Estudos de Arbitragem Mediação e Negociação Vol.2

DEUTSCH, Morton. The Resolution of Conflict: Constructive and Destructive Processes. New Haven and London, 1973: Yale University Press.

Fábio Portela Lopes de Almeida - Membro do Grupo de Pesquisa e Trabalho em Arbitragem, Mediação e Negociação da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília.

O que é o conflito? Normalmente, o senso comum aponta que o conflito é uma situação desagradável e que deve ser evitada a todo custo porque só traz prejuízos às pessoas envolvidas e, muitas vezes, nenhuma compensação. No entanto, uma análise mais profunda do fenômeno conflito pode mostrar que nem sempre é assim.

Morton Deutsch, em sua obra The Resolution of Conflict: Constructive and Destructive Processes, procura acabar com a perspectiva de que o conflito necessariamente leva a resultados ruins e que, por isso mesmo, deve ser evitado. Com este objetivo, o autor divide o livro em duas partes principais: na primeira, busca-se sistematizar as diversas perspectivas sob as quais o conflito pode ser estudado, sob o marco teórico da psicologia social, já que seus estudos partem do pressuposto de que cada parte deve levar em consideração as percepções, expectativas e atitudes da outra. A segunda parte da obra dedicase a discutir os resultados de diversos estudos experimentais. Esta estrutura revela-se essencial para a compreensão do texto, já que muito do que é discutido na segunda parte depende de conceitos extraídos da discussão teórica realizada na primeira.

A primeira questão apresentada por Deutsch refere-se às variáveis que podem influenciar os conflitos. De acordo com ele, ao se estudar o conflito, pode-se partir das seguintes variáveis: (1) as características das partes no conflito; (2) a relação de uma parte com a outra; (3) a natureza da questão que dá origem ao conflito; (4) o ambiente social em que ocorre o conflito; (5) o público interessado no conflito; (6) as estratégias empregadas pelas partes; e (7) as conseqüências do conflito para cada parte. Cumpre observar que, de acordo com o autor, pode-se analisar todo e qualquer conflito com base nestas variáveis, pouco importando se se trata de um conflito inter-pessoal, inter-grupal ou internacional.

Outra questão levantada pelo autor refere-se às funções desempenhadas pelo conflito, que podem ser positivas ou negativas. Dentre as funções positivas, pode-se dizer que o conflito previne a estagnação de uma relação, dá estímulo a novos interesses e à curiosidade, bem como explora a capacidade de cada indivíduo.

O autor delineia o conflito, ainda, a partir de duas classes de processos: processos cooperativos e processos competitivos, sendo que ambos são interdependentes: enquanto, nos primeiros, a interdependência leva a ganhos mútuos, nos segundos, a relação é inversa e, para que uma das partes ganhe, a outra necessariamente deverá sofrer prejuízos. De qualquer modo, tanto a cooperação e a competição poderiam ser estudadas a partir de seus efeitos, a saber: (1) a substitutividade (em processos cooperativos, seria supérfluo que uma das partes realizasse determinada atividade que a outra realiza. Por outro lado, em processos competitivos, ambas as partes devem ter interesse em realizar a mesma atividade); (2) desenvolvimento de uma postura negativa (competição) ou positiva (cooperação) em relação à outra parte; e (3) a capacidade de uma parte se deixar ser influenciada pela outra (no caso dos processos competitivos, esta capacidade é muito menor). Importante ressaltar que o autor destaca ainda as conseqüências de processos cooperativos de resolução de conflitos: nestes, a comunicação é mais efetiva, há maior afabilidade entre as partes envolvidas, uma maior coordenação de esforços e um maior sentimento de aceitação e similaridade de idéias. Contudo, esta postura do autor dá margem à seguinte dúvida: estas características são conseqüência ou causa do desenvolvimento de processos cooperativos?

Após dissertar sobre cada um destes conceitos, o autor se dedica a discutir o conflito a partir dos envolvidos: os conflitos intra-psíquicos (são aqueles nos quais há conflitos internos em uma determinada pessoa. Deutsch destaca algumas escolas da psicologia que se dedicaram ao estudo destes conflitos: os learning theorists, consistency theorists, role theorists e os psicanalíticos.) e os conflitos inter-grupais. Quanto aos últimos, disserta-se sobre as condições internas (contato, identificação de grupo - visibilidade, competição e mudança social) e externas (coesão, estrutura e poder) que levam ao conflito. Neste capítulo, dedica-se, ainda, aos conflito de raça e de classe, como conflitos especiais que merecem um estudo mais específico e detalhado[1].

O capítulo 6 volta-se a outro aspecto dos conflitos, qual seja, as estratégias empregadas pelas partes: ameaças ou promessas. Ambas as posturas são estudadas sob a mesma perspectiva (a influência) e, por isso, podem-se utilizar os mesmos topoi para diferenciá-las. Neste sentido, o autor descreve as principais questões atinentes a cada uma destas estratégias: (1) legitimidade (sob quais condições uma pessoa tem o direito de compelir outra a fazer alguma coisa?); (2) credibilidade (tanto para fazer promessas como para ameaçar, deve-se ter credibilidade. Alguém que tem fama de ameaçar ou prometer e não cumprir, decerto não terá credibilidade para uma nova investida.); (3) magnitude (refere-se à intensidade da promessa ou da ameaça); (4) valores para os quais se apela; (5) finalidade; (6) clareza e precisão das contingências envolvidas; (7) perspectiva de tempo para consumação da ameaça ou promessa; (8) estilo (o modo de apresentação da promessa ou da ameaça afetam a sua interpretação); (9) custos e benefícios ao usuário em levar a cabo a promessa ou a ameaça.

O capítulo sétimo, a seu turno, analisa o aspecto estratégico "passivo": a parte ameaçada ou a quem é prometida algo deve acreditar ou suspeitar da ameaça ou promessa?

Em primeiro lugar, procede-se à análise do termo acreditar (trust), que possui várias acepções: pode ser entendido como inocência, conformidade social, virtude, fé, barganha (aceitar uma determinada imposição em um primeiro momento para depois pedir algo em troca) ou confiança. O segundo momento da análise é psicológico, que parte da concepção de crença como confiança para definir as condições em que ela ocorre, tais como a percepção da intenção de quem ameaça ou promete ou de quem negocia, a influência da comunicação neste processo ou mesmo condições patológicas de quem acredita (pode ser que uma pessoa de baixa auto-estima acredite em tudo que lhe é dito, por exemplo).

Os capítulos seguintes compõem a segunda parte do livro, que versa sobre experimentos realizados com o intuito de corroborar a análise realizada nos primeiros capítulos.

A conclusão do livro compõe-se ainda de um artigo no qual se discute sobre os fatores que influenciam a resolução de conflitos, resumindo a distinção entre os processos cooperativos e destrutivos de composição.

Embora, na primeira parte do livro, o autor pareça ser arbitrário na escolha das categorias de análise do fenômeno, toda a metodologia utilizada é explicada na segunda parte, bem como os experimentos que levaram o autor a chegar à sua tipologia do conflito.

Qualquer profissional que trabalhe com a resolução de conflitos tem nesta obra um manual para compreender a natureza dos conflitos, de uma maneira a percebê-lo não como uma mazela a ser eliminada, mas sim um instituto útil para a construção de respostas elaboradas e úteis às dificuldades encontradas diariamente por qualquer pessoa.

 

 

 



[1] O autor inclui, neste tópico, referência a diversos outros conflitos que retratam a discriminação de minorias: as disputas entre católicos e protestantes, negros e brancos, homossexuais e heterossexuais, homens e mulheres, etc.

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