Pico della Mirandola


O pensamento renascentista

A Escolástica, especialmente na vertente tomista, já havia operado um retorno aos clássicos, via a valorização de Aristóteles. Essa tentativa de harmonizar perspectivas prima facie diversas foi um intento típico da época, caracterizando uma espécie do que os modernistas brasileiros chamaram de antropofagia.

Era preciso incorporar as contribuições das diversas tradições, mas isso envolvia uma espécie de tradução para a linguagem comum da época, compatibilizando as referências culturais de forma a tornar produtiva a leitura dos textos antigos.

A idéia não era a de simplesmente compreendê-los como expressões culturais de uma civilização diferente, mas a de apreender a verdade que esses textos portavam. Assim, a leitura não buscava compreender o sentido original do texto, na medida em que sequer se supunha que o sentido original fosse distante do sentido atualizado.

Essa noção de distância histórica com relação aos clássicos foi sendo construída ao longo do renascimento, e consolidou-se especialmente no renascimento tardio, com sua crítica mordaz à interpretação que os juristas da época faziam do direito romano, como se ele fosse atual e não expressão de uma cultura muito diversa.

O renascimento inicial, contudo, tal como a Escolástica, não se interessava pelos textos clássicos pelo que eles ensinavam acerca das civilizações antigas, mas pela verdade que eles poderiam revelar. Nesse sentido, eles eram lidos com a mesma abordagem dogmática que se reservava à Bíblia, que não era lida como relato, mas como revelação.

Nesse contexto, o Renascimento realizou uma volta aos clássicos, no sentido que se interessou pela cultura antiga e buscou nela modelos (filosóficos, literários, de comportamento, etc.) que pudessem orientar os homens da época. Nesse sentido, uma das manifestações mais evidentes é o primeiro capítulo dos Discorsi de Maquiavel, em que ele nos exorta a tomar a antiguidade como paradigma. Na introdução dessa obra, Maquiavel reconhece que os atos virtuosos dos antigos são alvo de admiração, mas que infelizmente eles são pouco imitados, de modo que restava pouco nos contemporâneos da "antiga virtude".

Com maior espanto ainda vejo que, nas causas que agitam os cidadãos e nos males que afetam os homens, sempre se recorre aos conselhos e remédios dos atigos. As leis, por exemplo, não são mais do que sentenças dos jurisconsultos pretéritos, as quais, codificadas, orientam os modernos juristas. A própria medicina não passa da experiência dos médicos de outros tempos, que ajudam os clínicos de hoje a fazer seus diagnósticos. Contudo, quando se trata de ordenar uma república, manter um Estado, governar um reino, comandar exércitos e administrar a guerra, ou de distribuir justiça aos cidadãos, não se viu ainda um só príncipe, uma só república, um só capitão, ou cidadão, apoiar-se no exemplo da Antiguidade.[1]

Embora essa postura fosse típica do renascimento, em Maquiavel encontramos uma retomada da antiguidade cumulada com uma forte rejeição pela medievalidade. Existe nele uma contraposição clara à noção agostiniana (e cristã) de que o homem é naturalmente decaído e de que desejar a glória significa incidir no pecado de orgulho. O que defendia Maquiavel, renovando o sentido antigo de virtude, é que "é coisa muito natural e comum o desejo de conquista, e, sempre que a realizarem os homens aptos para tanto, eles serão louvado ou, pelo menos, não serão recriminados"[2].

Assim, o desejo de conquista e de glória, aquilo que Agostinho ataca como o orgulho de si, Maquiavel retoma como uma manifestação de virtù, da virtude dos antigos, que se diferencia e muito do rol das virtudes do catolicismo medieval. Porém, essa recuperação do orgulho do homem acerca de sua natureza não implicava necessariamente uma negação do cristianismo, sendo que a maioria dos pensadores da época buscou equilibrar essas correntes, de modo a que a valorização do humano não correspondesse uma minimização do divino.

Pico de Mirândola e o humanismo

Esse equilíbrio entre a valorização do divino e valorização do humano encontrou espaço notadamente no que se chama atualmente de humanismo, que é uma corrente que congrega os pensadores da época renascentista que passaram a valorizar sobremaneira as possibilidades de o homem exercer sua liberdade e buscar sua perfeição.

