Estudos de Arbitragem Mediação e Negociação Vol.3

A Resolução Do Conflito

Morton Deutsch - Professor da Universidade de Columbia em Nova Iorque (EUA), fundador do International Center for Cooperation and Conflict Resolution e autor de diversas obras em teoria de conflito, sendo por muitos considerado o mais proeminente autor ne

Publicação original: DEUTSCH, Morton. The resolution of conflict: constructive and destructive processes. New Haven and London: Yale University Press, 1973. Pp. 1-32; 349-400. Traduzido por Arth ur Coimbra de Oliveira e revisado por Francisco Schertel Mendes, ambos membros do Grupo de Pesquisa e Trabalho em Mediação, Negociação e Arbitragem.

1. Introdução

Algum tempo atrás, no jardim da casa de um amigo, meu filho de cinco anos e eu colega disputavam a posse de uma mangueira. Um queria usá-la antes do outro para aguar as flores. Cada um tentava arrancá-la do outro para si e ambos estavam chorando.

Os dois estavam muito frustrados e nem um nem outro era capaz de usar a mangueira para regar as flores como desejavam. Depois de chegarem a um impasse nesse cabo-deguerra, eles começaram a socar e a xingar um ao outro. A evolução do conflito para a violência física provocou a intervenção de uma poderosa terceira parte (um adulto), que propôs um jogo para determinar quem iria usar a mangueira antes do outro. Os meninos, um tanto quanto assustados pela violência da disputa, ficaram aliviados em concordar com a sugestão. Eles rapidamente ficaram envolvidos em tentar achar um pequeno objeto que eu tinha escondido e obedientemente seguiram a regra de que o vencedor seria o primeiro a usar a mangueira por dois minutos. Logo eles se desinteressaram pela mangueira d'água e começaram a colher amoras silvestres, as quais atiravam provocativamente em um menino de dez anos de idade que respondia aos inúteis ataques com uma tolerância impressionante.

Mesmo um simples episódio como esse traz muitas questões pertinentes a conflitos de todos os tipos: intrapessoais, interpessoais, intracoletivos, intercoletivos e internacionais.

Assim, alguém pode inquirir sobre os participantes no conflito – como suas características individuais (força, meios de cognição, personalidade, estado emocional etc.) e as relações prévias de um com o outro afetaram o desenvolvimento e o andamento da disputa. Alguém pode pensar, por exemplo, que, se os disputantes no exemplo acima tivessem sido homens em vez de meninos, o recurso à violência física teria sido menos provável. Devemos supor que isso se teria dado porque a violência é mais dolorosa e perigosa entre homens do que entre meninos, e assim as restrições pessoais e sociais contra adultos batendo um em outro são provavelmente mais fortes? Ou talvez fosse mais difícil manifestar-se a violência por causa dos maiores predicados intelectuais dos adultos? Outrossim, parece razoável crer que seria menos provável meninas baterem umas nas outras do que meninos fazê-lo. Se essas suposições estão corretas, como seria possível socializar ou de outro modo doutrinar pessoas de maneira a tornar certos meios de estourar conflitos tão estranhos a ponto de serem "impensáveis"?

Ou alguém pode indagar a respeito da questão envolvida no conflito, da significância de sua motivação e da maneira como ele é expresso. Havia algo sobre a posse ou não-posse da mangueira que tenha sido de particular importância emocional para os litigantes? Um freudiano talvez acentue o simbolismo fálico e a intensidade dos sentimentos de rivalidade e ansiedade que um menino de cinco anos de idade provavelmente tenha sobre a posse de um grande e potente aspersor de água. Além disso, a questão pode ter sido exposta de forma que sua gravidade fosse grande ou pequena, de maneira a se reconhecer como legítima a reclamação de ambos ou de apenas um. A questão pode ter sido definida, dessa forma, como tudo ou nada: ou a mangueira tornou-se posse exclusiva de um menino, ficando sob seu único controle, ou seu uso foi alternado. Podem-se levantar questões também a respeito do ambiente social no qual ocorreu o conflito. Por exemplo, a probabilidade do conflito foi maior porque nenhum menino tinha claros direitos territoriais (ambos eram visitantes em um lugar estranho)? A presença conhecida de uma audiência interessada e importante (os pais) afetou o rumo do conflito em determinados aspectos? De maneira geral, que modos de intervenção de uma terceira parte terão chance de ser mais bem-sucedidas em resolver um conflito de certo tipo? Que características dessa terceira parte, incluindo seu relacionamento com as partes em conflito, determina a aceitabilidade de sua intervenção? Os dois meninos de cinco anos provavelmente não seriam muito influenciados por uma ordem de parar vinda de um menino de quatro anos de idade. Por outro lado, não é implausível que um terceiro fisicamente mais fraco ajude a prevenir que o conflito de partes mais fortes evolua para formas violentas. Que características desses terceiros ajudam a resolver conflitos, e quais são as que promovem impasse e um litígio interminável?

Um delineamento dos fatores que afetam o andamento do conflito Há muitas outras questões que podem ser levantadas sobre esse episódio conflituoso.

Seja o conflito em estudo estabelecido entre sindicato e empresa, entre nações, entre um marido e sua esposa, ou entre crianças, é útil saber algo sobre:

1. As características das partes em conflito (seus valores e motivações; suas aspirações e objetivos; seus recursos físicos, intelectuais e sociais para travar ou resolver conflitos; suas crenças sobre conflito, incluindo suas concepções estratégicas e táticas; e assim por diante). Tanto para grupos de pessoas quanto para garotos em conflito, é interessante saber o que as respectivas partes irão considerar uma recompensa ou ganho e o que irão interpretar como punição ou perda. Tanto para indivíduos quanto para nações, o conhecimento das armas e dos instrumentos disponíveis e das suas habilidades em empregar esses recursos para travar ou resolver conflitos é claramente relevante para prever e entender o andamento do conflito. Similarmente, é pertinente saber quando um conflito dado é entre iguais (dois meninos) ou desiguais (um adulto e uma criança), entre partes de um todo (Nova York e Nova Jersey) ou entre uma parte e um todo (Mississipi e os Estados Unidos), ou entre todos (os Estados Unidos e a União Soviética).

2. Os relacionamentos prévios de um com o outro (suas concepções, crenças e expectativas sobre o outro, incluindo o que cada um acredita ser a visão do outro sobre si, e particularmente o grau de polarização que ocorreu em avaliações como "bommau", "confiável-desconfiável"). Uma controvérsia específica, sendo entre Egito e Israel, entre sindicato e empresa, ou entre marido e esposa, será influenciada e afetada pelas relações prévias e pelas concepções pré-existentes entre as partes. Um marido ou uma esposa que perdeu a confiança na benevolência das intenções do outro dificilmente conseguirá chegar a um acordo cuja efetivação necessita lealdade mútua, dando-se o mesmo entre Egito e Israel ou entre um sindicato amargurado e uma empresa.

3. A natureza da questão que dá origem ao conflito (seu âmbito, rigidez, importância emocional, formulação, periodicidade etc.). A questão ou as questões em conflito entre nações, coletividades ou indivíduos podem ser difusas e generalizadas, como em um conflito ideológico, ou específicas e limitadas, como em um conflito sobre a posse de uma determinada propriedade; a questão pode ser importante ou trivial para as partes envolvidas; pode dar ensejo a um compromisso ou exigir a sucumbência de um lado a outro.

4. O ambiente social em que o conflito ocorre (as facilidades e restrições, os encorajamentos e as retrações que ele gera em relação às diferentes estratégias e táticas de travar ou resolver conflitos, incluindo a natureza das normas sociais e das formas institucionais que o regulamentam). Tanto indivíduos quanto coletividades e nações podem se achar em ambientes sociais em que existe pouca tradição de resolução cooperativa de conflitos e em que poucas instituições, normas, facilidades ou recursos tenham sido desenvolvidos para contribuir com a resolução pacífica de disputas. Naturalmente, é verdade que o atual ambiente de nações é mais empobrecido nessas tradições e instituições do que os ambientes da maioria dos indivíduos e das coletividades.

5. Os espectadores interessados no conflito (seus relacionamentos entre si e com as partes em conflito, seus interesses no conflito e as conseqüências deste para os espectadores, suas características). Muitos conflitos surgem em uma esfera pública, e o andamento do conflito pode ser imensamente influenciado pelas concepções dos participantes a respeito de seus espectadores e como eles irão reagir – bem como pelo exato comportamento dos terceiros interessados. Dessa forma, um dos enfatizados êxitos do Estados Unidos no conflito do Vietnã foi desencorajar as "guerrilhas de libertação" em todo lugar.

O conflito no Oriente Médio é exacerbado pela corrida armamentista, que é alimentada e subsidiada por terceiros. Da mesma forma, um conflito entre indivíduos ou coletividadespode ser ou incentivado ou retido pelo desejo de manter ou de ganhar frente aos terceiros e pelas promessas ou ameaças de outrem.

6. A estratégia e a tática empregada pelas partes no conflito (em avaliar e/ou mudar a utilidade, a inutilidade e as probabilidades subjetivas de cada um; e em influenciar as concepções dos outros sobre as próprias utilidades e inutilidades de alguém por meio de táticas que variam em dimensões como legitimidade-ilegitimidade, o uso relativo de incentivos positivos e negativos como promessas e recompensas ou ameaças e punições, liberdade de escolha-coerção, a abertura e veracidade da comunicação e do compartilhamento de informações, o grau de credibilidade, o grau de comprometimento, os tipos de motivos alegados, e assim por diante). Muito se tem escrito sobre esses tópicos por estudantes de negociação (e.g., Schelling 1960; Boulding 1962; Stevens 1963; Walton e McKersie 1965). É evidente que os processos de negociação, influência e comunicação ocorrem entre nações bem como entre pessoas. O conhecimento sobre processos como coerção, persuasão, chantagem, insinuação e sedução é tão importante para aqueles que aconselhariam pais como para aqueles que aconselhariam reis.

7. As conseqüências do conflito para cada participante e para outras partes interessadas (os ganhos e perdas relacionados à questão imediata em conflito, os precedentes estabelecidos, as mudanças internas nos participantes resultantes de terem entrado em conflito, os efeitos a longo-prazo no relacionamento entre as partes envolvidas, a reputação que cada parte desenvolve aos olhos dos vários espectadores interessados). As atitudes praticadas no andamento do conflito e as conseqüências deste raramente deixam os participantes inalterados.

As dinâmicas do conflito interpessoal, intercoletivo e internacional aparentam ter características similares e parecem depender de alguns processos subjacentes comuns, como "a profecia da auto-execução", percepção e julgamento equivocados, e "compromisso inconsciente". Por exemplo, parece bem provável que, tanto para grupos quanto para indivíduos, a profecia da auto-execução opera no sentido de produzir hostilidade na parte de um disputante quando uma ação hostil é iniciada contra ele, baseada na expectativa da hostilidade do outro. Similarmente, coletividades e indivíduos geralmente enxergam suas próprias ações para com o outro como mais legítimas e bem-intencionadas do que as do outro perante si.

Esse delineamento de alguns fatores entranhados nos conflitos envolvendo diferentes tipos de unidades – indivíduos, grupos, organizações e nações – não implica que os mecanismos ou potencialidades de obter informações, de tomar decisões e de agir sejam necessariamente parecidas nos distintos tipos de unidades. Ninguém deve cometer a falácia da "mentalidade de grupo". Por outro lado, ninguém deve ignorar o fato de que nações e indivíduos têm a capacidade de agir mesmo não podendo cada unidade fazer os mesmos tipos de coisas: uma nação pode declarar guerra, um homem não pode; um homem pode fazer amor, não uma nação.

Está além do âmbito desta obra tentar explicitar o arcabouço conceitual que fundamenta a afirmação de que é profícuo observar conflitos interpessoais, intercoletivos e internacionais com as mesmas categorias, mas é interessante reconhecer que a minha abordagem em todos os níveis aqui é sócio-psicológica. Algumas noções-chave em uma visão sócio-psicológica são:

1. Cada participante de uma interação social responde ao outro conforme suas percepções e cognições deste; elas podem ou não corresponder à realidade do outro.

2. Cada participante de uma interação social, estando ciente da capacidade de percepção do outro, é influenciado por suas próprias expectativas referentes às ações do outro, bem como pelas suas percepções da conduta daquele. Essas expectativas podem ou não ser acuradas; a habilidade de entrar no papel do outro e prever seu comportamento não é evidente, seja nas crises interpessoais, seja nas internacionais.

3. Uma interação social não é somente iniciada por motivos, mas também gera novos motivos e pode alterar os já existentes. Não é apenas determinada, como também determinante. No processo de racionalizar e justificar ações praticadas e efeitos produzidos, novos valores e motivos emergem. Além disso, a interação social expõe os atores como modelos e exemplos que devem ser imitados e com os quais se deve identificar.

4. A interação social realiza-se em um ambiente social – uma família, um grupo, uma comunidade, uma nação, uma civilização – que desenvolveu técnicas, símbolos, categorias, regras e valores relevantes para as interações humanas. Assim, para entender eventos que ocorrem em interações sociais, deve-se compreender as inter-relações desses eventos com o contexto social envolvente no qual ocorrem.

5. Apesar de cada participante de uma interação social, indivíduo ou grupo, ser uma unidade complexa composta por vários subsistemas interativos, pode agir unificadamente em algum aspecto de seu ambiente. Tomar decisões no plano individual ou no plano nacional pode desenrolar uma luta entre diferentes interesses e valores de controle sobre a ação. Estrutura e processo internos, embora menos visíveis em indivíduos do que em grupos, são características de todas as unidades sociais.

As funções do conflito

A legitimidade de empregar conceitos similares para discutir conflitos entre diferentes tipos de unidades é distendida para justificar a abordagem do tema erguido nesta obra. A idéia principal aqui diz respeito às condições que determinam se um conflito irá ser resolvido com conseqüências construtivas ou destrutivas. A abordagem consiste em examinar diferentes níveis de conflito para verificar se há ou não algumas noções centrais que iluminam várias situações conflituosas e, destarte, investigar essas noções em experiências laboratoriais.

A questão central que fundamenta esta investigação supõe que o conflito é potencialmente de valor pessoal e social. Ele tem muitas funções positivas (Simmel 1955; Coser 1956). O conflito previne estagnações, estimula interesse e curiosidade, é o meio pelo qual os problemas podem ser manifestados e no qual chegam as soluções, é a raiz da mudança pessoal e social. O conflito é freqüentemente parte do processo de testar e de avaliar alguém e, enquanto tal, pode ser altamente agradável, na medida em que se experimenta o prazer do uso completo e pleno da sua capacidade. De mais a mais, o conflito demarca grupos e, dessa forma, ajuda a estabelecer uma identidade coletiva e individual; o conflito externo geralmente fomenta coesão interna. Além disso, como Coser (1956, pp.154-55) indicou:

Em grupos estruturados sobre laços frouxos e em sociedades abertas, o conflito, que busca a resolução de uma tensão entre antagonistas, provavelmente tem funções integradoras e estabilizantes para o relacionamento. Por permitir uma expressão direta e imediata de reclamações rivais, tais sistemas sociais conseguem reajustar suas estruturas eliminando as fontes de insatisfação.

Os inúmeros conflitos experimentados podem servir para eliminar as causas de dissociação e restabelecer a unidade. Esses sistemas fazem uso, por meio da tolerância e da institucionalização do conflito, de um importante mecanismo estabilizante.

Além disso, o conflito dentro de um grupo freqüentemente ajuda a revitalizar normas existentes; ou contribui para o surgimento de novas normas.

Nesse sentido, o conflito social é um mecanismo de adequação de normas a novas condições. Uma sociedade flexível beneficia-se do conflito por causa desse comportamento, na medida em que ajuda a criar e a modificar normas, assegura sua continuidade sob condições diversas. Tal mecanismo de reajustamento de normas é dificilmente observado em sistemas rígidos: suprimindo o conflito, eles abafam um sinal de aviso geralmente útil, aumentando, assim, o perigo de haver um colapso catastrófico.

O conflito interno pode também servir como um meio para averiguar a força relativa dos interesses antagônicos dentro da estrutura, e a partir disso constituir um mecanismo para a manutenção ou contínuo reajuste da balança de poder. Na medida em que a explosão de um conflito indica a rejeição de uma acomodação anterior entre as partes, uma vez que o respectivo poder dos contendores tenha sido averiguada no conflito, um novo equilíbrio pode ser estabelecido e o relacionamento pode prosseguir sobre essa nova base.

Saliento as funções positivas do conflito, e de maneira alguma ofereci uma lista exaustiva, porque muitas discussões sobre o conflito dispõem-no no rol dos vilões, como se o conflito em si fosse a causa da psicopatologia, da desordem social e da guerra. Uma leitura superficial da teoria psicanalítica com ênfase no "princípio do prazer", teoria de campo que dá importância à redução da tensão, e da teoria da dissonância preocupada com a redução da dissonância, pareceriam sugerir que a utopia psicológica seria uma existência livre de conflitos. Desse modo, aparentemente a maioria das pessoas procura conflito em esportes competitivos e jogos, indo ao teatro ou lendo um romance, ouvindo as notícias, no jogo provocante dos encontros íntimos, e no seu trabalho intelectual. Felizmente, ninguém tem de encarar o prospecto de uma existência sem conflitos. O conflito não deve ser eliminado nem suprimido por um longo tempo.

Algumas definições

Neste ponto, seria bom definir alguns termos-chave usados no texto. Um conflito existe quando atividades incompatíveis ocorrem. As ações incompatíveis podem se originar em uma pessoa, em uma coletividade ou em uma nação; tais conflitos chamam-se intrapessoais, intracoletivos ou intranacionais. Ou podem refletir ações incompatíveis de uma ou mais pessoas, coletividades ou nações; esses conflitos são chamados interpessoais, intercoletivos ou internacionais. Uma ação incompatível com outra impede, obstrui, interfere, danifica ou de alguma maneira torna a última menos provável ou menos efetiva.

Os termos competição e conflito são muito usados como sinônimos ou como substitutos um para o outro. Isso reflete uma confusão básica. Apesar de toda competição produzir um conflito, nem todo conflito reflete uma competição. Esta implica uma oposição entre os objetivos das partes interdependentes, de maneira que a probabilidade de uma parte alcançar sucesso diminui à medida que a da outra parte aumenta. Em um conflito que provém de competição, as ações incompatíveis refletem objetivos também incompatíveis.

Todavia, o conflito pode ocorrer mesmo quando não haja incompatibilidade de objetivos. Assim, se um marido e sua esposa estão em conflito sobre como tratar as picadas de mosquito em seu filho, não é porque eles têm objetivos mutuamente exclusivos; aqui, seus objetivos são concordantes. Essa distinção entre conflito e competição não é feita em vão. É importante e básico para um tema que fundamenta o trabalho discutido neste livro.

Nomeadamente, o conflito pode ocorrer em um contexto cooperativo ou competitivo, e os processos de resolução de conflito mais prováveis de aparecer serão fortemente influenciados por esse contexto.

Este texto se preocupa com o conflito psicológico ou percebido – isto é, com conflitos que existem psicologicamente para as partes envolvidas. Isso não significa que as percepções sejam sempre verídicas ou que as incompatibilidades reais sejam sempre percebidas.

A possibilidade de a natureza de um relacionamento ser mal percebida indica que, ocorrendo ou não um conflito, este pode ser determinado por um desentendimento ou por uma má informação a respeito do estado de ânimos objetivo. Dessa forma, a presença ou a ausência de conflito nunca é rigidamente determinada pelo estado de ânimos objetivo.

Além da possibilidade de má-percepção, fatores psicológicos entram na determinação do conflito ainda de outra maneira crucial. O conflito é também determinado sobre o que é valorizado pelas partes conflitantes. Mesmo o exemplo clássico de puro conflito – dois homens famintos em um bote com comida suficiente para a sobrevivência de apenas um – perde seu impacto se um ou os dois homens tiverem valores religiosos e sociais que podem tornar-se psicologicamente mais dominantes que a necessidade da fome ou o desejo pela sobrevivência.

O cerne dessas observações é que nem a ocorrência nem o surgimento de um conflito é completa e rigidamente determinado por circunstâncias objetivas. Isso significa que o destino dos participantes em uma situação de conflito não é inevitavelmente determinado pelas circunstâncias externas nas quais eles se encontram. Tomando o conflito um rumo produtivo ou destrutivo, está aberto a influências mesmo sob as condições objetivas mais desfavoráveis. Similarmente, até mesmo sob as circunstâncias objetivas mais favoráveis, fatores psicológicos podem fazer um conflito tomar um rumo destrutivo. A importância do conflito "real" não pode ser negada; todavia, o processo psicológico de percepção e avaliação também é "real", e está envolvido na transformação de condições objetivas em um conflito experimentado.

Uma tipologia de conflitos

Apesar de terem sido elaboradas muitas diferentes tipologias de conflito (veja, por exemplo, Boulding 1962; Rapoport 1960; e vários artigos no primeiro número do Journal of Conflict Resolution, 1957), na tabela 1.1 é apresentada ainda uma outra. Nela, os conflitos são discriminados de acordo com o relacionamento entre o estado de ânimos objetivo e o estado de ânimos como é percebido pelas partes conflitantes. Seis tipos de conflitos são caracterizados a seguir.

Conflito Verídico. Este tipo de conflito existe objetivamente e é acuradamente percebido. Não é contingente em relação a algum aspecto facilmente alterado do ambiente.

Tabela_1.1_Uma_tipologia_de_conflitos

Destarte, se uma mulher quer usar a sala de estar da casa como um estúdio para pintura e seu marido deseja usá-la como um escritório, eles têm um "conflito verdadeiro". É especialmente verdadeiro se suas agendas são de tal forma que ela pode pintar e ele pode estudar somente ao mesmo tempo e se a sala não puder ser subdividida para permitir ambas as atividades simultaneamente. Conflitos verídicos são difíceis de serem resolvidos amigavelmente, a menos que haja cooperação suficiente entre as duas partes para que trabalhem juntas em resolver seu problema mútuo de estabelecer prioridades ou que eles possam concordar sobre um mecanismo institucional imparcial aceito por ambos para resolver o conflito (e.g., arbitragem vinculante, girar uma moeda).

Conflito Contingente. Aqui a existência do conflito é dependente de circunstâncias prontamente re-arranjáveis, mas isso não é reconhecido pelas partes conflitantes. Assim, o conflito verídico do parágrafo anterior seria classificado como um conflito contingente se houvesse um sótão ou uma garagem ou algum outro espaço que poderia ser facilmente convertido em um escritório ou um estúdio de pintura. O conflito contingente desapareceria se os recursos alternativos para satisfazer as necessidades "conflitantes" fossem reconhecidos.

