedagogia e trabalha há dezessete anos na Escola Bento Viana. Já ocupou o cargo de professora, de supervisora e está na direção da escola há onze anos, sendo dois mandatos por indicação e três por eleição. Na entrevista relatou que já foi docente do ensino fundamental, do ensino médio e do nível superior, mas descobriu sua paixão pela educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental, sempre acreditando que a educação escolar tem uma grande influência na formação da criança. Segundo a diretora, a escola Bento Viana está trabalhando com projetos a oito anos e possui uma parceria com o comércio do município intitulada “Parceiros da Bento Viana por uma educação de qualidade”. Com esta parceria os alunos já tiveram a oportunidade de aprender informática, artesanato, trabalhos com horta, dança, capoeira, inglês, teatro, violão, coral e ainda em 2011, terão aulas de karatê, vôlei e basquete, através de um projeto do Ministério do Esporte. Ela esclareceu que a comunidade de entorno é considerada de risco, pois, atualmente, 40% dos alunos têm seus pais aprisionados e muitos outros que já perderam parentes na criminalidade. “Os alunos daqui chegam à escola sem valores humanos, muitas vezes não tendo nem respeito e amor por si próprio e a escola precisa trabalhar neste sentido. Implantar a educação integral colaborou muito, mas muito mesmo neste aspecto, pois, enquanto estão na escola, as crianças estão adquirindo conhecimento, melhorando a convivência com o outro e livres da situação de risco de ficar nas ruas. Também fazem três refeições balanceadas na escola com ótimos cardápios elaborados por uma nutricionista” – afirma a diretora Maria de Fátima, em entrevista realizada. No início do trabalho da escola com projetos comunitários, a escola tinha muita dificuldade com a indisciplina, violência e vandalismo dos alunos. Eles não tinham zelo nem respeito pela escola e pelos professores. Os pais não se dispunham a colaborar, não participavam de nenhuma reunião ou projeto desenvolvido pela escola e poucos aceitavam as regras estabelecidas. Quando se iniciou o movimento da escola com o objetivo de interagir com a comunidade na busca de novos, lentamente, a comunidade começou considerar a escola como um bem de todos. No início, a Diretora afirmou que teve resistências e oposições, até mesmo de professores da escola. Contudo, atualmente, todos estão comprometidos em proporcionar uma educação cada vez melhor. “Hoje todos sabem que tem direito de dar sua opinião e sempre nos reunimos para avaliar o andamento da escola. Muitas vezes o que eles falam não é o que eu, como diretora, gostaria de ouvi. Na verdade, ninguém gosta de ser contestado! Mas isto é democracia, e cada um colocando seu ponto de vista, conseguimos chegar à um consenso” – declara. Depois da implantação da gestão participativa, os alunos começaram a zelar e a respeitar a escola. Segundo a diretora, a última vez que a escola foi assaltada foi há doze anos, o que antes acontecia com certa frequência. Segundo ela, isto é mais do que uma prova de que a comunidade hoje valoriza e respeita a escola que têm. 5.1.

