Filosofia no Século XX: A Questão da Legitimidade

Legitimidade subjetiva - A ética do Poder

Claudia Dantas

As relações de autoridade, de submissão, de sujeição, de dominação ou qualquer outra qualificação que se dê às relações de poder são imemoriais. Permito-me tomar como ponto de partida a afirmação de que o poder é um fato; está no plano do ser. Assim, não há que se perquirir acerca da legitimidade do poder em si, de sua existência, o que seria no mínimo inócuo diante de elemento tão visivelmente entranhado nas estruturas sociais.

 

O exercício do poder faz parte de nossas relações humanas mais comuns até nossas relações institucionais. Assim, entre profissionais, burocratas, negociantes, contratantes, ou entre amigos, parentes ou amantes, de perspectivas diferentes voltamos a um mesmo ponto: somos constantemente dominadores e dominados; subjugamos e somos subjugados. Em nossas experiências com o outro e com nós mesmos, nas idas e vindas, nos pactos e nas traições, ora cedemos, ora impomos, ora concordamos, ora fazemos concordar. Impressões, sentimentos, necessidades, desejos, valores, lembranças, tudo entra no jogo. Jogo do encantamento de palavras bem postas, jogo do corpo, dos olhos, dos gestos, jogo de palavras, sinceras, enganosas, doces, sábias, amargas, jogo de imagens, jogo dos sentimentos que causamos e sofremos, do medo, da coragem, da ambição, do amor.

 

Nesses atos de poder e de sujeição, encontramos limites. Limites que nos impomos e limites que nos são impostos. Dentro desses limites, há legitimidade; fora deles, não. Mas se esses limites são fluidos, mutáveis, ao sabor do tempo e do espaço, como aferir limites e legitimidade? E meditar sobre os critérios de aferição dessa legitimidade do ponto de vista subjetivo, interno, pressupõe então duas perspectivas: a posição de quem, potencialmente ou de fato, submete ou é submetido. De um lado perguntamos: por que permitimos ou toleramos a sujeição? É legítima a autoridade que sobre mim se impõe? Ou de outra sorte: por que me permito sujeitar? É legítima a minha atuação?

 

O poder não é algo de que se apropria para agir, mas é aquilo que emerge de nossas ações. E pensar a legitimidade para nortear ações não seria um exercício ético? Por outro lado, essa ética que emerge de nossas "ações legítimas" não se apóia tão-somente em escolhas? E essas escolhas encontram fundamento em quê?

 

Tanto aquele que subjuga por subjugar ou o que obedece por obedecer, sem questionar limites, valores, escolhas, não se sujeita a um juízo interior de legitimidade. E pensar a legitimidade, nesse sentido, tem um quê ético. Não só. Também estético, plástico.... Complexo!

 

Penso que a compreensão singular dos limites, da legitimidade, da ética é que molda, em cada homem, sua própria humanidade. O ser humano é, em cada existência e em cada momento (digo assim porque "Parte de mim é permanente; outra parte se sabe de repente"[1]), uma realização única de uma multiplicidade de possibilidades. As capacidades humanas de criar, sentir, escolher, interpretar, aprender, convencer somam-se às contingências sociais, coletivas, culturais, históricas. Somos e não somos a todo o tempo. Transformamo-nos. E nesse ser e não ser muito do que somos não é parte de nossas escolhas. Nossa família, nosso país, nosso tempo, nosso passado. Inconsciente? Talvez. Quem vai saber... O que importa é a parte que nos cabe escolher.