Conflitos contingentes são difíceis de se resolver apenas quando as perspectivas das partes em conflito são estreitas e rígidas, o que é fruto de recursos insuficientes de cognição e de solução de problemas ou excessiva tensão emocional. Ademais, é claro, se as questões em risco no conflito contingente tenham se agravado a ponto de que aceitar um substituto equivalente implique a perda do cerne da questão, o conflito perdeu sua contingência.

Conflito Deslocado. Aqui, as partes em conflito estão, por assim dizer, discutindo sobre a coisa errada. Marido e esposa, por exemplo, podem altercar a respeito das contas domésticas (Estou ganhando o bastante pelo que dou a ela? Ele realmente me dá o bastante?) como um deslocamento de um conflito não expresso sobre relações sexuais. O conflito experienciado é o conflito manifesto; já o que não está sendo diretamente expressado é o conflito subjacente. O conflito manifesto em geral expressará o subjacente de uma forma simbólica ou idiomática; a forma indireta é um modo mais "seguro" de falar sobre conflitos que pareçam voláteis ou perigosos demais para serem tratados diretamente. Ou o conflito manifesto pode simplesmente refletir a irritabilidade e a tensão geral nas relações entre as partes conflitantes que resulta de um conflito não-resolvido e subjacente – a tensão não-resolvida levando cada lado a ser excessivamente sensível a desprezos, inclinado a controvérsias e a ter outras posturas desse tipo.

Conflitos manifestos têm formas tão diversas como a de uma paciente obsessiva sobre se ela deve ou não conferir se realmente desligou o fogão; a discussão de dois irmãos sobre em que canal a TV deve ser sintonizada; a controvérsia entre o quadro escolar e o sindicato dos professores pela transferência de um outro professor; ou uma disputa internacional envolvendo alegações de violação de uma demarcação territorial por uma aeronave estrangeira. Cada um desses conflitos manifestos pode ser sintomático de um conflito subjacente. A paciente obsessiva pode querer confiar em si mesma mas possuir medo de ter impulsos que seriam destrutivos se não conferidos; os dois irmãos podem estar lutando para obter o que cada um considera ser a sua parte justa das recompensas familiares; e assim por diante. Não raro um conflito manifesto pode ser resolvido apenas temporariamente – a não ser que se lide com o conflito subjacente ou que este seja separado do conflito manifesto e tratado isoladamente. Por outro lado, às vezes a resolução de um conflito subjacente é acelerada pelo fato de se lidar com ele inicialmente nas suas formas seguras e deslocadas, que geralmente parecem mais alcançáveis por serem menos cósmicas em suas implicações do que o conflito subjacente.

Conflito Mal-Atribuído. Neste tipo, o conflito dá-se entre as partes erradas e, como conseqüência, geralmente sobre questões equivocadas. Tal má-atribuição pode ser inconsciente, como quando alguém culpa uma criança por algo que ela foi instruída a fazer por seus pais, ou então pode ser criada pelos que irão ganhar com ela. "Dividir e "conquistar" é uma estratégia conhecida para enfraquecer um grupo, induzindo o conflito interno de maneira a obscurecer o conflito entre o grupo e seu conquistador. Similarmente, quando há uma escassez de bons empregos, o antagonismo, em vez da cooperação, entre trabalhadores brancos e negros pode refletir uma característica errônea: a origem da dificuldade de um grupo racial sendo atribuída à competição do outro em vez de o ser ao sistema industrial ou ao governo. Essa característica errônea pode ser criada indiretamente por meio de ideologias que atribuam os problemas econômicos aos defeitos de indivíduos e grupos em vez de ao funcionamento do sistema econômico. Uma das preocupações inevitáveis de grupos interessados em produzir mudança social é reduzir a má-atribuição e os conflitos falsos ou contenciosos, fazendo a cooperação efetiva ganhar espaço entre grupos de pequeno poder. A cooperação efetiva irá, presumivelmente, elevar seus poderes mútuos para alcançar a mudança.

Conflito latente. Este é, com efeito, um conflito que deveria estar ocorrendo mas não está. Alguém pode não estar experienciando conscientemente um conflito da maneira como deveria porque ele foi reprimido, deslocado, ou mal-atribuído ou porque ele nem sequer existe psicologicamente. Se uma mulher pensa ser natural homens terem melhores direitos legais e econômicos, ela provavelmente pouco contestará os machistas. Todavia, mesmo rejeitando a doutrina da superioridade masculina, ela pode não ser partidária dos direitos femininos até estar consciente da discriminação contra as mulheres. Dessa forma, um dos objetivos daqueles interessados no melhoramento social é tornar conflitos latentes em conflitos conscientes. A conscientização ocorre no fortalecimento simultâneo da percepção de uma identidade própria (como uma mulher, como um negro, como um trabalhador) e torna-se maior na saliência do conflito com outros que denigrem sua identidade.

Conflito Falso. É a ocorrência do conflito quando não há base para ele. Este conflito sempre indica má-percepção ou má-compreensão. Dada a notória inexatidão na percepção realizada pelos indivíduos, grupos ou nações, não é improvável que tais conflitos sejam freqüentes. Um conflito pode, logicamente, iniciar-se como falso mas eliciar novos motivos e comportamentos que o transformem em verdadeiro. Uma transformação como essa é mais provável de ocorrer em uma atmosfera de competitividade e suspeição do que em uma de cooperação e confiança.

Os seis tipos de conflito, descritos acima, não excluem um ao outro mutuamente. A existência de um conflito deslocado ou mal-atribuído indica que há também um conflito não-reconhecido ou latente. Além do mais, em qualquer situação de conflito, a interação entre as partes envolvidas pode transformá-lo de um tipo em outro. Somado a isso, um conflito real pode ser complexo, abrangendo várias questões e muitas partes. Pode haver um conflito verídico sobre uma questão, um conflito deslocado em outra, e elementos de má-atribuição em relação a várias das questões em conflito.

Um conflito, independentemente de sua realidade, dá-se geralmente sobre um ou outro entre vários tipos de questões. Os cinco tipos básicos de questões estão descritas abaixo.

Controle sobre recursos. Recursos como espaço, dinheiro, propriedade, poder, prestígio, alimentos e outros podem ser vistos como impartilháveis, e se duas ou maispartes buscam a posse ou o uso exclusivo de um recurso ou de uma parte disponível dele, está apto a nascer um conflito entre elas. Conflitos desse tipo são difíceis de serem resolvidos construtivamente quando há rígida fixação no recurso específico em questão e pouca possibilidade de encontrar um substituto satisfatório para ele.

Preferências e incômodos. Muitos conflitos surgem porque as atividades ou os gostos de um indivíduo ou de um grupo chocam-se com as preferências, a sensatez ou a sensibilidade de um outro. Uma noiva adora seus gatos e quer ficar com eles; seu futuro marido não gosta de gatos e não os quer. Um vizinho toca piano mal e incessantemente; as paredes são finas. A questão não é o direito abstrato de alguém às suas preferências ou atividades, mas sim se ele pode exercer esse direito na medida em que, fazendo isso, cria um incômodo ou um distúrbio para outro. Tal conflito é, em geral, prontamente tratado com fuga e segregação, de maneira que as sensibilidades ou preferências opostas não entrem em jogo ao mesmo tempo ou no mesmo lugar. Às vezes, contudo, as sensibilidades opostas vêem-se emaranhadas em uma luta mais profunda de poder ou amor relativos (Ele me ama o bastante para aturar meus gatos?), e essa luta simbólica é difícil de se resolver se a questão subjacente não é clara.

Valores. Muitos conflitos compreendem o que "deveria ser". Uma pessoa pode preferir um sistema de governo que enfatize a justiça social; já, uma outra, que enfatize a liberdade individual. Conflitos de valor podem se dar sobre questões relativamente isoladas (Deveria ser usado spray químico contra nuvens de mariposas?) ou tomar a forma de conflitos ideológicos ou religiosos em que sistemas de valores são postos um contra o outro.

Não é a diferença de valores em si que conduz ao conflito, mas, antes, a alegação de que um valor deveria dominar ou ser aplicado universalmente, mesmo por aqueles que detêm diferentes valores. Um conflito de valor é mais provável de ocorrer quando valores opostos estejam implicados em uma ação legal ou política, e.g., quando a legislatura estatal tem de decidir se deve sustentar um projeto de lei banindo o aborto ou quando o conselho da vila deve votar se deve ou não permitir vaporização química nas árvores sob sua jurisdição.

Uma perspectiva de valor que não alega uma superioridade intrínseca e não procura forçar seus pontos de vista morais sobre descrentes provavelmente estará menos envolvida em algum conflito de valor.

Crenças. Muitos conflitos se dão sobre o que "é": sobre fatos, informações, conhecimento, ou crenças sobre a realidade. Os conflitos podem ser sobre algo tão aberto e direto como as percepções de duas pessoas olhando a mesma coisa. O notório depoimento conflitante de testemunhas de um acidente é uma ilustração. Ou o conflito pode ser mais sutil, como na diferença de suposições básicas sobre como as coisas relacionam-se entre si. Um economista pode acreditar que a melhor maneira de prognosticar tendências na economia nacional é verificar as variáveis X, Y e Z; outro pode pensar que A, B e C são melhores indicadores.

O trabalho de Asch e seus colaboradores (1956), estudando o conflito perceptivo, e a pesquisa de Hammond e seus colegas (1965), investigando conflitos sobre suposições cognitivas, demonstraram que tais conflitos podem ser emocionalmente preocupantes quando o oponente ou seus pontos de vista não podem ser dispensados como sendo incompetentes ou malévolos. A oposição às crenças fundamentais seguramente guardadas de um indivíduo é um desafio para o seu apego à realidade. Se não se pode ter confiança em que se acredita ou percebe, sua habilidade de agir racionalmente é minada.

Nem todas as discrepâncias de crença levam ao conflito. Uma esposa pode acreditar que banho de sol é bom para a pele e seu marido pode pensar o oposto, mas nenhum conflito haverá, a menos que eles precisem agir juntamente em uma área relevante às suas crenças, a menos que um ou ambos decidam que uma das duas crenças deve dominar e ser aceita pelo outro, ou a menos que suas crenças sejam tão fundamentais para seus pontos de vista sobre a realidade e tão baseadas no consenso social que disputas para eles devem ser negadas.

A natureza do relacionamento entre as partes.

Duas pessoas podem conflitar por visões ou desejos opostos em seu relacionamento mútuo. Ambas podem querer ser dominantes ou podem desejar ser dominadas; uma pode querer mais "afeição" que a outra; e assim por diante. Às vezes um conflito sobre o relacionamento é difícil demais para ser encarado diretamente e, como uma conseqüência, permanece latente ou é deslocado ou mal-atribuído.

Conflitos destrutivos e construtivos

Outra distinção útil entre conflitos, que difere das feitas na tipologia apresentada acima, é a que distingue conflitos destrutivos e construtivos.

Nos extremos, esses termos são fáceis de se definir. Assim, um conflito claramente tem conseqüências destrutivas se seus participantes estão insatisfeitos com as conclusões e sentem, como resultado do conflito, que perderam. Similarmente, um conflito tem conseqüências produtivas se todos os participantes estão satisfeitos com os efeitos e sentem que, resolvido o conflito, ganharam. Também, na maioria das vezes, um conflito cujos efeitos são satisfatórios para todos os participantes será mais construtivo do que um que seja satisfatório para uns e insatisfatório para outros.

É, sem dúvida, mais fácil identificar e medir satisfações-insatisfações e ganhosperdas em simples situações de conflito produzidas dentro de laboratório do que o fazer em complexos conflitos coletivos do cotidiano. Porém, mesmo nessas situações complexas, não é impossível comparar conflitos em relação aos seus efeitos. Em algumas ocasiões, negociações sindicais podem conduzir a uma greve prolongada com perda considerável e má vontade resultantes para ambas as partes; em outros casos, tais negociações podem levar a um acordo mutuamente satisfatório no qual ambas as partes obtêm algo que querem.

Algumas vezes, uma contenda entre um marido e sua esposa irá clarear desentendimentos não expressos e levá-los a grande intimidade; em outras, pode produzir apenas amargura e estranhamento.

A pergunta

Retornemos agora ao quesito básico ao qual este trabalho se endereça: como evitar que o conflito seja destrutivo. O ponto não é como eliminar ou prevenir o conflito, mas, em vez disso, como fazê-lo ser produtivo. Não devemos lidar com situações de conflito "puro" em que uma parte inevitavelmente perde o que a outra ganha. O interesse aqui se dá sobre conflitos em que haja uma mistura de interesses cooperativos e competitivos, em que uma variedade de resultados é possível: perda mútua, ganho para um e perda para outro, e ganho mútuo. Assim, a tese deste livro pode ser re-elaborada como uma investigação das condições sob as quais os participantes irão desenvolver um relacionamento cooperativo ou competitivo em uma situação que permita o desenvolvimento de ambos.

Deve ser salientado que a eliminação do conflito puro não é muito restritiva. Como se indicou acima, o conflito é determinado pelo que é valorizado pelas partes conflitantes e por quais crenças e percepções elas detêm. Mas valores, crenças e percepções nem sempre são inalteráveis. Além disso, há poucas circunstâncias, particularmente se a situação é repetitiva ou se os participantes estão envolvidos em muitos relacionamentos diferentes juntos, que sejam tão rigidamente estruturadas de maneira que o ganho de um venha inevitavelmente das perdas do outro. É, evidentemente, verdade que os participantes podem, de imediato, definir uma ocasião que permite ganho mútuo como uma situação de conflito puro e agirem uma para outra de uma forma puramente competitiva.

Há uma importante vantagem na reformulação do quesito original em uma afirmativa referente às condições sob as quais um relacionamento cooperativo ou competitivo irá se desenrolar entre participantes que têm uma mistura de interesses cooperativos e competitivos na relação entre um e outro. Isso permite a considerável aplicação de trabalhos teóricos e de pesquisa prévios para a caracterização de dois principais processos de inter-relações em lidar com conflito: um processo cooperativo e um competitivo. Deve-se saber que o desenvolvimento de um ou de outro tipo de relacionamento será manifestado não somente nos resultados do conflito mas também nos processos de se lidar com ele.

No próximo capítulo, caracterizar-se-ão as principais diferenças entre processos cooperativos e competitivos como eles têm sido revelado em trabalhos teóricos e experimentais.

Nos capítulos subseqüentes da Parte Um, serão examinados conflitos em diferentes níveis – intrapessoal, interpessoal e intercoletivos – para verificar se é possível chegar a algumas generalizações amplas a respeito das condições que proporcionam a ocorrência de um em vez de outro processo de resolução de conflito. Na Parte Dois, algumas investigações experimentais, conduzidas no laboratório do autor e que sustentam essas generalizações, serão descritas.

Na Parte Três são descritas as típicas características de conflitos destrutivos e construtivos e os fatores que determinam qual modo de resolução de conflito será dominante.

Nessa parte, a regulamentação do conflito e o papel de terceiros no processo também são discutidos. Finalmente, algumas das questões especiais relacionadas ao conflito entre o fraco e o forte são consideradas.

2. Processos cooperativos e competitivos

Uma análise teórica de cooperação e competição Kurt Lewin, com quem estudei como graduando, tinha uma pergunta favorita:

"Qual é a essência dos fenômenos?" Esta questão foi de central importância na formulação da minha dissertação de doutorado sobre os efeitos da cooperação e da competição (Deutsch 1948). Parecia que, implícito na então esparsa literatura acadêmica sobre o assunto, bem como no uso diário, havia a noção de que o ponto central das diferenças entre cooperação e competição residia na natureza da forma pela qual se dá a ligação entre os objetivos dos participantes em cada situação. Em uma situação cooperativa, os objetivos estão tão ligados que todos "afundam ou nadam" juntos, enquanto que, na situação competitiva, se um nada, o outro deve afundar.

Com essa idéia em mente, defini uma situação cooperativa como uma em que os objetivos dos participantes estão tão ligados que qualquer participante os alcançará se, e somente se, os outros com quem está ligado também o podem fazer. O termo interdependência promovedora tem sido usado para caracterizar todas as ligações entre objetivos nas quais há uma correlação positiva entre as obtenções dos participantes ligados. O grau de interdependência promovedora refere-se à quantidade de correlações positivas; seu valor pode variar de 0 a +1.

De maneira similar, em uma situação competitiva os objetivos dos participantes são inversamente interdependentes. Interdependência inversa é a condição em que participantes estão tão proximamente ligados que há uma correlação negativa entre a aquisição de seus objetivos. O grau de interdependência inversa refere-se à quantidade de correlação negativa; seu valor pode variar de 0 a –1. No caso limite de pura competição, um participante pode alcançar seu objetivo se, e somente se, os outros com quem está ligado não o podem fazer.

Esta discussão teórica irá cobrir apenas situações puras de cooperação e competição que sejam simétricas e percebidas consoantemente. A Figura 2.1 ilustra um caso de interdependência promovedora simétrica; a percepção consoante implica que o relacionamento é percebido por ambas as partes (P1 e P2) como sendo promovedoramente interdependente. A Figura 2.1 também ilustra uma interdependência inversa simétrica e o caso de não-interdependência entre os objetivos de P1 e P2.

A_B_e_C

Deve ser observado que poucas situações reais correspondem a situações cooperativas ou competitivas puras como aqui definidas. A maioria das situações do dia-a-dia envolvem um complexo conjunto de objetivos e subobjetivos. Conseqüentemente, é possível a indivíduos serem promovedoramente interdependentes com respeito a um objetivo e inversamente interdependentes em relação a outro. Os membros de um time de basquetebol devem estar cooperativamente inter-relacionados com respeito a vencer o jogo mas competitivos com respeito a ser o "astro" do time. Outrossim, pessoas podem ser promove doramente interdependentes com respeito a subobjetivos e inversamente interdependentes com respeito a objetivos principais, ou vice-versa. Empresas fabricando o mesmo produto podem ser cooperativas no que concerne à expansão do mercado total mas competitivas no que tange à porção dele que uma detém. Além disso, há certas situações em que pessoas podem competir sobre os termos de sua cooperação, como na negociação. De fato, extrapolar a situação "pura" é quase sempre desnecessário para entender o mais complexo: quando as ocasiões de cooperação e competição não estão rigidamente segregadas, é provável que as forças relativas das ligações cooperativas e competitivas entre as partes (como determinado pela importância dos objetivos que são ligados entre si e o grau de sua ligação ou interdependência) determinarão a direção do processo resultante.

Os efeitos de cooperação e competição

Em uma situação cooperativa, quando um participante se comporta de maneira a aumentar suas chances de alcançar o objetivo, ele aumenta as chances de que os outros, com quem ele está promovedoramente ligado, também alcancem seus objetivos.

Em contraste, em uma situação competitiva, quando um participante se comporta de forma a aumentar suas próprias chances de sucesso, ele diminui as chances dos outros. Para entender as conseqüências divergentes das situações cooperativas e competitivas, seria interessante examinar seus efeitos sobre processos sócio-psicológicos centrais tais como a "substituibilidade" (o desejo de permitir que as ações de outra pessoa sejam substituíveis por uma ação própria), a "catalisação" (o desenvolvimento de atitudes positivas ou negativas) e a "indutibilidade" (a prontidão em ser positivamente influenciado por um outro).

Substituibilidade. Se P1 moveu-se em direção ao seu objetivo em virtude das ações de P2, as ações deste são substituíveis por ações similarmente intentadas praticadas por P1, e a repetição seria percebida como supérflua. Dessa forma, em uma situação cooperativa, esperar-se-ia que houvesse pequena necessidade para os cooperadores duplicarem as atividades de ambos. Por outro lado, se as chances de P1 alcançar seu objetivo são reduzidas enquanto as chances de P2 são aumentadas por causa das ações bem-sucedidas de P2, não se esperaria nenhuma substituibilidade. Assim, em uma situação competitiva, P1 iria, em vez disso, procurar cobrir a mesma área que P2 tentando imitar ou ultrapassá-lo.

Catalisação positiva. Se P1 moveu-se em direção ao seu objetivo como conseqüência das ações efetivas de P2, em uma situação cooperativa é provável que P1 catalise positivamente as ações de P2 e possa generalizar essa catalisação a P2 de maneira que ele (P1) irá querer cooperar com P2 em outras situações. De outra forma, se a chance de P1 alcançar seu objetivo foi reduzida como uma conseqüência do comportamento fortemente competitivo de P2, parece provável que P1 catalisará negativamente P2 e seu comportamento e não irá querer competir com P2 no futuro. Uma atitude negativa direcionada a um oponente efetivo como P2, todavia, seria inconsistente com uma tentativa de imitar ou ultrapassar o comportamento de P2; assim, P1 estará em autoconflito na situação social competitiva quando estiver tendo um mau desempenho.

Indutibilidade. Se as ações cooperativas bem-sucedidas de P2 deslocam P1 em direção aos seus objetivos, pode-se esperar que P1 facilite as ações de P2. Dessa forma, em um relacionamento cooperativo, espera-se que as pessoas sejam mutuamente colaboradoras e correspondentes às demandas dos outros. Se as ações de P2 afastam P1 de seus objetivos, espera-se que P1 seja obstrutivo e resistente aos esforços de P2. Competidores estão mais inclinados a tentar impedir uns aos outros que a ajudar.

Note-se que na descrição dos efeitos exposta acima, todas as situações se dão sobre o que ocorre quando as ações de P2 afetam positiva ou negativamente as chances de P1 alcançar seus objetivos. Até aqui, fez-se a suposição simplificadora de que as ações de P2 são bem-sucedidas ou efetivas; assim, em uma situação cooperativa, as ações de P2 irão ajudar P1, mas essas mesmas ações iriam prejudicar P1 se esta fosse uma situação competitiva.

Entretanto, o comportamento de P2 pode ser fracassado ou relativamente ineficaz (menos eficaz que o de outro cooperador ou competidor em potencial que serve de base de comparação).

Em vez de ajudar P1, com quem está cooperativamente ligado, P2 pode na verdade reduzir suas chances de alcançar o objetivo; ou em vez de prejudicar P1, com quem está competitivamente ligado, P2 pode melhorar suas chances. Se este fosse o caso, as predições para as situações cooperativas e competitivas seriam revertidas. Na situação cooperativa, não haveria substituibilidade: P1 iria impedir, e não facilitar, as ações de P2. E na situação competitiva, P1 facilitaria e gostaria das ações fracassadas de P2, mas não sentiria qualquer necessidade de imitar ou ultrapassá-las.

