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Por uma geografia da complexidade.

Laudo do Socorro Costa Lima

   Resumo


  Pensar geograficamente por si só já se constitui em uma complexidade, não se trata aqui do ponto de vista físico ou humano ou mesmo de qualquer outra vertente do pensamento acadêmico que esta ciência elaborou ao longo dos anos, ganhando forma e respeito intelectual. Tenta-se ir além das fronteiras que delimitam o natural e o social, pois, a idéia de global é bem mais abrangente do que se pensa, dando a entender que o homem é também um ser universal. Na complexidade da geografia, a física se apresenta em momentos distintos, assim como a matemática, enfim, as barreiras do conhecimento são rompidas, indo muito além de uma transversalidade ou de uma interdisciplinaridade. É o homem complexo em tudo, é o conhecimento complexo, é a vida complexa, diante desse novo enfoque que alguns autores, fora da ciência geográfica começam as suas pesquisas e com resultados brilhantes. É notória a participação de Capra nesta nova forma de pensar a natureza e a sociedade, pois, a mutação é iminente e permanente, é o sopro da dinâmica da vida e do comportamento, é o alicerce da genética e por fim, diante da personalidade volúvel e vulnerável da natureza humana, coloca-se aqui a proposta de um novo enfoque para o entendimento da nova era do conhecimento, da nova forma de pensar, do milênio que rasga a primeira década com uma preocupação antiga, que é a seguinte: “ o que será da humanidade nos próximos anos?”. Tal questionamento não é novo, no entanto, o que traz de diferencial é que agora a pergunta chega aos ouvidos de todos, indo além das fronteiras da academia, chegando ao leigo e até mesmo ao analfabeto, tendo em vista, todos estarem presentes nesta caminhada de incertezas que é o século XXI. Sabemos que lugar isolado não existe mais, assim como pensamento isolado; a teia da vida é extensa assim como a teia do conhecimento, que contraditoriamente se estende aos menos favorecidos em se tratando de informação formal, não é novidade mais que os analfabetos também nos ensinam através de suas experiências vividas ao longo de sua existência.


    1. Introdução


  Tornou-se comum a visão cêntrica da geografia mesmo nos meios acadêmicos, com a divisão ou especialização do conhecimento, as várias tendências ou vertentes do pensamento geográfico impulsionaram este modo de pensar, desde o determinismo e o possibilismo, dualismo que imperou durante muito tempo; no entanto, a complexidade já se fazia presente sem com que seus defensores pudessem detectá-la, pois, o homem e o meio ambiente fazem parte de um equilíbrio que não se pode romper. Influenciar e ser influenciado se torna uma analogia como a ação e reação, teoria antiga e por muitos, estudada até os nossos dias; esta é a complexidade, a quebra das fronteiras existentes, o rompimento entre o que é isso? E o que não é isso? Pois, o conhecimento é holístico, presente, criado e recriado a todo o momento, como a idéia divina da criação e da destruição e por fim uma recriação. A territorialidade e a reterritorialidade são conceitos complexos, tendo em vista que a própria migração em si se constitui um fenômeno urbano e como todo Fenômeno, a existência de ingredientes que por muitos não se sabe explicar o que ocorre realmente, o POR QUE? da mudança de um lugar para outro. Política, economia, religião, enfim o termo complexidade da geografia se aplica neste fenômeno de forma bastante acentuada. Estendem-se as preocupações a respeito das respostas que se buscam ao longo dos séculos para tudo que nos aflige.


     2. O meio ambiente e o homem


  O homem e o meio ambiente fazem parte de um delicado equilíbrio que ocorre muito antes do aparecimento do homo sapiens sapiens, não há ação isolada, tampouco influência una. Sendo o planeta a moradia primária e guardiã natural do homem, está sujeita as ações de um infindável número de corpos celestes, que vagueiam ignorando as leis dos moradores(NÓS) e a casa que é a Terra. Essa complexidade, muitas vezes ignorada pelo próprio ser humano, que já conhece seus catastróficos efeitos, marcados na geologia existente.

