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Contando e confrontando o livro “o pagador de promessas” com as questões sociais da atualidade

Gilnei Neves Nepomuceno

Universidade das Américas

Mestrado em Ciências da Educação - Turma 5

Didática e Metodologia de Língua e Literatura

Trabalho proposto pelo professor Denilson Portacio

Autor: Gilnei Neves Nepomuceno

Fortaleza-CE, 14/05/2012

Artigo: Contando e confrontando o livro "o pagador de promessas" com as questões sociais da atualidade


     RESUMO


O Pagador de Promessas, obra escrita por Dias Gomes em 1959, trata da miscigenação e sincretismo religioso, com ênfase na sinceridade e ingenuidade da devoção popular. Discorre sobre conflitos sociais que ocorre entre uma pessoa simples e pura com o sistema de regras existente na sociedade. Com uma temática que envolve a tragédia, o herói da trama carrega como seu único e verdadeiro desígnio honrar uma promessa que fez a Santa Barbara em um Centro de Candomblé. Os caminhos das cenas mostram que a camada popular foi capaz de entender e aceitar a promessa de Zé do burro, enquanto as autoridades foram intransigentes com os motivos, que julgaram como banais, sem considerar o sincretismo religioso que caracteriza muitas regiões do Brasil, principalmente o nordeste. As reflexões feitas em torno da leitura dessa obra não se mostram no todo acabada, deixando margens para que outros estudiosos possam aprofundar o assunto e que os professores possam levar uma mensagem de humildade, pureza e conscientização social e religiosa para seus alunos.
Palavras-chaves: Promessa, religiosidade, estudo social, morte.

     INTRODUÇÃO


    Dias Gomes escreveu o texto O Pagador de Promessas em 1959. A obra trata da miscigenação e sincretismo religioso, com ênfase na sinceridade e ingenuidade da devoção popular, que invoca sua fé e esta muitas vezes se contradiz com as diretrizes impostas pelos fundamentos católicos e sua organização interna. Durante o desenvolvimento da historia o protagonista tem um único propósito, honrar a paga de uma promessa que fez em um Centro de Candomblé a Iansã. Em sua inocência e vontade de saldar seu débito com a divindade, o personagem faz uma romaria à igreja de Santa Bárbara, como é chamada essa entidade no catolicismo (a mesma Iansã da Umbanda). A saga para que cumpra esse acordo firmado com um poder celeste leva Zé do Burro, personagem principal do livro, a enfrentar diversos desígnios, como a perda amorosa, a argumentação eclesiástica, o poder desumano da mídia, a força da lei (policial) que intervém em sua missão religiosa, promovendo assim um combate interno com sua própria ingenuidade e a fé. É uma questão de vida ou morte pagar a promessa alcançada. Assim, vamos discorrer sobre o livro e mostrar a sua correlação com a realidade nos dias atuais.

    Contando e confrontando o livro com a realidade atual
A obra “O pagador de promessas”, do escritor Dias Gomes, trata de conflitos sociais que ocorre entre uma pessoa simples e pura com o sistema de regras existente na sociedade. No contexto dessa história, com os ditames da Igreja Católica, por ocasião dos pagamentos de promessas e as exigências para que estas sejam cumpridas, causando assim uma trama que envolve diversos conflitos sociais. Discorre de forma bem direta do amor do homem com os animais, visto que a trama principal do livro acontece em torno de uma promessa que Zé do Burro fez para que seu animal, o burro, fosse curado de uma ferida que contraiu com a queda de um galho de árvore que atingiu sua cabeça. Com uma temática que envolve a tragédia, o herói da trama carrega como seu único e verdadeiro desígnio honrar a sua promessa.