      O perfil e a visão do cidadão e dos agentes da educação


    O Perfil dos entrevistados Foram realizadas 49 entrevistas, no período de 01 a 14 de outubro de 2011, na escola Municipal Bento Viana e na área de entorno. O perfil dos entrevistados pode ser visualizado no gráfico 1. Dos 49 entrevistados, 36 foram mulheres (73%) e 13 homens (27%). De todos os entrevistados, 6 responderam estar na faixa etária de até 20 anos (12,5%), 20 na faixa de 21 a 40 anos (41%), outros 20 de 41 a 65 anos (41%) e 3 entrevistados (todos alunos do EJA) responderam ter mais de 65 anos. Do total, como se observa na figura 01, 17 pessoas são membros da escola, sendo 1 diretora, 11 professores e 5 funcionários enquanto 32 pertencem à comunidade, dos quais 20 são alunos do EJA, 7 se enquadram como pais ou responsáveis de alunos e 5 são moradores do bairro. O nível de escolaridade dos entrevistados é apresentado no gráfico 2. No gráfico 2 podemos verificar que mesmo que o maior número dos entrevistados se enquadram na escolaridade do Nível Médio (17 dos 49 entrevistados – 35% ), 11 ainda estão cursando e 6 já concluíram, dos quais 4 são funcionários da escola e apenas 2 são membros da comunidade. Dos 8 entrevistados que afirmaram já ter concluído o Nível Superior, 7 são professores e apenas 1 é pai de aluno; todos os 5 pós-graduados (10,2%) são agentes escolares. O segundo maior índice de escolaridade é de 1ª a 4ª série (24,5%), sendo que todos são representantes da comunidade. Encontramos apenas 10,2% na segunda fase do Nível de Ensino Fundamental, sendo que 4 afirmaram ter parado ou estar cursando a 5ª série e apenas 1 (funcionário da escola) já conclui a 8ª série (2%). 2 entrevistados na comunidade, mulheres, declararam ser analfabetas (4%). Estes dados apontam para um baixo nível de escolaridade da população acima de 21 anos que moram no bairro da Escola Bento Viana, que coincide com as profissões de baixos salários e com a forma de muitos ganharem dinheiro, que é através do tráfico e do crime. É importante que a escola e o governo local trabalhem com afinco para que as crianças e jovens estudem e se preparem para as exigências atuais do mercado de trabalho, visando mudar este quadro. 5.1.2 – Perfil dos agentes escolares Todos os professores e funcionários entrevistados da escola eram mulheres, indicando grande número de profissionais mulheres. Isso é muito comum quando se trata de escolas que atuam apenas no nível fundamental. O senso comum de que dar aula para crianças é um papel que cabe às mulheres - uma espécie de “mãe” dos alunos - ainda é bastante forte, principalmente em cidades do interior, como no caso de Ivaiporã. Com relação à faixa etária dos agentes escolares, tem-se a tabela 1. Tabela 1 – Nível de escolaridade dos agentes escolares Professores Diretora Funcionários Nível Fundamental __ __ 1 Nível médio __ __ 4 Graduação 7 __ __ Pós-graduação 4 1 __ Fonte: Autora do trabalho, Pesquisa de campo (2011). Como se pode observar, todos os docentes possuem graduação completa, o que, atualmente, é exigido pela Legislação. Os funcionários, por sua vez, em grande maioria, possuem o ensino médio. 5.1.3 – Perfil dos alunos, pais e membros da comunidade Dos 32 entrevistados pertencentes à comunidade, 20 são alunos do EJA, 7 se enquadram como pais ou responsáveis de alunos e 5 são moradores do bairro. A maior parte dos entrevistados encontram-se na faixa etária entre 41 e 65 anos (37,5%) e entre 21 a 40 anos (34,4%), seguido da faixa etária de até 20 anos (18,75%) e 3 entrevistados acima de 65 anos. Entre os pais e moradores do bairro que foram entrevistados, 4 foram homens e 8 mulheres, principalmente pela facilidade de encontrar as mulheres em casa (as