Filosofia no Século XX: A Questão da Legitimidade

A suposta crise da criatividade. Os novos rumos do século XXI. O que é Original?

Desirée Gonçalo Timo

 

Queria começar dizendo que fiz uma rápida pesquisa no oráculo, a fim de saber o quê, de maneira geral, as pessoas escreviam sobre o assunto. Não, nenhum teórico da arte, nenhum filósofo que escreve sobre legitimidade e afins. Antes, porém, o símbolo do nosso século, o Google. Acho que ele, antes de muitas outras coisas, deveria fazer parte do marco teórico de alguma das minhas prévias.

Foi assim que me deparei com frases divertidíssimas sobre arte e legitimidade. Desde desabafos dos críticos - coitadinhos, estão todos desolados - até comentários, às vezes dos próprios críticos, modernistas ao extremo. Foi cômico.

Iniciei a prévia e, então, percebi que, pelo menos eu, tenho uma sistemática de raciocínio para escrever sobre a legitimidade de qualquer coisa: i) penso no elemento a ser legitimado (como ele é visto, como ele se percebe); ii) reflito nas construções que normalmente aquele elemento proporciona (que tipos de enunciados de linguagem ele busca produzir, quais impressões ele procura passar); iii) só então, penso numa explicação razoável, sim eu disse razoável[1], para a legitimidade dele (suas justificativas e auto-justificativas).

Isso é natural, pois, na minha cabeça, e acho que na de vocês também, a legitimidade é secundária; em termos de momento, não de importância. Primeiro procuro ter uma boa impressão do "o que é", depois parto para a definição de como aquilo se legitima ou é legitimado.

Os críticos fazem como eu: definem o elemento primeiro. No entanto, eles fazem uma pequena confusão. Ao invés de buscar legitimar a crítica[2], eles procuram legitimar a arte. Assim é que a maioria diz que a arte mudou desde o pós-modernismo, perdeu o sentido, o compromisso com a arte em si e se associou a tendências mercadológicas[3]. O que eu pergunto é se a crítica continua a mesma, se ela desde a modernidade simplesmente permanece, se ela é, e se seus objetivos são ou deveriam ser os mesmos.

Acho bastante ególatra a atitude dos críticos de dizer que a arte mudou e, por isso, eles perderam o objeto e estão frustrados. Ora, não me é estranho que estejam assim. Afinal, eles não percebem que o elemento crítica, como a arte, mudou. E isto, sim, está aqui em discussão. A mim, parece-me que os críticos se comportam como os cientistas[4], mas com o infortúnio de não terem um objeto de estudo que proporciona tantas verificações em face do mundo real, gerando enunciados que pareçam aprioristicamente legítimos[5].

Uma pena, segundo os críticos. Uma sorte, em minha opinião. A crítica não deveria se prestar a tais legitimidades, das quais já estou bem cansada, na verdade. Agora sim, definindo o elemento crítica, a minha opinião.

A crítica é uma forma de manifestar seus sentimentos em relação a algo, alguém. Simples assim. O grande problema é o tamanho da pessoalidade[6] que está envolvida de um lado e de outro. Quem critica, sempre coloca a impressão, a sensação, o sentimento que o objeto criticado lhe transmitiu, ou transmite. E o objeto criticado sempre contém a totalidade de quem o produziu. É aí que vejo a morada da dificuldade de aceitar uma crítica e a responsabilidade de fazê-lo.

E onde residiria a legitimidade, então?! Na realidade, não sei se seria o caso de legitimar a atitude de criticar. Sempre me enxerguei, e a todas as outras pessoas, como "ser crítico". No momento em que vejo algo, aquilo já suscita em mim um sentimento e assim, já produzi um enunciado crítico em mim que posso expressar ou não. Portanto, "é legítimo criticar" é uma pergunta como "é legítimo comer".

Portanto, se quiserem discutir a legitimidade de dormir, poderemos fazer isso, mas eu diria que a minha opinião estaria mais para um bem supérfluo: "é natural do ser humano". Chocante escrever isso e pensar que agora estou para dizer o que vou dizer: é natural do ser humano criticar!!!!!!! Na verdade, é um direito do ser humano criticar[7].

Está chegando a hora das minhas conclusões mais corridas... Assim, concluo que o crítico de arte é como qualquer outro ser humano normal que deseja expressar o que sentiu em relação a tal ou qual coisa. E de maneira natural todos nós deveríamos encarar esse trabalho.