    O livro trata de uma tragédia urbana e conta com os personagens: Zé do Burro (O Pagador de Promessas), Rosa (esposa de Zé do Burro), Bonitão (cafetão), Marli (prostituta), Padre Olavo, beatas, Dedé Cospe Rima (poeta), Galego (dono de um bar), Mestre Coca (capoeirista), Minha tia (vendedora de acarajé e outras iguarias), dentre outros personagens. A obra foi escrita para ser representado em teatro e é dividida em três atos.
    Zé tinha um burro chamado Nicolau ao qual dedicava muita afeição. Certo dia uma árvore caiu e feriu mortalmente o animal. Tentando de todas as maneiras sarar o ferimento, apelando para curandeiros da região e remédios do mato, Zé, para ver seu querido amigo de trabalho curado usou sua fé como instrumento para a cura. Era devoto de Santa Bárbara, santa da igreja católica. Como em seu lugarejo no interior da Bahia não havia uma capela ou igreja dedicada a essa entidade religiosa foi a um Centro de Candomblé e lá fez sua promessa a Iansã, nome de Santa Bárbara na Umbanda. Na promessa jurou que, se seu burro fosse curado, doaria todas as suas terras aos pobres e iria a Igreja de Santa Bárbara carregando uma cruz tão pesada quanto à de Jesus Cristo.
Fazer promessas para santos por uma graça alcançada é uma prática tão antiga quanto a história da humanidade, como vemos na citação abaixo:
    A prática de fazer votos e promessas a Deus vem de muito séculos antes do nascimento de Nosso Senhor, sendo estas também feitas durante o anuncio do evangelho e também continua após sua Ascensão. Vejamos algumas passagens que comprovam isso:
20. Jacó fez, então, este voto: "Se Deus estiver comigo e me proteger nesta viagem, se ele me der pão para comer e roupa para vestir, 21. e se eu voltar são e salvo para a casa de meu pai, então o SENHOR será meu Deus. 22. Esta pedra que ergui como coluna sagrada será transformada em casa de Deus, e eu te darei o dízimo de tudo o que me deres". (Gn 28, 20-22).
10. Ana, cheia de amargura, em profusão de lágrimas, orou ao SENHOR. 11. Fez a seguinte promessa: "SENHOR dos exércitos, se olhares para a aflição de tua serva e de mim te lembrares, se não te esqueceres da tua escrava e lhe deres um filho homem, eu o oferecerei a ti por toda a vida, e não passará navalha sobre a sua cabeça". (1Sm 1,10-11) (Sentinela Católico, 2012).
    A citação nos mostra que sempre a humanidade depositou sua fé nas divindades para alcançar seus objetivos espirituais através da fé.Essas iniciativas perduram até hoje, quando vemos as romarias de pessoas que saem de suas cidades para prestar contas com seus santos de devoção. Um exemplo bem prático dessa atividade religiosa é o Sírio de Nazaré que acontece em Belém do Pará e muito críticos religiosos estão considerando esse evento como a maior manifestação religiosa católica do Brasil e quiçá do mundo.
A Saga de Zé do Burro para pagar sua promessa inicia no interior da Bahia, distante 42km de Salvador. O romeiro carregando sua cruz e seguido por sua mulher Rosa atravessaram no sertão a noite para chegar na igreja de Santa Bárbara e assim saldar o que havia prometido - colocar a cruz no altar da igreja. Chegou à igreja por volta das 4 da manhã e, muito cansado, depositou sua cruz nos degraus da igreja para esperar que a igreja abrisse. Rosa, sua esposa mostrou-se exausta e dormiu na calçada.
    Algum tempo depois aparece duas figuras dialogando no patamar da igreja: Bonitão (gigolô) e Marli (prostituta). A mulher entrega ao homem o produto ganhado na noite, os dois se desentendem e Marli some. Vendo Zé, Galego percebe logo sua ingenuidade e tenta se dá bem com o casal. Consegue, pois oferece um lugar para os dois descansarem, mas de pronto Zé se nega a sair dali antes de pagar sua promessa. Aproveitando-se da fragilidade de Rosa, o espertalhão a convence a ir com ele para um hotel. Lá acontece o adultério.
    Percebemos nessa parte da história que a prostituição sempre se afigurou como uma forma das mulheres ganharem dinheiro "fácil" e alguns homens de se aproveitarem dessa prática para fazer o papel de cafetão. Hoje ainda é comum essa tipo de serviço na sociedade. Muitos também exercem de forma negativa seu poder de bondade disfarçada e conseguem corromper uma mulher que está frágil, no caso de Rosa, que perdeu todas as terras e estava sem norte. O mundo está cheio de bons samaritanos como o "Bonitão".
Inicia o movimento ao redor da praça da igreja, com o aparecimento da beata, do sacristão e do Padre Olavo, para os quais Zé explica a promessa. Contou toda a história e o padre fica escandalizado, acusando Zé de herege, estabelecendo assim o conflito. O sincretismo Iansã que para Zé do Burro soa natural, para o padre é um grande pecado, que manda fechar as portas da igreja e impede Zé de entrar com a cruz.
    Para a cabeça pura de Zé do Burro aquele gesto do padre soou como uma tremenda afronta contra Deus, pois queria apenas colocar uma cruz no altar de Santa Bárbara e ir embora. Naquela hora a movimentação em torno da igreja já era imensa e personagens foram surgindo: o Galego dono do bar, a vendedora de acarajé e outras iguarias, o poeta repentista Dedé Cospe-rima. Zé tenta entrar na igreja e é impedido pelo guarda. Rosa reaparece com ar de culpada e Marli (a prostitua) faz um tremendo escândalo dizendo que Rasa havia "transado" com bonitão, e o sofrimento de Zé aumenta de volume.
    Assim como na trama que ora contamos, esses tipos de quadros sociais ainda são vigentes em nossa sociedade, pois ainda vemos vendedores nas praças, poetas repentistas, policiais e escândalos por motivos de ciúmes. Nesse sentido a evolução da humanidade não difere em nada.
Diante da situação, surge o repórter, que ver na história de Zé uma forma de dá um furo de reportagem, o colocando como mártir, seguindo a linha do oportunismo sensacionalista que também ainda acontece nos dias atuais.
    No terceiro ato da peça acontece no entardecer, pressupondo que Zé passara o dia de vigília para cumprir sua promessa. A notícia formou um aglomerado de pessoas na praça que queriam ver o desfecho do Pagador de Promessas. Há uma roda de capoeirista na praça e seus componentes torcem por Zé do Burro. Há notícias de que Zé seria preso pela polícia. Devido o tumulto, as brigas de Marli com Rosa e, mesmo indignado por não cumprir sua promessa, Zé promete ir embora a noite.
    Até o momento, entrando na história e sendo protagonista no lugar do Zé do Burro, não dá para entender porque um fato tão sem importância pode acarretar tanto movimento em uma cidade. Não custava nada o padre entender a inocência de Zé e mandá-lo colocar a cruz no altar de Santa Bárbara. A primeira vista talvez seja de pouco importância para alguns leitores, mas para a igreja não.

