Oração sobre a dignidade do homem

 Por Raquel de Lima Meirelles

 

RESENHA

MIRANDOLA, Giovanni Pico della. Discurso sobre a dignidade do homem. 1ª Edição. Editora: Edições 70. Lisboa, 2006.

 

    O autor inicia o texto com uma citação de Hermes, na qual exalta a natureza humana. Posteriormente questiona o significado da natureza humana e afirma que o homem não só pertence à classe das criaturas superiores, mas que é soberano das criaturas inferiores; o autor afirma que o Homem é também o elo entre as classes de criaturas, e que só é inferior aos anjos.

    Mirandola afirma a grandiosidade do homem, mas ressalta que essa grandiosidade não deve se reduzir a uma admiração cega e ilimitada, ele nos diz que devemos admirar mais os anjos e os beatos coros celestiais. Contudo o autor ressalta, mais uma vez, que o Homem é chamado e considerado um maravilhoso milagre por ser possuidor de alma. Pico della Mirandola afirma que Deus estabeleceu o homem como uma criatura que possui a potencialidade de ter e de desenvolver todas as qualidades e capacidades que foram dadas às outras criaturas separadamente.

    Posteriormente o autor nos diz que, no momento do nascimento, as bestas trazem consigo desde o ventre materno tudo o que necessitarão durante sua vida; e que os espíritos superiores, desde o princípio, ou pouco depois, se tornam aquilo que serão eternamente. Mirandola afirma que o pai celestial, desde o nascimento, conferiu ao Homem os germes de todas as espécies e de toda a vida. O autor também diferencia a natureza das criaturas de acordo com sua existência, e nos diz que as criaturas que vegetam são plantas; as criaturas sensíveis são bestas (animais); as criaturas racionais são superiores, são animais celestes; e as criaturas intelectualizadas são anjos ou filhos de Deus. Com essas diferenciações podemos inferir que o autor acredita que o conhecimento e as ciências são divinos, assim como a capacidade humana de desenvolvê-las.

    Mirandola se apropria das idéias de Maomé e afirma que aquele que se distancia da lei divina transforma-se em besta, e diferencia mais uma vez as criaturas terrenas: aquilo que se arrasta pelo chão como uma serpente é uma planta; aquele que é escravo dos sentidos e da sensualidade é uma besta; e aquele que pensa com reta razão e discerne todas as coisas é um animal celeste, digno de veneração. O autor afirma também a crença de que o Homem é um animal de natureza mutante e heterogênea.

    Pico della Mirandola cita também o profeta Asaf que disse: “somo todos deuses, filhos de Deus”; contudo o autor nos diz que não devemos nos aproveitar erroneamente do excesso de liberalidade que Deus nos concede, não devemos nos satisfazer com as coisas medíocres, devemos almejar as coisas grandiosas e para isso é preciso que nos esforcemos para alcançá-las. De acordo com o autor, se nos dedicamos à vida ativa e assumimos a proteção das coisas inferiores com justo discernimento, estaremos apoiados na solidez do trono divino; porém se optarmos por nos manter longe da ação, devemos nos entregar ao ócio contemplativo, sempre meditando sobre Deus e sobre Sua obra. Posteriormente Mirandola afirma que o poder do trono divino é imenso e que o alcançaremos através do amor. Contudo o autor questiona a possibilidade de se amar aquilo que não se conhece.

    Desta forma podemos, mais uma vez, identificar a defesa do conhecimento daquilo que é humano e também daquilo que é divino. Para Pico della Mirandola a filosofia contemplativa é o princípio que devemos buscar, imitar e aceitar como regra de conduta para que possamos alcançar o amor e assim nos tornaremos aptos aos deveres da ação. Para que a vida humana alcance os princípios divinos devemos ter claros os princípios que regem a vida, as ações e as obras, e assim alcançaremos a purificação; pois uma vez iluminados tornamo-nos perfeitos. Depois de purificar nossa alma devemos conhecer a luz da filosofia natural e assim poderemos finalmente acessar a perfeição do conhecimento daquilo que é divino.

    O autor também afirma que nossas lutas e questionamentos internos são piores do que as guerras civis, pois os questionamentos nos distanciam da paz interior que é o que nos aproxima de Deus. Para solucionar essas dificuldades o autor sugere que utilizemos a filosofia moral que é o instrumento capaz de tranqüilizar as inquietudes humanas. Mirandola afirma também que devemos buscar a paz, não devemos cultivar inimigos; pois o equilíbrio entre a carne e o espírito gera um pacto inviolável com a paz santíssima. De acordo com o autor a filosofia natural acalmará as opiniões e as divergências que distanciam a alma humana da paz divina.

    Assim Mirandola justifica o valor da teologia e nos diz que esta nos mostrará o caminho para a paz santíssima, para a união eterna e para a amizade (amizade nesse contexto deve ser entendida de acordo com a lógica pitagórica que afirma que a amizade é o propósito de toda a filosofia, ou seja, conhecimento). Essa paz é que permite, de acordo com o autor, que os anjos desçam à Terra e anunciem aos homens de boa vontade que ela (a paz) é o caminho para o céu e é também a forma para que nos tornemos anjos, ou seja, divinos em essência. A paz é o caminho para que alma se torne a morada de Deus.

     O autor também diz que devemos combater os excessos, pois a da virtude se encontra no equilíbrio moral; É preciso manter ativa a racionalidade, pois é a partir desta que a alma mede tudo, é a partir dela que se julga e se examina tudo. Para o autor é preciso manter a racionalidade pronta ao exercício e à regra dialética (dialética nesse contexto deve ser entendida como o método grego de diálogo, contraposição e construção de idéias). O autor cita Davi e Santo Agostinho para afirmar que não há lugar para os imundos de espírito.

