Filosofia no Século XX: A Questão da Legitimidade

Legitimação da crítica

Hugo Martins dos Reis

Da preliminar de mediocridade.

 

Também, como o Lucas, decidi relaxar totalmente nessa prévia. Isso, aliás, já é uma "advertência c/c com pedido de desculpas" ao leitor de que daqui talvez não saia nada de que se aproveite muito. Primeiro que desta vez eu começo o texto do zero. Não sei o que vou escrever, o quanto, meu objeto final, nada.

Segundo, e mais importante, essa é a menos pretensa das minhas prévias[1]. O objetivo que tracei no início do curso era de organizar meus raciocínios, de uma forma coerente (não-contraditória), os diversos modelos de pensamento que eu tinha em áreas não correlatas e produzir, com isso, um modelo que me permitisse avaliar melhor o fenômeno da legitimação do Direito sob suas diversas perspectivas. Sinto que atingi esse objetivo nas primeiras três prévias. Estou vivenciando aquele momento de semi-certeza de alguma coisa, de segurança das próprias convicções, de estabilidade. Com essas reflexões, cheguei a um modelo resultante tão coeso e sólido que, apesar de ter desejado tal resultado no início, tenho dúvidas se isso seria bom ou ruim. Uma parede muito sólida e resistente é boa quando se precisa dela pra construir mais acima, ou para resistir às intempéries do tempo. Porém é muito ruim quando se quer desconstruí-la para começar algo novo. Como disse o Lucas, agora "inverto o ônus da prova: me mostrem um sistema apto a sobreviver às minhas críticas e eu o seguirei".

 

Do que interessa.

O texto do Pedro, como sempre, me deu uma grande vontade de sofá velho + cobertor + xícara de chocolate quente. Fico pensando se até as "contraminutas de agravo de instrumento" dele são assim. E o conteúdo é tão bom que basearei essa prévia nele. Assim, se você ainda não leu (o que duvido muito), já sabe...

O Pedro reputa a pretensão do crítico ao seu complexo de superioridade. Eu digo que tudo começa a partir de um sentimento de inferioridade. Em um primeiro momento, pode parecer que, pelo que vou falar, eu discordo dele. Mas não. Tenho a mesma opinião que ele, apenas lançarei o olhar a uma "causa primeira" dessa "arrogância intelectual". Afinal (correndo o risco de ser taxado como "geek" da psicologia) como expõe Alfred Adler, "quando as pessoas têm um irresistível sentimento de desamparo, elas em geral se sentem inferiores. Esses sentimentos tornam-se difusos e a pessoa desenvolve um complexo de inferioridade. A luta individual para superar esse complexo pode criar o complexo de superioridade como forma de manter um sentimento de auto-estima"

Imagine o pobre do ser humano, tadinho (hehehe), nasce num mundo contínuo. Ele não vive, apenas passa pelo mundo como um caroneiro. Depois de tatear as coisas, aprender as leis da física na prática, ele começa a se perguntar de coisas mais profundas. Logo conhece uma religião que lhe postulará a maioria das respostas (com a religião é mais fácil, pq não só as respostas estarão sempre corretas, como você não pode nem deve questioná-las, já que são dogmas. Isso encerra a questão pra muitos). Pois, a incerteza das coisas causa insegurança e desconforto.

Por vezes uma pessoa sente aquela sensação de estabilidade pela qual estou passando agora. Cria uma parede dura de segurança e se sente bem, pois não é qualquer um com suas "idéiaszinhas" que conseguiria destruí-la. Mais ainda, se sente feliz. Deslumbra a "beleza" da eficiência de suas respostas como um tesouro, e a ostenta aos outros na primeira oportunidade.

Alguns o fazem, com certo altruísmo, na esperança do outro também compartilhar dessa beleza e segurança. Possuem a pretensão de ensinar. Outros o fazem com desdém, como retratou bem o "nós, os ridículos". Apenas exibem e desfilam a beleza de suas idéias com o olhar da arrogância.[2][3]

Contudo, pode surgir, alguma hora, uma idéia que bata com tanta força da sua "parede" que, mesmo que você chore e esperneie, ela vá a baixo em ruínas. Lembro da sensação que Branca Dias experimenta ao passar pela famosa "quebra de paradigma por Copérnico":

"(...) eu me senti tão só, tão desamparada. Só me aconteceu isso uma vez, quando eu era menina e alguém me disse que a Terra se movia no espaço. Não sei que sábio havia descoberto. Até então, a Terra me parecia tão sólida, tão firme... de repente, comecei a pensar em mim mesma, uma pobre criança, montada num planeta louco, que corria pelo céu girando em volta de si mesmo como um pião. E tive medo, pela primeira vez na vida. Uma sensação de insegurança me fez passar noites sem dormir, imaginando que durante o sono podia rolar o espaço, como uma estrela cadente."

