Debates e Interpretações

Quase cinco séculos depois de sua morte, Maquiavel segue sendo um dos pensadores mais comentados e rediscutidos de todos os tempos. Tal como Platão, Rousseau ou Marx, sua obra continua a ecoar através dos anos e a sofrer continuas reinterpretações. Aqui tentaremos reproduzir de forma bastante sucinta alguns dos debates mais importantes feitos acerca de seu texto, retomando argumentos de autores que vêm desde a modernidade até os dias atuais.

 

 Maquiavel: Defensor dos Príncipes ou da República?

 

Nesse ponto, os dois argumentos mais representativos são, respectivamente, de Jean Bodin e de Jean Jacques Rousseau. Para o primeiro, Maquiavel seria “um corruptor do Estado muito em voga entre os bajuladores dos tiranos, para quem a astúcia tirânica era o centro da Ciência Política, e a impiedade e a injustiça, os fundamentos da República”

Nesse caso, portanto, Maquiavel não passaria de um defensor dos príncipes tiranos, para quem nada representaria o bem-estar da população.

Por outro lado, autores como Rosseau e, mais tarde, Spinoza, tentarão “reabilitar” o florentino, passando a vê-lo não mais como um defensor da impiedade, tal como fizera Bodin, mas como um mestre do republicanismo e da democracia. Segundo Spinoza, o papel de “O Príncipe” seria acautelar os homens contra o que os tiranos podem fazer.  Da mesma forma, para Rosseau, “Maquiavel, fingindo dar lições aos reis as deus grandes aos povos”.

Antonio Gramsci tem ainda um terceiro argumento. Segundo o autor, Maquiavel tentaria educar politicamente a população, de modo que ela reconhecesse como necessários determinados meios, mesmo aqueles desenvolvidos pelos tiranos, para alcançar certos fins. Nesse caso, portanto, “O Príncipe” não serviria exclusivamente aos soberanos, como afirmava Bodin, prestando um serviço também como legitimador das ações do príncipe perante o povo italiano. Tampouco ele constituiria um manifesto disfarçado da democracia, como afirmava Rosseau, servindo como uma técnica política para ambas as partes da luta. 

 

 Maquiavel : Frio e calculista, Humanista Angustiado ou Nacionalista?

 

Segundo Benedetto Croce e seus seguidores, Maquiavel seria, na realidade, um humanista angustiado, que, ao invés de incentivar as práticas cruéis por parte do príncipe, lamentava a natureza humana irremediável do homem que nos levava por caminhos tão torpes. Para outros estudiosos, ainda, Maquiavel seria um amante da paz e da estabilidade, que acreditava na ordem, no prazer, na vida e na transformação de alguns elementos da sua natureza humana.

Por outro lado, para pensadores como Cassirer, Renaudet e Olschki, Maquiavel seria um técnico frio sem compromissos éticos ou políticos, um cientista moralmente neutro. ¹

É, no entanto, uma terceira visão que mais vigora nos dias de hoje.  Segundo ela, apesar de se assemelhar a um manual, “O Príncipe” conteria um projeto de futuro cujo objetivo seria a unificação italiana sob a forma de um poder soberano. Dessa forma, Maquiavel não seria nem um humanista angustiado e tampouco um cientista neutro, tendo em vista que escreve, como fica claro no último capítulo de "O Príncipe", por uma causa política bastante específica.

 

 Maquiavel: Realista ou Idealista?

 

A interpretação mais comum acerca da obra de Maquiavel é a de que este foi um pensador essencialmente realista, uma vez que, de acordo com palavras suas, “...parece-me mais conveniente conformar a minha palavra à verdade efetiva do meu objeto que a uma visão imaginária do mesmo”. ²

Entretanto, algumas interpretações diferem quanto a esse ponto, por mais evidente que ele nos possa parecer. Segundo os professores C.J Friederich, Charles Singleton e Friederich Meinecke, por exemplo, Maquiavel tem um conceito de Estado como obra de arte. Os grandes líderes assim, seriam concebidos de acordo com um ideal de beleza, de modo que a política se afastaria da ética para se aproximar da estética.  ³

