II - Maquiavel

Diálogos

< Voltar ao diálogo principal
[+3] 
Diego-gontijo-de-aquino'>Diego Gontijo de Aquino 07/09/09 às 17h09

Questão 2

Meritíssimo Senhor,

Já de início informo que devido ao grande distanciamento temporal entre o contexto em que Maquiavel viveu e escreveu a obra e o em que nos encontramos já torna claro que seria extremamente difícil seguir qualquer dos conselhos dados se levados ao pé da letra, sem uma devida adaptação ao nosso contexto político, histórico, social, cultural, econômico.

A primeira lição que de certa forma ressaltaria seria o da função prática da história, que muitos não pensam haver, que foi utilizado para escrever e justificar seus argumentos na obra. Essa função prática se faz através do estudo da história de forma a tirar lições do passado, visando assim aprender com erros cometidos de forma a não mais cometê-los e se inspirar no que se mostrou positivo e eficiente, mas sempre lembrando que muitas vezes o que deu certo no passado poderá não dar certo em um contexto presente de forma que se deve buscar a essência de forma a lhe dar nova roupagem. A partir disso seria sensato também estudar a história dos grandes, mas não necessita que sejam os grandes de séculos passados, podendo ser os de décadas ou de poucos anos atrás, sendo o importante mirar Vossa trajetória nos atos daqueles que marcaram a história por seus grandes valores e atos assim como falou Maquiavel “deve um homem prudente sempre trilhar os caminhos abertos pelos grandes e imitar aqueles que foram os mais excelentes, a fim de que se seu valor não puder ser atingido, que a eles se assemelhe, ao menos, em alguma coisa”.

Um grande ponto tem a seu favor, por já haver sido eleito na última eleição Vossa Excelência tem a vantagem no oposto do que trata Maquiavel no trecho “é preciso considerar que não há coisa mais difícil de ser tratada, de consecução mais duvidosa, de manejo mais perigoso do que fazer-se o líder da introdução de novas regras, pois o introdutor terá como inimigo todos aqueles que tiram proveito das velhas regras, enquanto que em todos aqueles que tiram proveito das novas regras encontrará tíbios defensores”. Assim será necessário que apenas mantenha seu plano de governo, as propostas passadas, para ter um forte apoio, mas vale lembrar que tais informações são em geral defasadas, e essa em especial é limitada no sentido de que não leva em conta mudanças que possam ocorrer e que tornariam inviável a persistência em velhas regras como, por exemplo, um ganho de força por parte dos grupos de pressão que exigem mudanças e também não leva em conta se as antigas regras recebiam ou não um forte apoio por parte de grupos consideráveis e de maior poder.

Por mais que seja quase inevitável um apoio e investimento de outros para se fazer uma boa campanha política, Vossa Excelência deve evitar ao máximo se utilizar deles e se o fizer que seja com aqueles com que já anteriormente se partilhava idéias e objetivos comuns. Quando se chega ao poder através de outros se torna quase inevitável se manter depois sem os mesmos, o que causa uma forte dependência, e ainda acaba por se tornar apenas uma marionete das vontades daqueles, exercendo pouco de seu livre-arbítrio.

Maquiavel menciona que uma das formas de se chegar ao poder é através de crimes e outros meios execráveis, diz que pode ser eficaz em determinados casos, apesar de ser pouco louvável. Não é preciso dizer já de começo que tais meios não são aceitáveis, muito menos os que envolvem a morte de outros, pois Vossa Excelência não pretende ser um príncipe e sim um governador, que ao menos em tese deve servir o povo e não a si próprio, seguindo essa lógica, prejudicar outrem para benefício próprio não faz em tal contexto sentido. Mas onde ele dá tal explicação há uma lição de maior proveito que esta expressa nos trechos “ao conquistar um Estado, o conquistador deve avaliar rapidamente todas as violências que lhe são necessárias cometer e cometê-las todas de um só golpe para não ter que repeti-las todos os dias e poder, não as repetindo, tranqüilizar os homens e conquistá-los beneficiando-os” e “as violências devem ser feitas todas em conjunto para que, dispondo-se de menos tempo para provar seu gosto, pareçam menos amargas; os benefícios devem ser concedidos pouco a pouco para que sejam mais bem saboreados”. Com relação à palavra violência, acredito não ser a mais propícia para o Vosso caso, pois esta deve ser evitada de todos os modos, sendo preferível considerar em seu lugar as decisões que provocam reações adversas na população ou em determinados grupos, mesmo que visando um benefício futuro aos mesmos, pois nestes casos a população ou grupos específicos podem não compreender o que Vossa Excelência pretende ou podem mesmo não aceitar medidas que lhes sejam prejudiciais. Caberá apenas ao Vosso juízo decidir quais medidas serão essas vistas como prejudiciais pela população e então se possível aplicá-las de uma única vez para que depois só sobrem a serem feitas os atos bem vistos e que por isso serão mais bem lembrados.

