Filosofia no Século XX: A Questão da Legitimidade

Legitimidade do Discurso ou Discurso da Legitimidade

Bruno Amâncio M. Vial

Acho que todos temos o momento em que nossa inocência é perdida. Quando somos crianças, o mundo é um lugar extremamente preto e branco, com o bem e o mal, a verdade e a mentira, o feio e o bonito muito bem definidos. Nossa legitimidade é tão exterior e tão certa, que não nos questionamos. A inocência é um período de belezas e alegrias que podem ser cruéis. Crianças possuem uma crueldade peculiar, que não comporta a maldade, mas apenas a verdade. Um grupo maior, com coisas em comum, sempre exclui alguns poucos indivíduos, que tiveram o azar de nascer e ser diferentes.

Essa diferença pode ser física ou psicológica. As crianças não fazem muita questão de perceberem qual a natureza dela. O discurso que impera em nossa infância é o da verdade e da mentira, do simples e do superficial.

E isso segue até não podermos ser mais crianças. Até termos de ser preparados para a vida no mundo, até quando perdemos nossa inocência, pois nos mostram o que é ser sábio, sociável e conviver com outros.

But then they sent me away to teach me how to be sensible,
logical, oh responsible, practical.
And then they showed me a world where I could be so dependable,
oh clinical, oh intellectual, cynical.

Todos nascemos crianças. Mas invariavelmente seremos camelos. Carregaremos agora coisas mais pesadas, mais profundas, mais cheias, mais sábias, mais Verdadeiras do que a inocência infantil. Teremos experiência e conhecimento, de uma tradição, de uma sociedade, de toda uma história que estará sobre nossas costas e em nossos espíritos. Um novo discurso se aproxima, agora um discurso que finge discutir, que nos leva a sermos todos iguais, que nos quer como todos os outros. Seremos sóbrios, estóicos, heróicos, pois é o certo, é o justo, é o dever.

O mais interessante desse segundo ponto é a necessidade que temos da própria legitimidade nele. Crianças não têm atos legítimos, elas os legitimam. Ou talvez isso não importe realmente para elas. O que quer uma criança com a preocupação com o que é diferente? O que quer uma criança com o se importar com ser cruel? Isso não é coisa de crianças, é algo dos camelos. Pois sim, os camelos precisam justificar o peso que carregam, precisam que faça sentido ter esse peso. Eles precisam mostrar a tenacidade de sua carga, a importância de seus valores, a Verdade profunda que possuem. Pois é uma Verdade que mostra algo superior, maior. Algo que não merece, mas sim precisa ser seguido por todos. O camelo aceita as diferenças, enquanto elas não forem necessariamente diferentes. Ele não julga, apenas condena. Ele olha com piedade aqueles que não entendem, olha com superioridade as pobres crianças. Mas ele sempre se lembra que somos todos iguais. E saber disso é o peso que ele carrega.

O discurso do camelo o leva a um princípio. Um fora do mundo, um dever. A conquista do camelo é o dever. O discurso da legitimidade é aqui um ponto fora do próprio camelo, é o que coloca esse peso que ele tão feliz se oferece para poder carregá-lo. Chame-o de deus, senhor, dragão, humanismo, igualdade. Não há desejo maior para o camelo do que carregar esse fardo, do qual se julga sempre não merecedor, mas o faz em prol dos outros, o faz por uma coletividade, por uma sociedade. Pois é necessário carregá-lo, é necessário fazê-lo. É simplesmente necessário. É seu dever, e isso não deve ser questionado. A felicidade do camelo é carregar o martírio.

There are times when all the world's asleep,
the questions run too deep
for such a simple man.
Won't you please, please tell me what we've learned
I know it sounds absurd
but please tell me who I am
I said now watch what you say they'll be calling you a radical,
a liberal, oh fanatical, criminal.
Won't you sign up your name, we'd like to feel you're
acceptable, respectable, oh presentable, a vegetable!
Oh Take it take it yeah!

Mas existem alguns que não aceitam esse peso. Ferozes e vorazes, esses destruidores natos arremessam o peso dos camelos como se soprassem plumas, pois reconhecem naquele peso apenas o orgulho e o desejo da superioridade. Leões. Temíveis leões que ameaçam, rugem, rasgam e mordem. Há algo que os camelos temem mais que os leões? Sim, mas não falaremos disso agora.

Leões escarnecem do peso do camelo. Aquilo não é peso, é leveza. O peso não está realmente nas costas dos camelos, está sustentado em algum outro ponto, em algum gancho, linha ou cabo, preso àquilo ou àquele que o colocou ali. A isso que o prende fora do mundo, o leão rompe e o despeja de verdade nas costas dos camelos, que não o suporta. O peso, quando é apenas em si mesmo, é muito para ele.

Não entendam mal. O leão foi um camelo, o qual as cordas que ligavam seu peso fora do mundo se romperam. Ele compreendeu então que aquele peso na verdade nunca esteve fora do mundo, mas sempre ali, e que agora ele é apenas seu e não mais quer se esquivar prendendo-o em algum lugar que criou para isso, e ao suportá-lo, deixou de ser o que era.

