II - Maquiavel

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Mariana Bontempo Sidersky 07/09/09 às 22h09

Questão 2

Escrevi esse tratado a partir de um pedido do Senhor Governador e espero que lhe seja de muita utilidade. Tento aqui fazer uma análise que nos possibilite perceber o que essa obra de mais de 500 anos tem de atual que ainda pode ser aplicado, e aquilo que pela passagem do tempo se tornou ultrapassado.

-Para um príncipe ser bem estimado ele precisa fazer grandes ações e “acima de tudo, um príncipe deve esmerar-se para oferecer de si, em cada gesto seu, a idéia de um homem com grandeza e excele no pensar” (Maquiavel, pg. 127), “Além disso, nos períodos mais propícios do ano, ele deverá recrear a população com  festas e espetáculos” (Maquiavel, pg. 131). Essas atitudes são especialmente importantes para os políticos atuais pois esses precisam ter uma imagem muito boa para se reelegerem. Mas se precisas fazer, pelo bem do seu estado, algo pelo qual possa ser taxado de ruim, deves seguir o conselho de Maquiavel e fazê-lo mas  tenha muito cuidado pois os prícipes de hoje dependem muito mais de suas reputações que os antigos príncipes. No tempo de Maquiavel os governantes não tinham que se preocupar com a “accountability” (prestação de contas). Nos governos atuais é necessário que o governante regularmente explique às instâncias controladoras e seus representados o que anda fazendo, como faz, por que faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir, e na época de Maquiavel o príncipes não tinham essa preocupação, podiam tomar suas decisões e seu atos sem ter que dizer nada a ninguém. Reitero assim meu alerta: tenha consciência que estás sendo observado bem mais de perto do que os príncipes na época de Maquiavel eram observados.

-Aceite o conselho de Maquiavel quando ele diz que um príncipe deve ter parcimônia e assim será capaz de patrocinar o que for de necessário para seu estado sem “espoliar os seus súditos” (Maquiavel, pg. 92).

- Maquiavel começa o livro definindo o Estado: “todos os governos que tiveram e têm autoridade sobre os homens, foram e são ou repúblicas ou principados”( Maquiavel,pg. 5). Como governador de um estado contemporâneo, não acredito que seja recomendável basear seus atos nessa classificação. Na época de Maquiavel esses dois tipos de governos eram os principais, mas hoje a nossa democracia representativa não entra no conceito maquiavélico de república e os principados são tão comuns e ainda existem aqueles modelos de governo que não se parecem em nada com os dois conceitos, como os regimes comunistas.

 

- Mas deves dar ouvidos a Maquiavel quando ele explica seus conceitos de virtú e fortuna. “Dado que este evento da passagem de homem (no sentido privado) a príncipe pressupõe que este possua méritos (virtú) ou muito sorte (fortuna) ” (Maquiavel, pg. 30). Ao contrário da maioria dos autores que o precederam, Maquiavel acredita que um homem pode moldar o seu destino através da virtude, embora possa também depender da sorte. “Sem esta ocasião, suas virtudes espirituais ter-se-iam perdido, e, sem essas virtudes, a ocasião haveria sido vã.” (Maquiavel, pg. 31).

 

- Ele também acreditava que um governante poderia (ou deveria) confiar a administração civil à outros e concentrar totalmente em suas mão todos os negócios da guerra. “Deve, pois, um príncipe não ter outro objetivo nem outro pensamento, nem tomar qualquer outra coisa por fazer, senão a guerra e a sua organização e disciplina, pois que é essa a única arte que compete a quem comanda.” (Maquiavel, pg. 82). Mas seguir esse conselho não lhe traria benefícios, pois os governadores atuais são os que devem realmente se preocupar com a administração civil. Hoje, a guerra não tem a mesma forma que tinha a mesma forma que tinha na Península Itálica no final do século XV.

 

- Um conceito que é citado continuamente por Maquiavel e não deverias tomar como farol para tuas ações é o modo que ele acredita que seja a natureza humana. “Pode-se dizer isto, em termos gerais, a propósito dos homens, que eles são ingratos, inconstantes, fingidores e impostores, covardes e gananciosos” (Maquiavel, pg. 68). Para Maquiavel a natureza humana é má e também não se alteraria ao longo da história, mas essa visão não é um consenso entre os cientistas sociais contemporâneos. Para o antropólogo Clifford Geertz as ações humanas não são definidas unicamente pela sua natureza estando essas ações ligadas intimamente às instituições sociais. “O homem não pode ser definido nem apenas por suas habilidades inatas, como fazia o iluminismo, nem apenas por seu comportamento real, como o faz grande parte da ciência social contemporânea, mas sim pelo elo entre eles,  pela forma em que o primeiro é transformado no segundo, suas potencialidades genéricas focalizadas em suas atuações específicas. É na carreira do homem, em seu curso característico, que podemos discernir, embora difusamente, sua natureza e apesar de a cultura ser apenas um elemento na determinação desse curso, ela não é o menos importante. Assim como a cultura nos modelou como uma espécie única — e sem dúvida ainda nos está modelando — assim também ela nos modela como indivíduos separados. É isso o que temos realmente em comum — nem um ser subcultural imutável, nem  um consenso de cruzamento cultural estabelecido." (GEERTZ,C. O Impacto do conceito de cultura sobre o conceito de homem, 1989, p. 37-38).

Perdoe-me senhor se deixei algo de fora mas espero que esse tratado lhe seja muito útil.

