Filosofia no Século XX: A Questão da Legitimidade

O século da ciência e da linguagem. A legitimidade do discurso.

Desirée Gonçalo Timo
1. Introdução

Levando em consideração o último encontro, bem como algumas conclusões a que ali chegamos, em primeiro, gostaria de estabelecer alguns pressupostos. Importante dizer que pretendo ser bem mais informal nesse trabalho; e, ouso tentar, um pouco mais filosófica também.

O pressuposto inicial que gostaria de firmar é que a legitimidade é um processo, tendo como principal característica sua determinação a posteriori. Espero que, nesse sentido, tenha ficado clara minha opinião durante o debate passado.

Em segundo, prestando os devidos agradecimentos ao Hugo e ao Bruno, que me recomendaram a referência bibliográfica principal: Lyotard. Achei importante mencionar que bastante do que conclui acerca do tema contou com questionamentos levantados durante a leitura do texto. No mais, pressuponham como referência tudo o que eu já li na vida...

Enfim, dividi o tema em alguns tópicos que, espero, facilitem a compreensão. Inicialmente há a apresentação de um monte de conceitos importantes para a conclusão. E depois uma difícil conclusão que está me dando dores de cabeça ao escrever esta última frase do trabalho - sim, essa foi a última coisa que escrevi.

2. Linguagem

Mesmo antes de haver lido o A Condição Pós-Moderna, já verificava que diante da necessidade de legitimação, a principal arma era o discurso. Tendo isso em mente, torci para que Lyotard verificasse o mesmo, a fim de que meu trabalho não fosse tão complicado - afinal, legitimar meu trabalho, utilizando-me de um discurso suficientemente bom para refutar o Lyotard seria sobre-humano.

Então, percebi que Lyotard atribui à linguagem o título de "método". Assim, apropriando-me de rápida resenha, sustento que, quanto à linguagem, sob pragmática dos enunciados[1], estes podem possuir diversas propriedades, conforme o objetivo a que se prestem e o contexto em que se insiram (levo em conta a Teoria dos Jogos de linguagem, a partir de Wittgenstein, na qual este filósofo enumera alguns enunciados, na medida do efeito que causam).

3. Ciência

Já é o suficiente o exposto acima, para que se passe a o que tenho a dizer sobre ciência. Resumindo novamente os pressupostos: legitimidade a posteriori, a linguagem como método de legitimação, os Jogos de linguagem servindo a contextos específicos.

A ciência é um tipo de linguagem e, portanto, utiliza-se de jogos próprios que a legitimem. Assim, citem-se algumas características que Lyotard enumera: o saber científico[2] utiliza-se do jogo de linguagem denotativo, procurando excluir os outros; o saber científico dá-se sob pragmática cumulativa, em que se guarda a memória de um projeto, do qual não se extrai validade, já que é verificável por argumentação e prova[3], podendo ser refutado.

Pode-se perceber que a ciência, então, luta para excluir as outras formas de saber que, em princípio, com ela não têm relação. Dentre elas, por exemplo, o saber narrativo. O saber narrativo utiliza-se do relato para sua transmissão, o qual admite diversos tipos de jogos de linguagem, e, por meio dele, são formados vínculos sociais, cuja memória não deixa rastros. Disso conclui, com a ajuda dos comentários do Hugo às margens do texto (rs!), que, em primeiro, o saber narrativo relaciona-se à tradição. Em segundo, e aqui minha compreensão mesmo, tem a tendência a parecer[4] com uma legitimidade a priori.

4. Legitimidade

O que importa, porém, tudo o que se disse sobre saber científico e saber narrativo, quanto à questão da legitimidade?

O saber científico, desde a modernidade, em minha opinião, buscou zelar uma incolumidade face a qualquer outra perspectiva de mundo. Isso, até mesmo sem Lyotard, é fácil perceber.

O difícil de perceber sem Lyotard é a sistematização acima, a qual nos permite concluir que: apesar de todos os esforços da ciência, inevitavelmente o problema de sua legitimação cai em um foco de saber narrativo.

A contaminação tão evitada pela ciência é, a princípio, pelo menos para mim, difícil de perceber e aceitar. No entanto, vê-se:

"(...) os Diálogos escritos por Platão, que o esforço de legitimação entrega as armas à narração; pois cada um deles assume sempre a forma do relato de uma discussão científica. Que a história do debate seja mais mostrada do que relatada, mais encenada do que narrada, e assim refira-se mais ao trágico que ao épico, importa pocuo aqui. O fato é que o discurso platônico que inaugura a ciência não é científico, e isto à medida que pretende legitimá-la. O saber científico não pode saber e fazer saber que ele é o verdadeiro saber sem recorrer ao outro saber, o relato, que é para ele o não-saber, sem o que é obrigado a se pressupor a si mesmo e cai assim no que ele condena, a petição do princípio, o preconceito". (Lyotard, 2006, p.53)

Bem, se pensar Platão é muito distante e/ou muito platônico, pensemos Déscartes, nada mais, nada menos do que um dos fundadores da Ciência Moderna, cujas idéias lideraram durante muito tempo a perspectiva do saber científico. E dele, só se tem a dizer que tudo começa, ou termina, num relato de sonhos.

Se os colegas ainda não acham isso suficiente, peço que reflitam um pouco sobre os tempos em que prevalecia a ciência - hoje acredito estar num tempo da linguagem. O problema era ou não livrar-se de uma idéia de legitimidade a priori? Em minha opinião, isso é uma resultante clara do fato de que, no fim das contas, o saber narrativo, que por muitos ângulos lembra a legitimidade a priori, é presença constante no discurso da legitimidade, do saber científico, ou não.

O mais engraçado foi perceber que, segundo esses critérios, de certa forma, vi o Direito ciência. Uma ciência que brinca jogos de linguagem prescritivos e luta contra a legitimação pelo saber narrativo!!!!!

Bibliografia

LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-Moderna. Tradução: Ricardo Corrêa Barbosa. 9ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

TIMO, Desirée Gonçalo. Tudo o mais que eu já li na vida. 22ª ed. Brasília: UnB, 2008. (Falta do que fazer pouca, hein?! Bjos!)



[1] Qualquer fragmento com sentido direcionado a um interlocutor com um efeito determinado: descritivos, denotativos, prescritivos, interrogativos, etc.

[2] Saber e ciência são diferentes: esta uma espécie de linguagem; aquela uma habilidade de conseguir expressar bons enunciados.

[3] Importante dizer, até para fins jurídicos, que o Lyotard verifica que a lógica de "anuncio um enunciado científico, e creio que a realidade é como digo, então posso provar", não é razoável; é, porém, razoável que, quando posso provar, então, a realidade é conforme o enunciado científico que anuncio.

[4] Não digo que são a mesma coisa, pois, hoje, dentro dos meus parâmetros e escassos conhecimentos acerca da linguagem e de legitimação, considero que mesmo os relatos possuem legitimidade a posteriori, conforme a compreensão do jogo de linguagem de que se utilizam. E também seria demais vocês quererem que eu contradissesse meu pressuposto assim na lata, né?!

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