Provavelmente o capítulo da obra “O Príncipe” que melhor se refira ao modelo em que nos encontramos seja o capítulo IX que trata do principado civil, onde Maquiavel mostra haver um constante conflito de interesses entre o povo e os grandes e é desse ou nesse conflito que nasce tal principado. Tal conflito permanece em muitos pontos bastante atual pois nele há o povo, que quer liberdade e não opressão, e os grandes, que querem dominar e oprimir. Quanto a forma de nascimento de tal príncipe há duas formas diferentes, uma onde o príncipe chega a tal posição devido aos grandes que o colocam lá devido a consciência da incapacidade de dominar o povo e visam utilizar o príncipe como um meio de satisfazer suas vontades. A outra forma é o principado promovido pelo povo diante do sentimento de impotência com relação aos grandes vendo no príncipe uma forma de se defenderem de abusos. De acordo com Maquiavel é preferível ser levado ao poder pelo povo do que pelos grandes, pois coloca que é mais fácil satisfazer o povo, que suas metas são mais honradas, que se pode viver sem os grandes mas não sem o povo, que os grandes podem ser substituídos mas o povo não, que o povo é mais forte e por isso quando hostis de pouco vale a proteção dos grandes. Maquiavel dá muitos outros esclarecimentos do motivo pelo qual se deve preferir estar junto ao povo, mas que não convém mencionar por já estar o texto muito longo. O fato é que por um lado esta certo o que disse a respeito do povo, tirando que hoje esse povo é muito mais difícil de agradar e muito mais exigentes quanto aos seus direitos, não sendo tão ignorantes e tão manipuláveis quanto já o foram. Atualmente se mostra impossível promover um bom governo sem agradar tanto ao povo quanto aos grandes, que seriam aqueles que de uma forma bastante simplificada detêm grande poder de influencia no mercado, por serem uns detentores da quase totalidade dos votos e os outros por serem detentores econômicos, o que torna o trabalho um tanto mais seguro, por não visar o ódio de nenhum dos dois, e mais complicado visto em muitos casos serem os desejos de ambos contrários. Mas isso é algo que Vossa Excelência deve ter sempre em mente e para isso vale o bom caso do presidente Getúlio Vargas que foi, por muitos, considerado “mãe dos ricos e pai dos pobres” e que por isso foi exitoso ao conseguir agradar e obter apoio de ambos os lados.

Termino por aqui por já estar o parecer muito longo, apesar de haver ainda na obra muita coisa que poderia ser explorada, citando eu apenas alguns poucos casos abordados por Maquiavel, mas que acredito já servirem ao propósito pedido . Então fico por aqui.

[+1] 
Bárbara Layza 07/09/09 às 19h09

Questão 2

Exmo. Sr. Governador,

 

 

Reli a obra O Príncipe, de Maquiavel, como solicitado e gostaria de chamar atenção para alguns pontos que considero relevantes para elaborarmos seu discurso para as próximas eleições. Além disso, há aspectos que devem ficar em oculto, ou seja, não devem ser abertos para a população como um todo, pois dessa forma, Vossa Excelência não seria reeleito. Exporei os pontos em forma de lista e farei um breve comentário dizendo se eles são atuais ou se seria pernicioso segui-los.

 

 

- Antes de tudo, é preciso que Vossa Excelência esteja atento aos feitos dos grandes homens e busque neles inspiração para suas atitudes; o exemplo deles é fundamental para auxiliá-lo nessa grande empreitada. Maquiavel nos ajuda citando casos de homens que obtiveram sucesso e também daqueles que fracassaram.

