Da psicanálise à estética

Freud pretendeu ser estruturalista. Sua vida é uma sucessão de remontagens. Tais montagens tiveram cerne cada vez mais reduzido, até que formulou o conceito de id como polo pulsional. A pulsão é a unidade irredutível do pensamento psicanalítico.

Freud passa a explicar os possíveis caminhos pulsionais rumo à satisfação do desejo e as implicações, para esse processo, de um mundo simbólico limitado. O inconsciente perde em importância e Freud passa a ocupar suas preocupações com o pertencimento (ou não) de determinadas pulsões a um mundo representável.

No fim da vida, Freud renuncia ao estruturalismo e flerta com a interdisciplinaridade. O conhecimento, mais rarefeito, se expande tomando metáforas da psicanálise por empréstimo para explicar o campo das humanas.

As metáforas passam por um processo de sofisticação, até que sirvam à política e à religião. É a decalagem da psicanálise e seu início de retorno ao campo da linguagem, inaugurando um conhecimento totalmente transversal.

O homem passa a ser descentrado e moldado pela alteridade. Um discurso relacional passa a preponderar e a hermenêutica ganha destaque. Um diagnóstico não basta, um rememorar não basta, um reviver não basta - ao menos sem a interferência do analista parcial sobre a vida do analisando. De toda forma, renuncia-se à cura.

Resta ao homem cunhar sua singularidade, tomando consciência de seu desamparo (impotência e finitude), o que reflete em todas as áreas do conhecimento e da sua vida.

Deleuze e Guattari executam um projeto de cunhagem da sua singularidade. Eles executam o que é possível a um homem, que é a construção de um estilo.

Existe uma sintática débil em sua mensagem, permitindo que o nível da semântica passe por um processo de ressignificação.

Há um uso alegórico de sentidos com interferência sinestésica. Esse estilo é um exemplo do conhecimento assintótico possível, considerando as limitações do homem.

À semelhança do que a psicanálise faz com o psiquismo individual, circundando conflitos indizíveis, a proposta de Delueze e Guattari tangencia temáticas do indizível alheias ao individual.

Seu pensamento é rastro de uma jornada. Por ser uma desconstrução radicalizada, não permite a exportação de conceitos. Da mesma forma, por carecerem de amparos em lembranças da vivência pessoal, não há resgate de traumas nem processo de sublimação.

A associação livre é radical. Com a falta de um paciente (e de uma vida a ser rememorada), o processo de análise psicanalítica aplicada sobre pensamentos sem suporte real cria uma filosofia delirante.

Deleuze e Guattari inventam linguagem e assim criam um mundo ao seu estilo. Dificilmente poderemos pertencer a esse mundo, mas podemos visitá-lo - o que já é um deleite. Eles não ensinam, inspiram; não comunicam, sublimam; não constroem, deixam rastros.

Esses rastros são feitos sobre os restos da implosão de um edifício freudiano, cujo principal legado são memórias de estruturas obsoletas e o prenúncio de que a psicanálise se diluiria na estética.

Acompanhe por RSS

Boletim Arcos

Cadastre-se para receber nosso boletim informativo
E-mail:

ok


Acompanhe o Arcos nas redes sociais


Licença Creative Commons | Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas
Alguns direitos reservados
Exceto quando assinalado, todo o conteúdo deste site é distribuído com uma licença de uso Creative Commons
Creative Commons: Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas

Como seria o Vade Mecum dos seus sonhos?

Estamos trabalhando em um Vade Mecum digital, inteligente, acessível e gratuito.
Cadastre-se e tenha acesso antecipado e gratuito à nossa versão beta.