Alhures (Deutsch 1949a, 1962), algumas das últimas conseqüências das diferenças entre um processo social cooperativo e um competitivo foram detalhadas. Aqui, alguns dos principais resultados dessa análise teórica foram resumidos. Em síntese, um processo cooperativo, por permitir maior substituibilidade, encoraja uma maior divisão do trabalho e especialização de papéis; isso permite um uso mais econômico de pessoal e recursos que, por sua vez, conduzem a uma maior produtividade das tarefas. O desenvolvimento de atitudes mais favoráveis de um em relação ao outro nas situações cooperativas fomenta mais confiança mútua e abertura de comunicação bem como providencia uma base mais estável para uma cooperação contínua, a despeito do crescimento ou da míngua de determinados objetivos. Isso também encoraja uma percepção de similaridade de atitudes. Na medida em que participantes na situação cooperativa são mais facilmente influenciáveis do que os na situação competitiva, os primeiros são geralmente mais atenciosos uns com os outros. Isso reduz dificuldades de comunicação e estimula o uso de técnicas de persuasão em vez de coerção quando há diferenças de ponto de vista.

O processo cooperativo, todavia, contém inerentemente algumas "patologias" típicas: a divisão de trabalho e a especialização de papéis tendem a criar interesses nas funções especializadas, de maneira que os especialistas tornem-se mais orientados ao suprimento de suas próprias funções do que ao suprimento das necessidades totais da empreitada cooperativa; o desenvolvimento de relações pessoais amigáveis encoraja o favoritismo ou o nepotismo, que pode ser um impedimento para a contemplação das exigências das tarefas, uma fonte de conflito interno, e uma base para a erosão de regras universalizadoras que podem conflitar com os laços de um relacionamento pessoal; e a suscetibilidade à influência social na situação cooperativa pode levar a uma conformidade excessiva, bem como à inibição de discordâncias e diferenças que, por sua vez, podem retardar inovações e desenvolvimentos no processo cooperativo.

Até agora, tem havido um bom número de pesquisas experimentais sustentando minha análise teórica dos processos de cooperação e competição. A maioria da pesquisa tem investigado a cooperação e competição intracoletiva. Na próxima seção, um resumo de um estudo sobre esse assunto por este autor é apresentado. Na seção seguinte, é resumida uma investigação de Sherif e seus associados que lida com cooperação e competição intercoletiva.

Apesar de o trabalho de Sherif não ter sido guiado pela análise teórica exposta acima, seus dados são claramente relevantes para ela e os resultados de seu estudo a respeito da cooperação e competição intercoletiva configuram bem um paralelo com os resultados da minha pesquisa sobre a cooperação e competição intracoletiva.

Um estudo sobre cooperação e competição intracoletivas

Na primavera de 1948, conduzi um experimento com graduandos do M.I.T. que estavam inscritos em seções de um curso introdutório de psicologia que eu estava lecionando.

Eu subdividi as seções em dez grupos, cada um composto de cinco estudantes, e reuni-me com cada grupo durante três horas uma vez por semana durante seis semanas.

Cada grupo seguia a mesma rotina em seus encontros. Primeiro, era dada aos membros a tarefa de resolver um complexo enigma intelectual o mais rápido que pudessem. (Por exemplo: Tem de ter havido uma escassez de jovens senhoritas elegíveis em Kinsleydale, na medida em que cada um de cinco homens casou-se com a mãe viúva de um dos outros. O enteado de Jenson, Tomkins, é o padrasto de Perkins. A mãe de Jenkins é uma amiga da Sra. Watkins, cuja sogra é uma prima da Sra. Perkins. Qual é o nome do enteado de Simkins? [Resposta: Watkins.]) Durante os cinqüenta minutos seguintes, eles eram constituídos como um "quadro de consultores em relações humanas" e eram indagados a formular, após cada discussão do grupo, uma resposta escrita para uma carta pedindo conselhos sobre um problema pessoal ou social. Eles discutiam problemas tais quais como responder a um incidente envolvendo preconceito em uma barbearia e o que recomendar a um soldado que está a retornar e que se sente culpado por ter sido infiel a sua esposa além-mar. Durante o resto do período, eu conduzia o grupo em uma discussão de conceitos e princípios psicológicos relacionados a assuntos como aprendizado, percepção, cognição e motivação.

Depois da primeira semana de reuniões, os grupos foram divididos em pares associados baseado em seus desempenhos em grupo da primeira reunião. Um grupo em cada par associado foi então designado aleatoriamente a um sistema de avaliação competitiva e o outro grupo a um de avaliação cooperativa. À metade dos grupos foi dito que suas discussões sobre o problema de relações humanas seriam avaliadas competitivamente: cada contribuição individual à discussão do grupo e à sua produção seria comparada às contribuições de cada um dos membros do outro grupo, e o melhor contribuinte iria ganhar um

A, o segundo melhor ganharia um B e assim sucessivamente. À outra metade dos grupos foi dito que eles seriam avaliados cooperativamente: todos do grupo ganhariam a mesma nota, esta sendo determinada por quão bem a discussão e a produção do grupo se saíssem quando comparadas com aqueles quatro outros grupos similares; todos os membros do melhor grupo ganhariam A, os do segundo melhor grupo ganhariam B e assim por diante. Os estudantes aceitaram os procedimentos de avaliação nos dois tipos de grupo sem questionar ou protestar. Na medida em que as notas eram muito importantes no M.I.T., os estudantes eram altamente motivados a alcançar uma boa avaliação em ambas as condições.

Todos os grupos eram observados sistematicamente por três pesquisadores assistentes que categorizavam e mediam diferentes aspectos das discussões tais como simpatia, ordem e qualidade. Eles também anotaram quem falou com quem e quanta atenção e entendimento mútuo havia durante as discussões. Além disso, os estudantes preencheram questionários após cada discussão, nos quais avaliavam vários aspectos da discussão, suas próprias reações durante ela e suas atitudes para com outros membros do grupo.

Os resultados do experimento mostraram diferenças marcantes entre os grupos cooperativos e competitivos. Quando comparados com os grupos avaliados competitivamente, os cooperativos apresentaram as seguintes características:

1. Comunicação intermembros mais efetiva. Mais idéias foram verbalizadas e os membros foram mais atenciosos uns com os outros e mais abertos e influenciados pelas idéias dos outros. Eles tiveram menos dificuldades em se comunicar e em entender os outros.

2. Mais simpatia, mais solidariedade e menos obstrução foram expressas na discussão.

Os membros também ficaram mais satisfeitos com o grupo e com suas soluções e mais favoravelmente impressionados pela contribuição dos outros membros do grupo. Adicionalmente, os membros dos grupos cooperativos avaliaram a si mesmos com notas mais altas na ânsia de ganhar o respeito de seus colegas e em obrigação para com os outros membros.

3. Maior coordenação de esforços, maior divisão de trabalho, maior orientação para a realização da tarefa, mais ordem na discussão e maior produtividade foram manifestadas nos grupos cooperativos.

4. Maior sentimento de concordância e similaridade de idéias e maior confiança dos membros em suas próprias idéias e no valor que os outros membros davam a essas idéias foram obtidos nos grupos cooperativos.

As descobertas acima, que são descritas de maneira mais completa em meu artigo, "An Experimental Study of the Effects of Cooperation and Competition Upon Group Process" (Deutsch 1949b), foram abalizadas pelos estudos de vários outros pesquisadores (Back 1951; Berkowitz 1957; Gerard 1953; Gottheil 1955; Grossack 1954; Levy 1953; Margolin 1954; Mintz 1951; Mizuhara 1952; Mizuhara e Tamai 1952; Raven e Eachus 1963; Thomas 1957; Workie 1967). Todos esses estudos com exceção do de Workie, no entanto, foram confinados a comparações de relações competitivas e cooperativas entre indivíduos. Workie estudou cooperação e competição intercoletiva bem como intracoletiva. Sua pesquisa indica que, sejam as unidades observadas grupos ou indivíduos, as mesmas descobertas básicas são obtidas. A produtividade total de um sistema de grupos interdependentes é menor quando a estrutura de recompensas orienta os grupos em direção à competição intercoletiva em vez de cooperação. Não surpreendentemente, a maioria das obstruções aos objetivos e das decepções ocorre entre grupos que estão em competição um com o outro e não nos cooperativamente interdependentes.

Um estudo sobre cooperação e competição intercoletivas

As investigações mais detalhadas de cooperação e competição intercoletivas até hoje foram conduzidas por Muzafer Sherif e por Blake e Mouton (Sherif et al. 1961; Sherif 1966; Blake e Mouton 1961a, b e 1962a, b). Esses estudos são notáveis pelo seus engenhosos usos de estabelecimentos naturais em vez de laboratoriais. Sherif e seus associados conduziram o agora clássico estudo "Robbers Cave" em uma área de camping especialmente arranjada na qual os campistas (meninos de onze e doze anos de idade) interagiam em atividades que pareciam naturais para eles; eles não estavam avisados de que seu comportamento estava sob observação.

O experimento procedeu em três estágios. O primeiro estágio foi designado para produzir grupos com estruturas e normas internas distintas, de maneira que pudessem ser confrontados com problemas intercoletivos. Essa fase de formação coletiva durou por volta de uma semana. Ela iniciou-se tendo cada um dos dois grupos de campistas indo acampar em ônibus separados e depois vivendo em cabanas separadas. Os meninos de cada cabana envolviam-se em várias atividades cooperativas: acampar fora, cozinhar, melhorar lugares para nadar, transportar canoas sobre terreno irregular até a água e assim por diante. Cada grupo desenvolveu uma organização e costumes específicos, e cada um manifestou um senso de coletividade próprio e a realização da união que marcam um grupo coeso. Na segunda fase do experimento, produziram-se tensão e conflito entre os dois grupos por meio da introdução de condições que levassem à competição entre eles. Uma série de situações foram criadas nas quais um grupo só alcançaria seu objetivo ao custo do outro grupo – e.g. por meio de um torneio de competições com prêmios desejáveis concedidos apenas ao grupo vencedor. Em conseqüência, membros de cada grupo desenvolveram atitudes hostis e estereótipos altamente desfavoráveis em direção ao outro grupo e seus membros. Manifestou-se conflito em blaterações depreciativas e inventivas ("jogo sujo", "espionagem" e "trapaças"), lampejos de conflito psíquico e invasões à cabana dos outros.

Ao mesmo tempo, houve um aumento na solidariedade e na cooperação internas ao grupo e uma significativa mudança nas relações de prestígio dentro dos grupos, de forma que aqueles que eram particularmente eficientes na competição intercoletiva sobressaíram. Claramente, a cooperação e a harmonia intracoletiva não levam necessariamente a uma harmonia intercoletiva.

No terceiro estágio, diferentes abordagens para reduzir o conflito intercoletivo foram avaliadas: contato entre os grupos em atividades altamente prazerosas para cada grupo, mas sem envolver interdependência entre eles (ir ao cinema, comer na mesma sala de jantar, queimar fogos de artifício em 4 de julho); e, em contraste, a introdução de objetivos extraordinários, que tinham um apelo convincente para cada grupo mas que nenhum dos grupos conseguiria alcançar sem a cooperação do outro. Outras técnicas como "disseminar informações favoráveis sobre o outro grupo" e "reuniões entre líderes dos dois grupos" foram rejeitadas preliminarmente como ineficazes. Contatos intercoletivos sem a existência de objetivos extraordinários foram ineficazes em reduzir o conflito; na verdade, tais contatos intercoletivos freqüentemente se degeneravam em conflito. Todavia, esforços articulados em direção à realização de objetivos extraordinários (como consertar o sistema de suprimento de água do acampamento depois de os experimentadores sigilosamente providenciarem sua quebra, levantar os fundos necessários para ir a um filme altamente desejado, mover uma caminhonete que tenha "enguiçado") mudaram gradual e cumulativamente as relações entre os dois grupos de um padrão de hostilidade para uma interação amigável.

As descobertas de Sherif foram sustentadas pelo trabalho de outros investigadores, particularmente Blake e Mouton (1961a, b), que estiveram especialmente interessados nos efeitos de conflitos perde-ganha nas negociações entre grupos. Eles estudaram o conflito intercoletivo em laboratórios de treinamento de relações humanas entre grupos ad hoc e temporários, bem como entre sindicato e empresa no meio industrial. Em descobertas similares às de Sherif, eles reportaram que a competição intercoletiva tem efeitos característicos nas relações internas ao grupo (uma crescente coesão interna, uma mudança para uma liderança orientada ao conflito, maior identificação pessoal dos membros com seu grupo), nas percepções sobre os externos ao grupo (um aumento na estereotipagem negativa e na percepção das dessemelhanças), e nas negociações entre os grupos para resolver suas diferenças. Entre grupos altamente competitivos, as negociações são caracterizadas por: uma tendência em supervalorizar as recomendações do próprio grupo e em menosprezar as do outro grupo; desentendimentos de posição mútuos, de maneira que valores comuns são negligenciados e diferenças enfatizadas; uma tendência de apreciar mais a vitória do que o acordo, de modo que um negociador que estabelece um compromisso é visto como um traidor, enquanto um que é inflexível é visto como um herói; uma tendência a desacreditar em uma terceira parte neutra se esta fizer uma recomendação que não seja claramente favorável ao próprio grupo; freqüentes impasses em vez de chegar a um acordo mutuamente satisfatório.

Claramente, há um paralelo bem delineado nos resultados da pesquisa tanto na cooperação quanto na competição dentro de  grupos e entre grupos. As descobertas proporcionadas pela pesquisa, bem como a análise teórica, indicam que as diferenças entre os processos envolvidos na cooperação e na competição (comparando-as em suas formas pura ou extrema) podem ser sintetizados no que se segue:

1. Comunicação

a) Um processo cooperativo é caracterizado por uma comunicação aberta e honesta de informações relevantes entre os participantes. Cada um é interessado em informar e ser informado pelo outro.

b) Um processo competitivo é caracterizado tanto pela escassez de comunicação como pela comunicação desencaminhada. Isso também dá ensejo à espionagem ou outras técnicas de se obter informação sobre o outro que este não pretenda comunicar. Somado à obtenção de tal informação, cada parte está interessada em prover informações erradas ou desanimadoras para a outra.

2. Percepção

a) Um processo cooperativo tende a aumentar a sensibilidade a similaridades e interesses comuns enquanto minimiza a saliência das diferenças. Isso estimula uma convergência e conformidade de crenças e valores.

b) Um processo competitivo tende a aumentar a sensibilidade a diferenças e ameaças enquanto minimiza a percepção das similaridades. Isso estimula o sentimento de completa oposição: "Você é mau; eu sou bom." Parece provável que a competição produz um forte viés no sentido de perceber mal as ações neutras ou conciliatórias do outro como malevolentemente motivadas ao invés da tendência trazida pela cooperação de se enxergar as ações do outro como benevolentemente intencionadas.

3. Atitudes para com o outro

a) Um processo cooperativo conduz a uma atitude amigável e confiante, e isso aumenta a inclinação a responder beneficamente às necessidades e aos pedidos do outro.

b) Um processo competitivo leva a uma atitude suspeitosa e hostil, e isso aumenta a prontidão para tirar partido das necessidades do outro e responder negativamente aos seus pedidos.

4. Orientação de tarefas

a) Um processo cooperativo habilita os participantes a abordarem o problema mutuamente reconhecido de forma a utilizar seus talentos especiais e a capacitá-los a se substituírem um pelo outro no seu trabalho conjunto, reduzindo a duplicação do esforço.

O aumento de poder e de recursos mútuos torna-se um objetivo. Isso conduz à definição de interesses conflitantes como um problema mútuo a ser resolvido por esforço colaborativo.

Facilita-se o reconhecimento da legitimidade dos interesses do outro e da necessidade de se procurar uma solução que responda aos anseios de todos. Isso tende a limitar, em vez de expandir, o escopo dos interesses em conflito. Tentativas de influenciar o outro tendem a limitar-se a processos de persuasão.

b) Um processo competitivo estimula a visão de que a solução de um conflito pode apenas ser uma imposição de um lado sobre o outro. O crescimento do poder de um e a minimização da legitimidade dos interesses do outro lado na situação tornam-se objetivos. Isso enseja a expansão do escopo de questões em conflito, de maneira que o conflito tornase um assunto de princípio geral e não é mais confinado a uma questão particular em um determinado tempo e espaço. Esse crescimento do conflito aumenta sua significância motivadora para os participantes e intensifica seu envolvimento emocional nele; estes fatores, por sua vez, podem tornar uma derrota limitada menos aceita ou mais humilhante que odesastre mútuo poderia ser. Duplicação do esforço, de sorte que os competidores tornemse imagens espelhadas um do outro, é mais provável do que a divisão do esforço. Processos coercitivos tendem a ser empregados na tentativa de influenciar o outro.

Este esboço de alguns aspectos dos processos competitivo e cooperativo sugere que cada processo tende a ser autoconfirmativo, de forma que a experiência de cooperação irá induzir a um espiral benigno de aumento da cooperação, enquanto a competição induzirá a um vicioso espiral de intensificação da competição. Isso é verdade até certo ponto, mas há limites que geralmente operam para limitar o desencadeamento de ambos os processos. Um desses limites vem do fato de que uma pessoa ou um grupo está freqüentemente envolvido em diversas situações e relacionamentos simultaneamente e seus outros envolvimentos e relacionamentos habitualmente previnem ou contêm o que pode ser chamado de uma obsessiva intensificação de qualquer relacionamento em particular.

Um paradoxo?

Agora caracterizei a manifestação sócio-psicológica central das abordagens cooperativa e competitiva da resolução de interesses conflitantes. Também sugeri que seria profícuo pensar nas conseqüências mutuamente destrutivas do conflito como resultado de um processo competitivo de resolução de conflito e nas conseqüências mutuamente construtivas que emergem do processo cooperativo. Pode-se então perguntar: em uma situação de conflito, que condições determinam qual processo irá prevalecer? Aqui, deve ser encarada uma aparente contradição nesta exposição. Anteriormente foi indicado que o conflito possuía funções sociais e individuais positivas, e agora se vê que um processo competitivo de resolução de conflito é provavelmente destrutivo.

Há vários pontos a serem abordados. Primeiro, o conflito não está confinado a processos competitivos; a controvérsia sobre os meios de se alcançar um objetivo mutuamente desejado é uma parte comum da cooperação. Um conflito desse tipo não é competitivo na medida em que cada cooperador é motivado a selecionar as melhores formas para se chegar ao objetivo mútuo em vez de escolher o método pelo qual advogou inicialmente.

Não há razão por que se pensar tal conflito como destrutivo. Segundo, a competição não é inevitavelmente destrutiva para ambos os lados. Geralmente um lado é mais poderoso, mais determinado ou possui mais recursos que o outro, e pode ter capacidade de impor sua solução preferida inicialmente ao conflito. É, sem dúvida, possível que a derrota de um indivíduo, grupo ou nação em um conflito possa ser construtivo para outros além do vitorioso imediato, e ocasionalmente o é mesmo para a parte vencida. A competição também proporciona um mecanismo social útil para selecionar os mais aptos a desempenhar as atividades envolvidas na competição. (A maior habilidade no desempenho pode, é claro, refletir diferenças no treinamento e nos recursos, bem como diferenças de talento ou motivação.)

Terceiro, o conflito competitivo, com suas resultantes perdas para uma ou ambas as partes envolvidas, pode ser uma pré-condição necessária para motivar as partes a se emprenharem em um processo cooperativo. Uma autoridade ou uma maioria opulenta e complacente pode ser indiferente a uma descontente minoria subordinada até que as ameaças e perdas de um conflito competitivo motivem-na a buscar uma solução cooperativa.

Finalmente, parece razoável especular que muito do prazer na competição surge quando ela ocorre em um encontro cooperativo; então há um interesse cooperativo em ter uma competição mutuamente agradável em vez de um interesse primário em derrotar o outro.

Devemos nos voltar agora a uma consideração das condições que proporcionam um processo de resolução de conflito em vez de outro. Em uma tentativa de chegar a algumas amplas generalizações, devo examinar o conflito nos níveis intrapessoal e intercoletivo nos próximos capítulos.

PARTE TRÊS: ENSAIO CONCLUSIVO

3. Fatores que influenciam a resolução de conflito Introdução

O propósito deste capítulo é resumir os aspectos típicos de conflitos destrutivos e construtivos. A ênfase será dada sobre o contraste entre os processos competitivo e cooperativo de resolução de conflito. Nesta conexão, também devem ser discutidos os processos de percepção e compromisso que tendem a reforçar e estender qualquer dos modos de resolução do conflito que foi iniciado. Em seguida, consideraremos os fatores que determinam qual modo de resolução de conflito será dominante. Sustentando essa discussão, está o pressuposto de que o conflito entre partes com relações cooperativas em vez de competitivas é provavelmente menos destrutivo. Ainda, é óbvio que as relações entre partes conflitantes podem ser incorrigivelmente competitivas. Sob tais circunstâncias, a regulamentação do conflito para limitar seu potencial destrutivo torna-se um objetivo. Neste contexto, discutiremos as circunstâncias que afetam a probabilidade de regulamentação eficaz do conflito. Finalmente, consideraremos algumas das questões especiais relacionadas a conflitos entre o fraco e o forte.

O andamento do conflito destrutivo

O conflito destrutivo é caracterizado por uma tendência à expansão e à intensificação. Como resultado, tal conflito freqüentemente se torna independente de suas causas iniciais e é mais provável de continuar após elas terem se tornado irrelevantes ou esquecidas.

A expansão ocorre em várias dimensões do conflito: o tamanho e o número das questões imediatamente envolvidas; o número de motivos e participantes implicados em cada lado da questão; o tamanho e o número dos princípios e precedentes que parecem estar em risco; os custos com os quais os participantes estão dispostos a arcar em relação ao conflito; o número de normas de conduta moral que se derrogam no comportamento para com o outro lado; e a intensidade de atitudes negativas para com o outro lado.

Pode-se dizer que os processos envolvidos na intensificação do conflito, como expressou Coleman (1957, p.14), "criam uma Lei de Gresham do Conflito: os elementos danosos e perigosos fazem sumir aqueles que manteriam o conflito limitado." Paralelo à expansão do escopo do conflito, há um aumento da confiança em uma estratégia de poder e sobre táticas de ameaça, coerção e fraude. Correspondentemente, há o afastamento de uma estratégia de persuasão e das táticas de conciliação, de minimização de diferenças e de aprimoramento do entendimento mútuo e da boa-vontade. Dentro de cada uma das partes conflitantes, há uma crescente pressão por uniformidade de opinião e uma tendência da liderança e do controle serem tomados por elementos militantemente organizados para sustentar o conflito por meio de combate e serem afastados daqueles mais conciliatórios.

A tendência de intensificar conflitos resulta do conjunto de três processos interrelacionados: (1) processos competitivos envolvidos na tentativa de vencer o conflito; (2) processos de má-percepção e percepção enviesada; e (3) processos de compromisso causados por pressões por consistência cognitiva e social. Estes processos dão origem a um ciclo mutuamente reforçado de relações que geram ações e reações que intensificam o conflito.

