Introdução Crítica ao Direito (texto em construção)

2. Entre sofistas e filósofos

Alexandre Araújo Costa

Essa percepção dos sofistas tem um grande potencial crítico, pois abre espaço para que muitas regras que pertenciam ao campo do sagrado sejam transferidas ao campo do político, fenômeno que realmente ocorreu no mundo grego. O natural era obrigatório na medida de sua sacralidade, pois a visão religiosa e mitológica percebe na organização da natureza o resultado da vontade dos deuses. Porém, a radicalização própria distinção entre regras naturais e regras políticas abria espaço para uma ampliação do político sobre o sagrado, num processo de dessacralização das relações sociais.

Não obstante, a oposição entre o sagrado e o laico ocorreu sempre em um ambiente de grande tensão, de que é testemunha a conhecida na tragédia Antígona, em que Sófocles conta a tragédia de um rei que ousa estabelecer normas contrárias aos costumes religiosos e que, com isso, causa uma série de desastres, defendendo com isso a idéia de que é mais importante cumprir os deveres sagrados que obedecer aos poderes políticos.[1] E o peculiar é que quase sempre que lemos essa história ficamos do lado de Antígona, que realiza o seu dever religioso, mesmo sabendo que provavelmente pagaria com a vida pela desobediência das ordens do soberano político.

Esse processo de desnaturalização dos costumes é um procedimento arriscado, pois ele é percebido pelo sábio como um ataque à moral, aos valores corretos, à estabilidade social. Nisso, a sociedade grega e a sociedade atual são muito pouco diferentes, pois muitos dos nossos costumes são ligados à órbita do sagrado, tanto quanto o eram na vida dos gregos, pois a religião continua sendo um elemento importantíssimo na vida das pessoas. E os sofistas, que não estão comprometidos com nenhuma das culturas em que atuam, com nenhuma das religiões professadas, sempre têm uma fama um pouco duvidosa, pois a sua habilidade com as palavras não significa que eles a utilizam para defender os valores corretos. Como todo instrumento, a retórica se presta a qualquer tipo de utilização, e isso fez com que os sofistas viessem a ser percebidos por muitos como uma espécie de mercenários da retórica, que oferecem seus serviços a qualquer um que possa pagar o seu preço.

Esse descomprometimento com qualquer valor social específico fez com que os sofistas tivessem uma função crítica de primeira grandeza, pois inventaram muitos elementos de desconstrução dos saberes tradicionais. Porém, esse descomprometimento não lhes possibilitava uma função revolucionária, justamente porque eles não se atribuíam a função de alterar a sociedade em nome de uma utopia.

Esse papel de revolucionário caberia a um terceiro personagem na história dos saberes gregos. O primeiro personagem é o Sábio, que fala em nome da verdade, mas a sua verdade é a tradição consolidada em uma cultura. O segundo é o Sofista, com sua visão externa, que aumenta a nossa capacidade de compreender o mundo, mas que não fala em nome da verdade, pois seu único saber é instrumental. Contrapondo-se aos dois, nasceu o Filósofo, que se opunha a ambos de uma maneira muito peculiar: falava em nome da Verdade, mas não se pretendia sábio porque estava em franca oposição aos saberes tradicionais; era um mestre da retórica, mas limitava o seu uso ao nobre objetivo de alcançar a Verdade.

Assim, utilizando todos os instrumentos retóricos afiados pelos sofistas, os filósofos ergueram-se como os portadores de uma nova Verdade, uma verdade que não se explicava mais por meio de narrativas mitológicas nem se exercia por meio da prudência. Essa nova verdade devia ser conquistada pela observação cuidadosa do mundo e, principalmente, pelo uso cuidadoso da própria razão. Dessa maneira, o filósofo articulou uma oposição da verdade racional contra a verdade tradicional, o que lhes conferiu um papel revolucionário.

Assim, enquanto o Sábio era aquele assim reconhecido por uma cultura, o Filósofo era o revolucionário que atacava os saberes constituídos com a arma luminosa de uma nova razão, o logos. Não foi à toa que os atenienses mataram Sócrates, nem que Platão escapou por pouco da escravidão, pois isso ocorreu sempre quando a defesa de suas idéias os indispôs com autoridades instituídas.

A razão dos filósofos equilibrava de maneira inovadora a perspectiva externa dos sofistas (usada para demolir o saber tradicional) e a perspectiva interna dos sábios (usada para falar em nome da nova verdade). Mas, ao contrário dos sofistas, eles não eram tipicamente estrangeiros nômades, mas representantes da própria sociedade, de tal modo que eles precisavam exercitar a sua capacidade de crítica ao ponto de poder olhar os valores de sua própria tradição a partir de uma perspectiva externa, o que é um desafio gigantesco.



[1] Uma descrição da história de Antígona, e de seu pai Édipo, está no Apêndice I.

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