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"Fora Arruda" e a nova geração política do DF

Gabriel Santos Elias

  Militantes do movimento “Fora Arruda e Toda Máfia” foram carregados por policiais para fora da Câmara Legislativa do Distrito Federal, onde estavam acampados há seis dias. Era dezembro de 2009 e a estratégia de ocupação havia sido decidida de forma espontânea e pouco planejada a partir de uma grande manifestação, organizada principalmente por sindicatos. Enquanto as lideranças faziam seus longos discursos em cima do carro de som, um grupo de jovens se aglomerou e forçou a entrada no edifício da Câmara Legislativa que a partir daí estava oficialmente ocupada. Sindicatos e outros movimentos foram contra a estratégia. Contudo, ao longo daqueles seis dias, a ocupação da Câmara proporcionou um espaço para que os militantes pudessem se organizar como um movimento, discutir os problemas políticos do Distrito Federal e estabelecer suas próprias demandas. A experiência coletiva de autogestão do espaço, a necessidade de conseguir comida, de cuidar da limpeza e da segurança uniu aqueles militantes de posições ideológicas bastante diversas em torno de um ideal de transformação da realidade do Distrito Federal.

  O primeiro aspecto interessante a se observar no histórico das mobilizações recentes do Distrito Federal é a expressão de uma “nova geração política”. É preciso ter cuidado ao se falar em novidades, pois há o risco de ver novidade onde não tem. Mas essa nova geração política que se expressa no movimento “Fora Arruda e Toda Máfia” não é nova porque faz tudo diferente, apesar de haver sim características inovadoras nos seus repertórios de ação, como a espontaneidade, a horizontalidade e o principio de autogestão, mas sim porque não reconhece e contesta a hierarquização de movimentos entre si.

   Esse grupo de militantes, boa parte deles jovens ainda pertencentes ou recém saídos do movimento estudantil, enfrentou choques com outras gerações de movimentos, especialmente quando deixavam em suas ações as marcas que os diferenciavam. Foi possível perceber esse choque particularmente no momento das ocupações, tanto da Câmara Legislativa, quanto das ruas em frente ao Buriti. Nessas ocasiões líderes sindicais acusaram esses militantes de não se aterem ao que estava combinado anteriormente pelos líderes dos movimentos. Ou seja, tanto a espontaneidade como a horizontalidade do movimento foram os fatores que geraram essa tensão geracional. Curiosamente, a falta de lideranças específicas também foi criticada pelos policiais no episódio da ocupação das ruas. Na ocasião argumentou-se que por não ter com quem negociar, a força policial teve que reprimir violentamente as ações dos manifestantes.

  Mas não só de identidade se faz um movimento. O objetivo de uma ação coletiva não é ser horizontal, ou espontâneo, por exemplo. O objetivo da mobilização surge a partir de um desejo coletivo de mudança da realidade, desejo que é despertado pela conjuntura social vivida pelos atores envolvidos. No caso das mobilizações recentes do Distrito Federal o foco é o Governo local, os atores políticos e suas práticas. A partir da crise política, manifestantes pedem a saída de políticos envolvidos em esquemas de corrupção e acusam uma política que aumenta as desigualdades sociais. Mas, além disso, também levantam demandas relacionadas à melhoria de serviços de transporte e revisão do zoneamento urbano.

  Para atingir qualquer objetivo o movimento deve optar por estratégias e nesse ponto outro aspecto salta aos olhos: a sua relação com a política institucional. O movimento social não é institucional, por isso pode agregar atores diversos – como membros de partidos opostos – mas dentro de sua estratégia age também nos espaços institucionais. Se o movimento não considerar a estratégia para atingir seu objetivo, se fechar em seus princípios e identidade, corre o risco de nunca atingir seus objetivos. Ao mesmo tempo, se o movimento não tiver em mente seus objetivos (baseados em sua identidade orientada para a mudança), corre também o risco de se perder na dinâmica estratégica cedendo em todos os pontos que levariam ao seu objetivo. O movimento “Fora Arruda e Toda Máfia”, ao longo de suas atuações, deixou claro seu caráter contestatório e autônomo em relação ao Estado, principalmente através de ações diretas de ocupação de espaços públicos. Esse movimento é diverso e em relação às estratégias tomadas vários foram os embates internos para decidir coletivamente. Por meio das decisões tomadas é possível perceber que o movimento não deixou de preservar a importância das instituições no Distrito Federal, mesmo que questionando seu funcionamento. Por exemplo, quando o movimento ocupou a Câmara Legislativa, ele questionava a legitimidade daquela instituição para decidir o futuro do Distrito Federal, mas desocupou o plenário da Câmara para que fosse realizada a sessão na qual seriam lidos os pedidos de impeachment do Governador. Após a ocupação da Câmara Legislativa o movimento se desdobrou em várias ações, adotando diferentes estratégias entre si que contribuem em conjunto para a transformação da política no Distrito Federal.

