Artigos

CO-PROCESSAMENTO DE PNEUS INSERVÍVEIS NA INDÚSTRIA CIMENTEIRA: UMA FORMA DE ATENDER NECESSIDADES ECONÔMICAS E AMBIENTAIS, DENTRO DA PRÁTICA DE RESPONSABILIDADE SOCIAL. ESTUDO DE CASO DA VOTORANTIM CIMENTOS N/NE S.A. UNIDADE SOBRAL/CE.

Maxuana Silva Bezerra
CO-PROCESSAMENTO DE PNEUS INSERVÍVEIS NA INDÚSTRIA CIMENTEIRA: UMA FORMA DE ATENDER NECESSIDADES ECONÔMICAS E AMBIENTAIS, DENTRO DA PRÁTICA DE RESPONSABILIDADE SOCIAL. ESTUDO DE CASO DA VOTORANTIM CIMENTOS N/NE S.A. UNIDADE SOBRAL/CE.

AUTORA: MAXUANA SILVA BEZERRA

COAUTORA: RITA MARIA DE SOUSA LIMA

RESUMO

O presente trabalho faz um estudo específico sobre o co-processamento de pneus inservíveis na indústria cimenteira e suas implicações nos ambientes: empresarial, ambiental e social. A metodologia utilizada no desenvolvimento deste estudo foi o método de pesquisa bibliográfica e estudo de caso. A coleta de dados foi feita através de entrevistas com engenheiros, chefes das áreas de co-processamento e meio-ambiente e demais colaboradores envolvidos diretamente neste sistema, acesso a literaturas e relatórios e, ainda por observação-participante. Demonstrou-se que o co-processamento de pneus inservíveis em fornos de fabricação de cimento é uma alternativa segura e lucrativa, onde as partes interessadas, o empresário, o meio-ambiente e a sociedade, saem ganhando.

PALAVRAS-CHAVE: Responsabilidade social. Pneus. Co-processamento. Resíduo. Meio-ambiente.

1 INTRODUÇÃO

                   O presente artigo aborda a questão dos pneus inservíveis, seus impactos para o meio ambiente e, na linha da Responsabilidade Social, a possibilidade de sua destruição em processo limpo de reaproveitamento energético.

                   O governo brasileiro tem uma preocupação com relação ao descarte desse tipo de resíduo, por isso, foi criada a Resolução CONAMA Nº 264 no ano de 1999. Essa preocupação é justificável, já que em se tratando de pneu é totalmente inviável a disposição desse material em aterros sanitários, pois além de esta não ser uma alternativa viável ambiental e socialmente falando, no caso particular brasileiro, cearense e sobralense, também, apresenta uma condição perfeita para a proliferação do mosquito Aedes Aegypti transmissor da dengue causando grandes danos à saúde da população.

2 RESPONSABILIDADE SOCIAL

Nos dias atuais, os consumidores estão mais atentos ao tipo de serviço e produto consumidos, eles querem saber muito além, ou seja, qual a reputação da entidade fornecedora do bem ou serviço, se a empresa contribui com ações sociais e têm princípios éticos bem definidos e alinhados com a cidadania. A partir daí, surge uma maior e abrangente preocupação com o social onde é utilizado o termo Responsabilidade Social propriamente dita com abrangência nas Responsabilidades Ambiental e Empresarial. Mas o que é Responsabilidade Social?

Emerson Kapaz (2004), Presidente do Instituto Ethos, instituição brasileira com expressão internacional, define a Responsabilidade Social como:

Uma visão empreendedora mais preocupada com o entorno social em que a empresa está inserida, ou seja, sem deixar de se preocupar com a necessidade de geração de lucro, mas colocando-o não como um fim em si mesmo, mas sim como um meio para se atingir um desenvolvimento sustentável e com mais qualidade de vida. (KAPAZ: 2004, p.8)

A Comissão das Comunidades Européias define responsabilidade social como:

Um comportamento que as empresas adoptam [sic] voluntariamente e para além das prescrições legais, porque considera ser esse o seu interesse em longo prazo, [...] é a integração dos valores do Desenvolvimento Sustentável – o desenvolvimento que permite às gerações presentes satisfazer as suas necessidades, sem pôr em causa a mesma possibilidade às gerações futuras – em toda a gestão das empresas: as empresas têm de integrar nas suas operações o impacto econômico, social e ambiental. (Sair da Casca: 2005)

