Filosofia no Século XX: A Questão da Legitimidade

Palavras avulsas

Pedro Felipe de Oliveira Santos

Confesso que senti um certo peso na ocasião do primeiro homicídio que cometi. Por dois ou três minutos - não mais do que isso -, enquanto mirava o cadáver, conheci uma sensação esquisita, um frio na espinha. Decerto é que, bravo que sou, não senti medo. Talvez o peso tenha advindo do ineditismo da experiência e da sensação da irreversibilidade dos meus atos. O cadáver estava defronte de mim, os olhos ainda abertos me vigiando, o sangue escorrendo pelo corpo e pelo chão.

O segundo homicídio ocorreu por acaso. Não é que eu não mais pretendesse matar. Eu era indiferente a essa possibilidade. Pretendia apenas ferir o colega que me desafiara, mas a faca empolgou-se na minha mão e meus olhos gostaram de ver o espetáculo sanguinário. Sim, eu acho bela a morte. Aliás, não me refiro propriamente ao ato consumado, mas aos instantes que antecedem o último suspiro da vítima. Sentia-me poderoso ao vislumbrar que o espetáculo da agonia era por mim controlado. Posso parar ou continuar a qualquer instante, ou aumentar ou diminuir a intensidade da dor.

Depois do quarto homicídio, tornei-me um pistoleiro. Minha profissão era matar. Em pouco mais de doze anos, atingi o meu centésimo homicídio. Tomei uma pinga em comemoração. Cada homicídio era marcado no meu corpo com uma pequena facada. A ferida se curava, mas restava a cicatriz. Era o meu método de contagem. Em poucos anos, não havia mais espaço nas pernas e passei a utilizar o abdômen. Atualmente, tenho o corpo inteiro marcado.

Mas não era o medo de ser preso ou de cair em uma tocaia que me furtava o sono, diariamente. Todos os dias, mirando o céu, eu me questionava o motivo pelo qual, para mim, era tão simples desobedecer. A regra era "não matar". Submersos em um sentimento de inércia, o comum era que a maioria dos homens nem sequer questionassem o motivo de vigência das regras internalizadas na cultura a que estavam inscritos. Nessa mesma corrente, eu jamais questionara a razão da norma "não matar". No entanto, ao contrário dos demais, eu a desobedecia. Matar era minha profissão.

E não apenas matar, como também furtar, roubar, ofender, enganar, ameaçar, invadir, mentir, trapacear, bater, danificar, brigar, golpear, xingar, aleijar, caluniar, envenenar, difamar, trair, ferir, injuriar, constranger, seqüestrar, extorquir, usurpar e fraudar, dentre muitas outras possibilidades. Eu era (sou?) um ser atípico. Certo dia, o carcereiro da penitenciária onde moro me entregou um Código Penal. Folheando-o rapidamente, verifiquei que já havia cometido - sem exageros - pelo menos metade dos crimes ali elencados.

Durante muitos anos, me vi endiabrado por essa tentativa de justificar os meus atos; de os tornar legítimos a mim; de buscar, por alguma forma, me convencer de que os meus valores eram aceitáveis, de que eu não seria um homem abominável. Eu amava os meus filhos! Nada mais lindo do que ver aquele menininho correndo, nu e descalço, gritando: "Papai!".

Lembrava sempre de minha mãe, católica fervorosa, temente a Deus, ao diabo e ao "Padim Pade Ciço". Era muito fácil, para ela, justificar os seus atos. A sua conduta, os seus pensamentos, tudo advinha de ordens divinas. Amar era necessário porque Jesus pregou o amor; mentir era proibido porque a Bíblia assim preconizava. A absorção dos acontecimentos do mundo passava pelo filtro de sua crença religiosa. Certa vez, o coronel a questionou o motivo pelo qual, mesmo após ter parido vinte e duas vezes, ela não teria ligado as trompas. A velha matuta não tutebeou: "Ora, seu Coronel! Deus me deu vinte e dois filhos. E se me desse mais um, eu teria que aceitar e criar! Eu não mando na minha vida, não! Deus é quem decide, lá de cima". A legitimidade para os seus atos advinha do surreal. E aquilo assustadoramente a convencia.

Meu pai, ao contrário, era ateu. Era o homem da lei e da palavra. Era um homem ranzinza, briguento. Lia muita filosofia. Era autodidata. E, como todo bom filósofo, era alcoólatra contumaz. Ria de minha mãe quando conversavam sobre religião. "És uma alienada!", cutucava. "Esse teu Deus judia de ti!". Para ele, valia o que estava escrito na lei. Afinal, acreditava piamente que a lei dos homens existia em prol da justiça dos homens. E aqueles que elaboravam as normas ali estavam por deter maior conhecimento e, portanto, possuir mais legitimidade para colocar o mundo em ordem.

Eram dois limitados. Cada um a seu modo, meus pais eram como ovelhas que gostavam de obedecer, como se não enxergassem os meandros de poder e de coerção que existem, seja por trás da grande multinacional que é a Igreja Católica, seja por trás do poder político propriamente proclamado pelo Estado pretensamente laico em que vivemos.

E eu, de tanto relativizar inconscientemente as regras, tornei-me assim, marcado e ferido; temido e odiado. Meu problema foi enxergar além do que a maioria vê; foi perceber as entrelinhas das frases dos pastores e dos reis.

Se, para mim, não existe Deus, então não há pecado; se não existe Estado legítimo, não preciso obedecer as leis que dele emanam. "Tudo é permitido", concluiria um dos irmãos Karamazovi, de Dostoiéviski. No entanto, ainda que adotando tais circunstâncias, embora possa relativizar e fugir do que não me agrada, decerto é que jamais concordei com a conclusão da personagem do autor russo. Matei, roubei, estuprei, furtei, enganei, fraudei, mas não posso concluir que tudo é permitido.

Mas a razão dessa não-conclusão demorei a encontrar. Certa vez, o Promotor de Justiça me questionou, durante um interrogatório, se eu tinha valores. "É óbvio que tenho valores", respondi. E continuei afirmando o óbvio: "são apenas diferentes dos seus".

A partir de então, concluí que são com os meus valores o compromisso que tenho. E os meus valores abarcam proposições e sentimentos tão contraditórios aos olhos do senso-comum adotado pelos meus pais, que provavelmente eles os considerariam inconciliáveis. Como surgiram os meus valores? Não sei. Talvez sejam eles frutos da inconsciência e da consciência, da impulsão e da reflexão interior, da genética e da experiência. Valores são como os impulsos passionais: inexplicáveis aos olhos de quem vê, mas perfeitamente inteligíveis por quem o faz.

Matei, roubei, estuprei, furtei, enganei, fraudei, caluniei, trapaciei, ofendi, xinguei, ameacei, danifiquei, injuriei, porém amei (e amo), mais do que qualquer outra pessoa, os meus filhos! Ainda correm lágrimas nos meus olhos quando lembro deles correndo pelo quintal da casa. Matar e amar, estuprar e chorar, caluniar e elogiar... Eu sou assim.

Não, nem tudo é permitido.

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