III - Thomas More

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Cristal Augustus C. Ribeiro 15/09/09 às 01h09

Questão II

''Assim, raramente [os Poliléritos] se deslocam a outras regiões ou recebem visitas de estrangeiros. Fiéis às velhas leis dos seus antepassados¹, não procuram alargar as fronteiras dos seus domínios, que as montanhas protegem da invasão². O tributo que pagam ao rei liberta-os também do perigo de conflitos³.''

(MORE, Thomas. A Utopia)

¹ DAS ''VELHAS LEIS''. Maquiavel, se fosse aconselhar um príncipe a dominar a terra dos Poliléritos, enxergaria três possibilidades de ataque, sendo (1) arruiná-la, (2) habitá-la e (3) permitir a convivência das leis tradicionais, desde que se paguem tributos ao novo príncipe. A terceira opção é a mais arriscada, visto que ainda mantém certa autonomia aos resquícios políticos de outrora. Tal situação levaria ao dilema da segurança: o novo governo se arma, a fim de construir um exército próprio e forte; os remanescentes das tradições, então, sentem-se intimidados e fazem o mesmo, também com a intenção de proteção. Assim, nasceria uma situação que colocaria em risco a coexistência e, futuramente, uma possível unificação político-ideológica.

O indicado, portanto, seria a alternativa de arruiná-los, a fim de que o novo príncipe estabeleça leis que lhe convenham, acarretando uma maior estratégia de defesa e certeza de segurança. (baseado no capítulo V de ''O Príncipe'')

² DAS ''FORTALEZAS''. As montanhas da terra dos Poliléritos possuem a finalidade de protegê-los contra as ameaças externas. Ora, Maquiavel argumenta que as maiores ameaças, na verdade, são as internas -- o príncipe que não dispõe de virtú o suficiente para manter o seu povo sob o seu controle, este sim deve construir fortalezas. O estrangeiro, com seu olhar de sofista para o povo e as tradições nele incutidas, facilmente induziria uma revolta, a que a população aderiria como forma de questionar o poder do príncipe -- quem seria ODIADO. Já no caso de um povo submisso a seu governante, não haveria motivos de preocupação, pois, nesse caso, o povo aceitaria a legitimidade de seu príncipe e não seria contrário a tal autoridade -- seja ela AMADA ou TEMIDA. (baseado nos capítulos XVII e XX de ''O Príncipe'')

³ DAS ''INCUMBÊNCIAS DO PRÍNCIPE''. O governante é responsável por seus governados. Segundo Maquiavel, para mantê-lo, é preciso que o príncipe oscile entre a razão (humana) e o instinto (animal). E, sendo animal, é preciso ter a sagacidade de uma raposa e o poder de intimidação de um leão. É segundo essa ótica que a argumentação de Maquiavel recai sobre a necessidade de criação de um exército e das estratégias de guerra e defesa.

O que, todavia, ''um príncipe prudente'' não pode fazer é manter uma promessa se ela recai contra ele próprio e seus interesses; quando tal acontece, é a hora de o príncipe -- portanto, humano -- simular qualidades que não possui, por sua natureza de homem intrinsecamente pérfida e vil. (baseado no capítulo XVIII de ''O Príncipe'')

! DIAGNÓSTICO DE MAQUIAVEL SOBRE O EXCERTO. Os Poliléritos compõem um povo que seria facilmente subjugado por um príncipe que desejasse fazê-lo; a população conta com vulnerabilidades nos aspectos defensivo, ideológico e mesmo no tocante à questão jurídica. Desse modo, bastava ser um príncipe de virtú o suficiente, que contasse com um exército poderoso, para que conseguisse alcançar a fortuna.

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Caio Cesar Paccola Jacon 15/09/09 às 01h09

Questão II

Estimado Sir Tomás Moro,

 

 

Caíram-me em mãos as páginas de teu livro “A Utopia”, às quais me dediquei em ler. Ainda que sejam louváveis teus interesses em propor uma República tão eficaz e harmoniosa, cujas leis e instituições sejam exemplo magno de correção e de justiça a todos os Estados para além de Utopia, assevero-te que tais proposições não resistiriam ao seu exercício real e que, fora da imaginária ilha, o bom exercício do poder e da virtude (virtù) dêem-se de outra forma.

