Revista dos Estudantes de Direito da UnB, 2ª Edição

Pra que serve a UNE? - A irrepresentatividade estudantil nacional

Wellington, Aluno do Direito da UnB (6o semestre)

1968. O momento político é de repressão e violência. A UNE atinge seu momento de maior importância no cenário político nacional, na defesa dos interesses não só dos estudantes como também de todos que lutavam contra o regime instaurado pelo golpe de 1964- o que muitos ainda insistem em chamar de revolução. A importância da entidade não decorria de nenhuma razão em especial a não ser do fato de ser bem-vinda e essencial a ação de qualquer um que lutasse contra os militares. E a União Nacional dos Estudantes cumpria muito bem esse papel, organizando o que ainda mantinha acesa a chama da luta pela democracia, luta diária, travada dentro de cada escola, de cada universidade, de cada casa.

Naqueles dias, a UNE desempenhava um papel político que muito contribuiu para o restabelecimento da liberdade no país e marcava, definitivamente, seu nome como parte da história nacional. Eram dias em que a União apresentava um caráter cultural, personalidade forte e um intuito basicamente revolucionário.

Com a abertura política, a entidade teve sua destinação principal- a revolta- , descaracterizada e relegada a segundo plano. Iniciava-se um novo período onde, para sobreviver, a UNE precisaria buscar novo sentido à sua luta; e, sem encontrar esse novo sentido, foi condenada ao esquecimento e, cada vez mais, renovando seus quadros, ocupada por jovens frutos da cultura de idiotização imposta pelo Estado Militar, que liam (ou lêem) "O manifesto Comunista - versão em quadrinhos" e se dizem socialistas; que enchem o peito e declaram-se revolucionários quando, perguntados sobre sua causa, mal sabem responder. Jovens que emolduram posters de Che Guevara e dizem que gostam muito de suas músicas...

Talvez por saudosismo, talvez por sentirem-se totalmente apáticos e sem papel algum de relevância no jogo político, ou por quererem igualar os feitos da geração anterior, assistem minisséries de TV e inspiram-se nelas para derrubar presidentes; ouvem compositores do tempo de seus pais e discutem entre si a importância daquela UNE e do movimento estudantil. Buscam freneticamente uma luta onde possam mostrar que também sabem cantar "Pra não dizer que não falei das flores"... E é por isso, por estar recheada com estereótipos dessa natureza que a UNE nada mais é do que uma entidade emissora de carteirinhas, plataforma eleitoral para qualquer mocinho bem aparentado e palco de atuação partidária.

Cara-pintada. Uma multidão de jovens conscientes da realidade sócio-política nacional enche as avenidas e ruas do País para, cientes de seus atos, lutar pelo impeachment de um Presidente que, vencendo as primeiras eleições democráticas depois de muitos anos, trai o povo e constrói um paraíso para si e seus amigos (alguns, que Deus os tenha). Muito bem informados de todo o processo (talvez pelas revistas 'Veja' que seus pais assinam e que lêem esporadicamente quando a capa é bonita), arrastam-se, em multidões, para matar aula, beber cerveja e ouvir música baiana (que já não é tão boa quanto a dos baianos contemporâneos de seus pais). Carnaval nas ruas, oportunismo no Congresso, e um fim patético no STF. A ação dos cara-pintadas não passou disso. Vergonha! Tudo isso, sob os auspícios da nossa ultra-organizada UNE, a entidade que representa os interesses dos alunos, tanto que conseguiu todos os trios elétricos, as bandas baianas, as carrocinhas de cerveja... (Eu estava lá e vi; e a descida dos estudantes da rodoviária à Esplanada só encontra par na Micarecandanga que, por coincidência, tem o mesmo percurso).

Mais uma vez, a UNE buscava um sentido, uma luta. E o encontrou. Mesmo que breve, serviu para derrubar uns, trazer fama a outros e eleger um ou outro deputado. Mais uma vergonha! Todavia, tudo isso ocorre porque não perceberam esses ilustres e revolucionários jovens que a luta agora não é mais nas ruas, como era a de seus pais. Que a luta que mais lhes traria benefícios seria a luta por uma educação de nível no Brasil. Que sua luta deve ser travada no dia-a-dia das universidades, para estabelecer as diretrizes de um ensino forte, de qualidade; para demitir professores despreparados, os famosos 'picaretas', que enchem os quadros de todas as faculdades (muitos até com títulos de mestre!!!); para democratizar o acesso ao ensino superior sem deixar que, como decorrência, sua qualidade decresça.

