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Uma reflexão sobre o prejuízo econômico em face do uso inadequado do lixo

Vanicéia de Castro Aquino e Andréia de Carvalho Nogueira

    Introdução


  Típica da sociedade moderna a forte cultura consumista causa o problema da geração, em excesso, de lixo.  Aliado a isso o inadequado manejo e o destino dos resíduos sólidos envolvem sérias questões ambientais, econômicas e sociais, podendo ocasionar graves conseqüências num futuro próximo. Diante desta problemática, a busca por alternativas que visem a minimizar a degradação da natureza e aumentar o bem estar da população é algo indispensável e urgente.

  O processo produtivo industrial pode ilustrar bem a falta de um manejo adequado do lixo. Pois, segundo JOHN (2000), no modelo atual de produção, os resíduos são sempre gerados na produção de bens de consumo, que ao final de sua vida útil se convertem em resíduos. Desta forma, a massa de resíduos gerados é superior a massa de bens de consumo em longo prazo para qualquer economia mundial.

  Para uma visão quantificadora da problemática do lixo, têm-se os números a seguir, que ajudam a ter uma noção da dimensão do uso não adequado do lixo: No mundo se descarta 1 milhão de sacos plásticos por minuto; cada brasileiro descarta, em média, mais de 1 quilo de lixo por dia e se considerarmos somente o lixo que a cidade de São Paulo deposita nos aterros em uma semana é o suficiente para encher o Estádio do Maracanã no Rio de Janeiro (o maior estádio de futebol do mundo). O Aterro Bandeirantes (maior aterro em área da América Latina) recebe 5 mil toneladas de lixo por dia e isso é só a metade do lixo que a cidade de São Paulo produz. O maior problema é a falta de compromisso em tirar o máximo proveito do que o lixo pode trazer de benéfico para as pessoas.

  O lixo, ou resíduos sólidos, deve ser coletado, transportado e disposto de forma adequada pelas prefeituras municipais, tendo, como prioridade, não causar danos ao meio ambiente e à população, ou seja, as prefeituras devem coletar o lixo na porta de sua casa e depositá-lo de forma correta em aterros controlados e não em lixões, já que esses degradam o meio ambiente. O custo para esse processo de coleta até a disposição adequada do lixo é alto, basta pensarmos quanto custaria para manter caminhões, funcionários e um aterro em uso ininterrupto, visto que estamos gerando lixo o ano todo. Entretanto, é a sociedade quem paga. Há países que já estão pagando muito caro por isso. O jornalista Washington Novaes em uma de suas entrevistas citou exemplo do Canadá, onde a cidade de Toronto já leva seu lixo a 800 km de distância e tiveram que criar uma linha férrea para transportá-lo.

  Um ponto que não deve ser esquecido e que tem ligação direta com o lixo é a coleta seletiva. A mesma traz inúmeras vantagens para toda a sociedade, no entanto, para que haja sucesso, deve haver investimentos no sentido de sensibilizar a população na separação de materiais que podem ser reaproveitados.

  Da coleta seletiva se pode extrair pontos positivos do lixo, esta se apresenta como um forte potencial de rentabilidade econômica. A partir do momento que ela viabiliza a recuperação da qualidade de materiais os quais podem ser reciclados e que estariam indo direto para o lixo. Também harmoniza e estimula a cidadania. Permite um aumento na escala e amplia gradativamente a quantidade de materiais destinados à reciclagem, reduzindo o volume do lixo disposto em aterros e, conseqüentemente, aumentando, então, a vida útil destes materiais. A Revista da Indústria, publicada pela FIESP no mês de julho de 2005, traz alguns números interessantes sobre a reciclagem, afirmando que o aproveitamento de resíduos já é alto em alguns setores como, 97% em alumínio, 77,3% em papelão ondulado e 40% em PET. Porém, atualmente, o que mais sensibiliza a população para a separação do lixo é a geração de renda para catadores, sucateiros e outros que estão envolvidos com a área da reciclagem.

  Outro ponto que liga o lixo à economia diz respeito à geração de energia. Estudos mostram que a matéria orgânica quando se decompõe, produz o gás metano (CH4) que é um gás poderosíssimo de efeito estufa, pois é 21 vezes mais quente que o CO2. Esse gás metano "solto" na natureza pode causar mudanças climáticas. Infelizmente o Brasil é um grande produtor de gás metano. Das 180 mil toneladas produzidas por dia, 31% é abandonado a céu aberto. Entretanto, o Ministério do Meio Ambiente fez uma pesquisa analisando o lixo e os aterros de 91 cidades brasileiras em que constatou que o potencial energético a partir do gás metano produzido por esses 91 aterros é o suficiente para atender a 6,5 milhões de pessoas.

  Já que existem métodos de tratamento antes do envio ao destino final, tais como: a incineração, a compostagem e a reciclagem, que são indicados com o objetivo de reduzir o volume dos resíduos sólidos a serem dispostos nos aterros sanitários, porque não utilizá-los?

