Filosofia no Século XX: A Questão da Legitimidade

A suposta crise da criatividade. Os rumos do século XXI. O que é original? O que legitima um crítico?

Claudia Dantas

"É a arte a obra do gênio. Ela se reproduz, se constitui em artes plásticas, poesia ou música. Sua única origem é o conhecimento das idéias. Seu único objetivo, a comunicação deste conhecimento. Enquanto a ciência, prosseguindo a torrente incessante e instável das causas e dos efeitos, (...) em cada meta atingida é continuadamente forçada a ir adiante, sem poder atingir um objetivo último, uma satisfação plena (...); ao contrário, a arte sempre está em seu objeto. Pois ela, a arte, arranca do curso dos acontecimentos do mundo o objeto de sua contemplação, isolando-a de frente a si algo individual. (...) Tornando-se seu representante do todo, (...) ela permanece portanto neste individual, detém a roda do tempo, as relações desaparecem para ela e somente o essencial, a idéia, é seu objetivo" (Schopenhauer, "O mundo como vontade e representação").

 Essa palavrinha, "crítica", está sempre carregada de um quê de desconstrução... Diante dela, uma armadura certa, pronta à defesa de qualquer ataque indesejado. A crítica é uma daquelas armas que servem para muitas coisas, algumas úteis, outras inúteis.

E aqui, antes de prosseguir, deparo-me com um problema semântico (pq não chegamos a definir sobre o que é essa crítica da qual nos dispusemos a meditar...). Diante de tema tão rico, algumas possibilidades:

1) crítica como julgamento objetivo: aferição da legitimidade de uma produção humana qualquer. Embora tenhamos chegado a um consenso quanto a esse ponto, haveria algo ainda a se dizer, p. ex., sobre o crítico de arte ou o especialista de qualquer área do conhecimento e sobre o valor simbólico econômico dessas críticas[1].

2) crítica como forma de apreensão/compreensão do mundo e dos outros; senso crítico. Exercício interno de percepção dos argumentos falaciosos[2]; daqueles que nos servem ou não; daqueles que aceitamos ou não. Somado a uma atitude de humildade e aprendizagem, leva a uma constante avaliação e reavaliação, e conseqüentemente de crescimento, de nossos fundamentos. E aí já temos uma outra perspectiva:

3) crítica como diálogo. Somos seres mediados pela linguagem (corporal, falada, artística, etc) e, nesse sentido, podemos perceber a crítica como um diálogo pelo qual são evidenciadas as nossas "consonâncias" e "dissonâncias"[3].

Da primeira perspectiva (n. 1), não acredito em uma "legitimidade para criticar". Não há legitimidade nesse crítico que, arvorando-se o bam-bam-bam, acha defeito em tudo o que os outros fazem. No entanto, os críticos existem, são reconhecidos e sua palavra influencia a arte, o público, o mercado[4]. O mínimo que se pode esperar de tal crítico é que tenha domínio dos elementos de linguagem do objeto que se põe a criticar. Nas artes visuais, p. ex., o crítico domina os elementos da linguagem visual; na música, os elementos da linguagem musical, etc[5]. O crítico é quem pretensamente detém o juízo legítimo de discernimento entre arte e não-arte (estranho é que a maioria dos críticos de arte não são artistas...). Se a arte é linguagem, quando diz algo é arte; para quem fala, é arte; para quem ouve, é arte. E se somos únicos e tantos, que dizer de tantas artes?

"A arte deve antes de tudo e em primeiro lugar embelezar a vida, portanto, fazer com que nós próprios tornemos suportáveis e, se possível, agradáveis uns aos outros. Com essa tarefa em vista, ela nos modera e nos refreia, cria formas de trato, vincula os não educados a leis de conveniência, de limpeza, de cortesia, de falar e calar a tempo certo. Em seguida a arte deve esconder ou reinterpretar tudo que é feio, aquele lado penoso, apavorante, repugnante que, a despeito de todo esforço, irrompe sempre de novo, de acordo com a condição da natureza humana: deve proceder desse modo especialmente em vista das paixões e das dores e angústias da alma e, no inevitável ou insuperavelmente feio, fazer transparecer o significativo. Depois dessa grande, e mesmo gigantesca tarefa da arte, a assim chamada, arte propriamente dita, a das obras de arte, é somente em apêndice (...) mas, de hábito, agora começam a arte pelo fim, penduram-se à sua cauda e pensam que a arte das obras de arte é a arte propriamente dita, que a partir dela a vida deve ser melhorada e transformada ¾ tolos de nós!" (Nietzche, "Humano, demasiado humano - um livro para espíritos livres").

 A crítica também pode ser percebida enquanto arma de embate (n. 2). Serve a desconstruir os falsos argumentos, a identificar os falsos fundamentos, a perceber as falhas, as lacunas. Julgamos os argumentos, os fundamentos; identificamos as miopias, mesmo sabendo que com as nossas próprias.