  Tal equilíbrio mantido por uma força superior a tudo que existe, tem no homem a arrogante figura de ser o mentor intelectual de tudo que existe. O ambiente que a todo o momento sofre alterações reage com suas respostas danosas à vida como, por exemplo, o mal da vaca louca, a invasão de determinada espécie de peixe em um rio que não era o seu habitat natural, impondo a extinção aos peixes nativos do local. Essa é uma pequena amostra do que a natureza dá ao ser arrogante e prepotente que é o humano, dizendo-lhe em silêncio que ele é um simples inquilino, com data para deixar o local. Darwin em sua notável apresentação da origem das espécies sinalizou a possibilidade real da extinção humana, pormenorizando e até indicando que isso ocorre de maneira natural, de modo que outras espécies possam ascender no complexo texto escrito pela própria vida no planeta; que é a seleção sexual, inerente a fatores sociais ou externos, ocorrendo simplesmente uma luta dos instintos com os valores sociais. Dawkins, afirma que somos apenas hospedeiros de genes sobreviventes desde que a vida começou a suspirar. Trata-se de duas teorias, que sob prismas diferentes se completam, esta é a verdadeira complexidade. Que o conhecimento é uno, no entanto, as vertentes e as tendências fazem de cada enfoque uma coisa particularizada. Neste contexto, está o homem com suas contradições maravilhosas que segundo os filósofos é o que dá brilho a vida, pois, sem as contradições a vida seria sem graça.

  Cada árvore derrubada é o sinal de incoerência e de falta de consciência que o homo sapiens, não é tão sábio quanto aparenta, a árvore e o vento são uma só coisa que busca na natureza o delicado equilíbrio, que uma vez rompido nada mais pode ser feito para que seja refeita a primeira natureza.

Na ótica de Capra o ser humano por si só já caminha para a destruição, nas relações capitalistas, na globalização, no pensamento centralizado, na vida escravizada pelo dinheiro e também pela posição social, gera um processo destrutivo que ao longo dos anos só acelerou. É comum ouvirmos frases como: “criança hoje só falta nascer falando”, de fato, até que ponto esta afirmativa deixa de ser mito e começa a invadir o campo da realidade; graças a um processo irreversível de informações que chegam até nós através da mídia, as crianças estão expostas a uma gama de informações, que as colocam a par de muitas coisas que há 100 anos era inconcebível para uma criança. O ambiente a sua volta deixou de ser o meio natural e sim um meio virtual, canalizado na figura dos jogos eletrônicos que cada vez mais trazem informações de toda natureza aos pequeninos em tenra idade; os contornos ambientais agora são outros, a busca por aventuras não está mais em passear no bosque e sim em vencer no play station.

  A natureza colocada em segundo plano reage de forma quase que imperceptível a esta falha da nova geração, porém, sua reação é catastrófica. Há uma necessidade crescente de incluir o homem enquanto ser pensante a esta nova forma de pensar, pois, seu equilíbrio se deteriora e a sociedade precisa entender o meio não apenas como o meio ambiente e sim como fazendo parte dele e de sua moradia primária que é a terra.


    3. A sociedade do “eu”


  Milton Santos já prevenia há algum tempo, quanto a globalização perversa, que atinge a todos sem distinção no seu mais elevado nível que é a alienação do ser para as questões puramente sociais, o que se vê é uma corrida opor dinheiro e principalmente por posição social, hoje mais do que nunca. A individualidade é o caminho mais curto para a destruição total do meio, tendo em vista que só o que interessa é a conta bancária, não se importando com o bem comum. O cidadão, agora revestido de consumidor, está impotente diante desta situação. Tudo caminha para a destruição da sociedade em todas as suas vertentes.

  A transitoriedade do feudalismo para o capitalismo se deu de forma traumática, tendo em vista que o novo modelo social ainda se adaptava; novos homens, com novas mentalidades já sinalizavam para o início de uma era de dificuldades, tendo em vista o difícil desapego da terra, mesmo com um novo modelo econômico se formatando. A ligação do homem com a terra nunca deixou de existir, muito pelo contrário, acirrou desde a revolução industrial, com seus aperfeiçoamentos e a necessidade de produzir em excesso. O meio ambiente que fornece matéria prima para a produção, sentiu o peso do excesso na produtividade, levando o planeta a distúrbios incorrigíveis tanto no clima como nas formas de lhe dá com o ambiente, pois, sua reação foi imediata e profundamente prejudicial à vida. Sabemos que extinções em massa sempre existiram, no entanto, desta vez há um diferencial que é a ação do homem, acelerando de forma dramática este processo. Os dinossauros nada puderam fazer e também não foram culpados pelo evento catastrófico que lhes abateu, mas com o homem é diferente, Ele pode sim, porém, não freia seus impulsos destrutivos.

  Nessa atmosfera não favorável em todos os aspectos, fortalece-se cada dia que passa a sociedade do “EU”, onde o centro das atenções dadas as condições são todas o próprio ser humano, com suas invenções destrutivas ou não, com seus pensamentos altruístas ou não. Em termos antropológicos, o local perde espaço em detrimento do global, pois, a cultura apresentada pela mídia entra em todos os lares desde o mais necessitado ao mais abastado, sem restrições, levando o homem a pensar globalmente, como por exemplo, se imaginando técnico da seleção brasileira de futebol o que não é verdade, em contrapartida cresce o individualismo pregado também pela mídia global, que necessita cada vez mais de consumidores do que de pensadores, é a seleção natural empregada de um ponto de vista bem mais amplo, porque sobreviver na sociedade atual requer alguns benefícios que o capitalismo impõe, lembrando sempre que esses critérios postos como valores, são na verdade discriminatórios e com uma certa dosagem de exclusão, pois, nem todos se beneficiarão com o capitalismo, dada a sua natureza competitiva.

