III - Thomas More

Diálogos

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Amanda Panhol Bayma 15/09/09 às 00h09

Questão II

É evidente que, dada a cruel natureza do homem, alguns idealistas rejeitem os fatos como os são e teimem em ser otimistas e tentem imaginar como o mundo poderia ser caso o homem fosse bom. Garanto que é mais proveitoso analisar as formas de governo que de fato existem ao invés de ocupar-se com Repúblicas imaginárias. Mas, dada a ingeniosidade de alguns destes projetos, não me fará mal reservar algum tempo para comentá-las.

Bem, não devo nem ressaltar que é completamente fora da realidade uma comunidade onde um governante a opressão de seu povo e evite as guerras. “Todos os profetas armados venceram e os desarmados fracassaram”. Reservo-me a comentar um trecho particular da obra de Morus que me causou mais admiração, que é o seguinte:

   "Os utopianos não escondem seus tesouros nas torres, ou em outros lugares fortificados e inacessíveis. O vulgo, numa extravagante malícia, poderia suspeitar que o príncipe e o senado enganassem o povo, enriquecendo-se e pilhando a fortuna pública. Com o ouro e a prata não se fabricam nem vasos, nemobras artisticamente trabalhadas. Porque, se houvesse necessidade de um dia fundi-los, para pagar o exército em caso de guerra, os que tivessem posto sua afeição e suas delícias nesses objetos de arte e de luxo, sentiriam, ao perdê-los, uma dor amarga. A fim de prevenir esses inconvenientes, os utopianos imaginaram um uso perfeitamente em harmonia com o restante de suas instituições, mas em completo desacordo com as do nosso continente, onde o ouro é adorado como um Deus, procurado como o bem supremo. Eles comem e bebem em louça de barro ou vidro, que se é elegante na forma, é, no entanto, despida do menor valor; o ouro e a prata são destinados aos usos mais vis, tanto nas residências comuns, como nas casas particulares; são feitos com eles até osvasos noturnos. Forjam-se cadeias e correntes para os escravos, e marcas de opróbrio para os condenados que cometeram crimes infames. Estes últimos levam anéis de ouro nos dedos e nas orelhas, um colar de ouro no pescoço, um freio de ouro na cabeça.Assim, tudo concorre para manter o ouro e a prata na ignominia. Entre outros povos a perda da fortuna é um sofrimento tão cruel como um dilaceramento de entranhas; mas quando se arrancasse à nação utopiana todas suas imensas riquezas ninguém pareceria ter perdido um cêntimo."

A respeito deste trecho em particular, posso afirmar: como Utopus é um sonho elaborado! Um local onde os homens não cobiçam ser mais que seus próximos, desprezam o que há de mais raro e precioso no mundo. Mas este local não passa disso: um sonho. Sei bem que Morus estava ciente disto, tanto que batiza seu sonho de 'lugar nenhum', porém mesmo conceber que os homens poderiam algum dia, mesmo em um estado irreal, agir desta maneira, é tolice. Repito qual é a verdadeira natureza do homem: são "ingratos, volúveis, fementidos e dissimulados, fugidios quando há perigo, e cobiçosos". Morus parece saber deste conceito ao citar a possível "extravagante malícia" do vulgo. Bastaria um, um só homem, que correspondesse a essa descrição, para que toda Utopus estivesse arruinada. E garanto, por observação e experiência a respeito da vil natureza humana, que estes homens não faltariam. Por mais que o governante de Utopus fosse virtuossíssimo, por mais que construísse este lugar de acordo com os planos de Morus, o que destruiriam a própria base desta construção imaginária seriam os próprios cidadãos. Que homem viveria plenamente feliz, sabendo que, possuindo ouro e prata, e contando com habilidade própria (virtù) e boa fortuna, poderia conquistar mais do que sua cidade inteira? Que homem desejaria continuar vivendo com nada mais que o necessário? Todo homem deseja o poder. Mesmo por uma forma de organização para o bem comum da sociedade, homem algum conseguiria negar sua natureza, vencer a cobiça e viver na alegria da mediocridade, abrindo mão da liberdade individual para ter igualdade. Quem não tentaria ser melhor que seu vizinho, à custa da igualdade de todos? A própria existência de escravos na tal sociedade ideal de Morus já demnstra que a igualdade é inalcansável entre animais exploradores como o homem. Onde houver um Estado, haverá disputas. Afirmo novamente: a "tolice dos homens que valoriza o que é raro", como chama Morus, é universal e inerente ao ser humano. Voltemos nossos olhares e pensamentos para o real, a fim de entendermos melhor nossa própria sociedade, baseando nossos Estados na premissa de que odos os homens são maus, ao invés de divagarmos sobre políticas impossíveis de serem aplicadas.