Apesar disso, ainda considero que existe relevância para o trabalho de um crítico. Isso porque acredito, enfim, que existem pessoas que conhecem mais ou menos de um assunto. Ainda lembro que o Lyotard, se não me falha a memória, define o conceito de experts nesse sentido. Tendo mais conhecimento em uma área, acredito que a opinião de um crítico possa vir a ser, não mais válida, mais legítima, mas mais interessante, mais educativa (no sentido de que possamos todos, até o criticado, aprender alo com aquilo).

Diante disso, é que observo que uma crítica vai ter maior ou menor grau de relevância na vida de uma pessoa ou de outra[8]: o interesse, a utilidade, dentre outras coisas que integram, na verdade, a legitimidade subjetiva da pessoa que lê, ouve uma crítica.

Bem, acho que ainda poderia escrever mais, mas vou deixar para outra oportunidade e acrescento aqui dois excertos de textos que encontrei sobre legitimidade+arte+crítica.

 

Texto 1

É mais ou menos consensual, mesmo entre os próprios artistas, que a crítica de arte perdeu relevância e poder. (...)

Hoje, os próprios críticos remanescentes admitem que seu papel deixou de ser o de juízes para ser o de espectadores. E para quem sobrou a função de juiz? Ao curador. Os críticos trocaram o papel de mediação ativa que tiveram no passado pelo papel passivo de comentadores neutros, na periferia do sistema da arte. Com poucas exceções, isso se manifesta tanto na imprensa quanto na produção acadêmica, sendo que esta tem um agravante: o obscurantismo da linguagem, que dá um verniz de sofisticação e de inacessibilidade à falta de rigor e a incapacidade de se expressar claramente (...)

Por fim, até o Modernismo, a arte estava indo para algum lugar; foi assim que Clement Greenberg pôde, tendo ou não razão, interpretar a arte moderna como um processo histórico cuja lógica interna desembocou no expressionismo abstrato - e coerentemente, a questionar a "artisticidade" dos ready-mades de Marcel Duchamp e das paródias da Pop Art. Com o decreto pós-moderno do fim das grandes narrativas, os artistas perderam essa ambição de abrangência e passaram a se movimentar de forma errática, seguindo os fluxos do mercado com seus comentários neutros e modestos, caso a caso. Com isso se dissolveu a base para qualquer interpretação consistente da arte contemporânea. Em que valores se pode basear o julgamento de um cubo de chocolate ou de uma mesa de pingue-pongue coberta de cascas de ovo?(grifei)

Adelar Bazzanella. Clique aqui para ler o artigo inteiro.

 

Texto 2

A obra nasce com a leitura e esta é feita de acordo com determinado horizonte de expectativas. Que horizonte seria esse? Assemelha-se a um conjunto de hipótese compartilhada por uma geração de leitores. Entre o leitor, a obra e o público forma-se uma cumplicidade de informações e valores, de tal sorte que se instaura entre eles verdadeira harmonia com o quadro social.
A apreciação individual do crítico, quando atinge os canais de comunicação com o publico, exerce função didática, estabiliza conceitos e ajuda a fixar padrões de gosto. De forma auxilia a formular a avaliação coletiva e social da obra de arte.
A legitimidade do juízo crítico provém do julgamento da posteridade, quando lhe dá sustento, homologação e reconhecimento, o que pressupõe a objetivização do valor, ainda que de modo empírico. A longo prazo, a boa literatura prima sobre a má,que cai no olvido. O tempo cassa a literatura dos falsos valores, consagra a tradição do novo. Instaura a dinâmica da negatividade. Obras excepcionais refazem o quadro contextual, alteram o gosto e as expectativas.
Escolas e teorias passam e a obra continua sem a resposta cabal dos seus críticos. Ela aparece costumeiramente caucionada a uma verdade. A verdade transitória da época.

Fábio Lucas. Clique aqui para ler o artigo inteiro.



[1] Eu poderia dizer "mais ou menos", que foi o que eu realmente quis dizer, mas ia ficar deselegante. Por favor, sem críticas, julgamentos antes do fim! :P

[2] E é aqui que penso que pensar em uma legitimidade subjetiva, no sentido de "o que me legitima a falar", seria importante.

[3] Não estou dizendo que isto não aconteceu. Verão mais a frente que eu só não quero me concentrar nesse elemento, já que não é o que está na pauta! :D

[4] Ver prévia 2.

[5] O que antes acontecia: uma crítica poderia acabar com a carreira artística de alguém, simplesmente porque foi este ou aquele crítico quem comentou. "E, se ele disse, então é certo que aquilo não tem futuro".

[6] Juro que prefiro essa palavra a subjetividade.

[7] Fui abduzida! Quem sou eu e onde estou! Quem tomou conta das minhas idéias.

[8] Que eu até gostaria de trabalhar mais, mas infelizmente, em virtude da extensão do trabalho, não vou fazer.

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