    Mesmo sendo a representante afro de Santa Bárbara, Iansã era uma entidade da Umbanda e do Candomblé e a igreja jamais iria admitir a paga da promessa.
Enquanto isso, o repórter continuava insistindo em montar uma história dramática em torno de Zé, apenas pela vaidade de vender jornais.
    Em plena praça o Bonitão reaparece convida Rosa para ir com ele. Zé ainda insiste que não, mas ela vai embora. Notamos nessa cena que o homem tinha por objetivo apenas colocar mais uma prostituta em seu grupo para ganhar dinheiro para ele. É muito comum nos dias atuais haver esse tipo de relacionamento onde algumas pessoas são exploradas por outras por dinheiro.
A trama continua. Mestre Coca (o capoeirista) comunica a Zé sobre a chegada da polícia e este fica pasmo, acrescentando: "Santa Bárbara me abandonou". Nessa hora vemos a indignação do romeiro diante da falta de intervenção da Santa a quem ele tanto devotou a sua fé. Com a perda da mulher, Zé sente-se o pior entre os indivíduos e, agora, com o abandono da Santa, o mais abandonado entre os homens.
    Com o intuito de impedir que Zé cumpra sua promessa absurda perante a visão da igreja, aparecem o sacristão, o guarda, o padre e o delegado. A tensão é acentuada perante o olhar perdido e incrédulo de Zé, que tenta mais uma vez explicar os motivos da sua promessa. Ao se sentir cercado e sem saída Zé saca de uma faca. As autoridades reagem e os capoeiristas entram em cena para defender Zé gerando muita briga e confusão. Ouve-se um tiro e as pessoas correm sem direção, quando percebem Zé cair mortalmente ferido.

