Filosofia no Século XX: A Questão da Legitimidade

Nós, os ridículos

Pedro Felipe de Oliveira Santos

Há muito afirmamos a relatividade das verdades, mas defendemos brava e assustadoramente aquelas que adotamos, tal como absolutas fossem. Construímos e desconstruímos argumentos, negamos, palpitamos, gesticulamos, alfinetamos e, quando os instrumentos ordinários não se evidenciam suficientes, apelamos para o 'não concordo', ou para 'o seu argumento é frágil', ou, ainda, para o 'você não entende a minha crítica'. Ou - por que não? - à indiferença do silêncio.

Lemos meia dúzia de livros a mais do que a maioria dos colegas e alcançamos a convicção de que somos espíritos livres, mais sapientes e sensatos. Os demais alcunhamos de limitados. Não lhes apetece a filosofia. Crêem-na desnecessária. São burros. Não enxergam o que é tão evidente! A filosofia é importantíssima! O que eles teriam a oferecer adotando esse discurso? São descartáveis! Excluamo-los! Nossas verdades transcendem a nossa própria sapiência. Afirmamos com tanta veemência a inexistência de verdades absolutas exatamente porque julgamos, inconscientemente, ser ela a mais absoluta das verdades.

Criticamos o amigo jusnaturalista que coloca seu próprio Deus no mais virtual dos altares. Chacoteamos (e chicoteamos) não apenas as suas verdades, como também as suas atitudes e as suas feições, mas rezamos sempre três ave-marias quando se aproxima um homem estranho segurando uma faca no estacionamento escuro do Olimpo. Pobre servo do senhor... Citamos Heidegger, questionando a razão pela qual os alienados preferem o ente ao nada; citamos Nietzsche, zoando dos homens-ovelhas e nos auto-intitulando de pastores; endeusamos Saramago, ao falar do homem-cego, do Jesus-homem, da Morte-homem e do Diabo-herói. Mas somos bravos! Somos fortes! Somos deuses! E nada nos deterá.

Questionamos agonicamente como os outros, imersos em nossa mesma cultura, portando valores relativamente idênticos aos nossos, não enxergam as verdades tão evidentes que vemos. Eles são cegos, lamentamos. E mais: questionamos ainda a cultura alheia com base unicamente nas nossas próprias verdades, sem nos postarmos como um intermediário. Olvidamos das particularidades de cada retina, de cada tímpano, de cada pele e de cada nariz.

Precisamos ser coerentes? Oh, que saída triunfal! Esse questionamento soa adequado aos pastores sem respostas e assustadoramente intrigante às ovelhas, capaz de deixá-las boquiabertas e pensativas por horas (sim, admitamos: as ovelhas também pensam; não tão eficazmente como nós, os livres, entretanto!).

A incorporação do discurso da incoerência é a panacéia (ou um simples paliativo): podemos afirmar que o posicionamento alheio é ilógico e, imediatamente, retrucarmos com idéias sem pés e cabeça; pegar o melhor de dois mundos; tirar proveito aqui e ali, criticar e desconstruir. Podemos desconstruir, desconstruir e desconstruir, sem nos preocuparmos em trazer do entulho uma nova proposta. Não precisamos ter esse compromisso: afinal, ao contrário dos demais, fazemos questão de demonstrar que preferimos (ou fingimos preferir) a incoerência, a inconstância, ou - como diria caprichosamente um grande amigo - o caos. Mas somos bravos! Somos fortes! Somos deuses! E nada nos deterá.

Passamos a vida inteira tentando justificar os nossos atos, comportamentos e valores. Afirmei isso porque acredito naquilo. Colei na prova de Processo Penal, mas o professor é um picareta. Assinei um documento que considero anti-ético, mas fui obrigado a fazê-lo. Traí, mas o fiz amando minha esposa. Traí novamente, mas continuo amando minha esposa. Traí pela milésima vez, e concluí que fidelidade é totalmente distinta de formalidades conjugais: amo, a cada dia mais, a minha esposa. Subitamente, esgotada a criatividade de fatos e de sentimentos, ousamos afirmar: mas não precisamos justificar nossas atitudes! Nem mesmo precisamos ser coerentes... Somos bravos! Somos fortes! Somos deuses! Nada nos deterá.

