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David Hume: Ética e Sentimentos

Roteiro de Leitura

 

HUME, David. Tratado da Natureza Humana, Vol. 2, Livro 3, Parte 1 e Parte 2 (Seções 1 e 2). Em: MORRIS, Clarence (org.). Os Grandes filósofos do direito.São Paulo: Martins Fontes, 2002, pp. 184-199.

 

Antes de iniciar a leitura deste texto, recomendo a realização do exercício Natureza e Moralidade.

 

David Hume é um dos principais filósofos de seu tempo, sendo suas críticas às noções tradicionais de ética e epistemologia influentes até os dias de hoje.

O texto de Hume foi escolhido por dois motivos principais. Por um lado, a leitura do Tratado da Natureza Humana nos apresenta um exemplo das vertentes empiristas da filosofia birtânica da época e a sua tendência aristotélica de observar os fatos em vez de buscar explicações para a ética e o conhecimento humano em regras extraídas da própria razão.

Por outro, as influências de Hume no pensamento dos filósofos posteriores, tanto nas Ilhas Britânicas (Bentham, Mill, etc.) como no continente (especialmente em Kant) fazem com que a análise de suas idéias seja esclarecedora para a compreensão da discussão moral que lhe seguiu.

Hume reflete sobre o papel da razão e dos sentimentos no estabelecimento da moral, bem como refletiu na relação entre esses dois elementos no estabelecimento do conhecimento científico e, em ambos os casos, chegou a conclusões semelhantes. Dessa forma conhecer a sua perspectiva epistemológica é útil para esclarecer a sua posição moral.

Resumo das idéias epistemológicas de Hume

Nas Investigações acerca do entendimento humano (vide referência bibliográfica nos textos de leitura complementar), Hume afirmou que nós podemos conhecer dois tipos de relações. As relações entre idéias, que fazem parte do domínio da matemática, geram um conhecimento verdadeiro e que pode ser demonstrado por via dedutiva, a partir da simples operação do pensamento.

Já as relações entre fatos não são objeto do mesmo tipo de conhecimento, na medida em que elas apenas podem ser conhecidas a partir da experiência - e não da pura racionalidade. Hume admite três tipos de relação entre fatos: semelhança, contigüidade e causalidade - e é esta última que atrairá a maior parte de suas atenções.

As relações de causa e efeito são as que utilizamos para explicar o mundo, tirando conclusões para o futuro a partir de fatos conhecidos do passado. Essas conclusões nunca são fundadas no puro pensamento, mas têm fundamento unicamente na experiência. E, neste ponto, Hume faz a sua grande pergunta: "qual é o fundamento das conclusões derivadas da experiência?" [p. 53] Qual o fundamento do raciocínio pelo qual acreditamos que as coisas no futuro serão idênticas às que observamos no presente?

Após uma discussão aprofundada, Hume conclui que "todas as inferências tiradas da experiência são efeitos do costume e não do raciocínio" [p. 62]. Acreditamos na causalidade porque temos o costume de acreditar na regularidade da natureza, e não porque isso é um imperativo da razão. E essa crença, segundo Hume, é uma espécie de instinto, uma operação tão inevitável quanto os sentimentos de amor e de ódio [p. 64].

Portanto, o fundamento de todo o conhecimento sobre fatos é a crença de que esses fatos se sucedem em uma ordem regular e inalterável - crença esta que não pode ser comprovada racionalmente e, justamente por isso, é chamada de crença e não de conhecimento.

Embora tenha questionado a noção usual de causalidade, Hume não estava disposto a abandonar esse conceito - e por isso buscou salvar o conceito justificando a crença e o costume como instintos naturais do homem. Todavia, as críticas foram tão profundas que a própria saída que ele oferece para fundamentar a relação de causa e efeito não parecem convincentes. Por tudo isso, de Hume importam mais as suas perguntas (e a pergunta que ele fez até hoje é extremamente relevante) que as suas respostas (que nunca pareceram aceitáveis).

Leitura Complementar

Como leitura complementar, indica-se o capítulo 17 (Hume: a virtude naturalizada) de:

SCHNEEWIND, J.B. A invenção da autonomia. São Leopoldo: Unisinos, 2001.

 

Sobre as concepções epistemológicas de Hume, indica-se:

HUME, David. Investigação acerca do entendimento humano. Em: Hume. São Paulo: Nova Cultural (Coleção Os Pensadores), 1996, pp. 47-64.

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