Contexto histórico-cultural

por Gabriel Silva Elias

        A Itália do século XV, assim como Pico della Mirandola (1463-1494), foi marcada pelo desabrochar do Renascimento, que teve início em meados deste século embora, no restante do continente, esse movimento só fosse efetivamente surgir no século XVI. De caráter acentuadamente urbano, o Renascimento significou uma renovação científica e cultural para a Europa, tendo como berço e centros de difusão as principais cidades italianas, notadamente Roma, Nápoles, Milão, Veneza e Florença, onde Pico della Mirandola morreu. Os campos da teologia, arte, literatura, dentre outros foram sacudidos pela redescoberta de antigos escritos gregos e latinos que se encontravam perdidos em bibliotecas e monastérios de toda a Europa, o que gerou novos ideais de vida e revigorou, especialmente, os estudos humanísticos e as belas artes.

        A queda de Constantinopla, em 1463, contribuiu notadamente para o desencadeamento desse processo de redescoberta de textos clássicos. Após mais de um milênio de vida, o Império Bizantino caiu sob o domínio dos turcos otomanos, o que acarretou a imigração de muitos pensadores e intelectuais para o oeste europeu, onde passaram a lecionar nas grandes cidades, e trazendo consigo, ademais, textos clássicos que há muito não eram visados. Dessa forma, foram restaurados os diálogos de Platão, as histórias de Heródoto e Tucídides, as obras de dramaturgos e poetas gregos, que passaram a ser motivo de exaltação do período clássico e do mundo greco-romano. A data da queda desse império foi eleita arbitrariamente pelos historiadores para assinalar o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna.

        Apesar de a época medieval ser vista tipicamente como um período de pouca ou nula produção de conhecimento, é patente que as descobertas e avanços operados no Renascimento e a seguir não poderiam ter se concretizado sem os progressos feitos durante esse período. Com o fim dessa era, acabava também a organização feudal da sociedade baseada na produção agrícola. Em vez disso, as cidades tomavam importância cada vez maior na dinâmica econômica e abrigavam as recém-criadas instituições políticas que vinham ocupar o lugar dos senhores feudais, tornando o poder cada vez mais centralizado. Nesse contexto, a vida intelectual e artística deixou de ser inspirada exclusivamente pelo pensamento religioso e patrocínios laicos para tais atividades passaram a ser algo rotineiro. Era muito comum que esse apoio viesse das elites locais, como a família Medici em Florença, os Sforza em Milão, os Este em Ferrara por exemplo.

        Em relação ao pensamento político vigente na época, o princípio básico do governo deixou de ser a justiça e a proteção da liberdade de direito tipicamente medievais para focar-se sobre a segurança pública e a paz interna do Estado. Assim, as grandes cidades italianas, dirigidas por elites poderosas, sob a forma de cidades-estado, buscavam sua expansão umas à custa das outras, sem considerações de uma possível união nacional devido aos interesses muito divergentes de cada um desses grupos. Confrontos políticos entre a Igreja e os membros das elites eram os mais comuns, além de a política ser recheada de elementos como casamento entre famílias, alianças, traições, promessas, revanches, etc.

        Além dos conflitos internos, ao longo da segunda metade do século XV, os italianos tiveram que enfrentar também os turcos, que avançaram até a Croácia, se tornando uma ameaça alarmante, a partir de 1463, a Veneza, que participava de muitas batalhas navais e estava geograficamente mais vulnerável a essa aproximação, pois consistia na parte nordeste do território italiano. Enquanto os venezianos sofriam em suas guerras contra os turcos otomanos, em Milão prosperavam os Sforza.

        Fora da Itália, durante a maior parte do período em que Pico della Mirandola viveu, ocorria a Guerra das Duas Rosas na Inglaterra, uma sangrenta disputa entre duas famílias descendentes reais, os Lancastre e os York, pela sucessão do trono inglês. Além disso, logo quando do início da segunda metade do século, teve fim a Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra, que inclusive teve influência sobre os conflitos entre as duas famílias reais inglesas, pois uma das críticas que se fazia aos conselheiros do rei era de haver conduzido a guerra mal.

        Além de provocar o deslocamento de intelectuais para o oeste europeu como já foi dito, a queda de Constantinopla foi decisiva na descoberta da América, pois, tendo a igreja cristã caído no oriente e os otomanos estendido seu domínio em direção ao norte da África, contornando o Mar Mediterrâneo, tornava-se ainda mais necessária, para os reinos cristãos europeus, a descoberta de rotas alternativas de comércio com as Índias.

         Ainda na última década do século XV, os reis cristãos da Espanha efetivaram a Reconquista e expulsaram os mouros da Península Ibérica. Essa retomada territorial lançou as bases da unificação espanhola, e deu-se através da empreitada dos reis católicos Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, quando de sua união. Ainda relacionado primeiramente aos espanhóis apesar de também figurar nos últimos momentos da vida de Pico della Mirandola, é importante citar o ponto culminante das Grandes Navegações, quando Cristóvão Colombo chegou ao solo americano em 1492. As navegações, pouco antes desse momento, já estavam envoltas de expectativas e planos sobre como chegar às Índias pelo oeste, o que já denota certo cientificismo trazido pelo Renascimento, principalmente no tangente ao desenvolvimento dos instrumentos necessários a essa atividade.

 

 

Referências bibliográficas:

http://cronologia.leonardo.it/2001cron.htm

http://www.rinascimentoitaliano.com/storia.html

http://fr.wikipedia.org/wiki/XVe_si%C3%A8cle

 

                                                   Gabriel Silva Elias 09/0018460

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