O leão não deve carregar o peso. Ele o quer. E sabe plenamente o que está carregando e qual é a responsabilidade que ele, e apenas ele, possui. O leão não tem atos legítimos, tais como são os do camelo. O leão legitima seus atos, legitima sua destruição, legitima suas lutas por si. Seu discurso não é legitimo, ele é legitimador. Ele destrói tudo o que o camelo preza, tudo o que o camelo anseia, tudo o que ele deve. E substitui isso apenas pelo querer, desejar, realizar.

O leão quer, sempre, atormentar o camelo, dizimá-lo e dominá-lo, transformá-lo. Uma guerra se trava entre os dois. De um lado, a resistência muda dos camelos, que negam o discurso leonino, afincando-se nas profundas verdades que possuem em suas costas. Do outro, o discurso feroz do leão, que arremessa os próprios pesos dos camelos contra eles. O leão é um destruidor, e o camelo um conservador.

But at night, when all the world's asleep,
the questions run so deep
for such a simple man.
Won't you please, please tell me what we've learned
I know it sounds absurd
but please tell me who I am,
Who I am !!!(x 3)
Who knows who's so logical.

Mas apenas à criança teme tanto o leão como o camelo. Aquela que este olha com superioridade, e aquele com escárnio. Uma criança, que não cresce, é a verdadeira fonte da única coisa que nem o camelo e nem o leão puderam de forma alguma fazer: criar. O camelo encarou seu peso como dever, o leão encarou seu peso como sua vontade. Apenas a criança encara o peso como sua criação. Mais temeroso do que o inimigo que o faz ver seu peso como algo seu e não algo imposto, é aquele que não lhe é um inimigo que lhe faz ver seu peso como ilusório. O discurso da criança, o discurso da simplicidade e da verdade e da mentira mostra apenas que ela não se preocupa com isso. A crueldade infantil não revela valores além daqueles que se quer colocar neles. A inocência infantil não impõe a si ou a outros nada além de suas fantasias e suas vontades que surgem e passam. O inimigo mais temido não é um inimigo. E por isso mesmo ele deve ser sempre menosprezado. É a única forma de se defender dele, a única forma de torná-lo inócuo e fingir que ele não lhe é relevante. A criança, último estado do espírito, e também seu primeiro, é a criação. E a criação, que a partir do nada se faz, não pode ser real, não pode ser verdadeira além das vontades dela. A criança é o que se apresenta.

Apresentado os personagens, esclareço:

O que entendo de discurso?

Discurso é uma das formas possíveis de interação dentro da linguagem sendo, portanto uma das formas de comunicação possíveis. O discurso é, no entanto, a forma de comunicação que lida com mais intimidade com a legitimidade, pois em seu intuito está a comunicação com o espírito (mente, psicológico, id, natureza, ou seja lá como quiser chamar) do outro. O discurso não é uma mera troca de informações, é uma tentativa sempre de passar as próprias informações para o outro e fazê-las com que se tornem dele.

Existem, nesse caso, algumas possibilidades, dentre as quais escolho duas que considero mais extremas para discutir: Um discurso legitimado e um discurso legitimante.

Na primeira, a questão da legitimidade se encontra na base do discurso, sendo-lhe um pressuposto. Não há dúvida que esse é um discurso que discorre sobre coisas legítimas, sejam fatos, ideologias, deveres. É o discurso que se explicita principalmente no campo religioso. No entanto, ele se esconde em diversos outros campos, quase sempre tentando se passar por um discurso legitimante. A ciência, em especial, possui tal tipo de discurso. A tentativa é, sempre, querer igualar para poder punir o diferente, o transgressor, ou negar aquilo que não se encaixa. O discurso legitimado, presente fortemente na modernidade, quer nos dar o que o camelo possui. Um peso que não é nosso, mas que fingimos que o é. É também um discurso estanque, que não admite modificações, pois se o fizesse, desmoronaria. E por isso, deve ser sempre substituído por um outro discurso também legitimado, que fez ares de legitimante para que pudesse se estabelecer. Um exemplo clássico dessa situação foi a alteração do antigo regime absolutista pelo novo regime da revolução francesa. Ambos foram discursos legitimados que se enfrentaram num processo e um deles, cuja comunicação se estabeleceu, saiu vitorioso. Tal enfrentamento é a guerra entre o leão, que quer destruir, e o camelo, que quer conservar. Ambos, no entanto, ainda possuem o peso como certo.

No segundo, a questão é de muito mais difícil compreensão. Um discurso legitimante é aquele que se forma com o processo de modificação e renovação. Não encontrando uma base na qual se apoiar, o discurso legitimante procura sempre, através da comunicação e do processo em que se encontra, mostrar que ele não é verdadeiro ou falso, pois tais conceitos não significam nada. Ele é um discurso em constante mudança e adaptação, e que busca sua força justamente na possibilidade de se mostrar como solução. Tal discurso seria onde se encaixaria, por exemplo, a proposta pragmática de Rorty. A resolução de problemas, conforme se faz necessário, com a imposição de semânticas que criamos. O entrelaçamento de diversas subjetividades encontra sempre uma opção que irá se realizar. O discurso legitimante não coordena a vida como o legitimado, mas se move na mesma teia que se move o entrelaçamento das subjetividades. Enquanto o primeiro procura um caráter objetivo, que o torne comum a todos por si, o segundo apenas é comum a todos, pois não busca satisfazer ninguém, apenas seguindo o rumo do caos e do acaso que regem o mundo. É o discurso da criança, que cria à medida que se faz o mundo.

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