    Diante de tal cena fica a pergunta. É esse de fato o papel de evangelização da igreja? Deus ensinou a pacificação entre os homens. De repente a igreja contradiz todos os ensinamentos das Sagradas Escrituras, zombando da fé e da inocência de um romeiro.
Na cena final da peça o chefe dos capoeiristas, Mestre Coca, olha para os companheiros e acena para Zé e para a igreja; Eles entendem a mensagem, colocam Zé sobre a cruz e ignorando totalmente a presença da polícia e a ordem do padre, entram na igreja conduzindo Zé sobre a cruz. Enfim, a promessa fora cumprida.


     CONCLUSÃO


   A temporalidade que distancia a época da escrita dessa obra com os tempos atuais somam 53 anos, entretanto, constatamos com o estudo dessa obra de Dias Gomes que são aparentes ainda certas situações socioculturais da vida brasileira em cena na atualidade, mostrando assim que na questão religiosa ouve poucos avanços no quesito respeito pela fé, principalmente da classe popular. Algumas reflexões devem ser colocadas para que as pessoas e as entidades representativas possam reavaliar seus valores, tais como:
 a personificação da intolerância da igreja no autoritarismo do padre;
 A incapacidade da polícia diferenciar uma questão multicultural, quando transforma um episódio de diferença cultural com um caso de polícia;
 a falta de ética e sensibilidade da imprensa, sem interesse no drama do protagonista, mas com a repercussão e o lucro que a história pode render;
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 a diferença cultural entre os panoramas urbano e rural, visto que o personagem não consegue apreender o porquê de deixá-lo cumprir sua promessa.
    Os caminhos das cenas mostram que a camada popular foi capaz de entender e aceitar a promessa de Zé do burro, enquanto as autoridades foram intransigentes com os motivos, que julgaram como banais, sem considerar a ingenuidade e pureza do Zé do Burro. A morte de Zé do Burro mostra isso, quando são os capoeiristas que o conduzem com sua cruz para dentro da igreja, provando que, como o protagonista, também conseguem entender o grande sincretismo religioso que caracteriza muitas regiões do Brasil, principalmente o nordeste. Em sua mensagem principal, este livro mostra que a miscigenação religiosa é muito vasta no Brasil e, portanto, precisa ser ponderada no tocante fé, ingenuidade e devoção do povo.
    As reflexões feitas em torno da leitura dessa obra não se mostram no todo acabada, deixando margens para que outros estudiosos possam aprofundar o assunto e que os professores possam levar uma mensagem de humildade, pureza e conscientização social e religiosa para seus alunos.


     REFERÊNCIA


   GOMES, Dias. O Pagador de Promessas. São Paulo: Ediouro, 1989.
   SENTINELA CATÓLICO As Divinas Promessas. Doutrina da Igreja sobre as promessas e votos. Artigo publicado em 25/06/2011. Site acessado em 13/05/ 2012: http://www.sentinelacatolico.com.br/index.php/2011/06/as-divinas-promessas-doutrina-da-igreja-sobre-as-promessas-e-votos/
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