Outros fatores, é claro, podem servir para limitar e encapsular o conflito de maneira a não desenvolver uma intensificação em espiral. Aqui nos referimos a fatores como: o número e a força dos elos cooperativos existentes, identificações recíprocas, lealdade e sociedade comuns entre as partes conflitantes; a existência de valores, instituições, procedimentos e grupos que são organizados para ajudar a limitar e a regulamentar o conflito; e a saliência e a significância dos custos de se intensificar o conflito. Se esses fatores de limitação do conflito forem fracos, deve ser difícil prevenir um conflito competitivo de expandir seu escopo. Mesmo sendo fortes, mau julgamento e pressões oriundas de tendências a ser rigidamente autoconsistente podem tornar difícil manter um conflito competitivo encapsulado.

Efeitos competitivos. No capítulo 2, caracterizei as distinções essenciais entre um processo cooperativo e um competitivo e descrevi seus aspectos sócio-psicológicos um pouco detalhadamente. Aqui, devo apenas salientar algumas das principais particularidades do processo competitivo, aqueles que tendem a perpetuar e intensificar o conflito. Tipicamente, um processo competitivo tende a produzir os seguintes efeitos:

1. A comunicação entre as partes conflitantes é não-confiante e empobrecida. Os canais e as oportunidades de comunicação disponíveis não são utilizados ou usados na tentativa de enganar ou intimidar o outro. Pouca confiança é conferida à informação que é obtida diretamente do outro; espionagem e outros meios tortuosos de se obter informação têm mais confiança. A pobreza da comunicação aumenta a possibilidade de erro e má-informação de forma que é provável reforçar as orientações e expectativas pré-existentes para com o outro. Assim, a habilidade de notar e responder às mudanças do outro, para longe de uma orientação perde-ganha, fica debilitada.

2. Isso estimula a visão de que a solução do conflito pode apenas ser imposta por um ou outro lado por meio de força superior, fraude ou esperteza. O crescimento do poder próprio e a redução complementar do poder do outro se tornam objetivos. A tentativa de cada uma das partes conflitantes criar ou manter uma diferença de poder favorável ao seu próprio lado tende a expandir o escopo do conflito de um foco na questão imediata em disputa para um conflito sobre o poder de se impor as preferências de um sobre o outro.

3. Isso leva a uma atitude suspicaz e hostil que aumenta a sensibilidade a diferenças e ameaças enquanto minimiza a percepção de similaridades. Isto, por sua vez, torna menos aplicáveis as normas de conduta e moralidade geralmente aceitas que governam o comportamento de um para com os que são similares a si. Dessa forma, isso permite um comportamento para com o outro que seria considerado ultrajante se fosse direcionado a alguém como si próprio. Na medida em que nenhum dos dois lados provavelmente concederá superioridade moral ao outro, o conflito pode intensificar-se se um ou outro lado adota um comportamento moralmente ultrajante para com o outro.

Mau julgamento e má-percepção. Na nossa discussão prévia sobre os efeitos da competição, ficou evidente que comunicação pobre, atitudes hostis e supersensibilidade a diferenças podem levar a visões distorcidas sobre o outro que, por sua vez, podem intensificar e perpetuar o conflito. Somadas às distorções naturais do processo competitivo, há outras que ocorrem comumente no curso da interação. Alhures (Deutsch 1962, 1965), descrevi algumas das fontes comuns de má-percepção em situações internacionais. Muitas dessas más-percepções operam transformando um conflito em uma disputa competitiva – mesmo se o conflito não emergiu de um relacionamento competitivo. As implicações de um simples princípio psicológico podem ilustrar isso melhor: a percepção de qualquer ato é determinada tanto pela nossa visão do ato em si, como pela nossa visão do contexto no qual o ato ocorre. Os contextos dos atos sociais são freqüentemente não percebidos de imediato, e geralmente não são óbvios. Quando o contexto não é explícito, tendemos a supor um contexto familiar – um que parece provável nos termos de nossa experiência passada. Na medida em que as situações presentes e as experiências passadas de quem age e de quem percebe são diferentes, não é surpresa que os dois indivíduos interpretem o mesmo ato de forma bastante diferente. Desentendimentos desse tipo são muito prováveis, é claro, quando o agente e o observador vêm de origens culturais distintas e não estão totalmente informados sobre essas diferenças. Um período de rápida mudança social também torna tais desentendimentos difundidos na medida em que a lacuna entre o passado e o presente se alarga.

Dado o fato de que a habilidade de se colocar no lugar de outro é notoriamente subempregada e não desenvolvida na maioria das pessoas, e também dado que esta habilidade é debilitada por pressões e informações inadequadas, é esperado que algumas tendências apareçam na percepção sobre as ações durante o conflito. Assim, visto que a maioria das pessoas são fortemente motivadas a deter uma visão favorável sobre si mesmas, mas são menos fortemente motivadas para o fazer sobre os outros, não é surpreendente que haja uma inclinação no sentido de perceber seu próprio comportamento para com o outro como sendo mais benevolente e legítimo do que o comportamento do outro em direção a si. Esta é a simples corroboração de uma verdade psicológica bem demonstrada: nomeadamente, que a avaliação de um ato é afetada pela avaliação de sua origem – e a origem é parte do contexto de comportamento. Por exemplo, a pesquisa demonstrou que estudantes americanos são tendentes a avaliar mais favoravelmente uma ação dos Estados Unidos direcionados à União Soviética do que essa mesma ação dirigida pela União Soviética aos Estados Unidos. Estamos propensos a enxergar as atividades de espionagem dos Estados Unidos na União Soviética como mais benevolentes que as atividades similares exercidas pelos agentes soviéticos nos Estados Unidos.

Se cada lado de um conflito tende a ver seus próprios motivos e comportamentos como mais benevolentes e legítimos que os do outro lado, é evidente que o conflito irá crescer em espiral intensivamente. Se Acme percebe suas ações como uma forma benevolente e legítima de interferir com ações que Bolt não tem o direito de adotar, Acme será surpreendido pela intensidade da resposta hostil de Bolt e terá de fortificar sua contra-ação para negar a resposta de Bolt. Mas como Bolt irá provavelmente agir se enxergar suas próprias ações como bem motivadas? E quão improvavelmente ele não irá responder à intensificação de Acme com uma contra-intensificação se ele é capaz de o fazer? Na medida em que há uma percepção enviesada da legitimação e da benevolência, alguém poderia também esperar que houvesse um viés paralelo no qual se considere haver um acordo eqüitativo para resolver o conflito: não deveriam legitimidades diferentes ser diferentemente recompensadas? A percepção enviesada do que é um compromisso justo torna o acordo mais difícil de ser alcançado e, assim, estende o conflito. Uma outra conseqüência da percepção enviesada da legitimação e da benevolência é refletida nas assimetrias entre confiança e suspeição e entre cooperação e competição. A confiança, quando violada, está mais propensa a se tornar suspeição do que a suspeição negada transformar-se em confiança.

Similarmente, é mais fácil passar da cooperação para a competição do que percorrer esse trânsito no sentido inverso.

Há, sem dúvida, outros tipos de processos que levam a más-percepções e maus julgamentos. Além das distorções originadas de pressões por auto-consistência e conformidade social (que são discutidas abaixo), a intensificação do conflito pode induzir pressão e tensão para além de um moderado nível de otimização, e essa superativação, por sua vez, pode levar a um enfraquecimento dos processos perceptivo e cognitivo de muitas maneiras. Pode reduzir o leque de alternativas enxergadas; pode diminuir a perspectiva sobre o tempo, de sorte a proporcionar uma focalização nas conseqüências imediatas das alternativas percebidas em vez de nas suas conseqüências finais; pode polarizar o pensamento de maneira que as percepções sejam levadas em uma classificação simplista de ser preto ou branco, contra ou pró, bom ou mau; pode levar a respostas estereotipadas; pode aumentar a suscetibilidade a rumores que incitam medo ou esperança; pode aumentar as defesas; pode multiplicar as pressões por conformidade social. Com efeito, tensão excessiva reduz os recursos intelectuais disponíveis para se descobrir novas maneiras de se lidar com um problema ou novas idéias para se resolver um conflito. A intensificação do conflito é o resultado provável, na medida em que o raciocínio simplista e a polarização do pensamento levam os participantes a enxergarem suas alternativas como sendo limitadas à vitória ou à derrota.

Paradoxalmente, deve-se também notar que a disposição de recursos intelectuais e de outros tipos que podem ser usados para sustentar um conflito pode tornar difícil, no seu início, prever o resultado de uma tentativa de imposição da preferência de um sobre o outro. Espécies menos inventivas que o homem podem facilmente prever a conseqüência de uma contestação à força por meio de gesticulação agressiva e outras demonstrações potencialmente combativas; assim eles raramente têm de entrar em combate para definir "quem fica com o quê, quando." Todavia, a versatilidade das técnicas humanas para alcançar dominação sobre outros homens torna provável que o combate surja, porque os combatentes têm julgamentos discordantes dos resultados em potencial. Diferentemente dos seus ancestrais peludos, o "macaco pelado" não pode concordar previamente sobre quem irá ganhar. Mau julgamento da pretensão e da capacidade do outro lado com respeito à luta tem às vezes transformado controvérsia em combate à medida que a elevada tensão restringe à vitória ou à derrota os resultados enxergados do conflito.

Processo de compromisso. Foi há muito reconhecido que as pessoas tendem a agir de acordo com suas crenças; mais recentemente, Festinger enfatizou em sua teoria da dissonância cognitiva que o inverso é também freqüentemente verdade: as pessoas tendem a fazer suas crenças e atitudes de acordo com suas ações (veja o capítulo 3 para uma discussão mais profunda). Essa pressão por auto-consistência pode levar a um envolvimento inconsciente no conflito e a uma intensificação deste porque as ações de um indivíduo têm de ser justificadas para si e para os outros. O desenrolar trágico do envolvimento americano na guerra civil no Vietnã proporciona uma ilustração.

Em artigo não publicado apresentado alguns anos atrás (Deutsch 1966b), escrevi: Como nos envolvemos nesta situação ridícula e trágica: uma situação em que as vidas e os recursos americanos estão sendo gastos em defesa de um povo que está sendo mais penosamente ferido e que está tornando-se mais amargamente antagônico a nós quanto mais nos envolvemos em seu conflito interno? Como é que ficamos tão obcecados com a guerra no Vietnã do Sul a ponto de pretender abandonar nossos planos para alcançar uma Grande Sociedade em nossa pátria, negligenciar os mais importantes problemas na América do Sul e na Índia e arriscar destruir nossa liderança no estrangeiro?

A declaração mais direta da razão da continuidade do nosso envolvimento é o fato de estarmos envolvidos: nosso envolvimento continuado justifica nosso envolvimento passado. Uma vez envolvido, é excessivamente difícil de se desligar e admitir, com isso, o quão despropositado e inconsciente nosso envolvimento passado foi. Estou dizendo, em outras palavras, que não estamos envolvidos por qualquer grande causa estratégica ou moral e que quaisquer motivos que agora imputamos ao nosso envolvimento são racionalizações ex post facto.

Como uma nação, tropeçamos para dentro do conflito no Vietnã do Sul. A cada passo do aumento do envolvimento, fomos levados a acreditar que com alguma ajuda adicional (auxílio econômico, depois consultores militares, depois o uso de helicópteros americanos, depois o uso de soldados americanos para combate, depois uma intervenção aérea maciça por aviões americanos, depois o bombardeamento do Norte, depois a intervenção intensa das tropas americanas, e assim por diante) não arriscaríamos um conflito maior mas, sim, ajudaríamos a construir um país independente e estável que pudesse sustentar-se sobre seus próprios pés. Temos agido repetidamente na suposição tentadora de que, com apenas mais um pequeno investimento, preveniríamos a coisa toda de ir por ralo abaixo.

Esse tipo de suposição é uma com a qual estamos familiarizados em conexão com a psicologia da aposta. Todos sabemos de um apostador fracassado indo mais e mais fundo em um buraco, que continua contando com a esperança de que, fazendo-o, recuperará suas perdas iniciais. Nem todos os apostadores perdedores sucumbem à tentação da aposta, é claro. Mas aqueles cujo senso de onipotência está correndo risco, aqueles orgulhosos demais para reconhecer que não podem superar as probabilidades contrárias estão vulneráveis a esse tipo de tentação desastrosa.

Além da tentação de apostador, devo descrever brevemente três outros processos de comprometimento gradual e inconsciente. Um é o processo previamente discutido da redução da desarmonia. Como Festinger (1961) apontou: "Ratos e pessoas acabam amando as coisas pelas quais sofreram."

Presumivelmente, eles fazem-no para reduzir a desarmonia induzida pelo sofrimento, e seu método de redução da desarmonia é aumentar a atratividade da escolha que os levou ao sofrimento: somente se o que alguém escolheu valeu realmente a pena, todo o sofrimento associado é tolerável. Não aumentamos o que enxergamos estar em risco no conflito do Vietnã a medida em que se torna mais e mais custoso para nós? Não nos foi dito que nossa honra nacional, nossa influência como um líder mundial e nossa segurança nacional estavam em jogo no conflito sobre essa pequena e trágica terra?

Silvan Tomkins (Tomkins e Izard 1965) descreveu um processo de ampliação circular e crescente que também ajuda a explicar o alargamento do envolvimento e a monopolização do pensamento. Ele sugere que isso ocorre se há uma seqüência de eventos deste tipo: ameaça, defesa bem-sucedida, derrubada da defesa e ressurgimento da ameaça; segunda defesa bemsucedida, segunda derrubada da defesa e ressurgimento da ameaça, e assim por diante até que uma expectativa seja gerada de que não importa o quão bem-sucedida possa parecer uma defesa contra uma temida contingência, irá provar inutilidade e requerer ainda uma outra defesa. Este processo é circular e crescente visto que cada nova ameaça requer uma defesa mais desesperada, e a derrubada bem-sucedida de cada defesa recém-aprovada gera um aumento da natureza da ameaça e o efeito concorrente que evoca.

A preocupação crescente e obsessiva dos oficiais americanos com o Vietnã por, em parte, refletir tal processo: por seguidas vezes, eles assumiram que uma defesa nova e mais poderosa ou uma agressão contra os vietcongues seria suficiente, só até descobrirem que um comprometimento militar mais poderoso seria necessario.

Deixe-me, finalmente, voltar os olhos para um processo do cotidiano de envolvimento inconsciente: a cilada situacional. A característica deste processo é que o comportamento é tipicamente iniciado sob a suposição de que o ambiente é condescendente em vez de reativo – que responde como uma ferramenta para os propósitos de alguém em vez de como um sistema auto-sustentável. Ações bem intencionadas às vezes produzem efeitos opostos do que os intentados porque as ações não levam em conta as características do ambiente em que tomam parte. Até agora, estamos todos conscientes de que uma conseqüência não pretendida das avaliações de saúde pública na América Latina foi a explosão populacional. Só agora estamos começando a reconhecer que algumas conseqüências dos tipos de contribuição que demos a países subdesenvolvidos acabam por impedir seu desenvolvimento econômico e forjar uma necessidade sempre crescente por ajuda. Similarmente, alguém pode propor que a natureza da intervenção americana no Vietnã serviu para enfraquecer a oposição aos vietcongues, desmoralizar aqueles no Vietnã que estavam aptos e pretendendo confiar nos vietnamitas para resolver seus problemas sem controle estrangeiro, aumentar a força e a resolução dos vietcongues e, de outro modo, produzir as repostas que requeriam um crescente envolvimento e comprometimento de recursos americanos e de homens apenas para prevenir uma imediata reviravolta da situação.

Um conflito destrutivo como o do Vietnã pode ser trazido a uma conclusão pelo fato de os custos de se continuar o conflito tornarem-se tão altos em relação a quaisquer valores que possam ser obtidos por meio dessa continuação para um ou ambos os lados, que sua insensibilidade seja constrangedoramente evidente. A insensibilidade tende a ser mais explícita para aqueles que não foram os responsáveis pela decisão, e assim têm pouca necessidade de justificar um conflito, e para aqueles que suportam os custos mais fortemente. O conflito destrutivo também pode ser abortado antes de se desenrolar completamente se há uma comunidade ou terceiras partes fortes o bastante para compelir as partes conflitantes a cessarem a violência. Nós, nos Estados Unidos, estamos na desafortunada posição, relativamente ao nosso prestígio e poder, de que não há nem uma terceira parte desinteressada, nem uma comunidade internacional, que seja poderosa o bastante para nos motivar a aceitar um compromisso quando pensamos que nossos próprios interesses podem ser engrandecidos pelo resultado de uma luta competitiva. A paz no Vietnã poderia ter ocorrido muito mais cedo se as Nações Unidas, ou mesmo nossos amigos, pudessem ter nos influenciado.

O andamento do conflito produtivo

A questão que eu gostaria de considerar agora é se há quaisquer aspectos distintivos no processo de resolução de conflito que conduz a resultados construtivos. Controvérsias animadas e produtivas têm padrões comuns que são distintos dos que caracterizam contendas fatais?

Eu esperava encontrar na literatura de ciências sociais mais ajuda a responder essas questões do que tenho achado até então. Por exemplo, os escritos sobre desenvolvimento da personalidade infelizmente têm pouco a dizer sobre conflito produtivo; o foco é no conflito patológico. Ainda, cada um de nós sabe por meio das próprias experiências pessoais, bem como por meio das biografias de homens como Freud, Darwin e Santo Agostinho, que um intenso conflito interior é freqüentemente (mas não necessariamente) o prelúdio para o crescimento intelectual e emocional. Similarmente, a volumosa literatura sobre conflito social negligencia o conflito produtivo entre grupos. É verdade que a antiga visão negativa sobre conflito social produziu uma concepção que salienta as funções sociais do conflito. Todavia, excetuando-se os escritos das pessoas conectadas com o movimento da não-violência, pouca tentativa foi feita para se distinguir conflitos que conseguem mudança social por meio de um processo que é mutuamente recompensador para as partes envolvidas dos conflitos que não o conseguem. Já a mudança pode ocorrer tanto por um processo de confronto, que é custoso para os grupos conflitantes, quanto por um processo de resolução de problemas, que é mutuamente recompensador aos grupos conflitantes. Minhas próprias predileções me levaram à crença de que os principais aspectos da resolução de conflito produtiva seriam similares, no plano social, aos processos envolvidos no pensamento criativo. Deixe-me primeiramente me voltar aos processos envolvidos no pensamento criativo. Para uma avaliação crítica e incisiva da literatura existente, é recomendável ver Stein (1968).

Pensamento criativo. O processo criativo tem sido descrito como consistindo em várias fases sobrepostas. Apesar de vários autores diferirem levemente na caracterização das fases, todos sugerem uma seqüência parecida com (1) um período inicial que leva à experiência e ao reconhecimento de um problema que seja suficientemente estimulante para motivar esforços em ser resolvido; (2) um período de esforço concentrado para resolver o problema por meio de ações rotineiras, prontamente disponíveis ou habituais; (3) uma experiência de frustração, tensão e desconforto que se segue à falha de processos costumeiros de resolver o problema e leva a um desvio temporário em relação a ele; (4) a percepção do problema de uma perspectiva diferente e sua reformulação de uma forma que permita novas orientações para o surgimento de uma solução; (5) o aparecimento de uma tentativa de solução em um momento de perspicácia, freqüentemente acompanhado de uma sensação de alegria; (6) a elaboração da solução e seu teste contra a realidade; e finalmente (7) a comunicação da solução a públicos relevantes.

Há três elementos-chave psicológicos neste processo: (1) o estímulo a um grau apropriado de motivação para resolver o problema; (2) o desenvolvimento das condições que permitem a reformulação do problema, uma vez que se tenha chegado a um impasse; e (3) disponibilidade concorrente de diversas idéias que podem ser flexivelmente combinadas em modelos novos e variados. Cada um desses elementos-chave está sujeito à influência de condições sociais e da personalidade dos solucionadores do problema.

Por isso considerar o surgimento de um grau ideal de motivação como um nível suficiente para sustentar os esforços necessários para resolver o problema apesar das frustrações e dos impasses, mas não tão intenso que se sobreponha ou evite o distanciamento do problema. Comodidade excessiva, satisfação com as coisas como estão, uma sensação de impotência, terror e raiva: nada disso está propenso a levar a uma motivação ideal para reconhecer e encarar um problema ou um conflito. Nem uma presteza passiva para aquiescer às demandas do ambiente, nem mesmo a pretensão de se encaixar no ambiente, não importando o quão pobremente esse encaixe se dá. Motivação ideal pressupõe uma prontidão alerta para estar insatisfeito com as coisas como estão e uma liberdade para enfrentar o ambiente sem medo excessivo combinado com uma confiança na própria capacidade de persistir enfrentando obstáculos. A intensidade da motivação que é ideal irá variar com a efetividade com que possa ser controlada: quanto mais efetivos os controles, mais intensa a motivação pode ser sem ter conseqüências rompedoras.

Dessa forma, uma das funções criativas do conflito reside na sua capacidade de gerar motivação para resolver um problema que pode, de outra forma, não ser investigado. Um estudante que expõe suas teorias e pesquisa ao escrutínio de seus companheiros pode ser estimulado a uma análise mais profunda quando se confronta com dados conflitantes e com uma análise teórica feita por um colega. Similarmente, indivíduos e grupos que têm autoridade e poder e que estão satisfeitos com o status quo podem ser estimulados a reconhecer problemas e motivados a trabalhar neles na medida em que a oposição dos insatisfeitos torna as relações e os arranjos costumeiros insustentáveis e não compensatórios e/ou na medida em que são ajudados a perceber as possibilidades de relações e arranjos mais satisfatórios. A aceitação da necessidade de uma mudança no status quo, em vez de uma adesão rígida e defensiva a posições previamente existentes, é mais provável, contudo, quando as circunstâncias que geram novas motivações sugerem caminhos de ação que contêm uma mínima ameaça para o social ou para a auto-estima daqueles que devem mudar.

Assim, apesar de que a insatisfação aguda com as coisas como estão e a motivação para reconhecer e trabalhar em problemas são necessárias para soluções criativas, essas coisas não são suficientes. As circunstâncias que conduzem a uma criativa quebra de impasses são variadas, mas têm em comum o fato de que "elas proporcionam ao indivíduo um ambiente em que ele não se sente ameaçado e em que ele não se sente sob pressão.