A definição inicial está relacionada com a geração de lucro sem esquecer que, além do lucro, existe o cenário pelo qual a empresa esta inserida. Isso implica numa abordagem sistêmica, onde a empresa reafirma como prioridade competitiva dentro das estratégias empresariais, as expectativas de todos os seus envolvidos. Isso faz com que, haja uma aproximação nessa relação com as partes interessadas e os stakehorders tenham autonomia para exigir das empresas uma maior consciência dos impactos, positivos e negativos, que poderão acarretar em diversos cenários, frutos da sua produção.

A Responsabilidade Social empresarial segundo Melo Neto e Froes (2002), consiste na decisão da empresa de atuar diretamente nas ações da comunidade na região que está presente e minimizando os possíveis impactos ambientais resultantes de suas atividades exercidas. E complementa:

Contudo, apoiar o desenvolvimento da comunidade e preservar o meio ambiente não são suficientes para atribuir a uma empresa a condição de socialmente responsável. É necessário investir no bem-estar dos seus funcionários e dependentes e num ambiente de trabalho saudável, além de promover comunicações transparentes, dar retorno aos acionistas, assegurar sinergia com seus parceiros e garantir a satisfação dos seus clientes e/ou acionistas. (MELO NETO; FROES: 2002, p.78).

Nessa definição, os autores reafirmam que, não basta apenas apoiar e incentivar programas sociais e ambientais, a Responsabilidade Social vai muito além do que meras ações pontuais como essas, o conceito estende-se sistematicamente em toda empresa e quadro de empregados, preocupando com o bem-estar do empregado no trabalho, na família e proporcionando melhor qualidade de vida. Tendo a comunicação como fator condicionante no alcance desse bem-estar. É através de uma comunicação de qualidade e transparente que a empresa deixará claro que sua intenção é produzir, gerar lucros, mas levando em consideração os interessados e os potenciais impactos desse processo.

“A notícia da violação dos direitos humanos numa fábrica do outro lado do mundo chega até nós em segundos, e aqui onde a recebemos, estão porventura os consumidores dos produtos produzidos nessa fábrica, que podem tomar uma decisão”. (SAIR DA CASCA: 2004)

Isso reforça o conceito de que, as partes interessadas têm autonomia e influência para a tomada de decisões. Para decidir sobre a sobrevivência de empresas que não praticam a Responsabilidade Social propriamente dita.

 ...o conceito de responsabilidade social está se ampliando, passando de filantropia, que é a relação socialmente compromissada da empresa com a comunidade, para abranger todas as relações da empresa: com seus funcionários, clientes, fornecedores, acionistas, concorrentes, meio ambiente e organizações públicas e estatais. (GRAJEW apud MELO NETO e FROES: 2002, p.79).

2.2  RESPONSABILIDADE SOCIAL E ÉTICA

A ética está presente em todos os momentos de nossas vidas e em uma organização isso não é diferente. Todo e qualquer empreendimento é considerado ético quando cumpre com seu compromisso social dentro da estratégia da sua visão e missão. A preocupação com os stakeholders demonstra que a organização está preparada para alavancar não só as metas de produção, mas, principalmente, atender necessidades de hoje que, em longo prazo, impactarão nas gerações futuras.

Ser ético “significa, de forma simplificada, refletir sobre as escolhas a serem feitas, importar-se com os outros, procurar fazer o bem aos semelhantes e responder por aquilo que se faz.”(SROUR: 2003, p.62).

A sociedade está mais consciente de seus direitos e os persegue quando veem necessidade. Ela cobra uma atuação responsável das empresas e essa cobrança pode ser visualizada, também, nos rótulos das embalagens, quando são mencionados selos de qualidade e de certificadoras sociais. Esse ponto de partida demonstra uma preocupação das empresas com a ética e questões sociais, através da responsabilidade social.

2.3  OS STAKEHOLDERS

Pode-se dizer que uma parte interessada é qualquer grupo ou pessoa que possa afetar ou ser afetado pelo impacto ou comportamento de uma organização.    