entrevistas com pais e moradores foram realizadas durante o dia, de forma aleatória no bairro) no horário em que foram realizadas e também por haver uma maior disposição em responder o questionário por parte das mulheres. Entre os 20 alunos entrevistados da Educação de Jovens e Adultos, nove eram homens e onze mulheres. A entrevista foi realizada em uma noite, com todos os alunos presentes em sala, sendo duas classes: uma classe da 2ª série do Ensino Fundamental (11 alunos – 6 homens e 5 mulheres) e a outra do 2º semestre do Ensino Médio (09 alunos – 3 homens e 6 mulheres). Tabela 2 – Nível de escolaridade dos agentes comunitários. Pais/responsáveis Alunos Moradores do bairro Analfabeto 2 __ __ 1ª a 4ª série 1 11 __ 5ª a 8ª série 1 __ 3 Nível médio 2 9 2 Graduação 1 __ __ Pós-graduação __ __ __ Fonte: Autora do trabalho, Pesquisa de campo (2011). As profissões declaradas pelos 32 agentes comunitários entrevistados constam na tabela 3. Tabela 3 – Profissão dos agentes comunitários. PROFISSÕES Estudante 2 2 Merendeira 1 __ Camareira 1 __ Motorista __ 1 Pastor __ 1 Autônomo __ 1 Professor 1 __ Empregada Doméstica 2 __ Auxiliar Serviços Gerais 2 1 Auxiliar de Produção __ 1 Vendedor __ 2 Lavrador (corte de cana) __ 3 Servente de Pedreiro __ 1 Do lar 10 __ Fonte: Autora do trabalho, Pesquisa de campo (2011). 5.1.4 A situação dos alunos do EJA Foram entrevistados um total de 20 alunos de duas classes da Educação de Jovens e Adultos da Escola Bento Viana. Dos 11 alunos da classe de 2ª série do EJA, 08 encontram-se na faixa etária de 41 a 65 anos (73%), 02 na faixa etária acima de 65 anos e um aluno que afirmou ter 17 anos. Os nove alunos que estão em busca da conclusão do Ensino Médio, 7 encontram-se na faixa etária de 21 a 40 anos (79%), um está na faixa etária de até 20 e um acima de 65 anos, demonstrando que a maioria das pessoas da terceira idade do bairro Vila Nova Porã (Ivaiporã/PR) estão retornando a escola para concluir o ensino fundamental e aquelas que estão entre a faixa etária de menos de 20 até 40 anos, estão retomando os estudos para concluir o Ensino Médio principalmente pela exigência do mundo do trabalho. A tabela 4 retrata a área profissional onde atuam os alunos entrevistados, sendo possível notar que é predominante a profissão “do lar” entre as alunas (55%), seguida das profissões de auxiliar de serviços gerais, merendeira, camareira e empregada doméstica, todas estas profissões ligadas ao serviço doméstico, uma área profissional que na maioria das vezes não exige nível de escolaridade. Quando se trata de conseguir um emprego em outros setores do mercado de trabalho, é exigido no mínimo a conclusão do Ensino Fundamental, daí a necessidade e importância das mulheres do bairro voltarem a estudar. No caso dos alunos homens, pode-se notar que as profissões predominantes são de vendedor (22,5%) - alunos do Ensino Médio - e de lavrador do corte de cana (22,5%) - alunos da 2ª série do EJA - seguida das profissões de auxiliar de serviços gerais, servente de pedreiro, autônomo de serviços de manutenção; consideradas como serviços braçais, pois não exigem do profissional nível de escolaridade, mas sim força física. O aluno que afirmou ser motorista também está cursando o Ensino Médio, isto significa que já alcançou a conclusão do Ensino Fundamental que lhe garantiu obter habilitação e uma profissão melhor. Tabela 4 – Profissão dos alunos do eja entrevistados na Escola Bento Viana PROFISSÕES 11 9 Estudante __ 1 Merendeira 1 __ Camareira 1 __ Motorista __ 1 Autônomo __ 1 Empregada Doméstica 1 __ Auxiliar Serviços Gerais 2 1 Vendedor __ 2 Lavrador __ 2 Servente de Pedreiro __ 1 Do lar 6 __ Fonte: Autora do trabalho, Pesquisa de campo (2011). 