Aqui, a crítica é eficaz na medida das habilidades do crítico. Vencem os melhores argumentos. Serve a derrubar o oponente, mas não só. A desconstrução leva a que algo novo substitua o que foi desconstruído, e assim caminhamos. O que vale, aqui, é percebermos que, embora nas artes a presença do "sentimento" seja mais vivo enquanto elemento subjetivo que efetivamente levamos em consideração, isso não é, ao final, diferente no Direito ou na ciência. Nossas críticas nunca são tão racionais que não se deixem levar por nossas paixões...

"Todas as paixões, o amor, a alegria, a cólera, o ódio, a piedade, a angústia, o medo, o respeito, a admiração, o sentimento da honra, o amor da glória, etc., podem invadir nossa alma por força das representações que recebemos da arte. Tem a arte o poder de obrigar a nossa alma a evocar e experenciar todos os sentimentos, resultado este em que razoadamente se vê a manifestação essencial do poder e da ação da arte se não, como muitos pensam, o seu último fim.

Utiliza a arte a grande riqueza do seu conteúdo no sentido de, por um lado, completar a experiência que temos da vida exterior, e, por outro lado, evocar de um modo geral os sentimentos e paixões (...), afim de que as experiências da vida não nos apanhem insensíveis e a nossa sensibilidade permaneça aberta a tudo quanto ocorre fora de nós." (Hegel, "Estética - a idéia e o ideal")

 Da terceira perspectiva (n. 3), a crítica enquanto senso crítico é mais uma análise filosófica, um meditar sobre o objeto e seu significado. Se do ponto de vista anterior (n. 2) a crítica é arma, aqui é ferramenta.

Criticar, nesse sentido, é deixar ou não que, diante de uma fala qualquer (uma manifestação do pensamento do outro que pode tomar as mais variadas formas), nos diga algo; é ouvir o que o outro tem a dizer, tentar compreender e, assim, deixar ou não que isso que se diz nos modifique a nós mesmos e às nossas percepções. A arte só nos fala se nos debruçarmos a escutar. E, nesse escutar, nem tudo compreendemos; o que compreendemos, parte rejeitamos, parte acolhemos.

A crítica é o juízo interno que fazemos para separar o que nos serve ou não. Nesse sentido, a todo momento somos críticos de tudo o que nos circunda. Aquilo cuja essência nos agride ou nos agrada. Aquilo que nos parece belo, bom, justo.

Criticar, nesse sentido, é não simplesmente assimilar ou rejeitar de modo impensado ou açodado. É medir, analisar, meditar.

E um juízo crítico serve a quem produz e a quem assimila.

Somos seres criativos/criadores e lingüísticos. Não criamos somente. As criações humanas não servem só ao seu criador. Enquanto resultado de uma apreensão/compreensão de mundo, são transformadoras ("A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação" - Fernando Pessoa).

Mas nem tudo é pensado e transmitido/apreendido criticamente. Somos tão complexos que, por vezes, rejeitamos nosso próprio juízo crítico. Amamos porque amamos, achamos belo e não sabemos dizer o porquê. E, assim, voltando ao nosso tema das subjetividades, somos maravilhosamente incompreensíveis...

"Toda ação, com efeito, é assim que se apresenta: em si mesma, enquanto simplesmente praticada, nem é bela nem feia. Por exemplo, o que agora nós fazemos, beber, cantar, conversar, nada disso em si é belo, mas é na ação, na maneira como é feito, que resulta tal; o que é bela e corretamente feito fica belo, o que não o é fica feio. Assim é que o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente." (Platão, "O banquete")


[1] Alguém aí viu "Ratatouille"?

[2] Vide "Senso Crítico", David William Carraher (livrinho bem receitinha de bolo, mas que traz uma série de exercícios práticos para se identificar falhas de argumentação; trata principalmente das falácias).

[3] Discussão sobre o 3º paper - psicologia social. Vide Shopenhauer "A arte de ter razão".

[4] Embora a relação arte/mercado seja relativamente recente, hoje, é paradoxalmente difícil separar o valor artístico do valor econômico. O "reconhecimento" da "crítica" quase sempre vem acompanhado de valorização econômica. Fica difícil saber quando o artista quer espaço ou dinheiro... quando o crítico é artista ou regulador de mercado. Fazer o quê!

[5] Nas artes plásticas alguns elementos que servem à análise são: temática, técnica e elementos de composição: cânon/proporção; enquadramento (simétrico/assimétrico); esquema; ponto focal/perspectiva; planos; forma; tonalidade; luminosidade; ritmo; movimento (retilíneo/curvilíneo). Na música, sistema (tonal/modal); forma; tema e desenvolvimento (contraponto: variações/harmonia: tonalidade, modulações); textura harmônica (monofonia/homofonia/polifonia); ritmo; dinâmica; andamento; timbre/sonoridade, etc.

Página anterior Próxima página
Capítulo 31 de 34
Sumário
Arquivos
Relacionados
Licença Creative Commons | Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas
Alguns direitos reservados
Exceto quando assinalado, todo o conteúdo deste site é distribuído com uma licença de uso Creative Commons
Creative Commons: Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas

Como seria o Vade Mecum dos seus sonhos?

Estamos trabalhando em um Vade Mecum digital, inteligente, acessível e gratuito.
Cadastre-se e tenha acesso antecipado e gratuito à nossa versão beta.