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Entre ética e política: Julgamento, responsabilidade e liberdade no segundo pós-guerra

Bruno Vial

     Resumo


  No tratamento da liberdade, Sócrates inferia que esta é um ato de amor. Para o filósofo, a república é um ato de amor do indivíduo para o próprio indivíduo, desta forma, a liberdade seria a ferramenta para atingir o bem comum, o que criaria uma certa forma de “amor fraternal” entre os homens.

  Jean-Paul Sartre analisa a liberdade como a liberdade do ser, pois o ser humano dependeria apenas de si mesmo. Como o filósofo não acreditava na existência do divino, o homem nasce livre e nada o limita de nenhuma forma, a não ser ele próprio. As limitações externas, na verdade, não são impostas pelo exterior, e sim pela visão do próprio homem. O ser humano pode tomar qualquer tipo de atitude, mas não o faz, por que se convence de que há limitações exteriores a suas ações. “Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade.” 1

  Assim, a liberdade sartriana é inabdicável, uma vez que a única forma de uma pessoa perder a sua liberdade é na morte. A liberdade do ser humano é de escolha; o homem não decide o que irá acontecer, ele decide escolher uma ação. Neste caso, a não-escolha também é uma escolha. Um escravo é alguém plenamente livre, por que ele pode escolher não ser mais escravo (pela morte, por exemplo). A manutenção desta existência tem apenas ele próprio como força motriz. “Por outro lado, se Deus não existe, não encontramos, já prontos, valores ou ordens que possam legitimar a nossa conduta. Assim, não teremos nem atrás de nós, nem na nossa frente, no reino luminoso dos valores, nenhuma justificativa e nenhuma desculpa. Estamos sós, sem desculpas. Ao que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz.”2

  A infelicidade do ser humano reside no fato de que ele não existe apenas para-si. A vida em sociedade é para-si-e-para-o-outro-no-mundo, e isto influencia o homem, de forma que este não tem como prever o fruto de seus projetos, uma vez que todos estão praticando suas próprias liberdades.

  Isto posto, ao analisar que Sartre é ateu, ou seja, não acredita na existência de um ser superior, a inexistência das leis divinas em toda a sua complexidade favorece exatamente a liberdade do ser humano, pois, como diria o escritor russo Dostoiévski, se não existe Deus, então tudo é permitido, uma vez que, na existência de Deus, mesmo que intraduzível, existe a lei divina e por isso, a liberdade humana deteria limitações.

  Em minha análise pessoal, Sartre trata a liberdade como a liberdade básica. Não a trata como um ato em sociedade, pois a vê como problema, não relevando isso como método, ignorando a repercussão do indivíduo na sociedade, tratando o ser como uma “ilha”. Ele esquece que a sociedade, assim como o indivíduo, também é livre.

  Ora, se a existência condena o homem à liberdade, não há como eximir-se desta ou arranjar desculpas. Ninguém pode eximir-se da responsabilidade de seus atos, e tentar fazê-lo seria um ato de má fé. “(...) o homem que se engaja e que se dá conta de que ele não é apenas aquele que escolheu ser, mas um legislador que escolhe simultaneamente a si mesmo e a humanidade inteira, não consegue escapar ao sentimento de sua total e profunda responsabilidade. (...) Porém, na verdade, devemos sempre perguntar-nos: o que aconteceria se todo mundo fizesse como nós? E não podemos escapar a essa pergunta inquietante, a não ser através de uma espécie de má fé. Aquele que mente e se desculpa dizendo: nem todo mundo faz o mesmo, é alguém que não está em paz com sua consciência, pois o fato de mentir implica um valor universal atribuído à mentira. Mesmo quando ela se disfarça, a angústia aparece.”3

  A essa responsabilidade coletiva, Hannah Arendt detêm uma visão diferente, pois, para a filósofa, se todos são culpados, ninguém o é, afinal, quem é um homem sozinho para julgar quando toda a sua sociedade já o faz? “Há várias razões pelas quais a discussão do direito ou da capacidade de julgar incide na mais importante questão moral. Duas coisas estão implicadas nesse ponto: primeiro, como posso distinguir o certo do errado, se a maioria ou a totalidade do meu ambiente prejulgou a questão? Quem sou eu para julgar? E, segundo, em que medida, se é que há alguma medida, podemos julgar acontecimentos ou ocorrências passados em que não estávamos presentes?”4 Assim, a responsabilidade pessoal não permite a transferência da responsabilidade do homem para o sistema. “Creio que teremos de admitir que existem situações extremas em que a responsabilidade pelo mundo, que é primariamente política, não pode ser assumida, porque a responsabilidade política sempre pressupões, ao menos, um mínimo de poder político. A impotência ou a total falta de poder é, creio eu, uma desculpa válida. A sua validade é tanto mais forte porque parece ser necessária uma certa qualidade moral até para reconhecer a falta de poder, isto é, a boa vontade e a boa fé para enfrentar a realidade e não viver de ilusões.”5

  Em Hannah Arendt, a capacidade humana de julgamento se basearia na capacidade de reflexão. “A precondição para este tipo de julgamento não é uma inteligência altamente desenvolvida (...) mas antes a disposição para viver explicitamente consigo mesmo, se relacionar consigo mesmo, isto é, estar envolvido naquele diálogo silencioso entre mim e mim mesma que, desde Sócrates e Platão, chamamos geralmente de pensar.”6

  No relativo à história, o filósofo francês Jean-Paul Sartre, ao pregar o existencialismo, nega a história humana natural e (logicamente, por ser ateu) divina. “A realidade primeira é a realidade natural, da qual a realidade humana é apenas uma função. Mas, para isso, temos de admitir a verdade da história, e o existencialismo, de modo geral, não admite a verdade da história, nem da história natural em geral, nem mesmo da história humana; e, no entanto, é a história que faz os indivíduos, é a própria história, a partir do momento em que são concebidos, que faz com que os indivíduos não nasçam e não apareçam no mundo que lhes confere uma condição abstrata, mas surjam no mundo do qual sempre fizeram parte, para o qual estão condicionados, e que eles próprios contribuem para condicionar - do mesmo modo que a mãe condiciona seu filho e que esse filho a condiciona desde a gestação. (...) Em suma, se é verdade que não existe uma natureza humana abstrata, uma essência do homem independente ou anterior à sua existência, é certo também que não existe uma condição humana em geral, mesmo se, por condição, você entender certo número de circunstâncias ou situações concretas - visto que, em sua opinião, elas não estão articuladas.”7

  Desta forma, podemos concluir que Sartre, ao postular o existencialismo, defende que, como ponto de vista existencialista, a própria existência não configura o passado como algo físico, ou seja, a história não afeta a existência. Isso seria, de certa forma, um pensamento solípsista, isto é, o eu seria o ponto central, o que veio antes não interfere na sua própria existência. Isso ignora toda influência histórica ou experiência pretérita que forma o indivíduo, sua personalidade, sua ética, sua moral e convicções.


Referências

1 SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Paris, 1970, pag. 9

2 SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Paris, 1970, pag. 9

3 SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Paris, 1970, pag. 7.

4 ARENDT, Hannah. Responsabilidade e julgamento. Companhia das Letras, pag. 81

5 ARENDT, Hannah. Responsabilidade e julgamento. Companhia das Letras, pag. 108

6 ARENDT, Hannah. Responsabilidade e julgamento. Companhia das Letras, pag. 107

7 SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Paris, 1970, pag. 26

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