Revista dos Estudantes de Direito da UnB, 3ª Edição

Quem Precisa de Guia Turístico?

Everardo Leitão - Aluno de graduação em Direito da UnB (4o semestre)

Por que, mesmo numa universidade que se pretende democrática como a UnB, pouco se discute sobre a relação professor-aluno? Qual é, por falar nisso, o papel do professor universitário? A quem interessa que esse papel não esteja em permanente berlinda? A quem cabe, à instituição Universidade ou ao aluno, a iniciativa de mantê-lo na berlinda?

Eis a questão: é possível formar um profissional crítico sem que ele seja chamado desde logo a exercer a função criticante - sobre o processo, o conteúdo e os agentes dessa própria formação?

Quais são as regras implícitas ou explícitas que regem o relacionamento aluno-professor? Quem as instituiu? Quem zela por elas? Que interesses elas defendem? Quer dizer, a quem ou a quê servem?

Por que há tolerância com quem encarna uma babá autoritária cuja missão parece não passar de entreter às rédeas curtas seus anômicos alunos até o cálculo da menção final? É preciso haver chefe e chefiados? A subserviência do aluno é obrigatória e necessária ou quem sabe seja chegada a hora de discutir o direito achado na sala de aula?

Fetiche dos disciplinadores, por que a freqüência é obrigatória: porque a sessão de aula é de fato indispensável ou porque a freqüência é por lei obrigatória? Qual a razão de exigir presença nos casos em que o professor se limita a repetir e apenas repetir as lições da bibliografia indicada? Por que ao aluno não é facultado, nesses casos, ficar em casa ou na biblioteca compulsando os textos por sua própria conta? O professor-papagaio cumpre o papel que dele se espera? E se não cumpre, melhor para quem? Pior para quem? Indiferente para quem?

Qual é o limite para o que o professor pode exigir de um aluno em leitura, por exemplo? Dado que esgotar a leitura recomendada sobre os assuntos do programa é tarefa impensável, qual é o limite para a exigência em cada disciplina? Dois livros por semestre? Três? Quatro? Cinco? Qual o critério? Como calcular o razoável? Quem é o guardião do bom senso? (É fato ou impressão que quase todo professor acha que sua disciplina é a mais importante do currículo?)

Por que tudo acontece como se as regras de relacionamento entre professor e aluno já fossem suficientemente discutidas, conhecidas e aceitas por toda a comunidade universitária? Por que, desde os primeiros dias de aula, agem todos como se nada mais coubesse ser questionado quanto ao princípio geral de que o professor manda e o aluno obedece? (Qualquer professor manda, inclusive o parvo? E quem faz o que um parvo manda, acaba indo dar com os burros onde?)

Afinal, qual é o papel do professor universitário? Adestrar? Disciplinar? Esforçar-se para mostrar erudição, a menos sutil das demonstrações de mediocridade? Preencher o calendário e fornecer as menções finais à secretaria? Ensinar como se baba na gravata diante dos monstros sagrados e das figurinhas carimbadas? Ou, mutatis mutandis, posar de rebelde e iconoclasta indistintamente contra mistificadores e construtores?

Quem sabe basta dizer que não acredita na escola tradicional e a reputação está salva? Quem sabe basta chamar a prova velha de guerra pelo hilário apelido de momento privilegiado de aprendizagem e ninguém vai perceber o embuste? Quem sabe basta fazer o tipo modernete herege e alguns incautos tietes caem no laço?

Quem sabe os anjos se compadecem e assim como que por mágica penetramos todos a, parece, tão acessível dimensão da escola pós-moderna?

Pois é, não é o caso de perguntar se o professor não deveria ser mais produtor e menos reprodutor? Menos ideólogo e mais desmontador de ideologias? Menos feitor e mais libertador? Menos guia turístico de texto alheio e mais indutor de reflexão?

Não parece claro, no entanto, que há felizmente professores e professores? Mas temos competência para separar - valei-me, bendito clichê! - o joio do trigo, se não sabemos o que diabos vem a ser joio? Alguém sabe?

A Universidade sabe? Se sabe, utiliza esse conhecimento para melhorar a qualidade da formação que proporciona? Os incompetentes são demitidos? Os corpos-moles são espicaçados? Os inadequados são enquadrados? Os improdutivos são adubados? Os competentes e os atuantes e os adequados e os produtivos são incentivados?

E, então, como é que se dá a avaliação dos professores? Se existe essa avaliação, dá-se ela pela forma mais apropriada? Se existe, é do conhecimento de quem? Se existe, a comunidade consumidora dos alunos não poderia, quem sabe?, ter algum papel nela? Que papel, mesmo não-institucionalizado, poderia ser esse? É preciso haver permissão para exercê-lo? Escrita? De quem?

Ou não seria melhor e mais prudente evitar como se evita essa discussão inoportuna e deixar que nossa vida acadêmica possa transcorrer assim "sem desassossegos grandes" em direção ao canudo e ao anel de formatura?


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