 

 

- Faz-se necessário a um bom governador estar sempre atento às possíveis dificuldades do futuro e não se concentrar apenas nas do presente; isso é fundamental para que haja tempo de contorná-las de forma bem sucedida: “Assim também ocorre nos assuntos do Estado porque, conhecendo com antecedência os males que o atingem [...], a cura é rápida; mas quando, por não se os ter conhecido logo, vêm eles a crescer de modo a se tornarem do conhecimento de todos, não mais existe remédio.”

 

 

- Maquiavel valorizava bastante o aspecto bélico na constituição de um Estado e inclusive escreveu: “Daí resulta que todos os profetas armados venceram e os desarmados fracassaram.” Penso eu, porém, que isso não tem sido sempre verdade na história da humanidade; é claro que, principalmente no sistema internacional, é de fundamental importância que, caso haja algum Estado armado, o outro também deve estar para sua própria segurança. Mas há um grande exemplo histórico do século passado: Mahatma Gandhi, por meio de uma reivindicação pacífica, lutou pela independência indiana e marcou a história da humanidade. Por isso, creio que, como governador, vossa excelência deva saber manejar a questão bélica de forma equilibrada; e isso está muito relacionado com outra passagem do livro, que, a meu ver, é bastante sintética: “Não se pode, ainda, chamar de virtude o matar seus concidadãos, trair os amigos, ser sem fé, sem piedade, sem religião; tais modos podem fazer conquistar poder, mas não glória.” 

 

 

- Seria fundamental para vossa reeleição a continuidade do processo que vem sendo desenvolvido: a relação de confiança entre o governante e o povo. Tendo o apoio do povo, Vossa Excelência não terá o que temer em momentos de adversidades e terá desenvolvido bons fundamentos em seu governo. Um exemplo bastante atual (e polêmico também) é o de Hugo Chávez na Venezuela, que mesmo colecionando desavenças, colocou a situação do país em uma posição de destaque no que tange não apenas à área econômica, mas também à social; todos esses fatores contribuíram para o aumento do apoio popular a seu governo.

 

 

- “Um príncipe prudente, portanto, sempre tem fugido a essas tropas para voltar-se às suas próprias forças, preferindo perder com as suas a vencer com aquelas, eis que, em verdade, não representaria vitória aquela que fosse conquistada com as armas alheias.” Citei esse fragmento do texto, apenas para ressaltar que hoje, em nosso país, ele não faz tanto sentido, pois de acordo com a Constituição em vigor, é vedada a associação com caráter paramilitar.

 

 

- “Deve, pois, um príncipe não ter outro objetivo nem outro pensamento, nem tomar qualquer outra coisa por fazer, senão a guerra e a sua organização e disciplina, pois que é essa a única arte que compete a quem comanda. [...] quando os príncipes pensam mais nas delicadezas do que nas armas, perdem o seu Estado”.  Eu realmente tenho minhas dúvidas quanto à veracidade desse pensamento do autor nos dias atuais; é, inclusive, um pensamento característico das Teorias Realistas das Relações Internacionais, que focaliza na constante busca pela ampliação do poder pelos Estados, que se daria, em tese, por meios violentos. Eu penso que há várias outras formas dos Municípios, Unidades Federativas e outros elementos da estrutura estatal alcançarem seus objetivos,um deles seria a resolução de conflitos por meio de acordos.

 

 

- Falemos agora de uma das máximas da obra de Maquiavel: deve ser o príncipe (nesse caso, o governador) temido ou amado? Segundo ele, seria necessário ser uma coisa e outra, mas como isso, na prática é difícil acontecer, é preferível ser temido a amado. Ele justifica argumentando que quando se faz bem aos homens, eles “são todos teus, oferecem-te o próprio sangue, os bens, a vida, os filhos, desde que, como se disse acima, a necessidade esteja longe de ti; quando esta se avizinha, porém, revoltam-se.” Porém, se o governante for temido, os homens receariam um possível castigo, em caso de descumprimento da ordem estabelecida. Concordo em parte com esse argumento; em muitas situações isso faria sentido, mas com o ideal democrático vivo em nosso seio pátrio, haveria, possivelmente, muitas resistências a essa forma de governar.