     A relação aluno professor - pelos alunos


   Pelos dados coletados pode-se afirmar que os alunos do EJA possuem uma boa relação com os professores. Eles confiam na formação dos professores, pois, todos classificaram a formação dos professores como ótima ou boa. Portanto, eles acreditam que os mesmos estão preparados para ensinar-lhes. A maioria dos entrevistados percebe que os professores e agentes da escola está preocupada com o desenvolvimento dos alunos. Como se pode ver no gráfico 5, somente dois alunos afirmaram que a aprendizagem dos mesmos é regular. Quanto a questão sobre atenção da escola para com os alunos, a maioria (17 dos 20 alunos – 85%) a consideram como ótima ou boa, portanto, consideram que os professores compreendem que o contexto familiar, social e econômico influenciam bastante na rotina escolar dos alunos. Contudo, nessa questão se encontra as classificações regular e ruim, o que pode levantar um alerta sobre a questão. Gráfico 5 – Avaliação da relação professor/aluno – realizada pelos alunos do EJA. Fonte: Autora do trabalho, Pesquisa de campo (2011). Dos 20 alunos entrevistados, sobre as questões nº 4, 5 e 7 da entrevista que visava saber a opinião do entrevistado sobre a forma de gestão escolar, 16 afirmaram ser melhor a gestão democrática (80%) e os 4 restantes responderam que a gestão deve ser centralizada no diretor. A justificativa para a centralização é que a gestão é função da diretora e que ela tem conhecimento suficiente para resolver bem todas as questões sem receber opinião da comunidade. Por outro lado, dos 16 entrevistados que responderam que a gestão escolar deve ser democrática, apenas cinco (31%) afirmaram que participam das reuniões que a escola convoca e dentre estes 5, apenas o senhor Pedro Dutra, lavrador, participa do Conselho do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), os demais alegaram que participam das reuniões, mas apenas como ouvintes. 15 alunos entrevistados (76%) classificaram a abertura da escola para a discussão democrática como ótima, 5 classificaram como boa e 1 classificou como ruim. No tópico da questão nº 5 onde era solicitado citar dois assuntos que a escola deve discutir com a comunidade e dois assuntos que a escola deve resolver sem a sua participação, 9 dos 20 entrevistados (35%) não responderam; 30%, ou seja, 8 entrevistados responderam unânimes que a escola deve discutir com a comunidade as melhorias na escola e a aprendizagem dos alunos e não citaram nenhum assunto que a escola deve resolver sozinha (todos estas respostas foram da mesma classe, provavelmente discutiram entre si e chegaram à este consenso); 2 afirmaram que as questões administrativas podem ser resolvidas sem participação da comunidade e 1 aluno da 2ª série do EJA, o senhor Pedro Dutra, de 66 anos, que participa da comissão do Fundeb, respondeu que a escola deve discutir com a comunidade os assuntos do Fundeb, demonstrando que as pessoas engajadas nos movimentos populares e comissões ou conselhos organizados pela escola, possui uma visão diferenciada do cidadão que não se envolve na gestão democrática. Desta atitude dos alunos podemos verificar que a consciência da necessidade de uma gestão democrática está se efetivando na comunidade, mas ainda é necessário criar caminhos que os levem a participação de fato. Na questão nº 6 que solicitava ao entrevistado citar algo que ele acredita ser necessário mudar na organização e/ou administração da escola, 13 dos 20 alunos responderam que não é necessário mudar nada (65%) e 7 responderam ser necessário mudar. O gráfico 6 mostra as propostas de mudança citadas. Gráfico 6 – Avaliação da relação professor/aluno – realizada pelos alunos do EJA. Fonte: Autora do trabalho, Pesquisa de campo (2011). Sobre a questão nº 8, que solicitava a avaliação do entrevistado sobre a educação integral implantada recentemente na Escola Bento Viana para os alunos da primeira fase do Ensino Fundamental, o gráfico abaixo relaciona o resultado. Gráfico 7 – Educação integral – visão dos alunos do EJA. Fonte: Autora do trabalho, Pesquisa de campo (2011). Dos 12 alunos entrevistados que aprovaram a educação integral, 7 (60%) justificaram que a educação integral é boa por que evita que a criança fique nas ruas, 1 justificou que no ensino integral a criança aprende mais e 4 não justificaram porque aprovam o ensino integral. Dois dos alunos entrevistados avaliaram o ensino integral como regular, pois tem pontos bons, com a criança não ficar exposta aos riscos da rua, mas tem pontos ruins, como cansar a criança e deixá-la estressada. Seis afirmaram não concordar com o ensino integral (30%) e todos foram unânimes em justificar que não concordam por ser muito cansativo para o aluno ficar na escola o dia inteiro. Destes resultados podemos avaliar que, como acontece no início de qualquer mudança, a implantação do ensino integral na Escola Bento Viana está gerando polêmicas sobre suas vantagens e desvantagens, mas ainda assim predomina a ideia de que é melhor que as crianças fiquem na escola (mesmo sendo cansativo para elas) do que corram riscos na rua e sejam influenciadas de forma negativa enquanto seus pais trabalham. A última questão da entrevista (nº 9) deixava a opção para o entrevistado fazer alguma consideração sobre a Educação Municipal em Ivaiporã/PR. 13 entrevistados (60%) não fizeram nenhum comentário, 5 comentaram que a educação no município precisa melhorar (30%) e 2 expressaram seu desejo em uma melhoria no transporte escolar (10%). 