Ele fica tranqüilo mas alerta" (Stein 1968). Ameaça induz à defensiva e reduz tanto a tolerância à ambigüidade quanto a abertura ao novo e ao não-familiar; tensão excessiva leva a uma primitivização e a uma estereotipagem dos processos do pensamento. Como Rokeach apontou, ameaça e tensão excessivas induzem a uma mente fechada em vez de uma aberta. Para entreter novas idéias que podem, à primeira vista, parecer selvagens e implausíveis, para questionar suposições iniciais sobre a estrutura na qual o problema ou o conflito ocorre, o indivíduo precisa de liberdade ou coragem para se expressar sem medo ou censura. Além disso, ele precisa se tornar suficientemente afastado dos seus pontos de vista originais para poder enxergar o conflito de novas perspectivas.

Apesar de um ambiente sem pressões ou ameaças facilitar a reestruturação de um problema ou conflito e, fazendo-o, torná-lo mais propenso a uma solução, a habilidade de reformular um problema e desenvolver soluções é, por sua vez, dependente da disponibilidade de recursos cognitivos. Idéias são importantes para a resolução criativa de um conflito, e quaisquer fatores que alargam a amplitude de idéias e alternativas cognitivamente disponíveis aos participantes em um conflito serão úteis. A inteligência, a exposição a diversas experiências, um interesse em idéias, uma preferência pelo novo e complexo, uma receptividade a metáforas e analogias, a capacidade de fazer associações remotas, uma independência de julgamento e a habilidade de jogar com idéias são alguns dos fatores pessoais que caracterizam solucionadores criativos de problemas. A disponibilidade de idéias também depende de condições sociais, tais como a oportunidade de se comunicar com outras pessoas, que podem ter idéias diferentes e relevantes, e de se expor a elas (e.g., peritos, observadores imparciais, pessoas passando por situações similares ou análogas), uma atmosfera social que valoriza a inovação e a originalidade e encoraja o intercâmbio de idéias, uma tradição social que enseja a visão otimista de que, com esforço e tempo, soluções construtivas podem ser descobertas ou inventadas para problemas que inicialmente parecem intratáveis.

A aplicação de recursos cognitivos inteiros na descoberta e invenção de soluções construtivas para conflitos é relativamente rara. Muito mais recursos estão disponíveis para manter um conflito. A pesquisa e o desenvolvimento dispensados em técnicas de se manter ou suprimir um conflito, bem como as despesas gastas na manutenção de conflitos, minimizam os esforços pela construção da paz. Isso é obviamente verdade na esfera nacional, onde gastos militares dominam o orçamento nacional. Eu afirmaria que isso também é verdade nos planos interpessoal e intercoletivo. Na esfera interpessoal, a maioria de nós recebe treinamento considerável para manter ou suprimir um conflito e temos instituições elaboradas para lidar com relações adversárias e para tratar as casualidades psicológicas de um conflito interpessoal. Em contraste, há pouco treinamento formal nas técnicas de resolução construtiva de conflito e os recursos institucionais para ajudar pessoas a resolver conflitos são mesmo escassos.

Resolução cooperativa de problemas. Em um contexto cooperativo, um conflito pode ser visto como um problema comum no qual as partes conflitantes têm o interesse unido de alcançar uma solução mutuamente satisfatória. Como salientei ao longo deste trabalho, não há nada inerente à maioria dos conflitos que os torna impossível de serem resolvidos por meio de um processo cooperativo. É verdade, obviamente, que a ocorrência de resolução cooperativa de conflito é menos provável em determinadas circunstâncias e em certos tipos de conflito do que em outros. Devemos considerar algumas das circunstâncias predispostas em uma outra seção.

Como nossa discussão sobre cooperação no capítulo 2 indicou, havia um bom número de razões por que um processo cooperativo é propenso a levar a uma resolução produtiva do conflito:

1. Beneficia uma comunicação honesta e aberta de informações relevantes entre os participantes. A liberdade para compartilhar informações habilita as partes a irem, além do manifestado, às questões subjacentes envolvidas no conflito e, com isso, facilitar a definição significativa e acurada dos problemas que enfrentam juntos. Também permite que cada parte se beneficie do conhecimento possuído pelo outro e, assim, encarar o problema comum com maiores recursos intelectuais. Somado a isso, a comunicação aberta e honesta reduz a probabilidade de desenvolvimento de mal-entendidos que possam conduzir à confusão ou desconfiança.

2. Encoraja o reconhecimento da legitimidade dos interesses do outro e da necessidade de se buscar uma solução que responda às necessidades de cada lado. Isso tende a limitar em vez de expandir o escopo de interesses conflitantes e, dessa forma, minimizar o anseio por defensiva. Permite aos participantes abordarem o problema mutuamente admitido de uma forma que utilize seus talentos especiais e permita que sejam substituídos por outro no seu trabalho conjunto de forma a reduzir a duplicação do esforço. Tentativas de influência tendem a ser limitadas ao processo da persuasão. O crescimento de recursos e poder mútuos tornam-se o objetivo.

3. Conduz a uma atitude confiante e amigável, que aumenta a sensibilidade a similaridades enquanto minimiza a saliência das diferenças. Isso estimula uma convergência de crenças e valores.

Pode-se ver que um processo cooperativo produz muitas das características que são condutivas à resolução criativa do problema – abertura, inexistência de uma posição defensiva e utilização completa de recursos disponíveis. Entretanto, em si, a cooperação não assegura que os esforços para resolver problemas serão bem sucedidos. Outros fatores como a imaginação, experiência e flexibilidade das partes envolvidas são também determinantes.

Apesar disso, se em um relacionamento cooperativo as partes estão fortemente compromissadas, pode-se superar as falhas e desativar ou postergar um conflito aparentemente inconciliável. Ou, se o conflito não pode ser deixado de lado, relações cooperativas ajudarão a contê-lo de forma que a disputa por supremacia possa ocorrer sob regras préestabelecidas. Má-percepção benevolente. Assim como processos competitivos tendem a produzir formas características de má-percepção e mau julgamento, o mesmo ocorre com processos cooperativos. A cooperação tende a minimizar diferenças e engrandecer a percepção da benevolência do outro. Essas distorções típicas freqüentemente têm o efeito de sufocar o conflito e tornar improvável um crescimento. A conseqüência de más-percepções benevolentes é limitar a freqüência e a intensidade da oposição experimentada. Não é, portanto, surpresa que a pesquisa tenha mostrado que casais com casamento mais felizes, comparados com os que têm casamentos menos felizes, são geralmente caracterizados por más-percepções benevolentes dos seus parceiros em vez de por uma visão acurada das dúvidas e hostilidades entretidas por eles. Também não surpreende que outra pesquisa (Keiffer 1968) tenha sugerido que pessoas com expectativas e orientações mutuamente cooperativas podem ingressar em "cooperação prematura." Elas podem não explorar suficientemente suas diferenças ou confrontar as questões entre si com largura o bastante para que lhes seja permitido chegar a um acordo bem firmado e estável. "Cooperação prematura" pode levar a uma concordância superficial, insatisfatória e instável antes que as questões subjacentes no conflito tenham sido trabalhadas.

Compromisso cooperativo. Mais cedo, discuti muitos processos de envolvimento e compromisso inconsciente para o andamento de uma ação competitiva: redução da desarmonia, a falácia do apostador, ampliação circular e progressiva e ciladas situacionais.

Esses processos, similarmente, podem atrair alguém a ser mais profundamente envolvido em um relacionamento cooperativo mesmo quando o relacionamento está tendo poucas conseqüências frutíferas. Investimentos passados, instrumentos, procedimentos e instituições já estabelecidas, obrigações para com terceiros e pressões situacionais podem operar para conduzir alguém a um conflito cooperativo. Isso ocorre mesmo quando as ligações emocionais com o outro e a utilidade percebida do relacionamento não garantem por si mesmas essa continuação. Os elos de um relacionamento cooperativo podem ser cimentados em lealdade, compromisso, conformidade, culpa ou conveniência, bem como em ligações e ganhos pessoais. A existência de vínculos que não os baseados na utilidade e na atitude pessoal provê uma base para a continuidade e a estabilidade defronte às flutuações das atitudes e dos ganhos pessoais.

Fatores que afetam o andamento do conflito

Nas seções anteriores, foram descritas as características típicas dos conflitos construtivos e destrutivos. Agora me volto para uma consideração dos fatores que influenciam o caminho que um conflito segue. Há, inevitavelmente, um sem-número de assuntos específicos que podem afetar o fato de um conflito tomar ou não uma direção construtiva ou destrutiva. Isso é proveitoso para se ter uma idéia simplificadora que enfatiza determinantes centrais e permite uma proliferação de detalhes específicos na medida em que se torne necessária.

Revisando o trabalho até aqui apresentado neste volume – minha análise teórica prévia dos efeitos da cooperação e da competição sobre processos coletivos e meu trabalho subseqüente sobre fatores que influenciam se um relacionamento cooperativo ou com petitivo irá ser desenvolvido (que foi descrito sob rótulos do tipo "confiança e suspeição", "negociação" e "resolução de conflitos") –, uma grande idéia simplificadora ocorreu-me, a qual devo nomear como A lei crua das relações sociais de Deutsch. Ocorre que processos e efeitos característicos extraídos de um dado tipo de relacionamento social (cooperativo ou competitivo) tendem também a produzir aquele tipo de relacionamento social. Por isso, a estratégia de poder e as táticas de coerção, ameaça e fraude resultam de, e também resultam em, um relacionamento competitivo. De maneira parecida, a estratégia de resolução mútua de problemas e as táticas de persuasão, abertura e crescimento mútuo eliciam, e também são eliciadas por, uma orientação cooperativa.

A Tabela 13.1 apresenta em um formato esboçado e condensado algumas das idéias básicas envolvidas em minha análise dos efeitos da cooperação e da competição que foi apresentada no capítulo 2. Recapitulando, a teoria afirma que os efeitos das ações de uma pessoa sobre outra serão uma função da natureza de sua interdependência e da natureza da ação que é realizada. Ações habilmente executadas por um antagonista irão produzir respostas bem diferentes de ações hábeis de um aliado, mas um colaborador confuso pode evocar tanta reação negativa quanto um oponente sagaz. A teoria liga tipo de interdependência e tipo de ação com três processos sócio-psicológicos básicos – que foram denominados substituibilidade, catalisação e indutibilidade – que então desenvolvem uma variedade de conseqüências sócio-psicológicas desses processos na medida em que são afetados pelas variáveis com as quais a teoria se preocupa. Aqui, é interessante focar a atenção nas conseqüências.

O ponto é que se se observa uma situação em que há uma mistura de elementos cooperativos e competitivos (a maioria das situações de conflito e de negociação são dessa natureza), pode-se movê-la em uma ou outra direção criando, enquanto estados iniciais, as conseqüências típicas da cooperação ou da competição efetivas. Tudo isso pode ser resumido dizendo-se que "cooperação gera cooperação, enquanto competição gera competição." Todavia, esta síntese é muito condensada; há outros fatores que determinam o curso da resolução de conflito somados ao tipo de processo social envolvido. Abaixo se encontra um delineamento dos fatores que afetam a resolução de conflito que salientam determinantes cruciais.

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Processo

Na Tabela 13.1, a última coluna apresenta, resumidamente, algumas das conseqüências- chave de ações efetivas em um relacionamento cooperativo e em um competitivo.

Acima, indicamos que esses efeitos característicos tendem, enquanto condições iniciais, a gerar os mesmos processos que deram origem a eles. Assim, uma orientação de conflito que salienta interesses comuns, busca o crescimento do poder em conjunto e define o conflito como um problema mútuo, está mais propensa a ter um andamento construtivo do que uma orientação que enfatiza interesses antagônicos, busca maximizar as diferenças de poder e define o conflito em termos de ganhar ou perder. Similarmente, uma orientação confiante e amigável para com o outro, com um interesse positivo em seu bem-estar e uma presteza em responder beneficamente à suas necessidades e aos seus pedidos, está menos propensa a conduzir a um conflito destrutivo do que uma atitude hostil e suspeitosa, com prontidão em explorar as necessidades e fraquezas do outro e uma correspondência negativa aos pedidos do outro. Uma percebida similaridade nas crenças e nos valores, um sentimento de vínculos e interesses comuns entre si e o outro tende mais a produzir um conflito construtivo do que um sentimento de crenças e valores opostos. Comunicação completa, aberta, honesta e livre de distorções malevolentes, que é persuasiva em vez de coerciva na forma e no intento, é menos propensa a conduzir a um conflito destrutivo do que comunicação bloqueada, desencaminhada ou autista.

Relacionamento prévio

Quanto mais fortes e mais salientes forem os laços cooperativos ligando as partes conflitantes em comparação aos laços competitivos, mais é provável que um conflito se resolva cooperativamente. A força total dos vínculos cooperativos, bem como seu número, é uma função de sua importância. Há obviamente muitos tipos diferentes de vínculos: objetivos extraordinários, interesses mutuamente facilitadores, lealdades e valores comuns, ligações a uma comunidade comum, entre outros. Esses elos são importantes na medida em que satisfazem necessidades significantes satisfatoriamente. Dessa forma, experiências de relacionamentos cooperativos anteriores que obtiveram êxito entre dois indivíduos ou grupos aumentam a probabilidade da cooperação presente; experiências de fracasso e desilusão em tentativas de cooperar tornam tal cooperação improvável. De outro lado, a experiência passada de um conflito competitivo custoso não necessariamente aumenta a probabilidade de cooperação, apesar de este ser um resultado possível.

A natureza do conflito

Há várias dimensões fundamentais em um conflito que eu gostaria de abordar aqui: o tamanho do conflito, a centralidade das questões envolvidas, a rigidez das questões, o número de questões envolvidas e o quão estão interconectadas, o consenso na importância da questão e o grau até o qual o conflito é admitido.

Tamanho do conflito. Vimos anteriormente que uma das características dos conflitos destrutivos é que eles tendem a crescer em tamanho. De uma maneira correspondente, a pesquisa informou no capítulo 11, e a discussão teórica dos conflitos intrapsíquico e intercoletivo indica fortemente, que conflitos maiores são mais prováveis de tomar um curso destrutivo do que os pequenos. Sugeri no capítulo 11 que o tamanho do conflito poderia ser definido como sendo igual à diferença esperada no valor dos resultados que uma pessoa receberia se vencesse, comparado aos valores que receberia se a outra vencesse o conflito. Uma implicação dessa definição é que, quanto mais concordantes são as visões e os interesses das partes, menor será o tamanho do seu conflito. Um conflito pode ser grande porque os participantes percebem a si mesmos como tendo importantes interesses que estão em oposição um ao outro, ou pode ser intenso, apesar da congruência dos seus interesses, porque têm visões opostas de como perseguir seus importantes interesses mútuos – cada um pensando que o caminho proposto por si mesmo será favorável e o do outro será desastroso para os interesses comuns. Assim, para reduzir o tamanho, pode-se focalizar em diminuir a oposição percebida entre os valores e interesses das partes conflitantes ou em reduzir a oposição percebida entre suas crenças e métodos de atingir seus valores e interesses comuns, bem como em encolher a importância percebida sobre o que está em jogo no conflito.

Há várias técnicas que podem ser empregadas para diminuir a percebida oposição de interesses ou crenças; entre essas se incluem comunicação controlada (Burton 1969), reversão de papéis (Cohen 1950; Rapoport 1960), e exercícios de encontros de grupo (Schutz 1967). Essas técnicas supõem essencialmente que a oposição percebida pode ser reduzida se as partes conflitantes puderem ser levadas a ver o quanto elas têm em comum, se suas diferenças podem ser vistas no contexto de suas similaridades e concordâncias.

Elas também supõem que, se mal-entendidos são eliminados por meio de comunicação melhorada, aberta, completa e direta entre as partes, suas percebidas diferenças irão decrescer.

Enquanto este é freqüentemente o caso, a remoção do mal-entendido às vezes aguça a consciência para interesses ou crenças conflitantes, uma consciência que tinha sido obscurecida por mal-entendidos benevolentes (Johnson 1967).

É um tanto quanto surpreendente que, na literatura que lida com a administração terapêutica do conflito, tenha havido um foco relativamente pequeno no que Fisher (1964) denominou controle de questão. Controlar a importância do que é percebido estar em risco em um conflito pode ser uma das maneiras mais efetivas de se prevenir que o conflito tome um caminho destrutivo. Muitos conflitos podem ser definidos de um modo que aumente ou minimize o tamanho das questões disputadas.

Em geral, conflitos espontâneos, que são localizados em termos de um dado tempo e espaço e especificados em termos de ações particulares e delimitadas e suas conseqüências, são muito mais fáceis de se resolver construtivamente do que conflitos que são definidos em termos de princípios, precedentes, direitos etc., de maneira que as questões transcendam tempo e espaço e sejam generalizadas além da ação específica para personalidades, grupos, raças ou outras grandes unidades ou categorias sociais.

Assim, quando uma contenda começa a se concentrar em personalidades ou em participantes de grupos em vez de em ações específicas, ela geralmente dá um giro improdutivo. Similarmente, quando uma discussão enfoca direitos ou princípios em vez do que especificamente está ocorrendo em um dado tempo e local, não é provável que seja frutífera.

Há, entretanto, uma assimetria sobre o tamanho do conflito que deveria ser notada. Além disso, se um conflito provoca uma mudança no status quo, mantê-lo pequeno pode favorecer a falta de mudanças. É particularmente provável ser este o caso quando há uma inércia social ou um viés em favor do status quo. Nesse caso, aqueles que desejam trazer mudança têm de aumentar o conflito suficientemente para motivar os que não vêem razão em estar interessado em alterar as coisas como estão. Então, os esforçados em preservar o status quo devem procurar minimizar o conflito de maneira que ele não pareça merecer preocupação, enquanto os que estão tentando trazer uma mudança devem tentar salientá-lo de forma a torná-lo um foco de atenção.

Rigidez da questão. A percebida falta de alternativas satisfatórias ou de substitutos para os métodos de se alcançar os resultados ou para os resultados inicialmente em risco no conflito geram a rigidez da questão. Se um acadêmico quer um aumento salarial e não aceitará uma promoção como substituto, ele e sua universidade financeiramente pressionada podem ver-se enredados em um conflito irreconciliável, um conflito que seria prontamente resolvido se uma promoção fosse uma alternativa aceitável. Às vezes, limitações de motivação e intelectuais podem levar as partes a perceber questões mais rigidamente do que a realidade dita – como quando uma criança insegura teimosamente insiste que não pode fazer "número 2" exceto em seu próprio penico. Todavia, é também evidente que uma realidade dura pode muito bem limitar a possibilidade de se encontrar substituições aceitáveis e restringir estreitamente as possibilidades abertas às partes conflitantes. Se há insuficiência de comida, abrigo, roupa, remédio ou qualquer outra coisa necessária para a sobrevivência física e psicológica, o conflito sobre essas necessidades irá freqüentemente assumir uma qualidade de desespero.

A rigidez da questão não é somente determinada pelos recursos psicológicos e ambientais disponíveis para as partes conflitantes, mas também pela natureza da questão. Certas questões são menos condutivas à resolução do conflito do que outras. "Maior poder sobre o outro", "vitória sobre o outro", "ter mais prestígio que o outro" são definições rígidas do conflito, na medida em que é impossível em toda questão dada para cada parte em conflito ter resultados que são superiores aos dos outros.

Centralidade das questões. Qualquer questão que recaia sobre algo considerado vital para o bem-estar físico de uma pessoa, sua posição sócio-econômica, sua auto-estima ou sua defesa contra ansiedade é central. Quanto mais central uma questão é considerada, mais probabilidade ela tem de ser vista como uma questão grande ou importante e mais apta ela é para ser definida como rígida. Assim, conflitos sobre questões consideradas centrais por ambos os lados são freqüentemente as mais irreconciliáveis. A centralidade de uma questão é determinada não apenas pela significância substantiva da questão, ou por quais valores são percebidos como estando em risco, mas também pela percebida vulnerabilidade da pessoa. Quanto mais vulnerável em determinada área uma pessoa se considera, mais provavelmente ela considerará uma questão envolvida nessa área como uma questão central. Há, é claro, diferenças imensas entre as pessoas sobre quão larga uma margem de segurança elas exigem para não se sentirem vulneráveis. Aqueles que requerem uma grande margem geralmente buscarão evitar o conflito sobre questões centrais e, se houver o surgimento de tal conflito, irão, freqüentemente, experienciá-lo como uma contenda de vida ou morte sem amarras. Dessa forma, para evitar provocar que o outro entre em uma contenda desesperada, deve-se evitar combatê-lo em suas regiões centrais e vulneráveis.

O número e a interdependência das questões. Um conflito no qual o vencedor leva tudo e o perdedor nada ganha é propenso a ser mais amargamente contestado do que um em que há vitórias para ambos os lados. Se vitórias são possíveis para ambos, não há mais um vencedor e um perdedor; em vez disso, há um vencedor para cada questão em conflito. Assim, parece evidente que, se um "único" conflito pode ser pulverizado em um número de questões separadas de maneira a que não seja mais um problema de tudo-ounada, o conflito tenderá a não seguir um caminho destrutivo. Isso, sem dúvida, não traria mudanças muito boas se todas as questões separadas estiverem tão interconectadas que a perda em uma implicasse inevitavelmente a perda em todas as outras.

Consenso na importância de diferentes questões. Assim como pulverizar um grande feixe de questões em seus componentes separados pode favorecer o sentimento de vitórias múltiplas, também o pode a falta de consenso na significância das questões. Se um lado considera a questão A importante e a B insignificante enquanto o outro pensa que

A tem pouca importância e B é crucial, é evidente que suas discordâncias em valorizar as questões facilitarão a resolução de um conflito entre eles sobre duas questões.

 Consciência das questões. No capítulo 3, apontamos que o conflito não admitido ou inconsciente é considerado mais difícil de ser resolvido do que o conflito que é reconhecido pelas partes envolvidas. Similarmente, o conflito entre partes que não reconhecem a existência e legitimidade da outra tem mais propensão a ser destrutivo do que o conflito no qual elas se reconhecem como legítimas. Há duas formas principais do conflito não admitido: conflito deslocado e conflito latente ou reprimido. No conflito deslocado, o conflito é transferido da questão de maior preocupação para outra questão associada. (Ver capítulo 1 para uma discussão mais profunda dos tipos de conflito.) Assim, um marido e sua esposa que têm um conflito não admitido sobre afeição podem deslocar a questão para a arena sexual. Eles podem prever que seria menos doloroso discutir sobre a freqüência e a duração das relações sexuais do que discutir suas necessidades de tratamento afetivo de um pelo outro.

A suposição que está na moda nos escritos de ciência social, exceto entre terapeutas do comportamento, é que é improdutivo lidar com o conflito manifesto, a menos que o conflito subjacente também seja visto e encarado. Contudo, há suficientes exemplos lembrados de experiências bem-sucedidas em lidar com conflitos manifestos e, assim, pavimentar o caminho até uma confrontação produtiva de conflitos não admitidos para questionar se essa suposição é universalmente válida. Uma administração bem-sucedida do conflito manifesto pode dar às partes conflitantes a coragem de encarar o conflito mais fundamental, que trazia previamente à tona preocupações demais para ser reconhecido.