Nesse momento, voltamos a nos sentir inseguros, e é a hora em que "jacaré vira canoa". Por isso que vejo o ser humano esse pobre indefeso e cheio de dúvidas, que por vezes sofre ao ver algumas de suas únicas certezas da vida irem ao chão. Alguns ainda tentam lutar com argumentativas não muito plausíveis e fortes até se fecharem de vez ou perceberem que a parede não tem conserto e é hora de construir algo novo.

Por fim, hoje vivemos uma condição em que tudo pode ser válido, e sua opinião mais erudita pode ter tanta validade quanto à opinião da loira do tchan. Assim, chegamos à pergunta acerca da legitimidade da crítica. Se pensarmos nessa pergunta sob a perspectiva de "o que faz sua idéia ser melhor que a dele?", então não encontraremos a resposta no marco teórico que vivemos.

Contudo, compartilho muito das opiniões da Dê e do Mateus[4] nesse sentido. É natural ao ser humano o ato de criticar. É natural rirmos de uma criança quando ela afirma que a Terra é parada e plana. Mais ainda, suas opiniões só podem ser firmes/frágeis frente a outras.[5] Também é natural que os "ridículos" do Pedro riam dos modernos ou jusnaturalistas. Nossa certeza/convicção se alimenta disso. E nos sentimos seguros e fortes.

Criticar é um fato. O ser humano, ao pensar, escolhe opiniões e despreza outras ao montar a sua colcha de retalhos, que será sua opinião própria e única. Também é natural a resistência, mesmo que "ilógica", de alguns ao ver suas opiniões confrontadas.

Portanto, se voltarmos à pergunta da "legitimidade da crítica" para redimencioná-la à "legitimidade do comportamento crítico" - mesmo arriscando falar de uma filosofia do ato crítico - diria que danoso é a arrogância. E que é sempre melhor escolher a atitude do professor a do crítico de Ratatouille .

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É natural rirmos de uma criança....



[1] A mais pretensa era a terceira, que acabou não saindo quase nada do que queria afinal, por n motivos, desde dores de cabeça a um professor nazista de DPCIII. Pretendo reescrevê-la algum dia, e ingressar mais no campo da psicologiaXdireito, estudando algo além da "psicologia forense" e "psicologia criminal" que domina essa comunicação disciplinar.

[2] Alguns diferenciam de "crítica construtiva e crítica destrutiva". Nunca gostei muito dessas definições, mas valem agora. Contudo, esse parágrafo serve para adicionar, à perspectiva do Pedro, a perspectiva do "professor". Não dá para comparar este ao crítico de Ratatouille, que o Mateus bem citou. Difere dizer "este prato esta intragável" de "na minha opinião, acho que você deveria experimentar colocar menos sal".

[3]Isso também é muito fácil de ser visto mediante a perspectiva dos jogos de linguagem. Numa discussão, você dá "lances" querendo ganhar. Assim, veja que, nas atitudes das críticas que expus acima, não incluo o sentimento de "troca de idéias". Este, acredito, acontece quando você não está tão convicto e estável em suas opiniões e busca encontrar visões novas que te auxiliem a completar seu "quebra-cabeças".

[4] Apesar de não distinguir como ele as possibilidades de críticas.

[5] Cheguei a tratar disso na 3ª prévia. Contudo o Mateus sentiu falta de que eu terminasse de explicar aquele ponto: "Ex. 5, "dissonância provocada pelo desacordo com outros": Quando uma pessoa enfrenta uma opinião contrária à sua, sustentada pó pessoa semelhante, sente dissonância. Aqui, a extensão da dissonância dependerá de fatores como importância da pessoa ou grupo que exprime o desacordo, b) importância e adequação, para o indivíduo, da questão que provoca o desacordo, etc. As maneiras de reduzir essa dissonância são várias." Podemos então ver duas possibilidades para a redução dessa dissonância: a) se a porrada (outra opinião) for mais forte que sua "parede", você irá repensar suas opiniões, e b) se for a porrada for mais fraca, você ficará orgulhoso de como sua parede resistiu, irá menosprezar aquela porrada e, por conseqüência, exaltar a resistência de sua parede.

 

 

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