Mas essa liberdade e perfectibilidade não se opunham com a noção de um deus perfeito, mas antes se articulavam com ela, na medida em que aperfeiçoar-se era entendido como aproximar-se do deus cristão. O texto mais célebre nessa linha é o Discurso da Dignidade do Homem, de Pico de Mirândola, que começa assim:

Li nos escritos dos Árabes, venerandos Padres, que, interrogado Abdala Sarraceno sobre qual fosse a seus olhos o espectáculo mais maravilhoso neste cenário do mundo, tinha respondido que nada via de mais admirável do que o homem. Com esta sentença concorda aquela famosa de Hermes: "Grande milagre, ó Asclépio, é o homem".

Porém, Pico coloca em dúvida sobre se não seria melhor considerar perfeitos os anjos e não os homens, e termina concluindo que não, pois depois de criar todo o mundo, Jeová desejava que houvesse alguém capaz de compreender a razão de uma obra tão grande, que amasse a beleza e admirasse a sua grandeza, sendo que para esse fim criou o homem. Mas, como já tinha dotado todos os outros animais com as virtudes disponíveis, disse assim a Adão:

Ó Adão, não te demos nem um lugar determinado, nem um aspecto que te seja próprio, nem tarefa alguma específica, a fim de que obtenhas e possuas aquele lugar, aquele aspecto, aquela tarefa que tu seguramente desejares, tudo segundo o teu parecer e a tua decisão. A natureza bem definida dos outros seres é refreada por leis por nós prescritas. Tu, pelo contrário, não constrangido por nenhuma limitação, determiná-la-ás para ti, segundo o teu arbítrio, a cujo poder te entreguei. Coloquei-te no meio do mundo para que daí possas olhar melhor tudo o que há no mundo. Não te fizemos celeste nem terreno, nem mortal nem imortal, a fim de que tu, árbitro e soberano artífice de ti mesmo, te plasmasses e te informasses, na forma que tivesses seguramente escolhido. Poderás degenerar até aos seres que são as bestas, poderás regenerar-te até às realidades superiores que são divinas, por decisão do teu ânimo. Ó suma liberalidade de Deus pai, ó suma e admirável felicidade do homem! ao qual é concedido obter o que deseja, ser aquilo que quer.

Com isso, Pico incide em um antropocentrismo na medida em que coloca o homem no centro da criação, mas continua afirmando que devemos nos mirar nas esferas divinas e nos aproximar dos anjos e outros seres de natureza celeste. Portanto, a hierarquia entre o celeste e o terrestre continua vigente, embora com uma consideração otimista de que o exercício da liberdade do homem não tende a levá-lo apenas à própria ruína, mas pode conduzi-lo a esferas superiores e divinas.

Mas o discurso de Pico também é especial porque ele mostra a abertura dos humanistas para discursos além da filosofia grega e da teologia medieval, pois ele incorpora também influências dos filósofos do oriente próximo, influências místicas dos herméticos e da cabala. Segundo ele, muitos pensadores se limitam a um escola específica, enquanto ele seguiu um caminho diverso:

[...] yo me he propuesto el principio de no jurar por la palabra de nadie; frecuentar y conocer a todos los maestros de filosofía; examinar todas y cada una de las posiciones; recorrer así todas las escuelas. Enfrentado así a la necesidad de hablar de todos los filósofos, para no esgrimir una sola tesis específica, como si estuviera abrazado por ella y desatento de las otras, las cuestiones que propongo no podían ser en conjunto sino muchas, aunque pocas en lo atinente a cada uno. [...]

Esta razón me ha llevado a presentar las conclusiones no de una doctrina única -como hubiera complacido a muchos- sino de todas, de modo que de la apelación a varias escuelas y de la confrontación de diferentes corrientes filosóficas nazca ese «fulgor de la verdad» como decía Platón en las Cartas, para que de ese modo la verdad resplandezca en nuestras almas más claramente como el sol naciente desde el cielo.

Esse sincretismo era sentido como herético pela tradição medieval, tanto que o pensamento de Pico foi questionado pela Igreja. Aos 23 anos, o jovem pico havia escrito 900 teses em que buscou consolidar todo o conhecimento da época e defender uma postura que harmonizava as diversas filosofias, incluindo aqui a teologia, as tradições místicas e a cabala. Ele pretendia defender essas teses em um debate público realizado em Roma, porém esse debate foi proibido pelo Papa, sob o argumento de que algumas teses eram heréticas.