 

 

- Fiquei impressionada com duas passagens do capítulo XIII: “Logo, um senhor prudente não pode nem deve guardar sua palavra, quando isso seja prejudicial aos seus interesses e quando desapareceram as causas que o levaram a empenhá-la.” e “Mas é necessário saber bem disfarçar esta qualidade e ser grande simulador e dissimulador: tão simples são os homens e de tal forma cedem às necessidades presentes, que aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar.” Essas passagens são atualíssimas; podemos ver isso bem claro na crise do Senado, que envolve uma série de denúncias de atos secretos e dissimulados, da hipocrisia e da falta de palavra que assola grande parte dos nossos parlamentares e governantes. Infelizmente, caso queira se manter no poder, em meio a tanta corrupção, faz-se necessário sujar vossas mãos em meio a essa água suja da politicagem.

 

 

- “Nada faz estimar tanto um príncipe como as grandes empresas e o dar de si raros exemplos”. Na história da humanidade, os governantes que ousaram fazer grandes coisas e dar de si grandes exemplos, foram aqueles que mais obtiveram apoio e gratidão do povo. Parece até irônico eu citar esse exemplo, mas não muito longe daqui, tivemos um governador que, fazendo pontes e mantendo uma política assistencialista, conseguiu alcançar a proeza de se reeleger uma vez, e talvez, num futuro próximo, duas. Acho que seria uma dica interessante para Vossa Excelência seguir.

 

 

- Maquiavel fala também, que um príncipe deve se mostrar amante das artes e das virtudes; deve estimular os cidadãos a exercerem suas atividades, como a agricultura, o comércio. Deve ele também distrair o povo com festas e espetáculos. Achei bastante interessante esse conselho; hoje em dia com o acesso que temos à tecnologia e à informação (expansão dos meios de comunicação), creio que seria fácil alcançar isso; inclusive conheço várias bandas e grupos teatrais que podem auxiliá-lo nesse processo.

 

 

- “Não é de pouca importância para um príncipe a escolha dos ministros, os quais são bons ou não, segundo a prudência daquele. E a primeira conjetura que se faz da inteligência de um senhor resulta da observação dos homens que o cercam...”. A frase já fala por si só; Vossa Excelência deve escolher pessoas capacitadas para auxiliá-lo nessa empreitada rumo à reeleição e a um excelente mandato; modéstia à parte, creio que eu seria uma dessas pessoas indicadas.

 

 

 

 

Esses foram os aspectos que, a meu ver são mais relevantes. É claro que há outros que também o são, mas pela proximidade das eleições e pela pouca disponibilidade de tempo, penso que esses serão de suma importância.

 

 

Atenciosamente,

 

 

Bárbara Layza.

[0] 

Para Diego

  Diego, eu primeiramente tenho que dizer que gostei muito do seu trabalho, porém há alguns pontos que gostaria de destacar, quando você diz que o político não se pode utilizar de meios execráveis, atualmente, creio isso ainda ser possível, porém de outras maneiras, afinal ele ainda poderia se utilizar de algumas vias que vão contra a boa moral, ou seja, fazer propostas que não se pode cumprir, aliar-se a interesses contrarios aos que defende, entre outras situações normalmente frustram o eleitorado brasileiro; além de casos de corrupção que normalmente envolvem jogos de poder. Porém depois, você utiliza semelhante raciocínio acerca da manutenção do poder, se utilizando de uma idéia até comum na política, e que ás vezes passa batido na leitura do Maquiavel, algo muito bom, quando você fala do trecho dos mals serem feitos de uma só vez e o bem aos poucos.

Licença Creative Commons | Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas
Alguns direitos reservados
Exceto quando assinalado, todo o conteúdo deste site é distribuído com uma licença de uso Creative Commons
Creative Commons: Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas

Como seria o Vade Mecum dos seus sonhos?

Estamos trabalhando em um Vade Mecum digital, inteligente, acessível e gratuito.
Cadastre-se e tenha acesso antecipado e gratuito à nossa versão beta.