    Depois de defender as idéias acima descritas o autor justifica sua postura crítica e afirma que por isso se dedicou ao estudo da filosofia. Mirandola defende que a filosofia deve ser estudada por todos aqueles que buscam a verdade e a sabedoria, o estudo da filosofia não deve ficar restrito aos príncipes ou aos afortunados. Não se deve estudar a filosofia buscando prêmios ou interesses materiais, devemos estudar filosofia inspirados pelo conhecimento e pela busca da verdade por si mesma. Posteriormente o autor se defende dizendo que não tem a intenção de simplesmente confrontar os poderosos, ele afirma que as boas ações têm mais críticos do que as condutas viciosas.

     Mirandola cita Platão e Aristóteles, os quais, de acordo com o autor, tinham convicção de que nada é mais favorável à verdade do que a busca contínua pelo debate e pelo exercício. E diz também que não se deve julgar as pessoas por sua idade (esse texto foi escrito por Pico della Mirandola quando tinha 24 anos). Com muita modéstia Mirandola diz que gostaria que sua obra fosse lida sem preconceitos e que todos poderiam criticá-la ou elogiá-la por seu conteúdo e não pelas características de seu autor.  

    Depois de citar filósofos e sábios de todos os tempos que o ocidente tem conhecimento Mirandola fala sobre a magia (humana) e a luz (magia natural e divina) ele diz que a primeira é monstruosa e nociva e que a segunda é divina e saudável. A magia, de acordo com o autor, distancia o homem de Deus, já a luz incita a admiração pelas obras do Senhor e que dela, da luz, derivam a caridade, a fé e a esperança.

    Posteriormente Pico della Mirandola se propõe a escrever sobre os antigos mistérios hebreus com o argumento de que é preciso esclarecer esse pensamento para que possamos defender a sagrada religião (católica) das descabidas calúnias dos hebreus. O autor afirma que Moisés ao receber a Lei que deixou a seus sucessores, recebeu também a secreta interpretação das mesmas, e Deus lhe ordenou que divulgasse a Lei, contudo Moisés não deveria escrever e nem divulgar a interpretação das mesmas. De acordo com o autor, o simples relato dos fatos deveria ser suficiente para conhecermos a potência de Deus e sua ira contra os impuros, sua indulgência para os bons e sua justiça para com todos. Apenas seria necessário que os homens fossem educados a partir dos preceitos divinos e saudáveis, para que assim tivessem uma boa vida e para que pudessem cultuar a verdadeira religião, a religião católica. Partindo dessas assertivas podemos afirmar que Mirandola tentou defender a filosofia e o conhecimento com base nos princípios católicos de sua época.

    O autor diz também que a interpretação da lei comunicada a Moisés por Deus foi chamada Cabala, que entre os hebreus significa o mesmo que para os cristãos: Tradição. No princípio a doutrina cabalística era transmitida por meio de revelações que um recebia do outro como que por direito hereditário. Depois a igreja decidiu que não seria possível manter o costume de transmitir oralmente os ensinamentos divinos e assim pediu que todos manifestassem suas memórias sobre os mistérios da lei divina. Estes mistérios, chamados mistérios dos escribas, foram transcritos em setenta volumes que são os livros da Cabala. Esdras, o líder dessa igreja, disse então que esses livros continham a sublime teologia divina, continham a fonte da sabedoria, da metafísica e das formas inteligíveis e angelicais, ou seja, a filosofia da natureza. Pico della Mirandola afirma que se dedicou a leitura e ao estudo desses livros e que neles encontrou tanto a religião de Moisés como a religião cristã, assim como também identificou nesses livros o mistério da santíssima trindade, a encarnação do verbo e a divindade do Messias. Mirandola nos diz também que pôde identificar semelhanças entre os escritos da Cabala e os escritos de Dionísio, Jerônimo e Santo Agostinho, os quais falam sobre o pecado original, sobre a Jerusalém celeste e sobre a queda dos demônios; sobre as ordens angélicas e também sobre o purgatório e o inferno. Portanto não há argumentos controversos entre os cristãos e os hebreus, afirma Pico della Mirandola, ambas as crenças se fundamentam em princípios muito similares.

    Posteriormente o autor continua a defender sua tese de que a busca por conhecimento é mais importante do que as divergências entre as diversas religiões existentes, e para isso demonstra sua forma de interpretar as obras de Orfeu e de Zoroastro. Nos textos gregos, afirma Mirandola, se lê quase integralmente os escritos de Orfeu, já os escritos sobre Zoroastro estão incompletos; contudo ambos são considerados pais e autores da antiga sabedoria. O autor diz que Orfeu escreveu sobre os dogmas através de alegorias poéticas, de forma que quem o lê acredita que seus escritos não passam de fábulas ou divagações, contudo afirma Mirandola, que a obra de Orfeu trata da filosofia secreta.

    Por fim Mirandola diz que não tem a intenção de mostra-se um conhecedor de muitas coisas e sim um conhecedor de coisas que muitos ignoram. E diz também que o discurso sobre a dignidade do homem foi escrito com a intenção de demonstrar os fatos para que aqueles que estão prontos e preparados para a luta encarem definitivamente o combate à mentira e às ilusões tão vagamente disseminadas em prol de verdades e religiões particulares.

 

 

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