Contra essa vedação é que ele escreveu o Discurso, que é um manifesto pela liberdade de pensamento e pela possibilidade de articular elementos das mais diversas tradições, o que Pico realiza numa argumentação que trata dos anjos com a mesma liberdade com que cita Aristóteles, Avicena e Hermes Trimegisto.

Esse hibridismo nos soa estranho hoje em dia. Vivemos em uma época na qual não faz sentido afirmar, em um texto de filosofia, que nossa vida deve ser modelada a partir da vida dos anjos porque isso nos aproxima do pináculo ocupado pelo deus cristão. Esse discurso religioso ainda permanece, mas confinado ao campo próprio da religiosidade. E o que os humanistas sentiam como uma grande unidade do saber, nós percebemos como uma espécie de filosofia impura, em que se mesclam elementos místicos, éticos, científicos e teológicos cuja mescla ofende nosso senso epistemológico. Daí o nosso profundo estranhamento com textos como o de Pico della Mirandola, quando afirma que:

Também nós, pois, emulando na Terra a vida querubínica, freando com a ciência moral o ímpeto das paixões, dissipando a escuridão mental com a dialética, limpando a alma das manchas da ignorância e do vício, para que as emoções não se enfureçam nem a razão delire. Na alma, então, assim composta e purificada, difundamos a luz da filosofia natural, para depois torná-la perfeita mediante o conhecimento das coisas divinas.

Della Mirandola vivia em uma épica na qual o estudo da natureza ainda fazia parte da filosofia (a chamada filosofia natural) e na qual era evidente que mais importante que o conhecimento das coisas terrenas e humanas era o conhecimento das coisas divinas. E a paz que a ciência não nos pode dar, ele sugeria que buscássemos na teologia, mantendo assim a prevalência medieval do divino sobre o humano.

Mas, ao mesmo tempo, é visível em suas idéias o aflorar do individualismo que a modernidade veio a radicalizar. Afirmava ele que "a filosofia me ensinou a depender mais de minha consciência individual (de mi sola consciencia) que do juízo dos outros, e ao mesmo temo a estar atento não ao que se diz contra mim, mas a eu mesmo não fazer ou dizer algo de mau". Essa grande autoconfiança na capacidade do indivíduo distinguir o verdadeiro do falso e o bem do mal, mediante o exercício de sua própria racionalidade, é um dos elementos fundantes da modernidade.

Mas o sincretismo de Pico della Mirandola não aponta para a sensibilidade moderna, e sim para a tendência medieval de harmonizar filosofia e misticismo, compatibilizando a filosofia grega com o cristianismo (no caso da escolástica) e também com outras tradições místicas (no caso do humanismo). Esse sincretismo não acentuava a existência de uma tensão real entre tais elementos, mas pressupunha uma harmonia profunda entre eles, que superasse as disparidades aparentes.

Havia aí um desejo de sistema que era baseado na idéia reguladora que apontava para a existência de uma verdade comum subjacente a todas as tradições. E tudo isso é feito com base em uma pressuposição, que permanece até hoje relevante, de que existe algo comum entre todas as tradições. Que todas elas revelam parte da verdade e que, portanto, elas devem ser compatíveis.

Com isso, a tendência escolástica para a compatibilização é levada pelos humanistas ao nível de um sincretismo que buscava dar espaço para todos os saberes, dado que cada um deles deveria portar ao menos parcela da verdade. Assim, por mais que as disciplinas elegidas por Pico estranhem o leitor contemporâneo (que raramente mistura religião, filosofia e cabala), sua postura é próxima das tendências contemporâneas à interdisciplinaridade, na medida em que tenta compatibilizar as diferentes disciplinas, em vez de marcar limites estreito para sua aplicação.

Portanto, a valorização renascentista do homem e de sua liberdade não se dá tipicamente por meio de uma negação do divino, mas por meio da afirmação de uma dignidade própria da condição humana, cuja razão e cuja vontade deixam de ser vistas com as reservas agostinianas. Assim, a exaltação da liberdade (como fonte de possível perfeição) e a confiança na razão (como guia para a ascese) suplanta a admoestação sobre o caráter decaído da natureza humana que conduzia Agostinho a maldizer os que punham sua esperança no homem.

[1] Maquiavel, Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, Livro I, cap. I.

[2] Maquiavel, O Príncipe, cap. III.

 

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