Revista dos Estudantes de Direito da UnB, 5ª Edição

Os Intolerantes Do Senhor

Alexandre Vitorino Silva - Advogado em Brasília, graduado pela UnB.

Uma espécie de moda arrogante tem crescido ultimamente na sociedade brasiliense. Cuida-se da inserção nos vidros de veículos de frases do tipo "Sou católico, graças a Deus" ou "Sou evangélico, graças a Deus".

De fato, muito antes de encerrarem uma simples manifestação de orgulho de um determinado grupo religioso, esses adesivos contêm, em verdade, uma proposta de visão excludente e discriminatória, devido à ambigüidade propositada do enunciado que propagam.

Não se trata, ao que tudo indica, de exaltar a liberdade de culto, que é garantida constitucionalmente, mas de tentar demonstrar, infrutiferamente, uma certa posição de superioridade, ou pretensão de hegemonia.

Na realidade, parece haver faltado coragem ao interlocutor para articular o restante da frase: "Sou católico (ou evangélico), graças a Deus, e pouco me importa a sua crença, que não tem valor algum". Ou então, para vociferar o seu verdadeiro desprezo pela divergência, ou pela pluralidade: "Não professo a sua religião, graças a Deus", ou "Não sou ateu, Graças a Deus".

O mais interessante, no entanto, é que essas afirmações parecem ter-se convertido em uma espécie de febre, como se os fiéis de determinada religião passassem a trocar alfinetadas fundamentalistas, sem precisarem explicar exatamente o que querem dizer. Só pode ser esse o significado simbólico da proliferação, pois não se compreende por que, se estavam tão satisfeitos com o credo que professam, só recentemente tenham se dado conta dessa alegria inebriante que deve ser compartilhada com terceiros ostensivamente.

Eis, assim, o verdadeiro embate dos intolerantes do Senhor. Alheios não só aos valores democráticos, como também aos próprios valores cristãos, parecem mais preocupados em ofender aos não praticantes de sua religião, ou aos simplesmente não religiosos, do que em exercer, como é de seu direito, a sua liberdade de credo ou elevar-se espiritualmente.

Como cristão e advogado, isso muito me envergonha. E assim me sinto constrangido porque ao se colocar um adesivo desse viés no carro, mostra-se quão precária é a compreensão cidadã do sentido da liberdade religiosa e, no nível espiritual, do próprio significado do cristianismo, que é absolutamente refratário à noção sectarista que tal mensagem promove. A mensagem, ademais, contém um notável desprezo pela pluralidade, e uma inescusável pretensão de supremacia.

Se pareço irritado com essa prática moderna, e se minha opinião é tida como arrogante ou intolerante como a dos que critico, peço desde já as minhas desculpas.

No entanto, se assim aparento, hei de esclarecer, em minha defesa, que, em uma sociedade plural, essa é a única intolerância que se admite, e que, de certo modo, é até virtuosa: a intolerância dos intolerantes. Essa, com seu radicalismo, só é capaz de promover uma convivência humana mais fraterna e civilizada.

De qualquer maneira, não tenho a pretensão de converter os meus leitores. Se não concordarem com isso, nem por isso colocarei um adesivo no meu veículo com esse teor, conflito para o qual não quero contribuir, graças a Deus.

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