Mas a preocupação da nossa União não abrange tal matéria. Talvez os líderes estudantis achem tudo isso irrelevante. Daí continuarem a reunir-se e digladiar entre si quanto ao preço cobrado pelas carterinhas, se o preço justo é R$ 7,00 ou 12,00, ou dez merrecas! Querem saber o preço justo, senhores? O preço justo é grátis! O direito à meia entrada (talvez a única coisa que a UNE, UMESB e UBES tenham conseguido de concreto ultimamente) não é para o cidadão portador de carteirinha, mas para o cidadão estudante. É um absurdo que, de um ano para o outro o preço da carteirinha suba tanto, deixando de lado toda uma parte da população que, mesmo estudando, não tem dinheiro para pagar a quantia exigida para serem, só então, considerados estudantes. Será que só é estudante quem tem doze reais para pagar à UNE, que, mesmo tendo conseguido patrocinadores para a carterinha, insiste em cobrar, e cobrar caro?!

Enquanto isso, formam-se debates, inclusive de projeção nacional, onde estudantes de diversas partes do País encontram-se nesta ou naquela capital litorânea (a praia e a cerveja são de suma relevância ao movimento!!!) para debater sobre o preço dessas malditas carteirinhas ou sobre a legalização da maconha (este tópico, então, é de importância vital para a maioria!!!) ou (cada um com seu bottom de partido político) discutir sobre a criação ou não do PRM (Partido da Revolução Mundial - isto é sério!, aconteceu mesmo, e aqui na UnB!!!). Hilário! Hilário é o adjetivo menos ofensivo para colocar neste artigo e o mais adequado para definir tudo isso e a participação e representação da UNE.

O movimento estudantil encontra-se hoje mais voltado para a defesa de interesses partidários do que aqueles dos próprios estudantes, e a União nacional é o maior dentre os redutos dos partidos políticos nacionais. Não que não devam os estudantes posicionar-se politicamente, pelo contrário; as opções políticas são até bem vindas, mas em outro contexto. Não se pode deixar que partidarismos ou concepções outras que não concernentes à defesa dos estudantes tomem a frente nos debates onde se deveria discutir os rumos do ensino no país. Muito se reclama e se fala sobre o sucateamento do ensino superior, sobre a privatização das universidades, mas no momento de se discutir seriamente sobre isso nossos representantes, ao invés de contribuírem com idéias, levantam as bandeiras de seus partidos e descamba tudo para a palhaçada.

PT, PFL, PMDB, PCB, MST, todas essas siglas podem até ser muito importantes para o momento sócio-político nacional. Mas não é um seminário de debate sobre qualidade acadêmica o lugar mais apropriado para se discutir o massacre dos sem-terra (como normalmente acontece, e na UNB...), muito menos a reeleição presidencial ou o processo de privatização no país. Divididos entre siglas, partidárias ou não, nunca poderemos defender com eficiência nossos anseios por uma educação de primeiro mundo no Brasil. Escondidos atrás de bottoms e bandeiras, aqueles que deveriam nos representar deixam a manifestação do seu partido falar mais alto que a dos estudantes, em detrimento daqueles que os escolheram para estar ali.

Apenas quando conseguirmos isolar definitivamente os interesses outros de alguns pseudo-intelectuais partidários do movimento estudantil, e mitigar sua influência nas universidades, teremos representatividade efetiva por parte dos CA's e DCE's e da própria UNE. Talvez assim, ela deixe de ser trampolim eleitoral para estudantes que, por subirem num carro de som uma vez ou outra, julgam-se cheios de contribuição a dar à nação em nossas casas parlamentares. Talvez, desta maneira, a UNE deixe de ser uma entidade "arrecadadora-de-dinheiro-de-carteirinha" e passe a atuar concretamente na defesa dos seus representados.

Enfim, o que se deve exigir da União Nacional dos Estudantes é que faça o que deve, por dever, fazer: representar, e bem, todos os estudantes do País, não obstante sua filiação partidária ou condição sócio-econômica, sejam ele capazes, ou não, de pagar por uma carteirinha. Quem sabe assim, possa ela recuperar um pouco da sua importância e do seu prestígio, longe, porém, do glamour dos tempos da luta nas ruas, mas com um papel não menos importante, que é o de liderar as mudanças sociais (começando pela educacional) tão necessárias a este nosso Brasil.


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