Curso de Filosofia do Direito

II - De volta às origens: ética e direito na filosofia grega

Alexandre Araújo Costa

Estabelecida a pergunta moderna sobre a legitimidade, podemos entender melhor as semelhanças e também as diferenças entre a perspectiva antiga (pré-moderna) e a moderna. Creio que essa inversão na cronologia é especialmente útil porque uma das ilusões típicas de uma aproximação linear da história da filosofia é compreendê-la como uma linha de progresso, que parte dos gregos e procede por acumulação até os dias de hoje. Essa abordagem termina por nos fazer buscar na antiguidade as raízes do pensamento contemporâneo, exagerando na visão de continuidade.

Um dos filósofos que melhor evidenciou esse erro foi o francês Michel Foucault (de quem falaremos mais tarde), cuja leitura nos ensina dar especial atenção às descontinuidades. Enxergar a antiguidade como uma preparação do presente é um equívoco sério, que nos faz ler os antigos como precursores dos modernos.

Existem similaridades, existem pontos de convergência, mas é preciso reconhecer uma certa autonomia entre esses discursos, para que a modernidade seja vista como uma das histórias possíveis da humanidade, e não como fruto do desenvolvimento inevitável da Razão. Foi por isso que optei por inverter a cronologia, evitando apresentar a modernidade como uma espécie de passo a frente na evolução do homem.

Essa é a imagem que a modernidade tem de si mesma (inclusive, é uma de suas principais marcas), mas não precisamos cair nessa armadilha. Porém, isso não quer dizer que as influências do pensamento grego possam ser minimizadas. Os filósofos antigos moldaram conceitos e estratégias argumentativas que usamos até hoje, e compreendê-las nos ajuda a entender os nossos modos contemporâneos de pensar.

Em especial, continua sendo útil a oposição entre aristotélicos e platônicos, que marca uma diferença de estilos que foi relida e revisitada em várias etapas do pensamento ocidental. Mas, para entender a utilidade e os limites dessas categorias, precisamos voltar primeiro à própria formação do espírito filosófico.

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