Curso de Filosofia do Direito

10 - O giro linguístico

Alexandre Araújo Costa

No início do século XX, a força do pensamento científico era tão grande muitos filósofos pretenderam simplesmente converter a filosofia em ciência, realizando uma espécie de ciência filosófica. Esse movimento, que foi batizado com o curioso nome de empirismo lógico, somente se tornou possível em virtude da maior inovação filosófica do século XX, que foi encarar todos os problemas relativos ao conhecimento como problemas de linguagem. Essa mudança, aparentemente sutil, gerou uma revolução filosófica que hoje é conhecida como giro linguístico, ou linguistic turn.

Ao esclarecer a falácia naturalista, Hume estabeleceu os limites da racionalidade científica: o cientista até pode descrever os valores dominantes, mas não deve ter nenhuma pretensão de que exista um conceito racional de bem. Além disso, a ciência precisa escolher um objeto empírico e concentrar-se na sua explicação, o que significa um abandono de todos os objetos metafísicos, em que estão incluídos vários dos objetos típicos da reflexão filosófica. Toda a filosofia clássica era metafísica e, nessa medida, ela era incompatível com o discurso científico.

Porém, alguns estudos lógicos e matemáticos do final do século XIX apontaram um sentido inovador para as questões filosóficas. Percebeu-se que a matemática não era uma ciência, mas apenas uma linguagem. As várias matemáticas são apenas linguagens rigorosas e formalizadas, cuja precisão e rigor possibilita que as explicações científicas sejam mais rigorosas e precisas também. Elas não têm um objeto empírico, pois os números e as suas relações são entidades puramente abstratas. Apesar disso, o conhecimento matemático é fundamental para o próprio pensamento científico. Essa intuição deu margem a um novo conceito de ciência, que podemos chamar de neopositivista: a peculiaridade da ciência é a de que se trata de uma explicação feita por meio de uma linguagem rigorosa e precisa.

Tal inovação abriu espaço para uma adaptação das noções kantianas aos novos tempos. Kant foi muito criativo ao afirmar que era possível um conhecimento metafísico objetivo, na medida em que nós analisássemos a nossa própria racionalidade. E o que o neopositivismo fez na filosofia foi abandonar o platonismo do conceito kantiano de racionalidade (vista como algo metafísico, a ser percebido por meio uma análise transcendental), e apresentar a razão como um modo lógico de lidar com a linguagem.

Esse trânsito para a linguagem deu para a filosofia um objeto empírico. Nossas capacidades linguísticas, nossos modos de dizer, nossas estruturas argumentativas, tudo isso pode ser objeto de uma pesquisa indutiva, capaz de esclarecer as estruturas lógicas por meio das quais a linguagem se processa. Assistimos, assim ao surgimento de um aristotelismo filosófico renovado: uma nova espécie de ontologia, que não se concentrava em desvendar indutivamente a essência dos seres, mas a estrutura lógica da linguagem.

Todo o conhecimento humano é uma explicação linguística e, portanto, os limites do nosso conhecimento são os limites da nossa linguagem. E a melhor coisa a fazer com a filosofia é depurá-la da metafísica, conferindo a ela uma precisão e um rigor tão grandes quanto os da ciência. Dentro dessa perspectiva, o próprio problema da metafísica ganha um novo contorno: sua origem é radicada no fato de que a nossa linguagem pode falar de uma série de objetos inexistentes, como quadrados redondos ou cores invisíveis. Igualmente inexistentes são o bem em si, o valor racional e o poder constituinte originário, que são expressões que não correspondem a nenhum objeto empírico.

Com isso, a filosofia pôde concentrar-se nos problemas da linguagem, voltando-se à sua velha tarefa de analisar a estrutura permanente por trás da multiplicidade dos fenômenos transitórios que captamos pelos nossos sentidos. Essa nova base permanente já não era mais ligada a uma ordem cósmica externa, mas à logica imanente da nossa própria atividade linguística, que se tornou o principal objeto de estudos filosóficos no decorrer do século. Tanto é assim que todas as aproximações inovadoras do século XX foram abordagens linguísticas. O primeiro movimento nesse sentido foi justamente o do empirismo lógico, ou neopositivismo, que transformou a filosofia em uma reflexão acerca da própria ciência e gerou projetos variados de construção de saberes verdadeiramente científicos.

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