     A relação aluno-professor: um panorama geral dos entrevistados


   A seguir apresenta-se a tabela 4 que avalia, no geral, a relação aluno-professor: Tabela 4 – Avaliação da relação professor x aluno. Fatores avaliados Agentes da escola (professores, funcionários, gestores) Agentes da comunidade (pais, alunos, moradores do bairro) TOTAL Percentual % Formação dos Professores: Ótima 10 16 26 53% Boa 07 16 23 47% Regular -- -- -- -- Ruim -- -- -- -- Aprendizagem dos Alunos: Ótima 03 19 22 45% Boa 14 11 25 51% Regualr -- 02 02 4% Ruim -- -- -- -- Relação Professor X Aluno: Ótima 04 21 25 51% Boa 11 11 22 45% Regular 02 -- 02 4% Ruim -- -- -- Preocupação da escola com as necessidades do Aluno  Família: Ótima 10 19 29 59% Boa 07 08 15 31% Regular -- 04 04 8% Ruim -- 01 01 2% Fonte: Autora do trabalho, Pesquisa de campo (2011). Com relação à aprendizagem dos conteúdos e relacionamento entre professor e aluno, percebemos na Tabela 4 que os professores possuem uma percepção mais crítica, por sua vez, pais, alunos e membros da comunidade demonstraram uma visão mais otimista. Este resultado pode ser explicado pelo fato dos professores sempre esperarem mais dos alunos, na assimilação dos conhecimentos específicos de cada disciplina. Já as famílias da maioria dos alunos compreendem a aprendizagem como um produto final como ler, escrever, calcular, etc. Percebendo que as crianças já estão alcançando estas habilidades, acreditam que a aprendizagem está ótima. Na relação professor-aluno a avaliação demonstrada na tabela 4 pode ser explicada pela convivência diária que os professores têm com os alunos, não apenas em uma relação profissional trabalhando os conteúdos e acompanhando o desenvolvimento da aprendizagem do aluno, mas uma relação afetiva, muitas vezes conhecendo mais o aluno do que sua própria família. Dessa forma professores e alunos vivem conflitos diários gerados pela relação um com o outro que muitas vezes os pais não ficam sabendo. Podemos analisar este fator pelas repostas dos entrevistados na questão nº 3 - cite um problema na relação professor x aluno e cite um problema na aprendizagem dos alunos - onde nenhum pai, aluno ou membro da comunidade citou problemas, mas 45% dos 17 agentes escolares entrevistados citaram pelo menos um problema como: indisciplina (4), pouco interesse nas aulas (4), falta de apoio da família (4) e cansaço dos alunos (3). Na abordagem sobre a avaliação da preocupação da administração escolar com as necessidades do aluno e família ( tabela 4), dos 17 agentes escolares 10 avaliaram como ótima (59%) e 7 como boa (41%),mas surgiram reclamações por parte dos professores entrevistados sobre falta de interesse da família em ajudar na aprendizagem dos alunos, “muitas vezes sobra para a escola até problema que a família deveria resolver ” (Débora, professora). Dos 32 representantes da comunidade responderam de forma mais crítica, sendo que 19 classificaram como ótima (58,8%), 8 como boa (25%), 4 como regular (13%) e 1 como ruim (3,2%). Como estes cidadãos teriam interpretado esta preocupação da escola? E quais seriam estas necessidades do aluno e de sua família em sua perspectiva? Esta avaliação pode ser explicada pelo fato de muitas vezes a família esperar da escola a função de educar os alunos - se preocupar, aconselhar, disciplinar e resolver os problemas do dia-a-dia dos alunos. Resolver conflitos que o aluno vive principalmente nas transições entre as fases infância-adolescência - juventude, como descobrir sua identidade, relacionamento amoroso e familiar, círculo de amizades, uso ou não de drogas lícitas ou ilícitas, precisam ser tratados pela família. É evidente que a escola pode e deve interferir compreender que estes conflitos interferem na aprendizagem do aluno, mas não substitui a presença e o acompanhamento familiar. Preocupar-se com o contexto socioeconômico do aluno e buscar meios de resolver os conflitos, que interferem em seu desenvolvimento social, deve ser uma postura assumida pela escola com a participação das famílias, envolvendo a conscientização da comunidade através de palestras, dinâmicas, materiais audiovisual e encaminhamento para acompanhamento psicológico para os alunos e famílias que necessitam de um tratamento mais específico. 