  Segundo as pesquisas de MELDONIAN (1998) e CALDERONI (1998), a adoção de métodos de tratamento como a coleta seletiva e reciclagem apresentam vantagens sócio-econômicas e ambientais, dentre as quais destacam o reaproveitamento e reutilização dos resíduos como fonte de matérias-primas, economia de energia, maximização na utilização das áreas de disposição final, redução da poluição à saúde pública e ao meio ambiente, e por fim, a geração de renda e emprego.

  A reutilização dos diferentes resíduos vem sendo abordada constantemente por pesquisadores como uma das principais metas para se alcançar o desenvolvimento sustentável, reduzindo assim, a produção dos resíduos gerados pelas inúmeras atividades humanas.

  A reciclagem dos resíduos, com o aperfeiçoamento de projetos que visam poupar impactos ao meio ambiente, e a substituição de materiais tradicionais por outros mais eficientes podem vir a criar produtos melhores (a nível comercial) e, com maior durabilidade.

  As formas adequadas de aproveitamento de resíduos e de subprodutos industriais, como matéria secundária, devem abranger um completo conhecimento do processo de geração, caracterização completa e identificação do potencial de aproveitamento dos resíduos, definindo as características limitantes do uso e da aplicação.

  Em se tratando do lixo brasileiro ele  é tido como um dos mais ricos do mundo. Mas, para Heliana Katia Campos, secretária-executiva do Fórum Nacional Lixo e Cidadania, da Unicef não está sendo dada a devida importância às questões relativas ao saneamento ambiental, em especial à coleta e destinação adequada dos resíduos. Ela alerta para o fato de que o descarte aleatório dos resíduos em nascentes, córregos, margens de rios e estradas, além de provocar problemas ambientais graves e poluir as águas, que muitas vezes são captadas para consumo, atrai para estes locais um exército de desempregados e famintos, que sobrevivem à custa da cata de resíduos para a sua alimentação e para comercialização. Katia ressalta ainda que o problema da catação de lixo por seres humanos é "regra geral", de norte a sul do país, tanto em cidades de pequeno porte como nas grandes capitais. "É uma situação constrangedora e inaceitável, fruto da miséria, do desemprego e da busca desesperada pela sobrevivência".

  Segundo os dados de um estudo feito pelo Compromisso Empresarial para a Reciclagem (Cempre), são produzidas no Brasil aproximadamente 240 mil toneladas diariamente, e o fator agravante é que 76% desse lixo não passam por qualquer gerenciamento, sendo despejados nos aterros a céu aberto e, na maioria das vezes, afetando o equilíbrio do ecossistema.

  Outro dado interessante é que apenas 2,5% das cidades brasileiras separam parte de seu lixo urbano. O economista Sebetai Calderoni, em seu livro "Os bilhões perdidos no lixo", afirma que o Brasil perde anualmente R$ 5,8 bilhões porque deixa de reciclar o seu lixo urbano, deixando claro que nosso lixo vale muito e pode ser uma alternativa de renda para muitas pessoas que se encontram desempregadas e até mesmo excluídas do meio social.

  Diante de todos os meios para a reutilização do lixo a reciclagem de lixo tem se revelado um bom negócio. Países desenvolvidos, como a Austrália e o Japão, já reciclam praticamente 100% do lixo que produzem. Os Estados Unidos são o país que produz mais lixo no mundo, e parte desse lixo é reciclado, empregando milhares de pessoas nesse processo. Outro aspecto que temos que levar em conta é que a reciclagem, além de propiciar trabalho e renda a muitas pessoas, faz muito bem ao meio ambiente, deixando-o mais limpo e evitando o desperdício e a extração de materiais.

  Um exemplo interessante a ser dado é o caso do alumínio. A cada tonelada de alumínio reciclada, é evitada a retirada de 5 toneladas de minério de bauxita, sem dizer que o processo de transformação do minério em alumínio consome muita energia. Para se ter uma idéia do que isso significa para a natureza, o consumo de latas de alumínio no Brasil neste ano deverá ser de 9,5 bilhões de unidades, e no mundo, de 220 bilhões. Cada quilo de alumínio produz apenas 67 latas. Imagine se não houvesse a reciclagem desse material. Em pouco tempo, não se teria mais alumínio no mundo. Já com relação à embalagem longa vida (do leite, do suco e de outros produtos), cada tonelada reciclada gera cerca de 650 quilos de papel kraft, o que evitará o corte de 20 árvores cultivadas em reflorestamento comercial.

  A reciclagem no Brasil é fortemente sustentada pelos garimpeiros do lixo (catação informal). Os programas criados pelo poder púbico, muitas vezes em parecia com os catadores, também têm se difundido. Entre os principais méritos da reciclagem estão o de reduzir o volume de lixo de difícil degradação, o de contribuir para a economia de recursos naturais, ode prolongar a vida útil dos aterros sanitários, o de diminuir a poluição do solo, da água e do ar e o de evitar o desperdício, contribuindo para a preservação do meio ambiente. Trata-se de um processo de transformação de materiais para reaproveitamento na indústria e na agricultura.