Ao contrário da visão do acionista, uma nova perspectiva, mencionada como o modelo do envolvido, sugere que as corporações são escravas da sociedade maior. Esta abordagem reconhece que há exigências em expansão que estão sendo feitas nas organizações comerciais e incluem uma variedade maior de grupos não tradicionalmente definidos como parte do interesse próprio imediato da organização. Os negócios são socialmente responsáveis quando consideram e agem em prol das necessidades e demandas desses diferentes interessados. (BUONO e NICHOLS apud MCINTOSH et al: 2001, p. 217).

     As decisões de uma empresa baseadas na sua visão de missão de negócio aliadas a uma boa estratégia e planejamento é parte essencial na caracterização da sua capacidade de lidar frente às mudanças.

2.4 CO-PROCESSAMENTO DE RESÍDUOS

É uma prática realizada há 30 anos e por sua característica ser a de reciclagem, vem ganhando espaço como a forma mais adequada de tratar uma grande variedade de resíduos industriais.

Essa atividade é chama de co-processamento, pois, enquanto os resíduos estão sendo destruídos no interior do forno, está acontecendo, simultaneamente a produção de cimento. A parte orgânica dos resíduos é destruída, havendo o aproveitamento energético.

2.4.1 RESÍDUOS QUE PODEM SER CO-PROCESSADOS EM INDÚSTRIAS DE FABRICAÇÃO DE CIMENTO

Borras oleosas, graxas, lodos de Estação de Tratamento de Efluentes (ETE), tortas de filtração, borras ácidas, catalisadores usados, pneus, emborrachados, além de outros materiais como areias, terras, Equipamentos de Proteção Individual (EPI), solventes, serragens, papéis, embalagens, Borra de tinta, Aparas de calçados, cascalho de poços, couros inutilizáveis, entre outros.

2.4.2 RESÍDUOS QUE NÃO PODEM SER CO-PROCESSADOS EM INDÚSTRIAS DE FABRICAÇÃO DE CIMENTO

Hospitalares, lixo doméstico ou urbano não classificado, materiais radioativos, materiais explosivos, fossas orgânicas, pilhas e baterias, resíduos com alto teores de cloro ou metais pesados, pesticidas, entre outros.

3 CO-PROCESSAMENTO DE PNEUS INSERVÍVEIS NA VOTORANTIM CIMENTOS N/NE SA – UNIDADE SOBRAL/CEARÁ

 

3.1  PNEU E SUA ESTRUTURA

O pneu é um material excelente para utilização como combustível. É uma cinta de borracha, deformável e elástica, que é fixada na roda de certos veículos e que protege o conjunto montado, oferecendo a possibilidade de movimentação, com segurança e conforto. É não biodegradável, com tempo de degradação indeterminado. Compõe-se de metais pesados tóxicos e substâncias cancerígenas como o chumbo, cromo, cádmio e arsênio e, ainda por borrachas naturais e sintéticas, hidrocarbonetos, negro de fumo e óleos. O restante são cintas de aço e outros produtos químicos.

3.2 PRINCIPAIS PROBLEMAS QUE OS PNEUS INSERVÍVEIS PODEM CAUSAR AO MEIO AMBIENTE E À SAÚDE

Os pneus são resíduos que ocupam grande espaço físico. O processo de compactação costuma ser mais difícil junto com a coleta e a eliminação. O acúmulo irregular desse resíduo torna-se uma grave ameaça à saúde da população e ao meio ambiente, pois é de fácil e intensa combustão. Queimados, podem causar incêndios, pois cada pneu pode ficar em combustão por mais de 30 dias e liberar nesta queima mais de 10 litros de óleo no solo, contaminando a água do subsolo e contribuindo para o aumento da poluição do ar.

Em sua composição, estão metais pesados altamente tóxicos e substâncias cancerígenas como chumbo, cromo, cádmio e arsênio. Contêm, ainda, borrachas natural e sintética, negro de fumo e óleos.  É considerado não biodegradável, pois o seu tempo de degradação é indeterminado.

