Filosofia no Século XX: A Questão da Legitimidade

'Invertimentos' inadvertidos insolúveis

Bruno Amâncio M. Vial

(Queen) Parto de tudo o que já li na minha vida. Mas principalmente de Derrida e Rorty. Não que eu defenda tudo o que eles defenderam, mas porque neles encontrei coisas e conceitos que me interessaram, além de pensamentos que me inspiraram. Não pretendo citá-los ou a qualquer outro, senão em um caso especial que possa acontecer ao longo do texto (Incubus).

Parto também de dois pressupostos, ou como alguns podem preferir, incluso eu, crenças: toda desconstrução leva ao vazio (ou ao que não pode ser fundado); toda construção se erige sobre o fundamento místico.

Com isso, não me é possível compreender a legitimidade como fator fundador, como conceito que torna verdadeiras, aceitáveis ou desejáveis determinadas situações ou comportamentos. A legitimidade, como causa primeira sobre o que deve se basear todo o resto parece-me uma atrocidade. Não busco, portanto, a legitimidade que está entranhada, mas aquela que se alcança no final, sobre tudo o que se tem.

Isso, é claro, esvazia drasticamente a carga semântica do conceito legitimidade. Drena sua força e potência argumentativa, a torna tão somente algo mais que se pode discutir, e não algo que se deve defender e se agarrar. Fazê-lo torna o mundo inseguro, pois não se tem o que é legitimo para se apoiar, mas apenas para se encobrir (Metallica). Devo, então, fazê-lo?

Talvez não. O mundo pode ser um lugar mais feliz com a legitimidade no seu lugar certo, lá no fundo, sustentando uma crença tão forte que se torna verdadeira. Eu não sei dizer se tenho medo ou uma vontade mórbida de fazê-lo.

Mas para defender minhas próprias crenças, sabendo que elas são crenças, eu devo fazê-lo. (Led Zeppelin)

Para esvaziar o conceito de legitimidade de sua força opressora, é necessário uma igual força opressora. Torná-lo mais tímido, mais fraco, menos monstruoso, exige outro monstro, um vazio frio do não-haver do íntimo das coisas. (Mozart)

Não é por qualquer coisa que muitos se agarram na verdade e na justiça como espécies e bens em si mesmos. É muito mais fácil haver fundamentação e apoio para se fazer qualquer coisa com os outros. Do contrário, toda a ação (e omissão, por conseqüência) é apenas uma imposição de força que simplesmente não se justifica. (Vertical Horizon)

A legitimidade torna-se, quando usada no fundamento, fonte de poder e fuga de responsabilidade.

Viver sem justificação cria peso. Pensar que todos os seus atos são única e simplesmente imposições suas no mundo cria peso. (Pink Floyd) Viver sem uma legitimidade que me enlace e me embale num sono tranqüilo, que retira o peso de mim e o coloca sobre ela, que me mantenha firme numa linha, num pensamento, numa ação é fácil. E provavelmente o ideal.

Mas, infelizmente, sou um masoquista. Este mundo feliz, leve, fácil, legítimo definitivamente não me agrada. Eu prefiro o peso de minhas ações, a responsabilidade de meus atos, as possibilidades de uma existência.

Portanto, eu prefiro que meus atos não sejam legítimos, mas sim legitimar meus atos. Uma pequena inversão que joga a legitimidade para o exato oposto. Não sendo mais fonte, enxergo a legitimidade como um fim (Raul Seixas). A legitimidade é, afinal, resultado de força. Imposição, de todas as formas que possamos fazê-lo. Não é mais o poder, mas a representação final do poder.

Parece cruel. Provavelmente o é. Tanto para si mesmo como para com sua relação ao mundo e as outras pessoas (Led Zeppelin). Imaginar que sempre, a todo o momento, está apenas se impondo, apenas lutando, apenas obrigando é um pensamento quase selvagem.

Mas não é bem assim. Temos uma visão muito negativa do poder e da força. Uma noção maligna da imposição. Um medo de dizer isso, como se fosse proibido. Temos um temor maníaco do poder, como se fosse uma tentação nociva ou um desejo proibido. Quando na verdade, o fazemos sempre, com todos a nossa volta, em maior ou menor grau.

Para concluir, penso que não é o poder que vem da legitimação, mas sim a legitimação do poder (poder entendido como o mais lato senso possível) (Raul Seixas). Não há possibilidade de legitimação única ou a priori, mas apenas como manifestação de uma imposição de poder (força). Nesse caso, a legitimidade não teria a força e violência que se dá ao conceito, apenas seria uma constatação de uma determinada força dominante e capaz de exercer seu poder sobre os demais (Yoshihiro Ike). Por isso, é possível que o que era legitimo não seja mais, que o que já foi volte a ser, o que nunca foi venha a se tornar (The Clash). Enfraqueço o conceito para ele não mais me assustar ou me limitar. Permito com isso que ele seja discutido, modificado, diferenciado e se torne mutável. E me permito tê-lo, e não ele a mim.

(agradecimentos especiais às bandas que ouvi enquanto escrevia)

 

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