 

Sim, escolhas! Por que se se quer mudar, muda-se. E nessa de poder escolher tem gente que escolhe mudar de vida, mudar o rumo do futuro, mudar até de sexo! Tem gente viva que escolhe que não quer viver mais. Tem gente morrendo que escolhe viver. Tem gente que escolhe não querer escolher, não querer pensar. Escolhas. Tudo pode? Não. Nem tudo pode. O que nos limita? Os outros (somos subjugados) e nós mesmos (subjugamos, a nós próprios inclusive). Os que viveram antes de nós, a maioria, os que "podem", os chefes, as mães, os amigos, os que amamos, os que rejeitamos, os que partilham de nossa vida sejam por um momento seja por toda a vida, todos eles, os outros, que fazem parte de alguma forma de nossa história, ELES limitam nossas escolhas. O maior limite: nós mesmos. Nossa ética, nossos valores, NOSSAS escolhas.

 

Escolhemos o que nos parece bom, justo, belo, útil, necessário. Mas qual seria o fundamento dessas tantas escolhas? Aceitamos? Rejeitamos? Por que nos parece belo? Por que nos encanta? Por que nos causa repugnância e aversão? Por que toleramos? Por que não?

 

As respostas não podem ser (ou não só) o inconsciente --- esse desconhecido de que não temos nenhum domínio e por isso não pode nos causar nenhuma culpa. Se foi no câmbio automático ou no manual, se influenciados por nosso passado e por tudo que nos rodeia, se foi pensado, se foi impensado, qualquer que seja a motivação, justificativa ou fundamento, o fato é fizemos e fazemos escolhas.

 

Existem escolhas que, de tão fundamentais, tornam-se fundamento para todas as demais. A norma fundamental? Nossas crenças, nossa fé. Quando estamos diante de uma escolha para a qual não há fundamento algum, escolhemos por fé. A fé é o fundamento daquilo que não se vê, não se prova. Assim, por exemplo, não existe prova da existência de Deus. Igualmente, não existe prova de sua não-existência. Então escolhemos a existência ou a não-existência. O fundamento? Evidentemente, para ambas as escolhas, inevitavel e logicamente o mesmo: fé.

 

As coisas nas quais cremos não se provam. O discurso científico pressupõe verdades... que, em última instância, apóiam-se na maior ou menor aceitação de pontos de vista fundados em... crenças.

 

Os cientistas, os filósofos, os juristas... nós. Se criticamos todos esses personagens, criticamos, ao fim, todas as nossas próprias limitações. Somos humanos. Datados, limitados no tempo e no espaço. Somos filhos e filhas, irmãos e irmãs, amigos, conhecidos, amantes. Somos iguais. Somos diferentes. Vivemos entre pessoas entre as quais significamos e somos significado. Vivemos entre pessoas para as quais não temos significado algum. Julgamos. Criamos, inventamos. Acertamos, erramos e erramos novamente. Somos personagens. Somos reais. Somos e não somos. Escolhemos ser hoje alguém que nunca fomos. Escolhemos continuar sendo exatamente os mesmos. Escolhemos.

 

Se há "o inconsciente", o que poderemos fazer dele, ou nele, ou por ele? Nem tudo o que existe dentro de nós está ao nosso alcance; nem tudo compreendemos; nem tudo está sob controle (vc já perdeu o controle??). Somos assim. Algo incompreensível, inapreensível, inexplicável. Vc já tentou responder para alguém essa perguntinha básica de okut? Quem é você? Francamente... sei lá! Somos impressões, somos possibilidades. Somos maravilhosamente únicos e complexos.

 

Entre impressões, crenças, certezas, sonhos! Entre traumas, desejos. Entre limites. Entre o passado e o futuro. Entre sabores e cores. Entre pessoas! Entre tudo e todos os que fazem de nós o que somos, inclusive nós mesmos, escolhemos. Podemos escolher também ser mais inconscientes... ou mais conscientes... de nossas escolhas! Nossas escolhas fazem de nós o que somos e o que seremos... Sinceramente, Freud me perdoe, mas prefiro tomas decisões (já que essas decisões implicam em sujeitar e estar sujeita, em dominar e ser dominada...) em câmbio manual (mesmo sabendo que parte de mim segue em piloto automático!!). Vai entender...



[1] "Traduzir-se", de Ferreira Gullar

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