  São basicamente dois os modelos de programas de reciclagem implantados em municípios brasileiros: coleta seletiva de lixo e usinas de reciclagem. Há, felizmente, exemplos de cidades em que a reciclagem já atingiu um estágio avançado, com resultados importantes. Curitiba (PR), com o programa "Lixo que não é lixo", implantado há 10 anos, representa com louvor essas experiências bem sucedidas. Mas, de acordo com o levantamento da Unicef sobre a destinação final do lixo no Brasil, constata-se uma precária situação na maioria dos municípios: 88% deles não possuem conselho de meio ambiente, tido como principal instrumento de controle dos problemas ambientais. Apenas 34% das cidades têm um órgão ambiental especifico, em 25% são outras instâncias que respondem pela área ambiental e em 41% não há qualquer órgão responsável pela gestão ambiental.

  Agora, indo para o lado prático, os pontos essenciais são o incentivo do poder público e a criação de cooperativas que possam acomodar as pessoas que trabalham na coleta de materiais recicláveis, dando a elas melhores condições de trabalho. O investimento em campanhas de conscientização, alertando a população para a importância da coleta seletiva e da reciclagem do lixo, lembrando que o ele poderá se tornar renda para outras pessoas e a promoção de educação ambiental, focalizando a teoria dos três "r" (reduzir, reutilizar e reciclar) também são importantes.

  O programa da Unicef preconiza a necessidade de uma intervenção social voltada ao resgate da cidadania dos trabalhadores que vivem em condições de absoluta pobreza, "sobrevivendo das sobras e dos desperdícios dos mais afortunados". Como alternativa à catação nos lixões, o Lixo e Cidadania procura incentivar a coleta seletiva, com a participação das famílias dos catadores, propiciando a geração de postos de trabalho e renda para as mesmas.

  Tão logo, informar e orientar são requisitos básicos para que haja sustentabilidade. Sendo assim, não há como esquecer o papel da escola e do educador. A compreensão dos aspectos científicos, tecnológicos e sociais relacionados ao lixo é de extrema importância, pois possibilita ao cidadão a reflexão crítica sobre seu papel como co-responsável pela geração e solução de problemas ambientais (MACHADO, 2001).

  Para Cunha e Caixeta Filho (2002), muitas vezes, o lixo é tratado com a mesma indiferença da época das cavernas, quando não era verdadeiramente um problema, seja pela menor quantidade gerada, seja pela maior facilidade da natureza em reciclá-lo. Entretanto, em tempos mais recentes, a quantidade de lixo gerada no mundo tem sido grande e seu mau gerenciamento, além de provocar gastos financeiros significativos, pode provocar graves danos ao meio ambiente e comprometer a saúde e o bem-estar da população. Por esse motivo, o interesse em estudar resíduos sólidos tem se mostrado crescente.

  O poder público deve propiciar as condições necessárias à ampliação do espaço para o debate e para a participação social na defesa e na execução das políticas ambientais, notadamente em relação ao lixo, uma vez que todos podem e devem adotar o princípio dos 3R – reduzir, reutilizar e reciclar.

  Então ver-se  que o lixo tem uma forte ligação com a área econômica, mas ainda tem muito para ser feito por parte do poder público que, na maioria das cidades, não estimula a coleta seletiva, a reciclagem etc. Há pontos na legislação tributária que devem ser mudados para estimular a criação de novos negócios e novas empresas na área de reciclagem de produtos. Precisa-se estimular a mudança nos percentuais de cobrança do ICMS para empresas dessa área, sem contar com as leis de atração de novos empreendimentos empresariais, especialmente das empresas que atuam junto à reciclagem. Finalmente, além dos ganhos econômicos que foram destacados neste artigo e que não estão sendo aproveitados como deveriam ser, tem-se os ganhos ambientais que são imensuráveis.

    Bibliografia


  CALDERONI, S. Os bilhões perdidos no lixo. 3 ª edição. São Paulo: Humanitas Editora, 346 p.1998.

  CUNHA, V.; CAIXETA FILHO, J. V. Gerenciamento da coleta de resíduos sólidos urbanos: estruturação e aplicação de modelo não-linear de programação por metas. Disponível em . Acesso em: 07 jul.2010

  Estatísticas de Reciclagem –Lixo. O lixo é uma fonte de riquezas. Disponível em <http://ambientes.ambientebrasil.com.br/residuos/estatisticas_de_reciclagem/estatisticas_de_reciclagem_-_lixo.html>. Acesso em: 07 jul.2010

  JOHN, V. M. Reciclagem de resíduos na construção civil: Contribuição para metodologia de pesquisa e desenvolvimento.Tese de Livre Docência. Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, 113 p., 2000.

  MACHADO, M.I.A. Outubro 2001. Proposta de Programa de Coleta Seletiva de Lixo Domiciliar na Área Urbana do Município de Frei Paulo-SE. Monografia apresentada ao curso de Gestão e Recursos Hídricos. Especialização. Universidade Federal de Sergipe. 46p.

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