Filosofia no Século XX: A Questão da Legitimidade

Capitulo 1: Considerações e Ponderações

Bruno Amâncio M. Vial
  1. Sempre acreditei no discurso dos vilões. Acho que nunca me dei bem com os heróis, na verdade. Na melhor das hipóteses, eu gostava dos anti-heróis. "Não há bem ou mal, apenas perspectivas e poder". Essa frase lhes parece familiar? Foi dita, talvez em outras palavras, pelo Imperador em Star Wars, Sauron em Silmarilion, Voldmort em Harry Potter, para citar apenas alguns que todos conhecem. Eu sempre fui seduzido por esse discurso. Nunca fui o Seiya, gostava do Ikki e do Saga.
  2. Acho que a pós-modernidade tem muito de vilã. Eu me lembro sempre do desespero dos religiosos e cientistas com isso. Afinal, se nada é certo ou errado, se não há fundamento, se você não pode impor aos outros senão por sua força, então realmente não existe bem ou mal, mas apenas perspectivas e poder. Se no fundo, está apenas a crença, ou o fundamento místico, (como chama Derrida e eu penso ser a melhor definição que encontrei), então...
  3. Embora, é claro, é estranho dizer que a Pós-Modernidade seja uma vilã, a menos que se esteja inserido na Modernidade. Se tudo o que há são perspectivas, dentro da perspectiva pós-moderna, não faz sentido considerá-la vilã.
  4. Mas ainda assim, a heróica modernidade, mártir da tentativa de unificação e realização do grande bem, em seus últimos suspiros, tenta acusar sua filha de tê-la matado. Essa pequena história, a passagem da modernidade para uma consciência pós-moderna, dá uma bela tragédia grega.
  5. Importa, no entanto, dizer que não acredito mais em bens absolutos. Eu realmente não acredito. Conheci muito poucos como eu, ao ponto que poderia contá-los nos dedos. No fundo, praticamente todos querem a segurança, a ordem e a possibilidade de se isentar da culpa e da responsabilidade. Como disse o Grande Inquisidor (e coloco suas palavras de cabeça, pois meu "Irmãos Karamazov" não está à mão) "Não há prazer maior ao homem que prostrar-se diante outro e entregar-lhe sua liberdade".
  6. Defendo, portanto, o peso de Kundera. Acho que a pós-modernidade é uma vilã por nos jogar em nós mesmos. E essa é a única legitimação que aceito. A do peso de nossos próprios atos. Não há nada que me dê mais asco do que as esquivas que as pessoas encontram para se justificarem. Leis, regras, conduta social, religião, ciência. Eu não tenho (mais) problemas com nenhum desses discursos. Percebi que meu problema é com a forma como as pessoas os utilizam. Eu acredito em coisas. Eu defendo meus posicionamentos. Mas sei que são invenções. O que não lhes tira o valor de forma alguma. Ao contrário, ao defender minhas invenções, eu transfiro a responsabilidade de suas conseqüências para mim, o peso que meus atos geram me pertence. A partir do momento em que apenas o caos e o acaso regem meu mundo, a única questão de ordem que surge advém de mim mesmo.
  7. Podem, é claro, dizer "vivemos em sociedade". Isso, no entanto, é óbvio. Minhas ações afetam os outros. Minhas decisões, imposições, vontades, desejos, atos. Tudo isso influencia o mundo ao meu redor, e tudo isso pesa em mim. Assim como as decisões, imposições, vontades, desejos e atos dos outros me afeta. Nossas correlações e interações vão se desenvolvendo ao acaso e sem qualquer ordem, senão a que damos a elas. No fim, as coisas vão acontecendo e temos de lidar com isso. É basicamente dessa forma que entendo o pragmatismo de Rorty.
  8. Minha teoria, afinal, é bem simples. O mundo é um grande acaso sem qualquer sentido, senão aqueles que inventamos para ele. E sempre inventamos sentidos, por fazer parte da inter-relação, da intersubjetividade fazê-lo. Um ser humano sozinho provavelmente não inventaria sentidos, pois não o teria vontade de fazê-lo. A nossa vontade (e não uso a palavra necessidade) de compreensão, de semelhança, nos leva a inventar sentidos que possamos compartilhar com os outros. A figura do Outro tem, portanto, intrínseca relação com a questão do caos.
  9. Em geral, as pessoas abominam o caos. Assim como abominam a liberdade. E foi essa histeria que levou à Modernidade. Quando deus não fez mais sentido como justificativa, precisaram de outra, e encontraram a razão. E agora que a razão se esgota como fundamento, há um novo desespero. O que colocar no lugar? E então chega Nietzsche e diz "porquê colocar no lugar"? E daí... ah, daí, mostra-se a grande vilã, que é a filha da grande heroína.
  10. Ao final, minha única justificativa é a crença. Nós cremos. Alguns crêem na verdade e outros na invenção. Eu acho a invenção muito mais sincera, embora angustiante. Mas vai se saber. Será que crença é, afinal, uma questão de escolha?
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