     Conclusão


   As instituições escolares se desenvolvem em uma série de diferentes cenários, possui diversos atores envolvidos nas relações com o setor público, em todos os níveis. A gestão democrática se torna efetiva quando estes representantes trabalham juntos, discutindo seus objetivos comuns para chegar a elaboração, execução, monitoramento e avaliação das políticas públicas de interesse da educação local. A gestão escolar democrática, sendo um trabalho aplicado na busca de soluções de determinadas problemáticas apresentadas no dia-a-dia da escola e que estão presentes no contexto social do educando, necessita superar as dificuldades encontradas de maneira positiva e principalmente com a cooperação de todos os atores do contexto escolar, estimulando a busca por novos caminhos, a pesquisa e a criação de novos recursos de ensino. A Escola Municipal Bento Viana, a partir do momento que a escola começou a se relacionar mais abertamente com a comunidade e chamá-la para participar de suas discussões e projetos, um novo tempo começou para as famílias do bairro da Vila Nova Porã no município de Ivaiporã/PR. Hoje existe uma participação democrática dos pais e alunos cada vez maior, praticamente todas as crianças daquele bairro passam pela escola Bento Viana (é a única escola do bairro) e dali levam para o resto de suas vidas uma semente de esperança de que um futuro melhor pode ser alcançado através da educação e que a comunidade trabalhando em unidade com a escola e com o governo de forma democrática, é possível expressar suas opiniões de forma a alcançar o bem estar social. Interpretada como uma arena para liderança política e ideológica, a descentralização da gestão escolar é fundamental para que um ambiente democrático possa ser estabelecido na integração escola-comunidade. Para criar esta integração, é dever dos gestores da escola, do município e dos participantes dos movimentos populares em geral, proporcionar situações de incentivo e conscientização da população de que não é suficiente apenas concordar com uma gestão democrática - como verificamos com este trabalho - mas participar efetivamente, compreendendo que sua opinião é muito importante e não apenas a opinião dos outros. “Tudo o que a gente puder fazer no sentido de convocar os que vivem em torno da escola, e dentro da escola, no sentido de participarem, de tomarem um pouco o destino da escola na mão, também. Tudo o que a gente puder fazer nesse sentido é pouco ainda, considerando o trabalho imenso que se põe diante de nós que é o de assumir esse país democraticamente.” Paulo Freire.

     Referências


   BERALDO, Fernando, PELOZO, Rita de Cássia Borguetti. A gestão participativa na escola pública: tendências e perspectivas.    
  FAHU/FAEF, Editora FAEF. Revista Científica Eletrônica de Pedagogia, Ano V, nº 10, julho de 2007 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, Senado,1998. Disponível em : < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm> Acesso em: 26 set. 2011 _______. Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm> Acesso em: 05 de set. 2011. _______.Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Pradime : Programa de Apoio aos Dirigentes Municipais de Educação / Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. – Brasília, DF : Ministério da Educação, 2006 _______.Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Conselhos Escolares: Democratização da escola e construção da cidadania. Programa Nacional de Fortalecimento dos Conselhos Escolares / Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. – Brasília, DF : Ministério da Educação, 2004 DEMO, Pedro. Política Social, Educação e Cidadania. Campinas: Papirus, 1996. FLEXOR, G.,  LEITE, S. Análise das políticas públicas: breves considerações teóricometodológicas.In: FÁTIMA, E.N. et al. (Orgs.) Mundo rural IV: configuração rural-urbanas: poderes e políticas. Rio de Janeiro: Mauad, 2007 Ivaiporã amplia educação integral. Disponível em: . Acesso em: 08 set. 2011. LÜCK, Heloisa. Perspectivas da Gestão Escolar e Implicações quanto à Formação de seus Gestores. Em Aberto / Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. v. 17, n. 72 (fev/jun 2000). Brasília: O Instituto, 2000 NEVES, Gleisi Heisler. Reflexões sobre a proposta de reforma do Estado brasileiro / Gleisi Heisler. Brasília: ENAP, 1995. PERES, Ursula Dias. Custos de Transação e Estrutura de Governança no Setor Público. RBGN, São Paulo, Vol.9, n.24, p. 15-30, maio/ago. 2007 RUA, Maria das Graças. Políticas públicas. Florianópolis : Departamento de Ciências da Administração / UFSC; [Brasília] : CAPES : UAB, 2009. SOTERO,   FREDERICO. Gestão participativa em rede-GRP: descentralização e participação na gestão municipal. Brasília, DF, 2002. Disponível em: http://www.scribd.com/doc/12633925/Gestao-Participativa-Em-Rede. Acesso em 18/03/2011. SOTERO, FREDERICO. Revolucionando a Administração Municipal: Gestão Participativa em Rede. DF, 2004. Disponível em: . Acesso em 18 mar. 2011 ZANELLA, Liane Carly Hermes. Metodologia de estudo e de pesquisa em administração. Florianópolis: Capes, 2009.

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