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Gilberto-mendes-calasans-gomes'>Gilberto Mendes Calasans Gomes 15/09/09 às 01h09

Questão I

A passagem d’O Príncipe escolhida para comentários é o capítulo XV: “As razões pelas quais os homens, especialmente os príncipes, são louvados ou vituperados”. Tal passagem diz respeito ao caráter que o príncipe deve ter para ser louvado pelo povo e pelos nobres, obtendo, assim, a glória. Selecionarei dois excertos para ser “comentados” pelo interlocutor de More em “A Utopia”, Rafael Hitlodeu.

“É necessário, portanto, que o príncipe que deseja manter-se aprenda a agir sem bondade, faculdade que usará ou não, em cada caso, conforme seja necessário”.

Rafael Hitlodeu (RH): Como é muito bem mostrado no meu relato sobre a ilha de Utopia e sobre a forma de governo aí presente, faz-se desnecessário ao príncipe artimanhas para se manter no poder. Seu mandato é vitalício, podendo apenas ser cassado em virtude do mau uso dos poderes do príncipe, principalmente, quando este, juntos com os magistrados mais próximos, conspiram para corromper a forma de governo ideal de Utopia. O castigo usual é a escravidão, podendo, em casos mais graves, ser elevado à morte, solução esta que não é a mais indicada, por não dar o mesmo exemplo, pelo mesmo tempo, da escravidão de quem incorre no erro. Quando ao uso ou não da bondade pelo príncipe, isso não é, per si, importante. Os Utopianos têm uma visão de virtude diferente da que levamos em conta, influenciados principalmente pelos escritos dos antigos, destacadamente Aristóteles. Para os Utopianos, virtude é alcançar o maior prazer possível, sem que, com isso, se inflija dor alguma a outrem ou em momento posterior. Dessa forma, o príncipe deve zelar pela manutenção da forma de governo de Utopia e pela manutenção da constituição (válido lembrar que no sentido antigo do termo) que rege as relações da ilha, tão bem explicitadas em meu relato. Assim, a igualdade extrema entre todos os cidadãos de Utopia deve ser o maior objetivo do príncipe, que deverá agir apenas como o primeiro funcionário em favor do bem comum. O príncipe que alcançar tal resultado, terá, em Utopia, alcançado a glória.

“Contudo, não deverá se importar com a prática escandalosa daqueles vícios sem os quais seria difícil salvar o Estado; isto porque, se se refletir bem, será fácil perceber que certas qualidades que parecem virtudes levam à ruína, e outras que parecem vícios trazem como resultado o aumento da segurança e do bem-estar”.

RH: Em Utopia, há o forte zelo pelas instituições e pelos usos e costumes. Dessa forma, as ações do príncipe e dos magistrados estão, de certa forma, livres do julgamento ético, enquanto obedientes a uma ordem estabelecida que dá, e muito, certo. Assim, as ações pelas quais se rege o Estado são sempre virtuosas, por conduzir Utopia ao seu objetivo, de levar todos os cidadãos à felicidade, atingindo, assim o bem comum. Assim como há a práticas que protegem o povo de magistrados mal intencionados, já que esses, num modelo que em muito se assemelha ao romano, têm mandato de apenas um ano e são eleitos, podendo, caso atentem violentamente aos usos da ilha, serem destituídos e censurados pelos sacerdotes, infâmia que mancha por toda uma vida. Dessa forma, em Utopia, todas as ações dos governantes, eleitos por períodos previstos, exceção do príncipe, que, entretanto, pode sofrer impeachment, ser destituído do cargo, são regidas pela virtude específica da ilha.

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