Curso de Filosofia do Direito

2 - Escapando da caverna

Alexandre Araújo Costa

A razão defendida pelos filósofos equilibrava de maneira inovadora a perspectiva externa dos sofistas (usada para demolir o saber tradicional) e a perspectiva interna dos sábios (usada para falar em nome da nova verdade). Mas, ao contrário dos sofistas, eles não eram tipicamente estrangeiros nômades, mas representantes da própria sociedade, de tal modo que eles precisavam exercitar a sua capacidade de crítica ao ponto de poder olhar os valores de sua própria tradição a partir de uma perspectiva externa

Olhar nossa própria imagem no espelho com a ingenuidade de uma criança e o estranhamento de um estrangeiro não é nada fácil. E os primeiros filósofos que tentaram compreender os mecanismos dessa aproximação ainda construíam argumentos de modo alegórica (ao modo da mitologia) e não apenas teórico.

A alegoria grega mais conhecida é o mito da caverna, contada no Livro VII da República, que é uma tentativa Platônica de lidar com a questão da verdade e a função do aprendizado. Segundo Platão, a situação dos homens é como a de escravos acorrentados dentro de uma caverna.

Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de perna e pescoço acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar à cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro,semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Assim, os homens não vêem as coisas como elas são, mas apenas as sombras projetadas na parede. Para eles, essa é toda a realidade, é sequer desconfiam que haja algo para além disso.

Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz.

Nesse caso, ele vai demorar a se acostumar à luz, mas terminará por ver as coisas como elas são, e não apenas como sombras projetadas. Porém, ele aprenderá a ver, pois a alma tem o órgão destinado a apreender a verdade. Por isso, Platão afirma que a educação (uma idéia fundamental para os gregos)

Não consiste em dar visão ao órgão da alma, visto que já a tem; mas como ele está mal orientado e não olha para onde deveria, ela esforça-se por encaminhá-lo na boa direção.

Assim, Platão não admite que o sábio seja dotado de uma habilidade inexistente nos outros homens. Todas as pessoas são dotadas de logos, de capacidade de compreensão e aprendizado, mas acontece que nem todas são devidamente educadas. Portanto, ninguém tem um acesso privilegiado à verdade, e todos podemos chegar a ver a Verdade, desde que sejamos devidamente educados.

Essa idéia de que vivemos imersos em sombras e que a verdade consiste na capacidade de enxergar a luz teve muitas releituras no pensamento ocidental. Nos últimos anos, creio que a mais popular dela foi a caverna virtual construída no filme Matrix. Nela, todos os homens viviam como escravos e viam apenas o que era a eles apresentado. Porém, alguns conseguem escapar, e esta cena mostra o momento em que Morpheus (que é o nome do senhor dos sonhos) oferece a Neo a possibilidade de sair da caverna.

Essa tentativa de escapar do reino das sombras e descobrir o mundo em si, o mundo verdadeiro, é o grande motor da filosofia. A mitologia foi vista como uma grande reprodutora de sombras, com suas imagens falsificadoras cristalizadas no senso comum. E o uso disciplinado do logos era a saída da caverna, pois era a partir de nossa razão que nos capacitávamos a ver o verdadeiro sol.

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