Todavia, parece razoável esperar que, a menos que o conflito subjacente seja ultimamente encarado, permanecerá um chão fértil para vários novos conflitos manifestos.

O conflito reprimido e latente ocorre quando uma das partes conflitantes é suficientemente dominante para fazer a parte mais fraca privar-se de qualquer comportamento conflitante e exposto em perseguição de seus objetivos. O resultado comum de tal repressão é a construção de um mal-estar na parte subordinada, que toma várias formas tais quais depressão, desleixo, agressividade passiva e doenças psicossomáticas – todas acompanhadas por uma fúria contida e subjacente. O conflito reprimido tem más conseqüências não apenas para a parte suprimida mas também para a dominante. Somado à resistência passiva e à ameaça contínua de uma explosão violenta da raiva contida do reprimido, o conflito reprimido cria atitudes de superioridade nos dominantes que interferem com uma confrontação cooperativa das questões em disputa uma vez que o conflito tenha emergido.

As características das partes em conflito

As ideologias, as personalidades, as posições sociais e os recursos pessoais das partes conflitantes: tudo tem um papel em determinar se um dado conflito irá seguir um andamento cooperativo ou competitivo. Eles o fazem de duas formas principais. Primeiro, eles podem levar diretamente para uma avaliação mais favorável de um processo ou de outro.

Assim, a estratégia e a tática associadas com a disputa competitiva podem parecer mais viris ou intrigantes do que as associadas com a cooperação. Considerem-se as contrastantes figuras conhecidas do militar e do diplomata. Ou a imagem de alguém sobre si como duro, invencível e imbatível pode levar outro a esperar que há mais a ganhar da competição que da cooperação. Segundo, eles podem evocar um processo interativo que pode resultar em mal-entendido e em sentimentos negativos e podem, por sua vez, estimular uma orientação positiva para o conflito. Alternativamente, as características das partes podem dar origem a um processo social que irá engendrar um sentimento de compreensão e compatibilidade mútuas que, por sua vez, podem dar origem a uma orientação cooperativa. Observado isso, certos tipos de pessoa irão lidar umas com as outras de forma errada e, como resultado, serão negativos em sua avaliação, enquanto outros pares de pessoas achar-se-ão mutuamente muito parecidas e, em conseqüência, serão cooperativamente orientados.

Tem havido, até então, uma baixa quantidade de pesquisas sistemáticas nos determinantes pessoais do comportamento do conflito. Terhune (1970 a, b) elaborou recentemente um excelente exame dessa pesquisa. Minha discussão, que segue abaixo, dá-se graças ao sumário de Terhune, mas não se confina a ele.

Primeiramente, é importante notar que a magnitude dos efeitos das variáveis pessoais é muito influenciada pela situação. Quanto mais competitiva ou ameaçadora é a situação (o que é determinado por fatores como os resultados possíveis e o comportamento da outra parte), menor é a diferença no comportamento entre tipos distintos de personalidade.

Em tais situações, pessoas de personalidades diferentes tendem a ser levadas a um comportamento competitivo. De outro lado, uma situação cooperativa permite aos diferentes tipos de personalidade demonstrar comportamentos diferentes (ver Kelley e Stahelski 1970, para pesquisas relacionadas).

Em segundo lugar, as características pessoais de um lado não podem ser consideradas proficuamente se separadas das do outro lado. Assim, se ambos os lados têm aspirações altas, de maneira que cada um quer a maior fatia do resultado aproveitável, então um processo cooperativo é menos provável do que se suas aspirações permitem que ambos sejam satisfeitos. Este seria o caso se os dois tivessem aspirações baixas ou se um as tiver baixas e o outro altas. É evidente que algumas características de personalidade levam à compatibilidade quando cada membro de um par interativo mostra-as; com outras características, a compatibilidade é criada pela dessemelhança.

Similaridades em crenças, atitudes e valores – i.e., em perspectivas basilares – freqüentemente conduzem à compatibilidade e, dessa forma, a resoluções cooperativas do conflito. Exceções a esta generalização ocorrem em relação a concepções competitivas (sair-se bem à custa de outros) do mundo e também em relação a ideologias e doutrinas, que, embora semelhantes em concepção, reclamam prioridade ou preeminência aos seus adeptos. Dessemelhança no aspecto freqüentemente leva a relações antagônicas porque ela é experienciada como uma ameaça fundamental para a concepção que o outro tem da realidade e, portanto, para a sua segurança. Por outro lado, a semelhança entre membros de um conflito na necessidade de dominar, liderar, ter um prestígio maior ou possuir exclusivamente uma pessoa ou um objeto pode gerar competição, ao passo que a dessemelhança pode evocar a cooperação.

A pesquisa clínica sobre casais (Dicks 1967) sugere que pessoas casadas uma com a outra estão propensas a lidar com conflitos mais produtivamente quando têm crenças, atitudes e valores similares, mas uma dessemelhança complementar em necessidades manifestas e ocultas, como, por exemplo, a independência manifesta e a dependência oculta do marido são complementadas pela dependência manifesta e independência oculta da esposa.

Presumidamente, cada um obtém um alívio vicário de seus próprios esforços ocultos pelo comportamento manifesto do outro; também obtém satisfação direta em seus papéis manifestos e ocultos recíprocos.

É razoável supor que certos traços de personalidade são compatíveis com um amplo espectro de personalidades, ao passo que outros traços serão próprios de apenas alguns. Assim, Terhune (1970) afirma que características de personalidade como agressividade, autoritarismo, necessidade de dominação, suspeição, dogmatismo, tendência a menosprezar ou a explorar os outros e maquiavelismo tendem a produzir conflitos dispendiosos e que a cooperação está mais propensa de se resultar de personalidades que são igualitárias, confiantes, abertas, tolerantes à ambigüidade, de objetivos altos, benignas em sua visão da natureza humana. Em outras palavras, uma pessoa dominante ou desconfiada é propensa a lidar com mais pessoas de forma errada e está apta a ter uma margem mais curta de relações cooperativas do que uma pessoa que é igualitária ou confiante. As do primeiro tipo são, como conseqüência de suas experiências, menos propensas a esperar que os outros sejam cooperativos e estão, assim, mais aptas a ter visões pessimistas sobre as possibilidades de iniciar um processo cooperativo bem-sucedido.

Conflito interno e dissensão entre as respectivas partes do conflito é outra característica que pode afetar o seu andamento entre elas. O conflito interno pode resultar em uma elevada beligerância externa como uma tática de aumentar a coesão interna, ou pode levar ao enfraquecimento externo e possivelmente instigar o outro lado a obter uma vantagem competitiva. A instabilidade interna também interfere na resolução cooperativa do conflito tornando difícil de se trabalhar um acordo durável e seguro.

Estimativas de sucesso

Muitos conflitos têm um caráter espontâneo e expressivo no qual o andamento da ação tomada é uma expressão tanto da qualidade do relacionamento entre os participantes quanto das características dos participantes individuais. Outros conflitos são guiados por uma orientação instrumental em que os andamentos da ação são avaliados conscientemente e escolhidos em termos do quão propensos são para conduzir a resultados satisfatórios.

Muitos fatores que influenciam as estimativas de sucesso dos diferentes processos de resolução de conflito poderiam ser listados. Os que se enxergam tendo uma clara superioridade em poder são propensos a favorecer um processo competitivo desregulamentado; os que se enxergam como tendo uma superioridade legal em "direitos" são propensos a favorecer relações adversárias que são regulamentadas por instituições legais; os que são preocupados com relacionamentos de longa duração, com a possibilidade de se trabalhar juntos no futuro, são mais propensos a favorecer um processo cooperativo. De maneira semelhante, os que foram excluídos do processo cooperativo e esperam que as regulamentações lhes sejam empecilhos podem pensar do processo competitivo como sendo o único que oferece qualquer potencial de satisfação.

Terceiros

As atitudes, a força e os recursos de terceiros interessados são freqüentemente determinantes cruciais. O conflito entre os principais conflitantes pode ser instigado ou agravado por um terceiro consciente ou inconscientemente – como, por exemplo, quando uma criança lidando com seus próprios sentimentos edipianos tenta provocar um briga entre seus pais. Como a expressão tertium gaudens sugere, terceiros podem muitas vezes obter poder jogando dois rivais em potencial um contra o outro. As condições sob as quais isso pode ser feito de forma bem-sucedida não são bem compreendidas. Uma pesquisa feita por Geis (1964) sugere, todavia, que aqueles que possuem altos níveis de maquiavelismo são aptos a obterem maior sucesso em fazê-lo.

A intervenção de terceiros é freqüentemente construtiva (ver capítulo 8, experimento IV). A mera intervenção de um estranho no conflito pode servir para unificar as partes conflitantes contra o interventor: ambas as partes conflitantes podem concordar que o conflito é privativamente delas e ambos podem temer ou ressentir a intrusão de um estranho em suas relações privadas. Não raro, uma dupla brigando violentamente entre si se vira agressivamente contra alguém que tenta intervir em sua contenda. Aqui, o terceiro, inadvertidamente, por meio de sua intervenção, ativa e torna mais salientes os laços coesivos entre as partes conflitantes. Terceiros que têm prestígio, poder e habilidade podem, deliberadamente, facilitar a resolução construtiva de um conflito usando seu prestígio e poder para encorajar tal resolução e ajudando a prover os recursos para a resolução do problema (instituições, instrumentos, pessoal, normas sociais e procedimentos), de forma a apressar a descoberta de uma solução mutuamente satisfatória. A próxima seção considera bem detalhadamente o papel dos terceiros na regulamentação do conflito.

A regulamentação do conflito

É evidente que o conflito pode ser limitado e controlado por formas institucionais (e.g., o acordo coletivo, o sistema judicial), papéis sociais (mediadores, conciliadores, árbitros, juízes, policiais), normas sociais (imparcialidade, justiça, igualdade, não-violência, integridade de comunicação etc.), regras para conduzir negociações (quando começar e terminar negociações, como estabelecer uma pauta de discussão, como apresentar demandas etc.) e procedimentos específicos (comunicação velada versus explícita, sessões públicas versus privadas etc.). Essas formas sociais devem ser direcionadas para regulamentar como a força deve ser aplicada, como no código de um duelo de honra ou em certas regras de guerra; ou devem ser tentativas de apurar as relações de poder básicas dos disputantes sem recorrer a uma briga de poder, como é muitas vezes o caso nas negociações de acordo coletivo e relações internacionais; ou podem ser orientadas no sentido de remover o poder da base que determina o resultado do conflito, como é freqüentemente o caso nos processos judiciais.

A respeito do conflito regulamentado, é pertinente que se elabore três questões centrais: (1) Quais são as condições necessárias para a institucionalização e regulamentação do conflito? (2) Quais são as condições que tornam provável que as regulamentações serão seguidas pelas partes em conflito? e (3) Quais são as condições sob as quais as instituições e os procedimentos serão usados para sustentar o conflito competitivamente ou resolvê-lo cooperativamente? Por que adversários optariam por um duelo de honra em vez de tentar matar um ao outro sem observar quaisquer regras? Em um duelo, quando um duelista preferiria morrer em vez de trapacear? Sob quais condições os duelistas usarão as regras para tentar matar um ao outro, e sob quais condições eles usarão as mesmas regras para restabelecer a honra e a estima mútua?

O desenvolvimento da regulamentação do conflito

Para se desenvolver a regulamentação do conflito, muitas precondições parecem ser necessárias. Primeiramente, as próprias partes conflitantes devem ser organizadas.

Como Dahrendorf (1959, p. 226) apontou: "Na medida em que as forças conflitantes são agregados difusos e incoerentes, a regulamentação é virtualmente impossível." Ao menos que cada parte seja internamente coerente de maneira suficiente e estável para agir como uma unidade organizada, de forma que as ações de seus componentes sejam controladas e unificadas em relação ao conflito, é evidente que a regulamentação não pode ser efetivamente desenvolvida ou mantida. Assim, é improvável que alguém entre em um duelo de honra com um oponente que seja tão instável e impulsivo a ponto de suas ações serem incontroláveis – e não pode ser previsto com confiança se ele seguirá as regras.

Em segundo lugar, cada parte de um conflito deve querer reconhecer a legitimidade da outra e comprometer-se a aceitar o resultado do conflito regulamentado, mesmo que seja considerado desfavorável ao seu interesse. Por exemplo, um empregador que se defronte com demandas de um número de seus trabalhadores pode pensar que essas demandas não representam os anseios da maioria de seus empregados e recusar-se a reconhecê-las. Sob tais condições, é improvável que o conflito entre o empregador e seus trabalhadores seja limitado e regulamentado por regras e procedimentos que sejam aceitáveis para ambos os lados. Outrossim, se um empregador ou um sindicato deixa clara sua intenção de se recusar a aceitar o resultado de um conflito regulamentado acreditando que o resultado seja indesejável, há pouco incentivo para o outro lado submeter-se a ser regulamentado.

Semelhantemente, é difícil ter-se um duelo de honra se o oponente não aceita o direito de ser desafiado. Nem haverá participação em tal duelo se o desafiador sabe que o oponente tentará feri-lo de uma forma clandestina caso seja vencido justamente por ele.

Terceiro, deve ser notado que os conflitos que são regulamentados pouco provavelmente serão sem precedentes. Um conflito que é recorrente provê uma base de experiência para o desenvolvimento dos procedimentos, instituições, instrumentos e papéis sociais para limitar seu poder de destruição. Seria tranqüilizante ser possível relatar alguma evidência que demonstrasse que a experiência repetida com um dado tipo de conflito leva a seu gerenciamento mais produtivo. Infelizmente, não pude encontrar nenhuma pesquisa significante tratando desta questão.

Finalmente, e talvez o mais importante, a regulamentação do conflito está mais propensa a ser desenvolvida quando ambos os lados de um conflito são partes de uma mesma comunidade. Isso ocorre por várias razões. A comunidade pode ser contrariamente afetada por um conflito desenfreado e, assim, exercer pressões nas partes conflitantes para que regulamentem e limitem seu conflito e sigam as regras sobre as quais concordarem.

Além disso, enquanto membros de uma mesma comunidade possuem valores, tradições e linguagem similares, pode ser mais fácil para as partes conflitantes concordarem com regras e procedimentos de regulamentação do conflito do que se elas não tivessem essa correspondência de fundo. Uma mesma comunidade também é propensa a ajudar a prover o conhecimento, os recursos e os instrumentos que possam acelerar o desenvolvimento de métodos de se regulamentar um conflito. A experiência prévia com conflitos parecidos pode ter levado a comunidade a desenvolver instituições e procedimentos para se lidar com o tipo de conflito no qual as partes estão envolvidas. Um duelo de honra pressupõe que os duelistas tenham um código de honra comum, um código ao qual todos os membros da comunidade irão aderir se quiserem ser estimados em seu âmbito. Também pressupõe uma organização de papéis sociais e procedimentos que tenham sido cuidadosamente articulados dentro da comunidade e que ajudem a limitar e a especificar as ações que podem ser tomadas pelos adversários.

Adesão às regras

Um exame completo das condições que influenciam o fato de as regras (normas, acordos, contratos, leis etc.) serem aceitas ou violadas conduz a uma discussão dos diferentes tipos de violação de regras e desvios sociais, suas origens e formas de controle. Tal empreitada está além do escopo deste trabalho. Todavia, parece razoável asseverar que a adesão às regras é mais provável quando:

1. As regras são conhecidas. Quão acessível é a informação sobre as regras?

Quanta publicidade lhes foi dada e por meio de qual mídia de comunicação? Quão motivados e aptos são os indivíduos para receber e absorver conhecimento das regras?

2. As regras são claras, certas e consistentes. Quão fácil é o entendimento das regras, e quão claras são suas implicações? Se há a conformidade para com uma regra, isso leva a uma violação de outras porque as regras não são internamente consistentes?

3. As regras não são vistas como enviesadas contra os interesses de alguém. Quão justas são as regras? Elas dão ao adversário uma vantagem que de outra forma não seria conseguida?

4. O outro aceita as regras. Com quanta confiança pode alguém que confia nas regras prever que o outro lado também as seguirá? Se o outro violar as regras, será por ignorância ou maldade?

5. As violações são rapidamente conhecidas por outras pessoas significativas.

Se ocorrer a violação das regras, quão rápido será ela identificada? Quanta vantagem o violador ganhará antes de a violação ser detectada? Quais indivíduos conhecerão das violações e quão influentes são eles?

6. Há aprovação social relevante para a adesão e relevante desaprovação social pela violação. Quão fortemente internalizados são os valores de consciência nas partes conflitantes? Pessoas e grupos importantes na sociedade se preocupam se as regras são seguidas ou violadas? São garantidos estima e outros benefícios sociais pela adesão às regras, e há significantes sanções negativas para aqueles que as violam?

7. A adesão às regras foi recompensadora no passado. As experiências prévias com as regras foram recompensadoras ou frustrantes? Há um legado de confiança ou suspeição com respeito às regras e ao modo como elas foram administradas no passado?

8. Pretende-se ser possível empregar as regras no futuro. Os adversários entrevêem um futuro melhor por terem trabalhado pela preservação do atual sistema de regras, ou o resultado do conflito específico é mais importante para eles do que a preservação do sistema? O sistema de regulamentação do conflito é tão desacreditado a ponto de o participante do conflito estar mais preocupado em destruir esse sistema do que em resolver o conflito específico?

Regulamentação efetiva do conflito

Apesar de a adesão às regras ser uma condição necessária para o conflito ser regulamentado produtivamente, é obviamente insuficiente. Tanto a guerra limitada quanto os intercâmbios cooperativos devem ser guiados por regras. É relevante perguntar, por exemplo, sob quais condições as instituições e os procedimentos de negociação coletiva entre o sindicato e a empresa resultam em paz industrial em vez de guerra industrial.

Um dos mais extensos estudos que tentam responder a essa questão foi elaborado sob a égide de um comitê, a National Planning Association, que incluía muitos dos melhores acadêmicos e profissionais das relações industriais nos Estados Unidos. Os resultados dessa investigação foram publicados em quatorze monografias, que incluíam estudos de casos de relações harmônicas entre sindicato e empresa em muitas indústrias diferentes e em vários contextos distintos. Nas conclusões de seu relato final (National Planning Association 1953), listam-se as seguintes causas básicas da paz industrial:

1. Há completa aceitação pela empresa do processo de negociação coletiva e do sindicalismo como uma instituição. A companhia considera um sindicato forte como uma vantagem para a empresa.

2. O sindicato aceita completamente a propriedade e a operação privativas da empresa; ele reconhece que o bem-estar de seus membros depende da operação bemsucedida do negócio.

3. O sindicato é forte, responsável e democrático.

4. A companhia fica fora dos assuntos internos do sindicato; ela não busca abalar a lealdade dos trabalhadores para com seu sindicato.

5. Existe confiança mútua entre as partes. Não houve incompatibilidades ideológicas sérias.

6. Nenhuma das partes, na negociação, adotou uma abordagem legalista para a solução dos problemas no relacionamento.

7. As negociações são "problematicamente centradas" – mais tempo é gasto em problemas do dia-a-dia que em definições de princípios abstratos.

8. Há uma consulta largamente difundida entre o sindicato e a empresa e um compartilhamento de informações altamente desenvolvido.

9. As reivindicações são dispostas prontamente, no próprio local sempre que possível. Há flexibilidade e informalidade no procedimento. Resumidamente, negociações que envolvem conflitos de interesse são mais propensas a ter resultados aceitáveis para as partes envolvidas quando ocorrem em um contexto de relações cooperativas. Relações harmoniosas são mais difíceis de ocorrer se um ou ambos os lados (1) pensam que sua existência ou seus direitos estão ameaçados pelo outro lado;

(2) pensam que sua sobrevivência está comprometida pela competição externa de outras empresas ou de sindicatos rivais; (3) são despedaçados por facções internas que se tornam deslocadas no relacionamento entre o sindicato e a empresa; (4) têm pouca autonomia local, de maneira que acordos não podem corresponder às condições locais; (5) são constantemente sujeitos a novas condições devido a fatores como mudanças na tecnologia, alterações no mercado, variações sazonais e mudança do pessoal da empresa ou do sindicato.

Até aqui, nesta seção, discutiu-se a regulamentação do conflito de maneira um pouco detalhada e tentaram-se delinear as respostas para três questões centrais: (1) Quais são as condições necessárias para a institucionalização e a regulamentação do conflito? (2)

Quais são as condições que tornam provável que as regulamentações sejam seguidas pelas partes conflitantes? e (3) Sob quais condições as instituições e os procedimentos serão usados para manter o conflito competitivamente ou resolvê-lo cooperativamente? Agora, devese discutir o papel de terceiros em regulamentar, abortar ou desfazer um processo nocivo de resolução de conflito. A pergunta é: Como pode um terceiro intervir terapeuticamente se as negociações caíram em impasse ou são improdutivas por causa de mal-entendidos, comunicações falhas, desenvolvimento de atitudes hostis ou inabilidade de se descobrir uma solução mutuamente satisfatória?

Se se examinam papéis como o do mediador nas negociações industriais (Douglas 1962; Stevens 1963; Kressel 1972), o do interventor nas disputas da comunidade (Cormick 1971), o do psicoterapeuta que faz terapia para casais (Bach e Wyden 1969), o do consultor para relações humanas que trabalha com conflitos intercoletivos de vários tipos (Chalmers e Cormick 1971; Walton 1969) ou o do conciliador internacional (Iklé 1964; Jackson 1952; Bailey 1971; Edmead 1971; e Pechota 1971), um bom número de funções comuns podem ser identificadas.2 Estas são consideradas abaixo.

1. Ajudar as partes conflitantes a identificar e a confrontar as questões em conflito. Os conflitos são freqüentemente suprimidos, evitados ou evadidos e, às vezes, como conseqüência, deslocados. Duas pessoas casadas podem irritar-se uma com a outra sobre trivialidades porque não encararam diretamente suas visões conflitantes sobre suas respectivas responsabilidades domésticas. Uma das principais tarefas de um terceiro é ajudar as partes conflitantes a identificar e a confrontar as questões sobre as quais elas discordam. Há muitas formas para se fazer isso. Primeiramente, a mera presença de um terceiro apoiador, preparado, neutro e discreto pode acalmar suficientemente as ansiedades das partes sobre as possibilidades de uma derrocada descontrolada e catastrófica, a ponto de que elas sejam capazes de lidar com questões que poderiam, de outra forma, pensar ser muito complicadas de serem tratadas. Além disso, sua presença pode servir como um contínuo lembrete para se atentar para as questões, encará-las seriamente. Segundo, um terceiro pode tentar alterar as assimetrias na motivação, no poder ou na legitimidade entre as partes conflitantes.