   Desde a ocupação da Câmara a possibilidade de intervenção federal já era cogitada pelos militantes, mas inicialmente era vista com incredulidade. Com o aprofundamento da crise no Distrito Federal e o pedido de Intervenção feito pela Procuradoria Geral da República, o movimento se dividiu em relação ao tema e resolveu não apoiar formalmente. A manifestação sobre o tema se deu de forma independente por parte dos militantes, que chegaram inclusive a formar um movimento chamado “Intervenção Já” para pressionar as instituições.

  Outro desdobramento do movimento “Fora Arruda e Toda Máfia” foi o movimento “Vote Pra Mudar”, que busca incentivar a transferência do título eleitoral de pessoas que vêm de fora da capital e o alistamento de jovens, principalmente os que fizeram parte das recentes manifestações. A idéia do movimento é aumentar o número de votos comprometidos para que os políticos corruptos não voltem vencer as eleições de outubro.

  Um exemplo de que o movimento segue atuando tanto no espaço institucional como em espaços próprios da sociedade civil é o seminário “Brasília Outros 50”. Surgido no interior do próprio movimento “Fora Arruda e Toda Máfia”, mas organizado à parte, o movimento busca reaglutinar as forças da esquerda do Distrito Federal com o objetivo de pensar programaticamente as propostas dos movimentos sociais para os próximos 50 anos. Para isso se reuniram durante um fim de semana para discutir coletivamente os diversos problemas atuais da nossa sociedade. Mas para além da importante iniciativa propositiva do movimento – desviando do foco no discurso ético – está a importância crucial da rearticulação da esquerda local, com perspectiva clara de mudar a nossa realidade.

  No aniversário de 50 anos de Brasília, as manifestações desse grupo marcaram o dia de festa. Logo pela manhã um exército de palhaços constrangeu publicamente o Governador “eleito” do Distrito Federal, que depois não apareceu em mais nenhuma atividade comemorativa do Governo. Pela noite o movimento “Fora Arruda e Toda Máfia” conseguiu ocupar a nova sede da Câmara Legislativa do Distrito Federal por 24 horas. A articulação com jornalistas e advogados chegou a assustar os policiais encarregados de desocupar o espaço, o que impediu o uso da violência sobre os manifestantes.

  Acredito que aqueles seis dias de vivência na ocupação da Câmara Legislativa no final de 2009, bem como todas as mobilizações que se seguiram, tenham sido cruciais para o fortalecimento dessa nova geração política no Distrito Federal. A articulação mais ampla de diversos movimentos sociais locais fez surgir diversas ações importantes para a transformação de nossa política. O fortalecimento da sociedade civil local é importante para que o povo reconheça mais seu poder de fato sobre as instituições, tendo maior controle sobre sua atividade e impedindo os desvios que ocorrem muito freqüentemente em toda a história da nossa capital.

Gabriel Santos Elias

  Membro do Programa de Educação Tutorial em Ciência Política (PET/Pol) da UnB; Militante do Grupo Brasil & Desenvolvimento.

  Publicado originalmente em "Observatório Constituição e Democracia" nº 35.  

(http://www.fd.unb.br/index.php?option=com_content&view=article&id=650%3Aqfora-arrudaq-e-a-nova-geracao-politica&catid=180%3Acad-noticias-menor-impacto&Itemid=2829&lang=br)

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