Leituras & Reflexões

A obra de More teve grande impacto em sua época. "Utopia" foi, ao lado de "O Príncipe", uma quebra do paradigma medieval de se pensar política. E justamente por representar a ruptura de um sistema antigo de pensamento é que introduziu o que conhecemos por modernidade. Mantendo as influências greco-romanas também presentes na Idade Média, More fez de "A República", de Platão, a referência mais próxima de "Utopia".

Por que More é considerado moderno?

Utopias sempre estiveram presentes na vida político-literária do homem. Durante a Idade Média, as ordens contemplativas (em oposição aos conventos e às ordens ativas, que estudavam a religião para divulgá-la) eram visionárias de uma "sociedade perfeita" tal qual a concebida por More em "Utopia": igualitária, justa, harmônica, pacificada, onde os bens seriam também usufruídos de forma coletiva.

No entanto, além da inação (ou inércia) comum a tais ordens (viviam em mosteiros ou se baseavam em quem havia vivdo neles), nada poderiam elas mesmas fazer para engendrar um mundo milenarista. O próprio milenarismo remetia à noção do retorno de Cristo para um "Reino de 1000 anos", e nada mais podiam os contemplativos fazer, enquanto homens mortais, além de orações clamando para que esse retorno ocorresse a tempo de salvar o mundo dos males e das injustiças que o acometiam. Eram necessárias intervenções divinas, celestiais, para se atingir a tal "sociedade perfeita".

More estreou a idéia de os homens mortais e mundanos poderem operar as mudanças rumo à sociedade perfeita. Utopia não foi construída por entidades sagradas, por mais católico que More fosse. Ao contrário, foram homens normais que a engendraram. Não há nenhum elemento sobrenatural que explique a existência de Utopia, portanto era um modelo social perfeitamente passível de ser alcançada pelas sociedades de sua época. Recorrer ao divino para explicá-la seria colocar Utopia fora do alcance dos homens mortais, e não era essa a idéia do inglês.

Essa concepção de autonomia humana foi repetida posteriormente: para entrar no "Contrato Social", o homem teria de ser autônomo, sua ação deveria ser independente de Deus e dos preceitos e mandamentos religiosos. Foi assim que More ajudou a inaugurar a modernidade e virou referência para autores modernos como Rousseau.

Contraponto de Maquiavel

Embora fossem ambos modernos (e fundadores da modernidade), More e Maquiavel desenvolveram suas obras em sentidos opostos. Ambos convergem ao fato de que um mundo melhor é um mundo mais justo, mas dissoam sobre a forma de fazê-lo: com senso de igualdade para More, com estatismo autoritário radical para Maquiavel.

Também há discordância na fonte de onde extrair os preceitos éticos e morais. Enquanto More advogou uma ética cristã, Maquiavel advertiu Lourenço de Médici de que a melhor ética possível em assuntos de Estado era aquela inerente à própria política, ou seja, a ética política - que muitos entendem como a não-ética. Dessa forma, Maquiavel iniciou o pensamento realista na Ciência Política, contrapondo-se ao idealismo utópico de More.

Sucesso de público

Assim que lançada, "Utopia" ficou entre os best-sellers do período. Concomitante à sua publicação eram as Grandes Navegações e as descobertas ultramarinas dos europeus, que suscitavam pensamentos imaginários dos mais diversos possíveis.

Utopia deu forma concreta a essa imaginação humana da época (segundo a profª Rosineide Guilherme da Silva, "pintou com palavras o quadro da 'sociedade perfeita'") e estimulou muitos a darem continuidade aos mesmos estilo e tema literários. Foi o caso de vários autores ainda no século XVI.

Campanella

Tommaso Campanella (1568-1639), dominicano da região italiana da Calábria, escreveu "Civita solis", "A Cidade do Sol", narrativa utópica que ele mesmo disse a ser transplantada "no possível" para a vida real. No lugar de normas e leis rígidas difíceis de serem obedecidas, a base da utopia de Campanella é o "homem novo" (com nova mentalidade).

Bacon

Francis Bacon (1561-1626) foi o filósofo inglês que escreveu "Nova Atlântida", utopia de cunho naturalista-cientificista. O Estado ideal, na obra, obedece a preceitos e leis da Ciência - à época em franco porgresso. Isso permitiria a Grande Restauração (Instauratio magna), do governo da natureza sobre os homens. Há aí inegável influência do pensamento iluminista - racionalismo naturalista.

Socialismo Utópico

Utopia teve repercussão estendida ao século XVIII, quando nasce o Socialismo Utópico - oposto ao posterior socialismo científico, por não ter, a exemplo deste, métodos (meios), só objetivos. Autores como Robert Owen (1771-1858), Charles Fourier (1772-1837), Saint-Simon (1760-1825), entre outros, repetiram a retórica de More, dando-lhe caráter fortemente politizado. Proudhon, por exemplo, debruçou-se sobre o tema propriedade, afirmando dela se tratar de "um roubo".

Século XX e atualidade

As atrocidades e horrores que o homem enfrentou durante o século XX motivaram o surgimento das distopias. Se a utopia prevê igualdade nos níveis político e social, as distopias nasceram da idéia de que, ao longo do século XX, estava difícil sequer assegurar os direitos e liberdades individuais e resguardá-los de Estados totalitários, discricionários e arbitrários - os principais responsáveis pelas referidas atrocidades e horrores. Ilustra bem essa idéia de distopia "1984", de George Orwell - o "Grande Irmão" está a todo momento a nos espiar para reprimir atitudes nossas por Ele indesejadas.

 

Sumário

Boletim Arcos

Cadastre-se para receber nosso boletim informativo
Nome:

E-mail:

ok


Acompanhe o Arcos nas redes sociais


Licença Creative Commons | Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas
Alguns direitos reservados
Exceto quando assinalado, todo o conteúdo deste site é distribuído com uma licença de uso Creative Commons
Creative Commons: Atribuição | Uso Não-Comercial | Vedada a Criação de Obras Derivadas