Tais assimetrias muitas vezes levam à evasão ou à supressão do conflito. O conflito é mais propenso a ser encarado abertamente se ambas as partes conflitantes (em vez de apenas uma) são motivadas a lidar com as questões, se o equilíbrio de poder é tal que nenhum dos lados pode impor sua decisão sobre o outro e se ambos os lados reconhecem a legitimidade do outro. Assim, em uma disputa entre a First Spanish Methodist Church in East Harlem (Primeira Igreja Metodista Espanhola em East Harlem) e uma comunidade protestante organizada chamada Young Lords Organization (YLO), o Board of Mediation for Community Disputes (Órgão de Mediação para as Disputas da Comunidade) ajudou a legitimar a YLO e dar-lhe um grau de estatura por reconhecê-la como representativa de um dado eleitorado (Cormick 1971). Somado a isso, por certificar a "razoabilidade" da YLO e a sua intenção de considerar um acordo, o prestigioso órgão impôs uma pressão considerável sobre a igreja para que ingressasse nas negociações com um grupo que ela tinha previamente se recusado a reconhecer. Terceiros podem não só auxiliar as partes conflitantes a se confrontarem, mas também podem ajudar a identificar as questões reais em conflito. A retórica das partes ou a proliferação de questões durante uma disputa prolongada podem obscurecer as questões subjacentes. Um terceiro habilidoso que pode entrevistar cada parte separadamente, bem como vê-las em interação, pode desenvolver uma clara imagem do

2 Além de usar uma literatura relevante, utilizei-me de minha própria experiência como psicoterapeuta, trabalhando com indivíduos, casais e famílias, e também aproveitei minha experiência como consultor, trabalhando com problemas de relações intercoletivas. que elas concordam ou discordam e pode ser capaz de usar essa imagem para ajudá-las a identificar a substância de seu conflito.

2. Ajudar a prover circunstâncias e condições favoráveis para se confrontarem as questões. Um terceiro pode ajudar a criar uma atmosfera na qual discussões significativas possam ocorrer, fornecendo um lugar para reunião em território neutro, onde as partes conflitantes podem ser separadas de pressões e rupturas imediatas devido às irritações do dia-a-dia. Além disso, por meio da sua intervenção, ele pode freqüentemente regulamentar o grau de tensão entre as partes, sugerindo que elas mudem para questões mais ou menos "quentes"; criando impedimentos para inibir certos tipos de comportamento destrutivo; ou usando encorajamento para ensejar ações construtivas. Assim, ele pode muitas vezes estimular tensão suficiente para manter um diálogo sério ou remover a tensão em excesso que possa romper um encontro produtivo. Outrossim, ele pode ajudar a arranjar e a medir o tempo dos confrontos, de maneira que as partes conflitantes estejam ambas prontas a ingressar na discussão e de forma que nenhuma das partes pense que a prontidão em ingressar em um diálogo é uma admissão de fraqueza.

3. Ajudar a remover os bloqueios e as distorções no processo comunicativo de uma maneira tal que a compreensão mútua possa se desenvolver. Fazer isso vincula diversas atividades, como: estimular comunicação suficiente de ambas as partes de forma que a menos articulada, bem como a mais articulada, possam expressar suas visões completamente; traduzir para permitir que a comunicação seja compreendida da mesma maneira pelos dois lados; e treinar as partes conflitantes em como se comunicar mais efetivamente e como conferir se estão sendo compreendidos um pelo outro. Em conflitos conjugais, por exemplo, não é incomum que um seja mais articulado e mais dominante que o outro. O terapeuta de casais deve observar se ambos os lados do conflito possam se expressar. Também é comum maridos e esposas entenderem mal um ao outro; esposas, mais freqüentemente, usam a linguagem particular de um relacionamento pessoal e emocional, no qual argumentos são verificáveis em termos de sentimentos subjetivos, enquanto maridos mais comumente empregam a linguagem universal das relações sociais impessoais, no qual argumentos são objetivamente verificáveis. Assim, uma esposa dirá "Estarei pronta em um minuto" e significará "Estarei pronta em o que creio ser um tempo curto." Seu marido, contudo, deve interpretar o argumento de acordo com o tempo do relógio. Esposas freqüentemente se machucam porque seus maridos não dizem "Eu te amo" bastantes vezes. Os maridos, tipicamente, consideram que terem dito amar suas esposas implica que eles irão continuar a amá-las a não ser que venham dizer o contrário. Portanto, a reiteração parece desnecessária para os homens. Um terceiro bem-preparado entenderá as diferenças sócio-culturais que levam um lado a entender mal o outro, e não apenas servirá como tradutor, mas também ajudará os dois lados a entender os contextos e estruturas que dão à comunicação do outro seu significado. Além disso, ele os treinará a usarem técnicas de retorno mútuo para conferir o quão bem eles estão entendendo um ao outro, verificando, de tempo em tempo, que o outro disse o que se pensa ter dito e, semelhantemente, que o outro entendeu o que realmente queria ser comunicado.

4. Ajudar a estabelecer normas para a interação racional como o respeito mútuo, comunicação aberta, o uso de persuasão em vez de coerção e desejo de atingir um acordo mutuamente satisfatório. Em outras palavras, as partes conflitantes são ajudadas a lutar justamente, vale dizer, lutar sob regras que os previnam de bater um no outro abaixo da cintura ou de gritar falta quando uma troca justa mas intensa estiver ocorrendo (Bach e Wyden 1969). Esta é, talvez, uma das funções mais importantes de um terceiro quando ele está lidando com disputantes inexperientes. Os inexperientes são propensos a adotar táticas como: atingir o outro em seus pontos sensíveis; generalizar em vez de ser específico, de maneira que questões em conflito se tornem amplas e difusas em vez de limitadas e claramente concentradas; definir questões em termos absolutos que não deixam espaço para colaboração ou, em termos moralistas, que implicam que, se o outro se render, ele estará confessando a culpa; propor ultimatos e ameaças que impliquem que o outro não tenha alternativa a não ser render-se; e blefar indiscriminadamente de maneira que seja impossível saber quando se deveria levá-los a sério.

Regras justas de procedimento são valiosas em qualquer tipo de discussão mas são vitais em conflitos. A essência de regras justas é que elas não são enviesadas. Concordar com tais regras implica que cada uma das partes em conflito pretende deixar o outro fazer consigo o que se fizer com o outro. Essas regras dão, a ambos os lados, oportunidade de declarar posições e responder ao outro. Além disso, elas limitam ou definem os tipos de ofensa que cada lado pode infligir no outro. Elas também fazem cada lado responsável pelas posições que toma e pelos comportamentos que tem, de forma que nenhum lado possa desprezar a realidade, mentir à vontade, nem atribuir suas ações a outros e, fazendo-o, isentarem-se. Somado a isso, essas regras muitas vezes exigem que cada parte, ao criticar o outro, ofereça-lhe uma alternativa na forma de uma proposta de concordar ou discordar (Fisher 1969). Tal proposta declara especificamente que tipo de decisão ou ação se quer do outro e não é meramente uma declaração de insatisfação com o que o outro está fazendo ou oferecendo. Mesmo se o outro pretende render-se, é preciso que ele deixe isso claro, de forma que sua desistência seja reconhecida e leve ao término das hostilidades.

Regras justas para a regulamentação do conflito fornecem uma base para ele ser resolvido quando nenhuma outra base para um acordo pode ser encontrada: a primeira escolha vai para o vencedor da disputa. Todavia, o vencedor em uma disputa justa não é necessariamente o último sobrevivente, como pode ser o caso em um teste de poder  descontrolado. O valor e os procedimentos que regulamentam o conflito devem selecionar o vencedor em algum outro critério que não a força física relativa dos participantes. Um conflito entre marido e esposa ou entre os Estados Unidos e um de seus cidadãos deve ser instaurado por um processo judicial cujas regras permitam que o disputante vença com o mais forte reclame da lei, mesmo que sua destreza fí sica seja mais fraca. Ou as regras podem tornar a disputa intelectual em vez de física. Assim, por meio das regras empregadas na regulamentação do conflito, uma sociedade pode encorajar a sobrevivência de certos valores e a extinção de outros porque as regras tendem a favorecer aqueles que possuem recursos de um tipo e não de outro – e.g. aqueles que possuem direito fundamental em vez de força física.

Embora normas que estimulem regras justas para o combate sejam úteis para limitar o poder de destruição de uma contenda, são muitas vezes insuficientes para encorajar negociações cooperativas. Estas são facilitadas por normas que enfatizem o reconhecimento da legitimidade do outro, o respeito mútuo, o desejo de um acordo mutuamente satisfatório e a comunicação aberta. O terceiro, reconhecendo a legitimidade de ambos os lados, tratando cada um com respeito, encorajando a objetividade na comunicação e enfatizando que acordos estáveis baseiam-se em satisfação mútua, pode fazer muito para promover uma estrutura social que conduza a negociações cooperativas em vez de meros combates justos.

5. Ajudar a determinar que tipos de soluções são viáveis e fazer sugestões sobre soluções possíveis. Ouvindo e investigando cuidadosamente, o terceiro pode muitas vezes descobrir as aspirações e expectativas de cada lado e perceber o quão rigidamente fixadas estão. Às vezes, uma solução requer que as aspirações de uma ou de ambas as partes conflitantes sejam alteradas e tornadas mais realistas. Se cada parte espera que a outra faça algo impossível para esta fazer, cada uma tem de redefinir suas aspirações antes de ser possível uma solução. Uma esposa descontente não pode esperar razoavelmente que seu marido introvertido torne-se um leão da vida social, e um sindicato não pode realisticamente querer que um empregador pague salários que sejam substancialmente maiores do que os pagos por seus competidores e que, como conseqüência, o tirem do mercado. O terceiro pode usar seu conhecimento e sua autoridade para tentar refrear aspirações irrealistas. Ele pode com freqüência ir além disso para fazer sugestões de acordos potenciais que possam ser aceitáveis a ambos os lados. Fazendo-o, ele pode achar necessário ajudar as partes em conflito a redefinir seu problema de forma que alternativas previamente inconcebíveis sejam consideradas. Assim, por exemplo, um terceiro pode sugerir que a solução para uma disputa de dinheiro sobre quem ganha qual fatia do bolo financeiro resida em esforços reunidos para engrandecer o bolo a ser dividido. Certamente, um terceiro que oferece uma sugestão específica deveria fazê-lo de uma forma que possibilite às partes conflitantes pensar que elas devem aceitar ou rejeitar a sugestão, que essa é uma solução que "possuem" e pela qual elas são responsáveis se concordarem em aceitá-la.

6. Colaborar para que um acordo viável seja aceito pelas partes em conflito.

Embora uma solução produtiva do conflito ou um acordo praticável seja conhecido pelas partes, elas podem ser resistentes porque cada uma pode sentir que um acordo como esse parecerá uma fuga e resultará em um desvio do cerne da questão. Várias táticas são possíveis

para que um terceiro sobrepuje esse tipo de resistência. Ele pode enfatizar a futilidade e os custos de um falso orgulho – é improvável que um acordo melhor seja alcançado e os custos de uma contenda prolongada podem ser insuportáveis. Alternativamente, ele pode tentar apresentar o acordo de maneira que cada lado possa pensar que chegou à vitória. Isso pode ocorrer se cada lado é levado a acreditar que obteve o que queria em uma questão crucial. Ou, ainda, o terceiro pode exercer pressão para conseguir o acordo por meio de táticas tais como a ameaça de se retirar, se um consenso não é alcançado dentro de um tempo especificado, confinando as partes conflitantes em um quarto fechado até que elas concordem e alistando o público ou outros indivíduos em apoio ao acordo. Apesar de argumentos forçados serem geralmente não desejáveis porque as partes podem não se sentir comprometidas a eles, é às vezes verdade que disputantes tenham de ser compelidos a aceitar um acordo que eles normalmente ficariam felizes em aceitar, de forma a criar a impressão em seus constituintes de que fizeram a única coisa que puderam naquelas circunstâncias.

7. Ajudar a tornar as negociações e o acordo alcançado prestigiosos e atraentes para públicos interessados, especialmente os grupos representados por negociadores.

Os negociadores de um acordo podem ser partes principais do conflito ou podem ser agentes ou representantes das partes conflitantes. Neste caso, o acordo deve ser aceitável aos autores, bem como aos negociadores. Todavia, mesmo quando o autor promove a negociação, suas atitudes subseqüentes no sentido de qualquer ajuste ao qual chegue serão, em parte, determinadas pelas reações de outros significantes para ele. Assim, é útil para o terceiro ajudar os negociadores a vender o acordo, vale dizer, fazê-lo parecer meritório e seguramente sustentado.

Delinearam-se acima as funções que um terceiro pode desempenhar para ajudar as partes conflitantes a chegar a uma resolução construtiva de seu conflito. Mas como esse papel de um terceiro se estabiliza e é aceito? A investigação histórica de Elmore Jackson (1952) sobre mediação, em seu livro Meeting of Minds, sugere que instituições sociais como a mediação são mais aptas a se desenvolver quando há terceiros poderosos, como em uma comunidade coesa, com um interesse em prevenir uma luta destrutiva por causa do dano que ela traz à comunidade ou pelo prejuízo que as partes têm no conflito. Parece razoável especular que tais instituições inicialmente surgem em resposta à ocorrência do conflito destrutivo, como tentativa de limitar o poder de destruição. Também parece provável que se o papel de um terceiro firma uma reputação de ser bem-sucedido em prevenir ou limitar o conflito destrutivo, e se esses terceiros são facilmente acessíveis para agirem como mediadores, conciliadores ou conselheiros, as partes em conflito que tiverem chegado a um impasse tenderão a buscar ajuda antes e não depois de entrarem em uma luta destrutiva. Se as especulações anteriores estiverem corretas, então seria socialmente válido encorajar o desenvolvimento de centros de conciliação altamente visíveis nas vizinhanças, que poderiam ser usados por pessoas ou grupos que estejam envolvidos em um conflito improdutivo. Há, sugiro, uma falta generalizada de terceiros prontamente acessíveis, prestigiosos, hábeis, imparciais e discretos para ajudar os envolvidos em um conflito amargo. Controvérsias familiares, disputas de vizinhança, conflitos intercoletivos e outros seriam muitas vezes resolvidos mais produtivamente se tal ajuda fosse facilmente disponível.

Indicou-se acima que terceiros podem ajudar a resolver disputas construtivamente, na medida em que sejam conhecidos, prontamente acessíveis, prestigiosos, hábeis, imparciais e discretos. Cada uma dessas qualidades é necessária se as partes conflitantes estão abertas para procurar ajuda e recebê-la de forma bem-sucedida de terceiros. Talvez o mais ambíguo desses termos seja hábeis. Quais são as habilidades de um mediador, um terapeuta ou um conciliador "hábil" e como elas são adquiridas? Neste momento, não há boas respostas para essa pergunta. Isso é em parte devido à falta de um claro critério para o sucesso; é parcialmente devido à natureza discreta e não-pública das atividades de um terceiro, que o torna difícil de ser observado e estudado; é em parte o misticismo de visões tradicionais que enfatizam a natureza ilusória, idiossincrática e pessoal de todas as intervenções de terceiros; e é parcialmente a falta de uma teoria sistemática de intervenção em conflitos. Parece abundantemente claro que respostas a essas perguntas requerem uma investigação sistemática das suposições que subjazem nas intervenções de mediadores, conciliadores e outros no conflito e um estudo sistemático dos diferentes tipos de intervenções e seus efeitos.

Mudando o andamento do conflito

Até aqui, deve estar evidente que creio que uma orientação mutuamente cooperativa está propensa a ser a mais produtiva para se resolver o conflito. Deve-se reconhecer ainda que as orientações das partes conflitantes podem não ser mútuas. Um lado pode experimentar o conflito e ser motivado a resolvê-lo; o outro lado pode estar contente com as coisas como estão e nem sequer ter ciência da insatisfação do outro. Ou ambos podem reconhecer o conflito, mas um pode estar orientado a uma solução perde-ganha enquanto o outro pode estar procurando uma resolução cooperativa. Sugerimos anteriormente que a tendência comum nessas assimetrias de orientação é produzir uma mudança no sentido da competição mútua em vez de cooperação. É, apesar de tudo, possível atacar, sobrepujar ou destruir o outro sem o seu consentimento, mas, para cooperar com o outro, deve-se pretender isso ou, ao menos, estar complacente.

Como pode Acme induzir Bolt a cooperar na resolução de um conflito se Bolt não está inclinado a isso ou se Bolt enxerga seus interesses como antagônicos aos de Acme? Não há, obviamente, uma resposta única a essa questão. Qual resposta é a apropriada depende de fatores como: a natureza e a motivação da não-cooperação de Bolt, os recursos e vulnerabilidades particulares de cada parte e seus relacionamentos com terceiros. Contudo, é evidente que a procura por uma resposta deve ser guiada pela consciência de que há perigos em certos tipos de procedimentos de influência. Nomeadamente, eles podem alastrar e aumentar a resistência aberta e a alienação, ou podem meramente produzir dissimulação ou cooperação não-autêntica com alienação subjacente.

Resumirei, da minha discussão sobre a influência social no capítulo 6, algumas hipóteses sobre os tipos de procedimentos de influência que estão propensos a fomentar resistência e alienação:

1. Técnicas ilegítimas, que violam os valores e as normas que governam a interação e a influência detidas pelo outro, são alienadoras (quanto maior for a violação, i.e., quanto mais importantes e numerosos forem os valores sendo violados, maior será a resistência). É, sem dúvida, verdade que às vezes ocorre um efeito de adaptação de nível, de forma que uma norma perde sua legitimidade se é freqüentemente violada; outras vezes, a acumulação de violações tende a produzir uma reação crescentemente negativa.

2. Sanções negativas, como punições e ameaças, tendem a produzir mais resistência do que sanções positivas como promessas e recompensas. O que é considerado como sendo recompensador ou punitivo também pode ser influenciado pelo nível de adaptação da parte; a redução do nível das recompensas que são costumeiramente recebidas será geralmente vista como negativa.

3. Sanções que são de tipo inapropriado também são propensas a gerar resistência. Assim, a recompensa em dinheiro, em vez de apreciação, pode diminuir a disposição para cooperar de alguém cuja cooperação é engendrada por motivos de filiação em vez de utilitários. Semelhantemente, uma ameaça ou punição é mais propensa a ser efetiva se se encaixa no crime do que se sua conexão com o crime é artificial. Uma criança que quebra o brinquedo de outra é punida mais apropriadamente se ela tiver de dar à outra um brinquedo seu como substituto do que se lhe for negada permissão para assistir à TV.

4. Influência de tamanho excessivo tende a ser resistida; promessa  ou recompensa excessiva conduz à sensação de estar sendo subornado, e ameaça ou punição excessiva conduz ao sentimento de estar sendo coagido.

Delineei, até aqui, o que não se deve fazer se se quer produzir uma autêntica resolução de conflito cooperativa. Volto-me agora à questão de quais cursos de ação podem ser tomados para induzir a cooperação. Vou-me concentrar em um tipo particularmente importante de conflito: o conflito entre aqueles grupos que têm autoridade considerável para provocar decisões e controle relativamente alto sobre os meios convencionais de influência social e política e aqueles grupos que têm pouca autoridade para guiar decisões e controle relativamente pequeno sobre os meios convencionais de influência. Embora tenha sempre havido conflitos entre quem comanda e quem é comandado, entre pais e filhos e entre empregadores e empregados, sugiro que esse é o conflito característico do nosso tempo. Ele surge de uma demanda crescente por mais poder e prosperidade promovida por aqueles que foram intensamente excluídos do processo decisório, geralmente para sua desvantagem econômica, social, psicológica e física. A crise racial nos Estados Unidos, os levantes estudantis pelo mundo, as lutas revolucionárias nas regiões subdesenvolvidas, as controvérsias dentro e entre as nações no leste europeu e a guerra civil no Vietnã do Sul: todos esses conflitos expressam, em parte, o crescente reconhecimento, em todos os níveis da vida coletiva, que a mudança social é possível, que as coisas não precisam permanecer como estão, que se pode participar na formação do próprio ambiente e que se pode melhorar a sorte que se tem.

Ao que parece, os que estão contentes com seus papéis superiores no processo decisório desenvolvem um interesse em preservar o status quo e razões apropriadas para esse propósito. Essas razões geralmente tomam a forma de atribuir competência superior (mais habilidade, conhecimento e preparo) e/ou valor moral superior (maior iniciativa, determinação, senso de responsabilidade, autocontrole) para si mesmo comparado aos outros de menor valor. As razões são normalmente acompanhadas de sentimentos que conduzem seus possuidores a reagir com desaprovação e resistência a tentativas de mudar as relações de poder e com apreensão e defesa à possibilidade de essas tentativas obterem sucesso. A apreensão é freqüentemente uma resposta à expectativa de que a mudança deixar-lhes-á em uma posição enfraquecida sobre o controle daqueles buscando vingança por injustiças passadas.

O que pode um grupo menos poderoso (Acme) fazer para reduzir ou sobrepujar a defensiva de um grupo mais poderoso (Bolt) e para aumentar a presteza deste em dividir o poder? Suponhamos, assim, que, como cientistas sociais, fôssemos consultores dos pobres e fracos em vez de dos ricos e fortes. O que sugeriríamos? Cumpre observar que esta seria uma posição nova e incomum para a maioria de nós. Se já demos algum conselho, foi para aqueles de alto poder. A conseqüência despercebida dessas consultas feitas a apenas um lado tem sido que freqüentemente supomos que a patologia social esteve dentro do gueto em vez de naqueles que construíram as paredes para circundá-lo, que os desfavorecidos são os que precisam ser mudados em vez das pessoas e das instituições que têm mantido os desfavorecidos em uma situação submersa.

Todavia, dada a resistência e a defensiva dos que detêm o alto poder, o que podemos recomendar como estratégia de persuasão àqueles de pouco poder? O processo de persuasão começa com o comunicador detendo uma mensagem indicando que ele quer percorrer o caminho até o outro. Ele tem de ter um objetivo se ele quer articular uma mensagem clara e convincente. Mais do que isso, ao formular e comunicar sua mensagem, é importante reconhecer que ela será ouvida não só pelo outro mas também pelo seu próprio grupo e por outros públicos interessados. Os efeitos desejáveis de uma mensagem no seu pretenso público pode ser negada pelos seus efeitos imprevistos naqueles para quem ela não foi direcionada.