 

 

Citando-te as palavras que atribuíste a Rafael Hitlodeu:

 

 

“... o rei, portanto, deve se ocupar antes da felicidade de seu povo que da sua própria, exatamente como o papel do pastor é alimentar suas ovelhas antes de pensar nele mesmo […] Quanto a crer que a miséria do povo seja uma garantia de segurança e de paz, a experiência prova suficientemente que esse é o maior dos erros. Onde há mais desordens do que entre os mendigos? Quem é o mais apressado em subverter o estado das coisas existente, senão o que está descontente com a sua sorte?” [1]

 

 

Não vejo problemas em concordar contigo quanto à assegurar a satisfação do povo em relação ao governo. Afinal, também eu entendo que um povo que deteste seu príncipe é um povo propício a revoltas e revoluções, o que desestabilizaria o Estado. Não obstante, estando o poder nas mãos do governante, cabe a ele garantir seus interesses antes que o de seu povo, visto que estes estão mais preocupados em garantir sua comodidade material que os interesses do Estado. Dessa forma, o príncipe que deseja construir um Estado forte “deverá fundar-se naquilo que respeita ao seu arbítrio […] Em Suma, terá apenas de proceder de modo a evadir o rancor alheio”. [2]

 

Outra passagem que também me surpreendeu em teu texto é o teu conceito de glória, e a relação que ela tem com a guerra e a conquista de novos territórios. É-me bem impactante esta tua afirmação:

 

 

“...nada é menos glorioso que a glória dada pela guerra.” [3]

 

 

Pareces-te esquecer dos grandes conquistadores do passado, que empenhando-se em conquistar novas terras e novos povos cravaram seu nome na História, e cujos feitos são ainda hoje relembrados e honrados. Acaso não tiveram suas conquistas o poder de embutir-lhes glória? Acaso não foram seus feitos realizados no melhor exercício da virtù, com coragem e destreza? Tu disseste: “é preciso considerar a paz muito mais do que a guerra” [4], mas que glória traz essa paz ao governante? Em que ela engradece o Estado? Digo-te: não o engrandece, antes o aprisiona.

 

Continuo; equivocar-te-ás ainda mais gravemente quanto à melhor forma de agir do príncipe ao dizer que, às vezes, seja melhor que ele se desfaça de parte de suas terras para que governe melhormente [5]. Esse absurdo não sobrevive à menor análise. Qualquer perda de território é um indício de fraqueza do príncipe e de decadência desse Estado, e cabe àquele portanto empenhar todos os seus esforços em mantê-lo íntegro, quando não em tentar expandi-lo a fim de alcançar a glória. Isso nos prova bem um autor que nos é alheio ao tempo:

 

 

“Um povo regride quando perde território. Ele pode contar com menos cidadãos e conservar ainda muito solidamente o território onde se encontram as fontes de sua vida. Mas se seu território se reduz, é, de uma forma geral, o começo do fim.”[6]

 

 

Espero, pois, caríssimo Sir Tomás Moro, que tenhas em mente essas afirmações que te faço, posto que elas só intentam indicar-te teus erros de análise.

Despeço-me cordialmente.

 

 

Nicolau Maquiavel.

 

 

1. MORO, Tomás. A Utopia. L&PM Editores, 2006. p. 52.

 

2. MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. L&PM Editores, 2009. p. 83.

 

3. MORO, Tomás. A Utopia. L&PM Editores, 2006. p. 123.

 

4. Ibidem. p. 31.

 

5. Ibidem. p. 49.

 

6. RATZEL, F., “O solo, a sociedade e o Estado”, in Revista do Departamento de Geografia nº2, São Paulo, FFLCH-USP, 1983. p. 94

 

 

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