Filosofia no Século XX: A Questão da Legitimidade

Legitimidade da crítica ou crítica legitimante?

Mateus Bernard Takano

Na minha terceira prévia sintetizei em um parágrafo tudo que tenho para dizer sobre este tema. Não consegui fazer grandes reflexões, nem aproveitar nenhuma leitura, o que me deixa na monótona situação de apenas tentar explicar alguma coisa.

Retomando o que interessa: "Que se utilize um relativismo crítico! Contudo, que não se fique apenas na crítica! (...) O trabalho é reconhecido pela qualidade, e não pelo defeito, pois, por mais que tenha defeitos, suas qualidades produzem (ou produziram) efeitos que reconhecemos como desejáveis.".

Não faz muito sentido esse posicionamento porque não diz muita coisa, ou melhor, não faria, pois vivemos um niilismo sobre diversos assuntos (o amor, como abordado pelo colega e, mais restrito ao tema inicial, o gosto). Em qualquer outro tempo essa afirmação seria desnecessária e vazia, mas não após o vazio deixado no lugar do bem e do mal.

Boa parte dos discursos depende (e sempre dependeu) de qualificar o que é bom ou ruim, o que é certo ou errado, blá blá blá. Essas qualificações não surgiram como forma de categorização ou sistematização, mas de uma forma muito mais singela. Se dá choque é ruim, se alimenta é bom. O problema é que nós temos a tendência de formular macetes para agilizar nossas ações, mas nem sempre lembramos de manter algum conhecimento além do macete. É como elaborar uma fórmula e querer usar para tudo. É preciso ter uma mínima consciência de quais situações podem ser resolvidas por aquela fórmula.

Independentemente da existência do certo ou do errado, essa é uma classificação útil, e a maior imbecilidade de quem se deixa levar pelo relativismo é achar que a existência é algo tão crucial a ponto de pôr tudo a perder. A própria existência, nesse caso, deve ser relativizada, pois também ela não pode ser imposta como condição absoluta. Em outras palavras, como bem foi dito na prévia de outro colega, tudo isso existe como conceito. Conceitos que são, simplesmente, a única forma de pensar tudo que questiona a si mesmo.

Não é preciso um critério para agir, mas a questão "o que fazer?" é inevitável. Na medida em que o indivíduo identifica mais ou menos o que ele deseja e o que teme, a questão fica mais complexa. "Como fazer?", "devo fazer?", "por que fazer?". Todas essas perguntas não fazem sentido sem que estejam ligadas a desejos. Ações reflexas, contingências em geral, nada disso interessa para a legitimidade. Este é um conceito que perde o sentido se absoluto. A "verdade", como assim já foi chamada a legitimidade, perdeu sua força justamente por querer abranger o que não lhe permeia.

As contingências interessam à previsão, à margem de erro, ao conhecimento das variações. As contingências, em si, nada podem fazer contra constatações contextualizadas. Podemos afirmar, por exemplo, que comportamentos agressivos não são desejados. Isso não quer dizer que a agressividade seja um mal em si, mas que, em determinado contexto, a agressividade atrapalha uma estabilidade necessária para realizar um propósito. A ocorrência de uma situação em que a agressividade sirva para conservar a realização do mesmo propósito não contradiz a fórmula, que estava preparada para ser usada enquanto não houvesse a contingência.

Enfim, as questões básicas não precisam de respostas tão exaustivas a ponto de formar um sistema. Um sistema é só um joguinho para compensar as deficiências em relação a essas bases. Em termos de teoria, só o que vale pesar é o velho "bom senso". "Essa argumentação é plausível?". Na prática, o que se pode usar em relação a contingências e a limitações próprias é algo como a teoria dos jogos, abordada pelo colega.

Não vou usar a mesma abordagem do colega, então fico com a "razoabilidade dos discursos". Neste semestre, duas afirmações do Alexandre chamaram minha atenção: "é melhor um aplicador crítico que um burocrata que reproduz com mais eficiência" e "é possível aplicar a lei por princípios sem que valha qualquer discurso, pois é possível aferir a razoabilidade desse discurso". Não foram exatamente essas as palavras e eu devo estar cometendo grandes injustiças, mas finjam que foi isso para eu continuar meu texto.

Quanto à primeira afirmação, apenas no final da aula entendi o que seria o senso crítico em um sentido mais filosófico. Não se trata de questionar os outros, nem de estruturar os próprios propósitos, mas de questionar a si mesmo. Algo traduzido de maneira poética no filme "Ratatouille", quando o crítico faz a própria crítica: "Nós críticos nos arriscamos pouco e prosperamos fazendo críticas negativas, que são divertidas de escrever e de ler. Mas o fato mais duro que devemos admitir é que a porcaria mais medíocre é provavelmente mais significativa que a nossa crítica.". Tal questionamento levou a personagem a entender o sentido daquilo que ele tanto criticava: a arte é uma expressão livre e pode surgir de qualquer lugar. Compreende, enfim, que o crítico pode se arriscar quando descobre e defende algo novo: "O mundo é um lugar hostil para o novo. O novo precisa de amigos. Ontem provei uma refeição notável de uma fonte extraordinariamente inesperada. Dizer que eles desafiaram meus maiores preconceitos é um eufemismo grosseiro. Abalaram-me profundamente!".

Quanto à segunda afirmação, a velha razoabilidade desafia os limites dos discursos que dependem de valorações. De fato, não é que a razoabilidade se concretize em um princípio aplicável a partir de uma norma que emana forças próprias. A razoabilidade melhor seria interpretada como um parâmetro, que inclusive poderia ser substituído por outro. De uma forma ou de outra, é preciso valorar. Que seja de uma forma que instigue a consciência daqueles que recebem a cultura permeada por esses valores. A razoabilidade pode ser um convite a atuar, verificar o que é razoável, pois não adianta afirmar o que é razoável por meio de proposições. Não se criam garantias escrevendo palavras em um papel, nem proferindo belos discursos. Se pudéssemos estruturar qualquer coisa por meio de garantias, não mais seria necessário defender qualquer coisa, pois seria possível garantir. A transformação é a nossa própria origem. Não há que se compreender nada sem levar em conta o movimento. E mesmo as melhores previsões estão sujeitas a transformações, pois elas mesmas apenas tem sentido porque se referem a transformações.

Por fim, trago algo poético. Lembrando as palavras postas na boca de Beethoven em "Minha amada imortal", a verdade da música é que ela obriga o ouvinte a questionar o que o compositor estava pensando. Só assim a música provoca uma sensação que tenha algum valor. "Eu não entendo. O que a música faz?". Responde seu amigo: "Exalta a alma.". Beethoven: "Bobagem! Ao ouvir uma marcha, sua alma se exalta? Não! Ela marcha! Se é uma valsa, você dança! Na missa, você comunga! A música tem o poder de fazer você entender o que se passa na cabeça de um compositor. O ouvinte não tem escolha. 'É assim que as coisas são' diz a música. Não como você está habituado a ser, não como você está habituado a pensar, mas assim.". Não como você está habituado a ser e não como você está habituado a pensar. Poderia a arte significar mais do que isso?

 

Página anterior
Capítulo 34 de 34
Sumário
Arquivos
Relacionados
Licença Creative Commons | Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas
Alguns direitos reservados
Exceto quando assinalado, todo o conteúdo deste site é distribuído com uma licença de uso Creative Commons
Creative Commons: Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas

Como seria o Vade Mecum dos seus sonhos?

Estamos trabalhando em um Vade Mecum digital, inteligente, acessível e gratuito.
Cadastre-se e tenha acesso antecipado e gratuito à nossa versão beta.