Sugiro que, para a mensagem de Acme para Bolt ser efetiva, ela contenha os seguintes elementos básicos:

1. Uma demonstração clara das ações e mudanças específicas sendo requeridas de Bolt. Bolt deve saber o que é esperado dele de maneira que ele possa preencher as expectativas de Acme se ele assim o deseja. Presumidamente, Bolt está mais apto a fazer o que Acme deseja se acredita que isso é possível ser feito por ele. Ele é mais propenso a acreditar que esse é o caso se as pretensões de Acme são enxergadas como específicas e limitadas em vez de se forem vistas como vagas e desmesuradas.

2. Uma apreciação das dificuldades, problemas e custos que Bolt prevê se ele concordar com os desejos de Acme. Tal apreciação deve ser combinada com uma vontade expressa de cooperar com Bolt a superar as dificuldades e reduzir os custos. Essa vontade causa uma presteza por parte de Acme para considerar as propostas e contrapropostas de Bolt e modificar suas próprias propostas iniciais de maneira que se possa atingir uma concordância mutuamente correspondente.

3. Uma descrição dos valores e benefícios que Bolt irá realizar cooperando com Acme. Com efeito, se Bolt pode ser convencido de que tem mais a ganhar que a perder fazendo o que Acme quer, obviamente ele é mais propenso a fazê-lo. Os ganhos importantes residem na possibilidade de que Bolt, compartilhando o poder com Acme, possa aumentar a cooperação deste e, assim, aumentar marcadamente a sua própria satisfação com seus objetivos. Dessa forma, há vários casos nas relações trabalhador-empresa, estudante-faculdade e guarda-prisioneiro que indicam que a parte mais poderosa tem ganhado enormemente por meio da elevação do poder (e, assim, do senso de responsabilidade) da parte mais fraca. Além disso, outras insatisfações que Bolt tenha experimentado em seu relacionamento com Acme podem ser reduzidas pela cooperação engrandecida de Acme.

Outras fontes de ganho potencial para Bolt residem na elevada reputação e boa-vontade que ele irá obter de terceiros influentes e na maior satisfação que ele irá experimentar quando

Acme estiver contente, em vez de insatisfeito, com seu relacionamento.

4. Uma apresentação das conseqüências negativas e danosas que são inevitáveis para os valores e objetivos de Bolt se os desejos de Acme não forem respondidos positivamente. Com efeito, Bolt deve ser guiado a entender os custos da discordância – de forma que ele possa perceber que os custos da concordância não são os únicos a serem levados em conta. Os custos potenciais, para Bolt, de um fracasso em chegar a um acordo incluem: as perdas resultantes de um decréscimo na cooperação futura de Acme, incluindo a possibilidade da não-cooperação total de Acme; reduções na estima e na boa-vontade, e também possivelmente a perda da cooperação de terceiros importantes; perdas devido a tentativas de prejudicar, arruinar, obstruir ou destruir os interesses de Bolt promovidas por Acme ou seus simpatizantes.

5. Uma expressão do poder e da determinação de Acme em agir efetiva e firmemente para induzir Bolt a chegar a um acordo aceitável. O compromisso inabalável de Acme em provocar uma mudança pode afetar Bolt convencendo-o de que as necessidades de Acme são sérias e não supérfluas, merecendo atenção. Isso também pode convencer Bolt de que a pressão de Acme não irá diminuir até que um acordo aceitável seja alcançado.

Todavia, se Bolt não tem nenhuma preocupação com as necessidades de Acme e nenhuma crença de que a pressão de Acme será suficientemente forte para perturbá-lo, Acme deve tentar desenvolver, mobilizar e publicar seu poder suficientemente para convencer Bolt de que a negociação seria uma ação prudente.

Uma mensagem que contém os elementos acima impulsiona Acme fortemente ao seu objetivo, apesar de sugerir que os meios de atingi-lo são flexíveis e potencialmente correspondentes às visões de Bolt. Porquanto o objetivo é articulado de forma a ser esM pecífico e limitado, é mais provável que seja considerado por Bolt possível de ser aceito do que um objetivo exposto em termos gerais e grandiosos. A mensagem fornece a Bolt o prospecto positivo de que a mudança irá resultar na ampliação social e no fortalecimento da auto-estima e renderá benefícios derivados de um aumento da cooperação de Acme.

Ela também indica que resultados negativos sejam esperados da falta de mudança. Apesar da intenção firme de Acme em alterar o status quo ser evidente, seu posicionamento por toda a parte é cooperativo. A possibilidade de uma troca mútua verdadeira é mantida aberta, com reconhecimento explícito de que as insatisfações e os problemas não são de apenas um lado.

Fúria ou medo no grupo de pouco poder muitas vezes torna impossível para os membros desse grupo comunicar uma mensagem do tipo descrito acima. A fúria leva a uma ênfase em técnicas destrutivas e coercivas e impede o oferecimento de cooperação autêntica. O medo, por outro lado, enfraquece o comprometimento com os passos necessários para se provocar uma mudança, diminuindo a credibilidade a respeito da idéia de que a condescendência será retirada se a mudança não ocorrer. A fúria é potencialmente uma emoção mais útil do que o medo, na medida em que conduz a ações que são menos danosas ao desenvolvimento de uma sensação de poder e, assim, de auto-estima. Bem controlada, a raiva ou a revolta pode ser um poderoso fortificador para uma determinada ação, e, se essa ação é direcionada a construir o próprio poder de quem a pratica em vez de destruir o poder do outro, a revolta pode ter um resultado socialmente construtivo.

Em todo caso, é evidente que quando a raiva ou o medo intenso é a emoção dominante, a mensagem cooperativa delineada aqui é altamente irrelevante. Tanto a raiva como o medo plantam-se em um sentimento de desamparo e impotência; são emoções associadas com um estado de dependência. Os de pouco poder podem superar essas emoções debilitantes por meio de suas próprias ações sociais bem-sucedidas em assuntos significativos para si. Na gíria corrente, eles "têm de se virar"; não pode ser dado a eles nem feito por eles. Por isso minha ênfase tem sido no compartilhamento do poder, e destarte no aumento do poder de um para afetar o seu destino, em vez de no compartilhamento da riqueza.

Apesar de o compartilhamento da riqueza ser desejável, não é suficiente. Em seu sentido mais debilitante, a pobreza é uma falta de poder e não meramente uma falta de dinheiro.

O dinheiro é, sem dúvida, uma base para o poder, mas não é a única. Se alguém escolhe ser pobre, como fazem alguns membros de grupos religiosos ou pioneiros, a síndrome psicológica geralmente associada com a pobreza imposta – uma mistura de dependência, apatia, perspectivas de curto-prazo, suspeição, medo e raiva – não se faz presente.

Assim, a habilidade de oferecer e envolver-se em cooperação autêntica pressupõe uma consciência de que não se é desamparado ou impotente, mesmo que se esteja em uma situação relativamente desvantajosa. Não apenas a ação independente, mas também a ação cooperativa, requer um reconhecimento e uma confirmação de sua capacidade de "fazer por conta própria", se necessário. A menos que alguém tenha a liberdade de escolher não cooperar, não pode haver livre escolha para cooperar. O poder negro é, pois, uma necessidade para a cooperação negra, para a cooperação do negro com os negros e também para a cooperação negra com os brancos. A impotência e a conseqüente falta de estima pessoal e coletiva não conduzem nem à coesão coletiva interna nem à cooperação externa. O poder negro, contudo, não necessariamente leva à cooperação. Isso se dá em parte porque, em sua origem e em sua retórica, o poder negro deve ser orientado contra o poder branco e, dessa forma, está propenso a intensificar a defensiva daqueles com alto grau de poder.

Entretanto, mesmo que o poder seja "pró" em vez de "contra", e mesmo se isso forneça uma base para a cooperação autêntica, esta pode não ocorrer se for de pequena importância ao grupo com muito poder. Este grupo pode não ser atingido pelos estímulos positivos ou negativos que o grupo de pouco poder controla; ele não precisa da condescendência do outro grupo. Universidades podem obter novos estudantes; as nações ricas não são mais tão dependentes da matéria-prima produzida nas nações subdesenvolvidas; a sociedade branca industrial não precisa de muitos trabalhadores negros despreparados. Afora se resignar à apatia, o que um grupo de pequeno poder pode fazer em tais situações? Basicamente, há apenas a possibilidade de aumentar seu poder relativo suficientemente para compelir o outro a negociar. O poder relativo é intensificado por um dos dois meios: aumentando-se o próprio poder ou diminuindo o poder do outro. As tentativas de mudar o poder podem ser direcionadas a alterar os recursos subjacentes a ele (como bem-estar, força física, organização, conhecimento, habilidade, confiança, respeito e afeição) ou podem-se direcionar a diminuir a eficácia com a qual os recursos de poder são empregados. O poder potencial pode não ser convertido em poder efetivo porque aqueles que possuem esse poder podem não estar conscientes dele, ou podem não estar motivados a usá-lo, ou podem usar o seu poder ineficiente e inabilmente de maneira que muito poder potencial seja gasto. Assim, como vimos o capítulo 5, o poder efetivo depende dos seguintes elementos-chave: (1) o controle ou a posse de recursos para gerar poder; (2) a consciência dos recursos que se possui ou controla; (3) a motivação em empregar esses recursos para influenciar outros; (4) habilidade em converter os recursos em poder utilizável; e (5) bom senso em empregar este poder de forma que seu uso seja apropriado em tipo e magnitude à situação em que é usado.

Operando um ou mais dos elementos-chave listados acima, um grupo de pouco poder pode trabalhar para crescer seu próprio poder ou para, opondo-se, reduzir o poder do grupo com muito poder. Existem, é claro, inúmeras maneiras das quais cada um dos elementos-chave pode ser afetado; quais dos caminhos são adequados para se empregar a qualquer tempo serão determinados pelas circunstâncias particulares. Todavia, é seguro supor que grupos com pouco poder geralmente carecem de controle sobre os recursos, como dinheiro, armas e posição oficial, que são imediatamente relacionados ao poder econômico, militar e político. Seus recursos primários são ter pessoas descontentes e a "justiça" do seu lado.

A utilidade das pessoas como um recurso de poder dá-se em função de seu número, suas qualidades pessoais (como conhecimento, habilidade, dedicação e disciplina), sua coesão social (refletida na confiança entre elas, na estima mútua, nos valores comuns e nos mesmos objetivos) e sua organização social (expressa na comunicação e coordenação efetivas, divisão de trabalho e especialização de funções, planejamento e avaliação). O número de pessoas é obviamente importante, mas, sem dúvida, não tão importante como suas qualidades pessoais, sua coesão e sua organização sociais. Uma massa grande e incipiente de pessoas indisciplinadas e improdutivas está à mercê de um grupo pequeno, dedicado, disciplinado, bem-organizado e coeso. A maior parte dos grupos grandes é controlada por menos de 10 por cento de seus membros em virtude de uma atividade organizada em face de uma massa passiva de membros.

Se se examinarem grupos minoritários de pouco poder como os judeus, os chineses e os japoneses, que se saíram desproporcionalmente bem nos Estados Unidos e em outros países para os quais migraram, parece que esses grupos têm se caracterizado por alta coesão e organização social eficaz combinadas com uma ênfase no desenvolvimento de qualidades pessoais como habilidade, dedicação e disciplina. Similarmente, a eficácia de forças de guerrilha, como foram os vietcongues, devem-se, em parte, às suas coesão e organização sociais e dedicação pessoal. Claramente, o desenvolvimento dessas características é de grande importância como meio de aumentar o poder de um grupo.

No capítulo 4, consideraram-se alguns dos determinantes da coesão. Aqui adicionarei que grupos tornam-se coesos por formular e trabalhar juntos em questões que são específicas, imediatas e realizáveis. Eles tornam-se eficazmente organizados na medida em que planejam como usar seus recursos para alcançar seus propósitos e avaliam sua eficácia passada à luz de suas experiências. É evidente que a posse de objetivos vagos, grandiosos e de longo prazo não sustentam longamente a coesão de um grupo. Nem a posse exclusiva de uma única questão é propensa a sustentar a coesão de um grupo de longa duração a menos que essa questão se divida em várias subquestões. Os interessados em desenvolver coesão e organização sociais devem inicialmente buscar questões que permitem vitórias significantes rapidamente; eles só devem preocupar-se com uma luta prolongada e indeterminada depois que organizações sociais fortemente coesas e eficazes tiverem sido criadas.

Até agora, salientei qualidades pessoais, coesão e organização sociais como sendo recursos que podem ser desenvolvidos por grupos de pouco poder para aumentá-lo. Tipicamente, esses recursos são altamente subdesenvolvidos nesses grupos; todavia, são necessários para a utilização eficaz de quase todos os outros tipos de recurso, incluindo dinheiro, votos, ferramentas, força e outros. Os grupos de pouco poder têm freqüentemente duas outras qualidades-chave que podem ser usadas para ampliar seus recursos: o descontentamento e o sentimento de injustiça. Se forem intensas o bastante, elas podem fornecer a motivação ativa e a determinação contínua para mudar o status quo. Elas são fortificadores para a ação individual e social trazer a mudança. Além disso, na medida em que a base do descontentamento e a natureza da injustiça podem ser comunicadas a outros de maneira que, mesmo que de forma indireta, estes as experimentem, apoiadores e aliados serão atraídos para o lado do grupo de pouco poder. E aumentar o número dos seus apoiadores e aliados é um outro modo importante de elevar o seu poder.

Como foi visto em capítulos anteriores, o descontentamento e o sentimento de injustiça podem estar, em um grupo subordinado, latentes em vez de manifestos. Nem a consciência de si mesmo como desfavorecido, nem a consciência de ser um membro de uma classe de pessoas desfavorecidas podem existir psicologicamente. Se esse for o caso, as táticas de conscientização são precursoras necessárias ao desenvolvimento da coesão coletiva e da organização social. A diversidade de táticas de conscientização foi ilustrada pela variedade de técnicas empregadas, nos últimos anos, por grupos de libertação da mulher e por grupos de poder negro. Elas oscilam de reuniões em grupos de discussão quase-terapêuticas até confrontações dramáticas dos que estão no grupo de alto poder, passando por reuniões e manifestações de massa. É provável que a consciência positiva de sua identidade desfavorecida seja mais aflorada quando uma pessoa vê alguém considerado semelhante a si ser explicitamente atacado (ou subjugado) por causa da sua identidade, mas também vê o ataque sendo eficazmente resistido. O ataque e a resistência revelam tanto o ferimento quanto a sua cura.

Elevando à consciência o descontentamento e o sentimento de injustiça, uma energia poderosa e persistente para a mudança é ativada. Se essa energia puder ser aproveitada com uma ação habilidosa e disciplinada por indivíduos dedicados em grupos eficazmente organizados e coesos, é criado um poderoso instrumento para a mudança social, alterando-se radicalmente um grupo de pouco poder. Ele está, então, em posição de oferecer estímulos positivos ou negativos para os de alto poder. Os estímulos positivos são os derivados de uma cooperação intensificada, enquanto os negativos são os provindos da não-cooperação, da importunação, da obstrução e da destruição.

Estímulos negativos são as perdas que o grupo de alto poder, ou "os grandes", espera experimentar como conseqüência de uma briga de poderes com o grupo de pouco poder, ou "os pequenos". Como Alinsky (1971, p. 152) apontou: "A tática básica na guerra contra os Grandes é um jiu-jitsu político em massa: os Pequenos não se opõem rigidamente aos Grandes, mas agem de uma forma habilidosa e planejada tal que a força superior dos Grandes torna-se sua própria ruína." Como no jiu-jitsu físico, a inércia, o impulso e o desequilíbrio do adversário são usados como arma contra ele.

Assim, como Alinsky posteriormente sugere, "(…) na medida em que os Grandes posam publicamente como os guardiões da responsabilidade, da moralidade, da lei e da justiça (que são freqüentemente estranhos um ao outro), eles podem ser constantemente levados a corresponder as expectativas do seu próprio livro de moralidade e de regulamentos.

Nenhuma organização, incluindo a religião organizada, pode corresponder as expectativas de seu próprio livro ao pé da letra."

Alinsky (1971) cita diversos exemplos de táticas em que sistemas burocráticos foram amarrados em seus próprios tentáculos por pressão de corresponder às suas próprias regras e seus procedimentos estatuídos. Táticas desse tipo devem-se concentrar na demanda ou no uso de um serviço pelo qual alguém está encarregado, um serviço que não seja ordinariamente usado tão intensamente e o qual a instituição não esteja preparada para prestar em grande volume sem um custo excessivo para ela. Por exemplo, bancos podem falir por uma abertura ou um fechamento de contas em massa; lojas de departamento, por um intenso retorno de compras; aeroportos, por um excessivo uso de seus vasos sanitários e mictórios pelos visitantes; e assim por diante. Ou a tática pode concentrar-se na desobediência a uma regra ou a uma lei que não possa ser executada em face de uma não-concordância em massa. Assim, fazendeiros não podem suportar despejar todos os inquilinos em uma greve de aluguéis coesa ou escolas expulsar todos os estudantes que desobedeçam a um regulamento repugnante – se os estudantes estão unidos em sua oposição.

Relacionada à tática de surrar os grandes com seus próprios livros de normas e regulamentos está a tática de induzi-los a erros tais como violar suas próprias regras ou regulamentos.

Se eles podem ser incitados a um óbvio rompimento dos princípios estatuídos por si mesmos, então segmentos do grupo de alto poder podem se tornar descontentes, com o conseqüente enfraquecimento dos grandes. Somado a isso, terceiros previamente neutros podem, em resposta às violações feitas pelos que estão no poder, direcionar suas simpatias e apoio aos pequenos.

Em geral, é um erro pensar que um grupo de grande poder é completamente unificado. A maioria dos grupos têm divisões internas e conflitos entre seus membros mais ativos; além disso, apenas uma pequena porção de seus membros estão dispostos a ser apoiadores ativos da atual política. Os conflitos entre aqueles que estão ativos nos grupos de alto poder, bem como a distinção entre membros ativos e passivos, fornecem importantes pontos de influência para os pequenos. O conflito interno pode ser exacerbado por meio do fomento de suspeição mútua e jogando um lado contra o outro. A aquiescência passiva da maioria inativa dos grandes pode desaparecer na medida em que seus líderes são induzidos a erros desmedidos e são submetidos ao ridículo e ao embaraço por sua inabilidade em lidar eficazmente com as importunações e os transtornos persistentes causados pelos pequenos.

O poder dos grandes, como é verdade em qualquer grupo, depende de aspectos tangíveis, como o controle sobre os instrumentos de força, um sistema de comunicação eficaz e um eficiente sistema de transporte, bem como de aspectos intangíveis, tais quais o prestígio e a aura de invencibilidade. Apesar de um grupo de pouco poder não ser capaz de interferir seriamente nas bases tangíveis de poder dos grandes sem ingressar em ações de sabotagem ilegais e destrutivas, ele tem vários meios legais de turvar e enfraquecer suas fontes de poder intangíveis. O ridículo e as técnicas de embaraçar são as armas mais efetivas para esse propósito. Aqui, como em qualquer lugar, a inventividade e a imaginação têm um importante papel em idear táticas efetivas. Alinsky, um mestre em inventar essas táticas, ilustra com o seguinte exemplo hipotético (1971, p. 141):

Imagine-se a cena no tribunal americano, no julgamento da recente tentativa de conspiração dos sete de Chicago3, se os réus e o advogado tivessem manifestado analmente seu desprezo pelo Juiz Hoffman e pelo sistema. O que poderia o Juiz Hoffman, os oficiais de justiça ou qualquer outro ter feito? O juiz os teria considerado em desacato por serem flatulentos? Aqui está uma tática que não possuiria precedente legal. A reação da imprensa desaprovaria o juiz pelo resto do tempo.

Outras táticas de criar o embaraço e o ridículo incluem o piquete de pessoas como moradores de favela, principais acionistas e pessoas da administração de empresas recalcitrantes, e outros exercícios de poder desse tipo, em situações embaraçosas para eles – e.g. em suas casas, igrejas ou sinagogas, nos seus clubes. A vantagem de táticas como o ridículo e o embaraço é que elas são freqüentemente muito aprazíveis para aqueles de pouco poder e muito difíceis de se lidar para os de alto poder sem que estes percam o caráter.

Nas muitas páginas anteriores, discuti algumas das estratégias e táticas disponíveis para grupos de pouco poder em suas tentativas de compelir um resistente grupo de alto poder a concordar em mudar suas relações. Minha discussão pretendeu ser sugestiva em vez de abrangente. Também tencionou indicar que resignação apática ou poder de destruição não são as únicas respostas possíveis em face de uma autoridade contrária. É possível elevar o poder dos pequenos desenvolvendo seus recursos pessoais, coesão e organização sociais, de maneira que eles tenham mais influência. E, na moda do jiu-jitsu, é possível para os pequenos empregar algumas das características dos grandes para tirá-los do equilíbrio e reduzir sua oposição eficaz.

Conclusão

Ao passo que reviso essa última seção, em que funcionei como um conselheiro espontâneo dos que possuem pouco poder, fico impressionado pelo fato de que pouco do que eu disse está fundamentado em pesquisas sistemáticas e teorias. Cientistas sociais raramente dirigiram suas atenções à defensiva e à resistência dos fortes e poderosos perante a necessidade de mudança social. Eles não consideraram que estratégias e táticas são apropriadas para grupos de pequeno poder e quais delas são propensas a conduzir a um processo de resolução de conflito produtivo e não destrutivo. Eles concentraram-se muito no tumulto e nas deficiências daqueles com pouco poder e não suficientemente na defensiva e na resistência dos poderosos; a primeira será superada na medida em que se supera a última.

3 Nota do Tradutor: Os sete de Chicago, conhecidos nos Estados Unidos como The Chicago Seven, foram sete (originalmente, oito) réus acusados de conspiração, de incitação a motim e de outras denúncias na Convenção Democrática Nacional (Democratic National Convention) de 1968. Nessa convenção, ocorrida em Chicago, Illinois, nos Estados Unidos da América, houve inúmeras manifestações contra a guerra do Vietnã. A polícia interviu e, posteriormente, para o julgamento do caso, foram indicados oito manifestantes e oito policiais.

Não é óbvio que, com as enormes disparidades de poder e riqueza nas nações e entre elas, haverá pressões contínuas por mudança social? E não é também óbvio que os processos de mudança social serão desordeiros e destrutivos a menos que os que estão no poder sejam aptos, ou habilitados, a baixar sua defensiva e sua resistência para uma mudança no seu status relativo? Reconcentremos nossos esforços de modo que haja algo útil a se dizer para aqueles que buscam uma mudança social radical porém pacífica. Muitas vezes no passado, a efetiva mudança social na distribuição do poder foi atingida ao custo da paz; este é um luxo que o mundo não pode mais suportar.

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