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Caio Cesar Paccola Jacon 08/09/09 às 00h09

II

Exmo. Sr. Governador,

 

 

A leitura e entendimento da obra “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel revela-se-nos extremamente pertinente ao exercício e manutenção do poder, e o interesse de V. Ex.ª em conhecer seus postulados demonstram que ao menos em parte já está alinhado ao pensamento trazido pelo texto, pois demonstra seu empenho em, com o exercício da virtù, controlar a ocasionalidade da fortuna.

 

Comecemos, portanto, a avaliar a relação entre fortuna e virtù abordada pelo autor. V. Ex.ª achará interessante a analogia que se faz da fortuna com “um destes rios torrentosos que, em sua fúria, inundam os plainos” e “assolam as árvores e as construções”, e da virtù com a construção preventiva de diques e barragens. Assim, a construção destes visaria a fazer com que as águas de uma cheia escoassem por um canal ou que o seu ímpeto não fosse “nem tão incontrolável, nem tão avassalador” [1]. Trazendo o raciocínio inerente a essa analogia à sua realidade, poderíamos dizer que, como político que intenta permanecer no poder, V. Ex.ª deve construir “diques e barragens” consistentes para manter suas imagem e candidatura protegidas de quaisquer distúrbios trazidos pelo azar. Deverá, então, para manter a fortuna submissa, “batê-la e maltratá-la” [2]. Dessa forma, V. Ex.ª mostrar-se-á aos seus votantes como pessoa virtuosa para o exercício da política.

 

Tamanha destreza, sem embargo, pode gerar tanto amor quanto temor no povo. Maquiavel também abordará essa questão, fazendo uma análise sobre se vale mais ao príncipe (governante) ser amado ou temido. Todavia, os tempos do autor eram outros, e por então ele concluirá que mais valia ser temido a ser amado, visto a dificuldade em se conciliarem ambos. Afirmar-se-á para justificá-lo que “os homens prezam segundo a sua vontade e temem segundo a vontade do príncipe”, e o príncipe prudente deve fundar-se “naquilo que respeita ao seu arbítrio, não no que respeita ao arbítrio de outrem” [3]. Hodiernamente essas últimas frases ainda guardam em si certo sentido, porquanto quando um político amado deixa de agir conforme os caprichos do povo, logo ele perde seu apoio. É, pois, ainda necessário ao político ter sua autoridade temida, para que suas decisões sejam respeitadas pelos que a elas devem estar submetidos. Contudo, hoje esse “temor” mais deveria ser entendido como sentimento respeitoso do que como medo, e é também indispensável que haja juntamente a ele a estima pelo político. O nosso contexto democrático exige dos que pretendam exercer algum poder político que consigam ser estimados pelos seus eleitores para que possam chegar ao poder, e uma vez lá, que consigam mantê-lo para lá permanecerem. Porém é também essencial que o político apresente-se ao povo como uma autoridade venerável e temível para que suas ações sejam sempre respeitadas.

 

O fato de o amor ao político ser hoje algo indispensável também se poderia explicar pelo próprio texto de Maquiavel. Sendo o “príncipe” contemporâneo eleito pelo favor do povo, é essencial que aquele esteja sempre ao lado deste, como se lê em “O Príncipe”: “um homem que eleva-se à condição de príncipe mediante o favor do povo deve a este manter-se aliado” [4]; “a um príncipe é necessário ter o povo a seu lado” [5]. Em vista disso, é mister a V. Ex.ª entender a necessidade de se fazer querido pelo povo e de tê-lo sempre apoiando-o, sem esquecer que é também necessário fazer-se respeitar por ele.

 

Novamente tendo em mente a necessidade de ser estimado pelo povo, e tendo em mente o contexto democrático e, portanto, limitador das ações pessoais dos governantes, em que nos encontramos, ficam evidentes os conselhos de Maquiavel que não devem ser seguidos pelos “príncipes” atuais. Fora os obviamente impossíveis de serem seguidos atualmente, como as atitudes tomadas pelo Duque Francesco Sforza “para o bem do seu nascente principado” citadas por Maquiavel em sua obra [6], também podemos citar aquelas recomendações que hoje feririam gravemente a imagem do político e que, dessa forma, mantê-lo-iam afastados da vida pública, como seria o caso do emprego das “crueldades proveitosas” e das “violências necessárias” [7].

 

Por fim, espero ter podido apresentar a V. Ex.ª os aspectos mais relevantes da obra “O Príncipe” no que concerne ao exercício da política contemporânea, esperando assim poder tê-lo ajudado a estruturar suas estratégias de candidatura. Relembro-o, então, da necessidade do uso da virtù no controle da fortuna, de forma que V. Ex.ª aja sempre a solidificar sua campanha prevenindo-a contra quaisquer imprevistos, e também da obrigação que se lhe impõe de criar com seu povo eleitor uma relação de estima e temor. Seguindo tais indicações, não me restam dúvidas de que V. Ex.ª disporá de diversas vantagens em relação a seus adversários nessa eleição por vir.

 

 

Cordialmente,

 

 

Caio Jacon

 

 

1. MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. L&PM Editores, 2009. p. 120-121.

 

2. Ibidem, p. 124.

 

3. Ibidem, p. 83.

 

4. Ibidem, p. 47.

 

5. Ibidem, p. 47

 

6. Ibidem, p. 37

 

7. Ibidem, p. 43-44

 

 

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