  A geografia é complexa por natureza, uma vez que é a ciência que se baseia na observação, tanto de relações humanas como naturais.


    4. A complexa ciência


  Na abordagem acadêmica, a complexidade atinge aspectos diversos, com Capra e demais seguidores desta vertente, que ao passo em que avança em direção a um norte esclarecedor acaba trilhando novos caminhos ainda mais complexos, que devem ser abraçados por todos aqueles que buscam na razão e no conhecimento a luz para tudo que está relacionado a esta situação.

  O meio social e suas dialéticas incompreensíveis em muitas situações assim como o meio natural intrinsecamente ligado ao social, nada mais são do que um pequeno retalho neste pano infindável que é o conhecimento e sua complexa abordagem. Não estariam os primeiros homens dispostos ou pré-dispostos a uma divisão de classes? Seria esta uma causa natural? Seria esta uma causa social e natural? Enfim os questionamentos são muitos e as repostas ou possíveis respostas também. O ponto de mutação sinaliza para fim trágico, no entanto o gene egoísta afirma que somos todos hospedeiros, que agimos de acordo com a vontade do gene e não nossa propriamente dita.

  A geografia é a complexidade da ciência por se tratar de uma ciência de síntese já taxado por muitos há algum tempo, já aceita por muitos há algum tempo, em momentos não se sabe diferença de um texto de história para geografia o mesmo acontecendo com sociologia, biologia, enfim todas as ciências traçam um emaranhado de fios de conhecimento que formam uma grande teia para aqueles que atrevem a sair do convencional deixando de ver as coisas com a visão retilínea e uniforme de tudo que existe.

  Pensar geografia é pensar o mundo, pensar o mundo é pensar o universo e penar o universo é pensar o homem com suas complexidades em sua totalidade. Esse é o verdadeiro efeito da geografia da complexidade, onde tudo está interligado e não apenas em tempos de globalização, pois, tal interligação já ocorre muito antes do homem conhecer a escrita ou dominar o fogo, pois, o pensar é anterior a tudo que se conhece em se tratando de formalizar o conhecimento para concretizá-lo, tendo em vista que o pensar é abstrato. A geografia parte do abstrato ao concreto com suas vertentes epistemológicas.


5. considerações finais


  Pensa-se em trazer a luz do conhecimento tudo que é providencial ao favorecimento da humanidade, não se pode negar que os milhares de livros que foram queimados ao longo da história, foram danos irreparáveis, que talvez nunca mais tenhamos acesso ao montante da biblioteca de Alexandria, por exemplo, ou a queima dos livros em praça pública pelos nazistas durante a segunda guerra mundial, exemplo disso foi a busca pelo santo graal da matemática que foi o último teorema de Fermat, demonstrado somente no século XX, acabando com mais de 300 anos de procura.

  Tem-se na geografia da complexidade uma procura pelo santo graal de todo o conhecimento humano que é a unificação quase que divinal de tudo que a humanidade já produziu desde sua existência nos tempos remotos, sem água, sem luz, sem telefone enfim sem as maravilhas modernas, no entanto, o conhecimento sempre existiu partindo do princípio que a vida por si só já uma forma de conhecimento, já é uma sobrevivência em um universo inóspito que tenta a todo o momento eliminá-la através da extinção de algumas espécies. Buscando fundamentos em áreas afins e até nas ditas não afins, tenta-se este enlace naquilo que pode parecer um absurdo, que é juntar geografia e matemática ou física ou biologia, no entanto, esta é a proposta inicial da geografia da complexidade, mostra o que é complexo de uma forma suave e sem maiores traumas, sem a famosa divisão do conhecimento em áreas ou vertentes, que existam somente para fins didáticos, no tocante ao profundo abismo do conhecimento e da razão esta situação deve ser deixada de lado, pois, as fronteiras existentes até então devem ser derrubadas dando espaço ao infinito no conhecimento da geografia.


    Referências bibliográficas


  CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas: Ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cutrix, 2008.

  DAWKINS, Richard. O gene egoísta. São Paulo: Companhia das letras, 2007.

  SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência global. Rio de Janeiro: Record, 2008.

  SINGH, Simon. O último teorema de Fermat. São Paulo-Rio de Janeiro: Record, 2008.

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