Resenha de "Utopia"

Resenha de "Utopia" (1516)

A obra, cujo nome completo é Libellus vere aureus, nec minus salutaris quam festivus, de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia (Sobre o melhor estado de uma república e sobre a nova ilha de Utopia), se divide em duas partes. No Livro Primeiro, há referências à missão diplomática em Flandres, à qual More fora designado como negociador inglês, em contenda com a Coroa Espanhola. A questão terminou sem solução, por falta de consenso entre as partes.

No prologus, More fala das questões políticas inglesas do século XVI.

O livro descreve um encontro entre o autor e seus amigos Peter Gilles e Rafael Hitlodeo. Este último fora marinheiro nas expedições de Américo Vespúcio, continuando as viagens por conta própria após a morte do italiano. Um dos lugares visitados por Hitlodeo foi a "nova ilha de Utopia". A descrição sócio-econômica da ilha pinta com palavras o quadro de uma sociedade perfeita, idílica, imaginária, inexistente e inconcebível na Inglaterra dos "enclousures" (cercamentos de terra). Talvez por isso mesmo, More a contorna como uma "Cidade de Deus", em oposição às cidades terrenas.

Nota-se, em sua obra, forte influência e intensa presença de idéias platônicas. Utopia repete a tese de que a existência de propriedade privada desvirtua o homem e atrapalha sua "política de virtudes", defendida por Platão em "A República". A obra transcorre ainda no Mundo-das-Idéias platônico.

More se põe como paladino ferrenho da ética cristã, contrapondo-se à ética política proposta por Maquiavel. More propõe a busca do cristianismo em sua fonte original, que é a Palavra de Deus/Jesus Cristo transcrita na Bíblia, o fundamento único da crença.

Estão presentes muitas alegorias e mensagens na obra do inglês, dentre as quais:

1-) opulência: More critica o que denomina "luxo desnecessário" da Igreja, em especial de seu alto clero. Como já dito, prefere dizer-se adepto do verdadeiro cristianismo, o de origem. O português Gil Vicente é outro humanista com postura semelhante: não é a instituição que está comprometida por corrupção, mas sim parte dela - justamente o luxuoso e distinto alto clero. Quanto à questão da compreensão bíblica, More dedica especial atenção à retórica das ordens mendicantes, mas prefere ainda a interpretação proveniente da autoridade papal em Roma.

2-) injustiça: critica severamente a desigualdade de condições de vida presente na Inglaterra de seu tempo - o maior alvo de ataques de More. Sua base seria a própria opulência, que põe uma massa camponesa empobrecida para trabalhar sem limites e, dessa forma, garantir o sustento da nobreza e do clero privilegiados e acomodados. O igualitarismo está presente em Utopia nas questões de gênero, de renda e de idade, todavia More deixa transparecer que igualdadecresce em proporção inversa à liberdade. Utopia é um lugar onde a liberdade de ação não existe em sua plenitude. O conflito liberdade vs igualdade reaparece em Tocqueville e Huxley. Ademais, se preenchidas necessidades coletivas, podem ser perseguidos objetivos e interesses individuais. A justiça é elemento de fundamental importância para Utopia, relacionada com o desfrute controlado e comedido do prazer (o desfrute sem limite nenhum é amplamente condenável).

3-) natureza humana: diferentemente de Maquiavel, a obra do inglês pressupõe um homem bom, não-egoísta e não-individualista, pronto a submeter seus bens particulares ao usufruto coletivo. Essa idealização também é trazida do Mundo-das-Idéias platônico - a priori no plano das idéias e do abstrato, a posteriori no plano das coisas e do concreto.

4-) religião e fé: em sua maioria, crêem em Deus, na imortalidade da alma, na recompensa da virtude (virtude de More vs virtude de Maquiavel) - os utopianos entendem a fé como a vivência segundo a natureza. Fé e razão se mesclam. Há tolerância religiosa e liberdade de culto, mas são vistos com desconfiança aqueles que não crêem numa autoridade única e superior a tudo. Deus pode ser entendido como a fonte de poder do Estado igualitarista em Utopia, pois é do temor a ele que advém a busca por justiça.

A descrição de Utopia por More se assemelha bastante ao conceito matemático de limite, criado por Newton/Leibniz no século seguinte. Tanto um como outro são definidos e podem ser calculados e mensurados, mas infringem a lei da existência concreta - uma vez que não existem no universo tocável e tangível.

 

 

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