III - Thomas More

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Rafael de Oliveira Taveira 14/09/09 às 22h09

Questão 2

"Abominam a guerra como uma coisa puramente animal e que o homem, no entanto, pratica mais freqüentemente do que qualquer espécie de animal feroz. Contrariamente aos costumes de quase todas as nações, nada existe de tão vergonhoso na Utopia como procurar a glória nos campos de batalha... Mas os utopianos não fazem a guerra sem graves motivos. Só a empreendem para defender suas fronteiras ou repelir uma invasão inimiga nas terras de seus aliados, ou ainda para libertar da escravidão e do jugo de um tirano um povo oprimido. Neste caso, não consultam os seus interesses; vêm apenas o bem da humanidade." (pg.93)

 

Maquiavel exaltar-se-ia principalmente no final do trecho acima, onde diz "não consultam os seus interesses; vêm apenas o bem da humanidade." Para Maquiavel, o fim máximo é a manutenção do poder. Sendo assim, os interesses defendidos devem ser aqueles que convêm ao governante a fim de manter-se no poder. O bem da humanidade é utópico e inatingível. Como bem disse Maquiavel, é impossível agradar a todos, devendo um governante ater-se a agradar principalmente seus aliados para manter forte suas alianças e inspirar confiança. E sim, a guerra pode trazer riquezas e glória para um povo se essa for de acordo com a perpetuação do poder e atender aos propósitos do governo vigente. Outro aspecto que Maquiavel destacaria é o fato de contratar exércitos mercenários. Para sua visão realista da natureza humana, esta é vil e egoísta. Sendo assim, mercenários não podem ser confiados, pois não partilham do mesmo interesse e objetivo do governo, não possuindo um compromisso com a glória deste mesmo governo e nação.

 

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Bárbara Layza 14/09/09 às 22h09

Questão 2

Florença, 14 de setembro de 1517.

 

Caro Morus,

 

Ao ler sua obra A Utopia, fiquei realmente impressionado com o elevadíssimo grau de otimismo que você possui! Eu, diferentemente, vejo a realidade de uma forma diametralmente oposta à sua; para mim, o ser humano é corrupto, sujo e mentiroso e nada mudará isso.

 

Bom, separei alguns trechos de sua obra e resolvi mandar essa carta a você, com o intuito de fazê-lo refletir sobre meu ponto de vista e de ouvir o que você tem a dizer sobre ele. Iniciarei com um trecho-base:

 

“Tenho tentado, continuou Rafael, descrever-vos a forma desta república, que julgo ser, não somente a melhor, como a única que pode se arrogar, com boa justiça o nome de república. Porque, em qualquer outra parte, aqueles que falam de interesse geral não cuidam senão do seu interesse pessoal; enquanto que lá, onde não se possui nada em particular, todo mundo se ocupa seriamente da causa pública, pois o bem particular realmente se confunde com o bem geral. Qual o homem que, em outro lugar, não sabe que se abandonar os seus próprios negócios, por mais florescente que esteja a república, não deixará, por isso, de morrer de fome? Daí a necessidade com que pensam em si antes de pensar em seu país, isto é, no seu próximo.”

 

Realmente, devo confessar que a ilha de Utopia seria o lugar mais perfeito de se viver, um lugar onde tudo é de todos, onde não há propriedade privada, onde ninguém é preguiçoso ou ocioso, onde cada um tem sua respectiva função, onde o Estado provém todas as necessidades, onde há serviço de saúde de qualidade para todos, onde não há mendicância ou miséria, onde ouro e prata não têm valor, onde não há avareza, onde a felicidade está nos prazeres bons e honestos, onde todos observam as poucas leis existentes, onde há liberdade de culto... Enfim, onde tudo é maravilhoso. Porém, eu, assim como você, já li muito sobre os gregos e ao imaginar essa ilha, lembrei-me da República de Platão. E o que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo! Platão pensou nessa cidade, onde tudo era perfeito, muito antes de você... e ele o fez porque buscava uma polis onde tudo fosse diferente daquela em que vivia, assim como você busca. Porém, o próprio Platão reconhecia que a república por ele elaborada só existia no mundo das idéias e seria muito difícil implementá-la no mundo sensível, de forma prática. Nesse sentido eu concordo plenamente com ele e discordo de você.

 

Talvez seja demais da minha parte, mas é o que penso. Eu acho que seu você deve ter adormecido, tido um sono muito profundo e sonhado com um lugar tão perfeito quanto este (embora no livro, você diga que discorda de Rafael, sei que você também acredita em a Utopia). Concordo com o que ele disse na passagem: “a salvação ou a perda de um império depende dos costumes dos que o administram” e eu acrescentaria que dependeria também da astúcia e sagacidade de quem o administra. O ser humano é, como disse anteriormente, corrupto, trapaceador por isso, o príncipe deve saber lidar com isso, caso contrário, ele perderá o poder e o seu Estado; inclusive estes dois elementos são os mais importantes para um príncipe e não os cidadãos como ele disse na passagem: “Os cidadãos são para a república da Utopia o tesouro mais caro e mais precioso[...].” Temos que ser realistas, caro Morus... é impossível inexistir a simulação,  a mentira ou a trapaça entre os homens, como Rafael diz acontecer na Utopia; ele diz que os jovens aprendem sobre moral e da virtude com o sacerdotes, e que, ao crescerem, se tornam elementos úteis à conservação do Estado mas venhamos e convenhamos... isso acontece só na teoria, porque na prática tudo é diferente. Acho que devemos ter como ponto de partida a realidade para mudá-la e não ter como premissa um mundo ilusório. Pense sobre isso.

 

Aguardo resposta.

 

Maquiavel.

 

 

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