Para Antonio Gramsci, ainda, citado aqui anteriormente, o príncipe não poderia ser uma pessoa real, um indivíduo concreto, mas a figura da vontade coletiva. Seria um símbolo, uma criação que atuaria como estímulo para a união de um povo disperso e pulverizado. Assim, o caráter utópico do príncipe estaria no fato de que ele não existiria na realidade histórica, sendo apenas uma abstração da figura do chefe.  4 

A segunda e a terceira interpretação, apesar de diferentes, se encontram, portanto, no fato de que o príncipe seria não uma figura histórica, mas uma abstração da imagem ideal e utópica do líder.

 

Maquiavel : Moral, Imoral ou Amoral?

  

A discussão sobre se Maquiavel seria um amoral retoma a posição de Jean Bodin, segundo a qual o autor de “O Príncipe” não passaria de um defensor impiedoso dos tiranos; passa pelos jesuítas, que o consideravam o mestre da maldade, capaz de levar os homens bons à perdição; chega ao senso comum com o termo “maquiavélico” capaz de designar todo aquele indivíduo isento de qualquer escrúpulo; e por fim, é defendida por estudiosos como Benedetto Croce.

Segundo as interpretações mais atuais, no entanto, essa proposição é pouco aceita. Figuram ainda duas posições bastante diversas: aquela segundo a qual, para o italiano, a moral política estaria em uma esfera diferente da moral individual e uma outra que defende que o florentino era partidário de uma outra moral, bastante atípica para os padrões de sua época.

Analistas como Maria Teresa Sadek, por exemplo, se fiam no primeiro argumento. Segundo a autora, a política teria uma ética própria, radicalmente diferente da ética individual. Na primeira, o fim último seria a manutenção do Estado, enquanto, na segunda, seria o cumprimento das virtudes cristãs. 5

Isaiah Berlim, entretanto, rebate duramente esse último argumento. De acordo com ele:

 “Maquiavel não contrasta duas esferas autônomas de ação – a política e a moral (...) Realmente, Maquiavel rejeita a ética cristã, porém a favor de um outro sistema, de outro universo moral – o mundo de Péricles, uma sociedade voltada para objetivos tão decisivos quanto a fé cristã, uma sociedade na qual todos os homens lutam e estão dispostos a morrer em prol da finalidade pública que procuram atingir em seu próprio benefício. Em outras palavras, trata-se de um conflito entre duas modalidades, a cristã e a pagã e não de um conflito entre âmbitos autônomos de moral e política”. 6

 Não é, portanto, somente quanto a conceitos periféricos que se dá a discussão entre os muitos estudiosos de Maquiavel: é a sua própria atitude política um dos maiores pomos de discórdia entre os especialistas.

 

Notas

 

¹ BERLIN, Isaiah. O Problema de Maquiavel. In :MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe - Estudos. Brasília: Editora da universidade de Brasília, 1979. Pág. 121

 ² MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Porto Alegre: L&PMPocket, 1998. pág.73

³ BERLIN, Isaiah. O Problema de Maquiavel. In :MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe - Estudos. Brasília: Editora da universidade de Brasília, 1979. Pág. 121    

4  GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1980. Pág. 4

 5  SADEK, Maria Tereza. “Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna, o intelectual sem virtù”. In: WEFFORT, Francisco C. Os Clássicos da política. Editora Ática. Pág. 24

 6 BERLIN, Isaiah. O Problema de Maquiavel. In :MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe - Estudos. Brasília: Editora da universidade de Brasília, 1979. Pág. 123

 

 Bibliografia

 

ESCOREL, Lauro. Introdução ao Pensamento Político de Maquiavel. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1979

 MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe - Estudos. Brasília: Editora da universidade de Brasília, 1979.

 MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Porto Alegre: L&PMPocket, 1998.

 GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1980.

 SADEK, Maria Tereza. “Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna, o intelectual sem virtù”. In: WEFFORT, Francisco C. Os Clássicos da política. Editora Ática.

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