Tudo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Clarice Linspector me deixou anos intrigado ao iniciar com essas frases o introspectivo (e imensamente belo) A Hora da Estrela. Nós vivemos a divergência. É a estranheza ao diferente o berço da crítica. É o não que uma molécula diz inconscientemente a outra o ponto de partida para a discordância. Parece questão de sobrevivência a tendência de querermos sempre unificar, purificar, uniformizar. A crítica é fisiológica; é a constatação sináptica da ausência de interseções entre dois mundos, entre duas culturas, entre dois pensamentos.

Levantamos a voz e bradamos as nossas bandeiras. EPA! Isso está errado! Errado? Certas são as nossas verdades! Certas? Mas não somos nós que defendemos a incorporação de um ambiente de divergências? Não somos nós as vozes das verdades relativas? E então caímos na desgraça de dialogar e apontar o errado, o certo, o justo e o belo?

Aquele quadro não me agrada. Aquela metáfora é clichê. A sua pergunta não é filosófica. Aquela criatura acredita em Deus. Céus! Ela ainda é jusnaturalista! Pasmem! Aquelas pessoas gostam de sorvete Nestlé!

Aceitar o diferente faz doer os nossos brios. Precisamos preponderar, prevalecer, ganhar. Sobreviver? Criticar, desconstruir. Sobreviver? Parece natural ler este texto e levantar milhões de contra-argumentos, discordar categoricamente de cada idéia aqui exposta. Sobreviver? O diferente incomoda. Por vezes, a molécula que está dentro de nós dirá inconscientemente um sim para outra molécula externa e nos curvaremos diante do novo e do diferente. Soa até romântico. É como se encontrar na multidão, ou descobrir um mínimo de identificação entre dois discursos (e, portanto, tomar a consciência de que essa reiteração de idéias os tornarão unidos e fortes, aptos a ganhar força e preponderância). Por outras, a molécula interna afirmará categoricamente um não. Que tragédia! Sobreviver? Começa a batalha!

Nada mexe mais com os brios do que ver súbita (ou lentamente) desconstruída a nossa belíssima construção de idéias e de sentimentos. O orgulho se revira como um redemoinho e nossas verdades (embora aparentemente desconstituídas) alcançam o patamar de super verdades. Tomamos o espinafre do marinheiro Popeye e nos dedicamos a defendê-las ardilosamente, atentos aos nossos caprichos. A vida é uma guerra. Se não existem verdades absolutas, que pelo menos a nossa prevaleça. Sobreviver? Sim, sobreviver! Somos bravos! Somos fortes! Somos deuses! E nada nos deterá.

******

Desta vez, quando não pude me esconder sob a máscara de alguma personagem para poder afirmar irresponsavelmente as minhas verdades e sensações, espero que todos os desabafos aqui expostos pelo menos me ajudem a conseguir alcançar algo que Florbela Espanca, no auge de sua poesia telúrica, admitiu ter buscado e fracassado: conhecer-me. Essa tomada de consciência das limitações do próprio ser, por meio da auto-reflexão, nada mais é do que a noção da incorporação de divergências em uma só pessoa. Uma molécula interna afirma um não a outra molécula interna, e nos vislumbramos em um poço de contradições, em uma guerra interior agônica. É a autocrítica.

Somos complexos! Somos fracos! Somos humanos!

E sapientes da própria condição humana, contraditória, divergente e imperfeita, deveríamos absorver, como questão ímpar de sobrevivência, a lição ao avesso:

- O homem deveria ser mais tolerante.

Página anterior Próxima página
Capítulo 30 de 34
Sumário
Arquivos
Relacionados
Licença Creative Commons | Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas
Alguns direitos reservados
Exceto quando assinalado, todo o conteúdo deste site é distribuído com uma licença de uso Creative Commons
Creative Commons: Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas

Como seria o Vade Mecum dos seus sonhos?

Estamos trabalhando em um Vade Mecum digital, inteligente, acessível e gratuito.
Cadastre-se e tenha acesso antecipado e gratuito à nossa versão beta.