II. Conhecimento e progresso: invenção e arrogância

A partir da total ausência de reverência que Nietzsche tem para com a filosofia ocidental, Michel Foucault problematiza a relação entre conhecimento e tempo, identificando o próprio saber como uma invenção num dado momento e num dado lugar, e não como um instinto natural dos seres humanos19. Ao desenvolver suas conclusões em direção a uma genealogia política do conhecimento, como mecanismo de assimetria da relação de poder, Foucault propor que decorre de uma postura arrogante e mentirosa a idéia de o conhecimento filosófico ou científico se postar como saber mais válido que os demais20.

O conhecimento, no fundo, não faz parte da natureza humana. É a luta, o combate, o resultado do combate e conseqüentemente o risco e o acaso que vão dar lugar ao conhecimento. O Conhecimento não é instintivo, é contra-instintivo, assim como ele não é natural, é contra-natural. (...)

Eis a grande ruptura com o que havia sido a tradição da filosofia ocidental, quanto até mesmo Kant foi o primeiro a dizer que explicitamente que as condições de experiência e do objeto de experiência eram idênticas. Nietzsche pensa ao contrário, que entre conhecimento e mundo a conhecer há tanta diferença quanto entre conhecimento e natureza humana. Temos, então, uma natureza humana, um mundo, e algo entre os dois que se chama conhecimento, não havendo entre eles nenhuma afinidade, semelhança ou mesmo elos de natureza.

Para a teoria dos sistemas, conhecer só é possível mediante a simplificação da realidade complexa, mediante o esquecimento de certos aspectos para que seja possível conferir sentido aos elementos que são lembrados. Nesse processo, tem-se o paradoxo de toda produção de saber implica a produção de um não-saber21, da mesma forma que, na matemática, determinar um conjunto de elementos incluídos tem como contraface a determinação de elementos excluídos.

Sobre o progresso, Giácomo Marramao descreve o processo mediante o qual essa noção de avanço qualitativo e direcionado através do tempo veio substituir, como categoria histórica de descrição da realidade, a noção de aperfeiçoamento.

A estreita interdependência entre "progresso" e "perfectibilidade" parece confirmar a tese central de Koselleck: a da importância constitutiva da categoria de Verzeitlichung22 para a estrutura do novo conceito. Este, enquanto temporalização da história, pressupõe um processo indefinido caracterizado pela passagem constante a estados sempre melhores; enquanto prospecção do futuro, se entrelaça intimamente com a idéia de planificação. A superação da fratura entre razão e tempo mundano (...) é, no entanto, possível não somente na medida em que a história tem um "sentido", mas na medida em que este coincide com sua "direção".23

A partir dessa genealogia, e tomando do progresso como uma categoria de produção de conhecimento, pode-se já sustentar que falar em progresso, de forma objetiva e transcendente, é uma forma de arrogância.

Dizer que o hoje é melhor que o ontem envolve a comparação qualitativa e temporal entre dois mundos distintos. Mas cada um desses mundos é, individualmente, indescritível em sua totalidade. Cada descrição de um tempo, de uma época, é um recorte, é a enumeração de certas características específicas, nunca de todas as características. E se as descrições são parciais, as comparações são duplicações dessa parcialidade, e geram conclusões insustentáveis, senão como significados subjetivos.

E não se trata de um problema metodológico. Não há um erro na descrição que, corrigido, pudesse permitir a descrição total, já que o conhecimento total é uma impossibilidade, dada a própria complexidade24 da realidade. Não seria possível sequer somar as descrições parciais para se chegar ao todo. Durante minuto que acaba de passar aconteceu tanta coisa no mundo que seria possível levar uma vida inteira apenas para descrevê-lo25.

Nesse contexto, denominar alguma concepção qualquer de ultrapassada, atrasada ou mesmo retrógrada, como forma de desqualificação, nada mais do que impossibilita o diálogo. Inventar uma origem para o curso histórico é uma simplificação apenas menos arrogante do que chamar o que existe hoje de ponto final desse processo de progresso, colocando-se o hoje como o ápice, como fim da história. A observação se absolutiza de tal forma, confiando em sua metodologia racional, que não percebe os limites de sua própria capacidade de perceber a realidade.

Se conhecer é atribuir sentido, assim como o futuro aberto, diante das inúmeras possibilidades de acontecimentos e do sentido que a eles serão atribuídos; o presente e o passado são igualmente abertos, já que a construção de sentido depende da observação, dos elementos selecionados para a significação da realidade.

Já o próprio uso de um termo como hoje é uma redução. Falar em um hoje, a fim de delinear alguma característica de um tempo atual, traz sempre o risco de se privilegiarem, no horizonte de sentidos, alguns elementos como presentes. Quando se diz, por exemplo, que hoje o mundo vive uma crise econômico-financeira, não se leva em conta que há milhares de pessoas, nesse mesmo mundo de hoje, para quem os problemas do mercado mobiliário dos Estados Unidos da América não têm nenhuma implicação imediata que lhes permita se identificar com essa crise. Para quem vive abaixo da linha da pobreza, a saúde financeira das companhias mundiais é um assunto completamente remoto.

Da mesma forma, falar sobre o futuro ou o passado. Um exemplo sempre recorrente são as especulações sobre as profissões do futuro. Essas especulações, que sempre indicam o caminho para a garantia de uma vida profissional segura, nunca levam em conta seja a inexistência de uma profissão do presente, seja a inexistência de uma profissão do passado.

No âmbito macro, falar que o Ocidente hoje progrediu com relação ao Ocidente de o séc. XVI seria esquecer que há elementos hoje que se mantém há quatro séculos. Sem dúvida, não se trata do mesmo mundo ocidental, mas a diferença é tão múltipla, que reduzi-la a uma linearidade qualitativa de progresso é, novamente, uma forma de arrogância.

19 FOUCAULT, 2005, pp. 13-27.

20 Esse mesmo ponto é defendido por Boaventura de Souza Santos (SANTOS, 2000) como ponto de partida para suas proposições emancipatórias tanto para o direito como para a ciência modernos.

21 Um exemplo simples. Uma pessoa A desconhece outra pessoa B. Assim que A encontra B e descobre que seu nome é B, ele passa a saber algo sobre B, seu nome; mas ao mesmo tempo ele pode perceber que não sabe o sobrenome de B, ou qual o significado de B, o motivo da escolha de "B" como nome, isso só para ficar no nome. A idéia é a de que qualquer conhecimento gera, em contrapartida inevitável, desconhecimento.

22 Termo alemão traduzível como "temporalização".

23 MARRAMAO, 1995, pp. 107-108.

24 Na teoria dos sistemas, pelo conceito de complexidade tem-se que o mundo oferece a quem observa mais experiências do que se pode vivenciar: há mais informações disponíveis do que se pode perceber e assimilar, bem como existem mais possibilidades de ação do que se poderia realizar.

25 James Joyce, por exemplo, leva todo o livro Ulisses apenas para descrever a "odisséia" de um único dia na vida do personagem Leopold Bloom.

Sumário

Boletim Arcos

Cadastre-se para receber nosso boletim informativo
E-mail:

ok


Acompanhe o Arcos nas redes sociais


Licença Creative Commons | Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas
Alguns direitos reservados
Exceto quando assinalado, todo o conteúdo deste site é distribuído com uma licença de uso Creative Commons
Creative Commons: Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas

Como seria o Vade Mecum dos seus sonhos?

Estamos trabalhando em um Vade Mecum digital, inteligente, acessível e gratuito.
Cadastre-se e tenha acesso antecipado e gratuito à nossa versão beta.