3.3  BENEFÍCIOS COM O CO-PROCESSAMENTO DE PNEUS INSERVÍVEIS

· Redução do custo industrial do produto cimento portland pela redução do consumo de recursos naturais não renováveis coque de petróleo, aumentando-se assim a competitividade da empresa a nível nacional e internacional;

  • Redução de um número estimado de 600.000 pneus/ano que provavelmente estariam dispostos a céu aberto, em aterros sanitários, nas ruas e avenidas dos municípios;

  • Contribuição com a Sociedade na redução deste passivo potencialmente danoso à saúde pública e ao meio ambiente, evitando assim criadouro em potencial do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue;

  • Geração de empregos diretos e indiretos dentro e fora da empresa, através das campanhas de coleta e mão-de-obra para atividade;

CONSIDERAÇÕES FINAIS

     As informações apresentadas mostram que, os benefícios com o co-processamento de pneus inservíveis são inúmeros, dentre eles os principais são: a eliminação do descarte inadequado desse resíduo favorecendo positivamente o meio-ambiente; redução do uso do combustível principal, coque de petróleo, nos fornos de fabricação de cimento; eliminação de uma condição perfeita para a proliferação do mosquito transmissor da dengue, o Aedes Aegypti, doença esta que causa sérios danos à saúde da população.

     O co-processamento é uma poderosa arma a favor dos empresários e da sociedade em geral, já que os problemas causados pelo descarte inadequado do pneu são inúmeros como, por exemplo, a ocupação de um grande espaço nos aterros e com isso, o resíduo fica tendencioso a emergir para a superfície; nos rios, riachos e lagoas, diminuem a capacidade de escoamento, favorecendo a ocorrência de enchentes principalmente em períodos chuvosos; nas ruas, terrenos baldios e quintais, entopem bueiros e servem de habitat para insetos vetores de doenças e ao ar livre ocorre a degradação, liberando substâncias nocivas, inclusive emitindo gases tóxicos quando queimados.

Conclui-se que é recomendável a prática do co-processamento de pneus inservíveis nos fornos das indústrias que fabricam cimento, como uma forma segura de atender necessidades econômicas e ambientais dentro da prática de Responsabilidade Social.

REFERÊNCIAS

 

ACEVEDO, R.; NOHARA, J. J. Monografia no Curso de Administração. 2. ed., São Paulo: Atlas, 2006.

CO-PROCESSAMENTO DE PNEUS INSERVÍVEIS NO FORNO DE CLÍNQUER: Estudo de viabilidade de queima – EVQ. Sobral, fev. 2002.

DUNCAN, B. SCHMIDT, M. I. GIUGLIANI. E. R. J. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 3. ed., Potro Alegre: Artmed, 2004.

FONTENELE, F. W.  Os interessados sob a percepção da empresa: Grendene S/A – Um estudo de caso. 2005. Monografia (graduação em Administração) – Curso de Administração, Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA, Sobral, 2005.

GIL, A. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. São Paulo: Atlas, 1994.

KAPAZ, E. O que é responsabilidade social? Revista FAE Business [s.l], 1 set. 2004.

MAGANHA, M. F. B & KOMATSU, C. E. Pneus como alternativa energética. Anais do 5º Congresso Brasileiro de Cimento. São Paulo, 1999.

MELO NETO, P. F.; FROES, C. Responsabilidade Social & Cidadania Empresarial: a administração do terceiro setor. 2. ed., Rio de Janeiro: Qualitymark, 2002.

MCINTOSH. et al. Cidadania Corporativa: estratégias bem-sucedidas para empresas responsáveis. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2001.

PLANO DO TESTE DE QUEIMA – PTQ: co-processamento de pneus inservíveis. Sobral, out. 2003.

SANTOS, R. A. Metodologia Científica: a construção do conhecimento. 2. ed. Rio de Janeiro: DP&A editora, 1999.

SAIR DA CASCA. http:// www.sairdacasca.com. Acesso em: 5 de agosto de 2007.

SROUR, R. H. Ética Empresarial: a gestão da reputação. 2. ed., Rio de Janeiro: Campus, 2003.

VOTORANTIM. http:// www.votorantim.com.br . Acesso em 10 de setembro.

Licença Creative Commons | Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas
Alguns direitos reservados
Exceto quando assinalado, todo o conteúdo deste site é distribuído com uma licença de uso Creative Commons
Creative Commons: Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas

Como seria o Vade Mecum dos seus sonhos?

Estamos trabalhando em um Vade Mecum digital, inteligente, acessível e gratuito.
Cadastre-se e tenha acesso antecipado e gratuito à nossa versão beta.