Wikipédia

As mudanças feitas na página da Wikipédia, no artigo em português referente a obra “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel, foram realizadas com base no relatório apresentado abaixo e podem ser encontradas em: http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Pr%C3%ADncipe

O artigo em português disponível na Wikipédia que trata sobre a obra O Príncipe, de Maquiavel, apresenta alguns problemas que comprometem sua qualidade quando comparado, por exemplo, com o artigo em inglês, ou mesmo com o artigo sobre o autor na própria enciclopédia em português.

Um dos equívocos está na aproximação feita entre a obra de Maquiavel e o Institutio Principis Christiani, de Erasmo de Roterdã, no que se refere à descrição das “maneiras de conduzir-se nos negócios públicos internos e externos, e fundamentalmente, como conquistar e manter um principado” (Wikipédia, artigo sobre O Príncipe). Todavia, em contraposição a Maquiavel, Roterdã observa e orienta o príncipe de uma sociedade embasada por uma moral cristã, que clamava por uma política de paz e tranquilidade; o príncipe cristão era honrado e sincero, servo do povo, portanto distante do príncipe soberano de Maquiavel, que não precisa necessariamente ter essas qualidades, mas é imprescindível aparentar possuí-las.

Sintetizando os capítulos, o artigo ressalta da seguinte maneira o capítulo 17: “(...) [Maquiavel] defende que é melhor um príncipe ser temido do que amado, mostrando que as amizades feitas quando se está bem, nada dura quando se faz necessário, sendo que o temor de uma punição faz os homens pensarem duas vezes antes de trair seus líderes (...)”. Segundo Maquiavel, “(...) seria desejável ser ao mesmo tempo amado e temido, mas que, como tal combinação é difícil, é muito mais seguro ser temido, se for preciso optar”. Portanto, torna-se necessário explanar que somente é melhor para o príncipe ser temido do que amado quando não se puder ser os dois. Nos artigos sobre O Príncipe tanto em inglês quanto em Espanhol, este esclarecimento é devidamente realizado.

Ainda na seção “síntese” do artigo, é afirmado que: “Nos últimos capítulos [Maquiavel] explica como tomar a Itália e como se manter na linha entre a fortuna e Deus dizendo que os líderes devem adaptar-se ao tempo em que vivem, para manter-se no poder por mais tempo”. O equívoco está em assegurar a posição do príncipe entre a fortuna e Deus, pois “Deus” e “fortuna” são conceitos que representam um mesmo pressuposto de imprevisão humana quanto aos fatos; esta imprevisão, no entanto, se dá de forma diferente. No capítulo XXV, Maquiavel diz que lhe é conhecida “a antiga opinião de muitos que as coisas do mundo são decididas por Deus e pelo acaso; que a prudência do homem não pode mudar o rumo das coisas; que, ao contrário não há como remediá-las (...) Essa opinião é muito aceita em nossos dias devido às grandes transformações ocorridas, e que ocorrem diariamente, fora de toda previsão humana. Quando reflito sobre ela às vezes me inclino a aceitá-la em parte”. Para Maria Tereza Sadek, Maquiavel recorre ao paganismo dos clássicos, que viam a Fortuna como uma deusa boa, uma aliada potencial cuja simpatia era importante atrair. Como se tratava de uma deusa que era também mulher, poderia atrair suas graças um homem de verdadeira virilidade e coragem (virtù). Sadek discorre que Maquiavel ironiza ao afirmar que inclinou a concordar com essa opinião, pois “o desenrolar de sua exposição mostra-nos, com toda clareza, que se trata de uma concordância meramente estratégica. Concorda para poder desenvolver os argumentos da discordância. Assim, após admitir o império absoluto da fortuna, reserva, poucas linhas a seguir, ao livre-arbítrio pelo menos o domínio da metade das ações humanas. E termina o capítulo demonstrando a possibilidade da virtù conquistar a fortuna”. Com base nisso, podemos dizer que Maquiavel caracteriza a imprevisão humana condicionada por Deus uma força má, enquanto a imprevisão da deusa fortuna uma força dominável pela virilidade. Considerada a posição de Maquiavel em relação a virtù, fortuna e Deus, o correto seria dizer que o príncipe deve se manter na linha entre a fortuna e a virtù.

Ao final, é apresentada uma tabela sobre as formas puras e impuras do governo de um, poucos ou muitos. Maquiavel de fato fez esta tríplice divisão, mas no chamado Discurso sobre a Reforma do Estado de Florença, destinado ao Papa Leão X em 1521, e não em O Príncipe, como colocado indevidamente no artigo.

O artigo em espanhol sobre a obra afirma que “Los argumentos no se basan en ningún supuesto moral más allá de una forma cruda de utilitarismo egoísta: el único fin es mantener el principado”. Entretanto, não se pode afirmar que Maquiavel é amoral. Para Weffort, por exemplo, a moral política apresentada é apenas diferente da moral cristã; para Isaiah Berlim, a moral apresentada não é nem cristã, nem política, mas uma terceira criada (vide tópico sobre leituras na resenha).

O artigo em português não menciona ou explana temas fundamentais para a compreensão da obra, como o conceito de virtù e fortuna, a metáfora do leão e da raposa, o realismo maquiavélico, o projeto de unificação, a diferença entre a moral política e pessoal etc. O artigo em inglês cita poucas influências na política (vide tópico sobre leituras na resenha), no entanto é o mais completo. O artigo em espanhol, por sua vez, contém mais detalhes técnicos.

 ________________________________________________________________

Bibliografia:

SADEK, Maria Tereza. “Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna, o intelectual sem virtù”. In: WEFFORT, Francisco C. Os Clássicos da Política. Editora Ática, p. 89-90

ESCOREL, Lauro. Introdução ao pensamento político de Maquiavel. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1979

http://www.ordemlivre.org/node/385

http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/1808204

Sumário

Boletim Arcos

Cadastre-se para receber nosso boletim informativo
E-mail:

ok


Acompanhe o Arcos nas redes sociais


Licença Creative Commons | Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas
Alguns direitos reservados
Exceto quando assinalado, todo o conteúdo deste site é distribuído com uma licença de uso Creative Commons
Creative Commons: Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas